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29 setembro 2011

Pior que tá, fica, sim senhor: vem aí o PSD biônico de Kassab_Por Ricardo Setti (Veja.com)



Kassab e seu novo-velho PSD (à direita a senadora Kátia Abreu): constituinte para quê?
Amigos do blog, encontramos mais um exemplo para desmentir o slogan da campanha de Tiririca: pior que tá, fica sim senhor.
Refiro-me à chegada ao cenário político brasileiro de mais um desses partidos cuja orientação ideológica e cujo conteúdo é o que menos importa, o PSD fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a existir e já participar das eleições municipais de 2012.
O vazio conceitual é tamanho que, antes mesmo de conseguir que a legenda saísse do papel, Kassab já se contradissera, primeiro classificando o PSD como “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro” — Santo Deus, o que seria isso? — para depois se corrigir e optar oficialmente por “centro”.
A votação no TSE ocorreu na noite de ontem, com resultado de seis ministros a favor do 28ª partido brasileiro e um contra. Leia maisnesta reportagem da Agência Brasil. Foram em vão os esforços da vice-procuradora-geral eleitoral Sandra Cureau, que no início do julgamento, na terça-feira, alertara para a suspeita de fraude no recolhimento das 510.944 assinaturas para a criação da nova formação, cerca de 20 mil a mais que o mínimo necessário.
O PSD já nasce com uma influência invejável para estreantes, já que além de abrigar o prefeito da maior cidade do país, conta com dois governadores – Omar Aziz (AM) e Raimundo Colombo (SC) -, dois senadores – Kátia Abreu (TO) e Sérgio Petecão (AC) – e aproximadamente 50 deputados federais. Paulo Maluf está entre os convidados para integrar a turma.
O mesmo nhenhenhém vergonhoso de sempre
“De centro”. E o que mais? A que vem esse partido? Que propostas tem para o país? Do que difere do saco de gatos que apoia o governo e da mixórdia que hoje em dia é a oposição? No que concorda com os rumos do governo Dilma, no que discorda? Política econômica? Meio ambiente? Política ambiental? Segurança pública?
Nada, nada, nada disso importou durante toda a discussão para a formação desse partido anódino, insípido, inodoro, incolor. Tudo se tratou de arranjos para fulano deixar o seu partido, fazer uma parada no PSD e depois rumar para outro. Ou, então, para que beltrano e sicrano possam apoiar o governo à vontade, e desfrutar das benesses correspondentes.
A “grande proposta” do novo partido, a grande novidade, é propor a eleição de parlamentares em 2014 exclusivamente para fazer uma grande revisão constitucional, uma espécie de nova Constituinte. Porque a Constituição, diz a senadora Kátia Abreu (TO), acertadamente, virou uma “colcha de retalhos”, de tanto que já foi emendada. Sim, e daí? O partido propõe o que para essa nova Carta? Convocar uma constituinte com que propósito? Para que saia, dessa revisão,  um Brasil de que jeito, com que forma, com que rumos?
Tudo isso para mascarar um jeito velho de fazer política. Nada de fundar um partido pela base, com militantes, com um programa, com uma proposta para solucionar os problemas do país e apontar rumos novos, e, portanto, com um longo e difícil — mas necessário — caminho a percorrer. O negócio é ir catando aqui e ali trânsfugas de partidos alheios, é ajudar o governo descafeinando a oposição, e, fabricando partidos biônicos, sem razíes na sociedade, entrar no mesmo nhenhenhém vergonhoso de sempre da política brasileira.
Que faz e acontece, pensando no país e no seu povo em último lugar. Tiririca estava completamente enganado durante a campanha eleitoral. Pior do que estava fica, sim.

27 setembro 2011

Celso Arnaldo captura Dilma em Nova York: a calamidade que virou dinamite



Celso Arnaldo Araújo
O carro da presidente estaciona à porta do hotel Waldorf Astoria, na Park Avenue. Dilma está chegando da Reunião de Alto Nível sobre Doenças Crônicas Não-Transmissíveis, seu primeiro compromisso em Nova York, onde quarta-feira abrirá a Assembleia Geral da ONU.
Ao descer do carro com um tailleurzinho azul, os carregadores de bolsas e malas do Planalto se apressam em aliviar Dilma do peso extra, deixando-a só com uma pasta de plástico debaixo do braço – talvez cópia do discurso histórico que fará na ONU, que precisa ser passado e repassado até quarta-feira, porque o mundo vai estar de olho.
Os repórteres que a esperam à porta do hotel devem ter sido informados por seus colegas que, no caminho, ela dera uma parada numa livraria – programa obrigatório para a insaciável devoradora de livros que, antes de degustá-los, se deleita com seus aromas, como uma enófila/bibliófila. Se para Vinícius de Moraes o uísque era o cachorro engarrafado, tal a fidelidade canina que tinha para com o scotch, para Dilma os livros são o Nego impresso em papel.
– Presidenta, dá uma palavrinha aqui com a gente, grita uma jornalista.
Não estava no protocolo, mas, sob o ponto de vista do “meu chinelo de minha humildade” que ela declarou calçar antes daquela célebre entrevista em que defendeu a convocação de Neymar e Ganso para a Copa de 2010, o que custa um pit stop para a grande estrela da AG da ONU, capa da última edição da revista Newsweek, onde foi chamada de “Dilma Dinamite” (Dynamite Dilma)?
A passagem pela livraria é o assunto que abre a palavrinha à imprensa. O que fez Dilma desviar-se de seu trajeto de volta ao hotel? Naturalmente um livro muito importante, seminal – se bem que, no caso de Dilma, mais de cabeceira do que de cabeça.
– Que livro a senhora comprou?, vai indagando uma repórter antes mesmo de a presidente chegar ao spot da imprensa.
A presidente ganha um ar meio assustado, mas logo se recupera do impacto da pergunta. Naquela caminhada de metros, a passos propositalmente lentos, antes de responder à pergunta inesperada, de sopetão, o pesadelo de um ano atrás deve ter passado por sua cabeça: ainda na campanha, Marcelo Branco, o guru virtual, a fez gravar um vídeo onde uma falsa repórter da equipe digital perguntava à candidata intelectual, contraponto do apedeuta Lula, acerca do último livro que tinha lido. Dilma disfarçou, dizendo que estava pensando na novela das 8 para tentar lembrar o nome do livro, até que uma assessora lhe soprou ao ouvido, mas ela não entendeu direito. Ainda levou alguns segundos para processar: “As, as, as, as brasas!” E ainda puseram o vídeo no You tube!!.
“Agora, eles não me pegam”, deve ter pensado Dilma, à porta do Waldorf:
— Não comprei livro, não. Eu comprei um CD…
O problema é que ela também não lembra o nome do CD comprado há minutos. A sorte é que CD, ao contrário de livros, não precisa ser citado com título e autor. Basta o autor. Mas nem isso… Meu Deus, vai começar tudo de novo:
– Cumé que chama a moça do meu CD?, indaga Dilma aos atônitos assessores, incluindo dois ministros, Fernando Pimentel e Antonio Patriota.
– Seu CD que você comprou lá?, indaga ao fundo uma voz que parece a do embaixador Patriota, especialista em colocar algodão entre louças e salvar a pátria.
– Ô, já esqueci, viu, o nome do CD – lamenta Dilma.
– Tem um CD que tá aqui, sugere Pimentel.
E Dilma, durona, como sempre:
– Não, o seu é esse. O meu não é o seu – conclui a presidente, com a mesma lógica irrepreensível que pretende levar à Assembleia Geral da ONU para reafirmar que o Brasil é um país assertivo, seja lá o que isso seja.
Alguém – parece Patriota de novo – enfim elucida o enigma sobre “a moça do meu CD”;
– Stacey Kent.
– Stacey Kent, repete Dilma, triunfal, mas sem esclarecer, mesmo porque não lhe foi perguntado, como conseguiu localizar, escolher e comprar esse CD, especificamente, sem saber o nome da moça, aliás uma bela cantora de jazz da nova geração.
Sorte é que nenhum repórter quis saber que CD de Stacey Kent ela tinha comprado. Se fosse “Breakfast On The Morning Tram” (indicado ao Grammy em 2007), possivelmente Dilma perderia a reunião de quarta-feira tentando lembrar e depois pronunciar o título.
Ok, deixa o CD para lá. O assunto agora é a capa da Newsweek:
– A revista a senhora já leu?
– Agora que eu vou olhá, tá?
Note-se: ler, não; olhar.
– O que a senhora achou daquela manchete “Dilma Dinamite”
– Eu acho assim que lembra muito filme do velho oeste, né?
De novo, pede ajuda aos universitários:
– Cumé que chamava?
Patriota é mesmo um patriota, sempre com a mão estendida para salvar a presidente:
– Calamity Jane.
Dilma cai em si: não era bem isso o que pensou.
– Calâmity, Dilâmity, ri, nervosamente.
Bem, Jane é o segundo nome de dona Dilma, a Primeira-Mãe. Pelo menos estamos em casa.
– Mas a sra. gostou?
– Eu achei muito boa a capa.
A entrevista-relâmpago, sob o ponto de vista desta coluna, já estava plenamente encerrada. Mas, no minuto restante, os repórteres, imaginem, ainda quiseram saber de coisas sérias, como o discurso de quarta-feira:
- Acho que essa é uma expectativa grande, porque de fato é uma honra sê a primeira mulher a discursá na Assembleia Geral da ONU…
Como lembrou Reinaldo Azevedo num post ontem, ela é a primeira mulher porque é a primeira mulher presidente do Brasil. Seria o primeiro Saci-pererê se o Saci-pererê tivesse sido eleito presidente.
Mas a imprensa, curiosa que só ela, quer saber mais sobre os temas do discurso:
– Aí cês esperam, né, porque senão vou fazê meu discurso da ONU aqui.
Mas, presidente, mesmo a senhora sendo durona, não dá um friozinho na barriga falar na ONU?
– Olha, sempre dá, sempre qualquer pessoa que vai falá né, para um público que seja mais do que algumas poucas pessoas, fica emocionada até porque é o momento que cê tem de representá aquilo que você ali está fazendo,eu tenho de representá o Brasil, concluiu ela, tranquilizando os que pensavam que ele fosse representar a Tanzânia na quarta-feira.
Fim de papo. Agora, é banhinho e olhá a Newsweek da mulher-dinamite.
– Brrigada, viu, brigada mesmo – despede-se a presidente.
Não importa o que Dilma vá ler na ONU quarta-feira, para “um público que seja mais do que algumas poucas pessoas”, como ela tão bem definiu esse momento glorioso.
O apelido da Newsweek vai pegar, na versão Dilma – Calamidade Pública Número 1.

25 setembro 2011

Festival de Besteiras que Assola o País (FEBEAPÁ)


Leiam em Veja desta semana:
O Brasil vem acenando o passo com a modernidade em diversas esferas da vida nacional. Existem ilhas de excelência na iniciativa privada e bem-sucedidas experiências de gestão pública em muitos estados da federação. Mas o coração da máquina legal que rege as relações produtivas no Brasil ainda é um aparato pombalino, arcaico, complexo e totalmente inadequado para os desafios propostos aos brasileiros neste século XXI. O Brasil tem leis demais, lavradas em linguagem rebuscada demais, o que deixa dúvida sobre sua interpretação. Essas leis se embaralham acima com artigos da Constituição, que sofre dos mesmos pecados, e abaixo com um cipoal de portarias e resoluções que brotam como erva daninha todos os dias.
O resultado de tantas leis é um emaranhado jurídico que, em vez de promover o funcionamento das instituições, tem o efeito contrário, de provocar o caos, o estado semisselvagem das sociedades sem lei. Esta reportagem mostra como o excesso de ordenações jurídicas em todos os níveis é um atraso para o Brasil ao entronizar a burocracia como um fim em si mesmo. Não é apenas o excesso de leis que atrapalha, são os absurdos que saem da cabeça do legislador brasileiro. Enquanto isso, leis que realmente ajudariam a fazer do Brasil um país menos pesado para os brasileiros ficam paradas no Congresso Nacional. Alguns exemplos:
- Por que parou a tramitação da lei de transpa¬rência que obriga o governo a divulgar a qualquer cidadão informações sobre a execução dos contra¬tos com empresas privadas?
- Por que não se vota logo a lei que determina a discriminação de quanto de imposto cada cidadão está pagando ao comprar um bem - seja uma bisnaga de pão, seja um automóvel?
- E a lei que disciplina as greves no setor público, onde anda?
Há anos as leis acima são empurradas com a barriga nas esferas federais e nunca são aprovadas. Enquanto isso, os textos ruins, pitorescos e absurdos saem como pão quente rumo às páginas dos diários oficiais e, logo, estarão sendo usados para atazanar pessoas, atravancar algum processo produtivo e tirar a eficiência geral da economia.
(…)

EXEMPLOS:

ALERTA CONTRA O CÂNCER NA CUECA E NA CALCINHA
PROJETO DE LEI N° 261, DE 1999
Situação: aguarda votação na Câmara dos Deputados.

O que determina:
 as calcinhas vendidas no país devem ter etiquetas recomendando exames de detecção de colo de útero, os sutiãs, de câncer de mama, e as cuecas, de câncer de próstata.
O absurdo: um exemplo típico do frenesi legislativo do Congresso, que cria leis que só servem para os deputados mostrarem serviço e atrapalham a vida dos cidadãos. Segundo os profissionais da saúde, a lei das etiquetas seria inútil, já que esse tipo de alerta só surte efeito em grandes campanhas de esclarecimento. Além disso, a lei representaria um enorme ônus para a indústria do vestuário. Uma etiqueta custa em média 30 centavos - incluindo gastos com estocagem, fixação nas roupas e impostos. No Brasil, vende-se hoje, anualmente, mais de l bilhão de peças íntimas. Portanto, a indústria teria de desembolsar 300 milhões de reais extras por ano e o custo, evidentemente, seria repassado ao consumidor.
NOVO PADRÃO DE TOMADAS ELÉTRICASRESOLUÇÃO 11, DE 2006, DO CONMETRO
Situação: em vigor.

O que determina:
 os aparelhos de uso doméstico, fabricados no Brasil ou importados, têm de ser equipados com um novo tipo de plugue, de dois ou três pinos e formato diferente do de qualquer outro no mundo.
O absurdo: 
o mais simples e eficaz seria adotar o modelo americano, que se espalhou pelo planeta e equipa todos os aparelhos importados. Mas a idéia foi enlouquecer os brasileiros e nos obrigar a usar uma tomada “jabuticaba”, que só existe aqui. A substituição de todas as tomadas de uma casa de tamanho médio custa 400 reais. O terceiro pino, o do fio terra, é inútil em casas antigas sem aterramento. O Inmetro recomenda que se levem os aparelhos antigos a um eletricista para a troca de plugues. Mais chateação.
ENSINO DE FILOSOFIA E SOCIOLOGIA NAS ESCOLASLEI FEDERAL N° 11684, DE 2008
Situação: em vigor.

O que determina: 
torna obrigatórias as disciplinas de filosofia e sociologia nas três séries do ensino médio em todas as escolas do Brasil.
O absurdo: 
os brasileiros figuram nas piores colocações em disciplinas como ciência, matemática e leitura, no ranking do Programa Internacional de Avaliação de Alunos. Em vez de empreender um esforço para melhorar o quadro lastimável da educação brasileira, o governo se empenha em tornar obrigatórias disciplinas que, na prática, só vão servir de vetor para aumentar a pregação ideológica de esquerda, que já beira a calamidade nas escolas. Uma das metas do currículo de sociologia no Acre é ensinar os alunos a produzir regimentos internos para sindicatos.
INCENTIVO AO PORTUGUÊS ERRADOPARÂMETRO CURRICULAR NACIONAL DE 1997, DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
Situação: em vigor.

O que determina: 
os professores não devem corrigir a maneira de falar dos estudantes.
O absurdo:
 o documento está ancorado em uma ideologia segundo a qual distinguir o certo do errado no ensino do idioma é “preconceito lingüístico”. Diz o texto: “A escola precisa livrar-se do mito de que existe uma única forma de falar. É descabido treinar o uso formal da língua na sala de aula”. Descabido é formar crianças que serão preteridas no mercado de trabalho por não saber usar corretamente o idioma.

19 setembro 2011

Os pobres não são os culpados pela falta de ética! (Por Reinaldo Azevedo_Veja.com)


Embora este post do Reinaldo Azevedo seja do dia 15/09/2011, acho muito importante transcrevê-lo aqui pelo primor de abordagem que deu ao tema sobre a "Ética dos pobres", até porque estou ministrando aulas sobre o tema - que não é tarefa destinada apenas a "santos" e "heróis" como alguns "fariseus" pensam, mas para gente de "carne-e-osso", capaz de errar e aprender com seus erros...

"Eu, um homem do povo, digo à presidente de elite: A SENHORA ESTÁ ERRADA! Os pobres não são os culpados pela falta de ética!

Considero este um dos posts mais importantes que terei publicado aqui em cinco anos. Vocês entenderão por quê.
Eu sei o que alguns bobalhões dizem a meu respeito (sim, também há gente inteligente que não gosta de mim; posso suportar; não sou um homem carente): “Esse Reinaldo é muito agressivo”. Não sou, não! Sou um senhor até bastante educado. Eu fico um tantinho irritado porque eu acredito, de verdade!, em alguns valores que “eles” usam apenas como elemento de propaganda.Em parte, isso explica por que fui de esquerda durante um tempo, na adolescência e primeira juventude: dava mais relevo ao discurso generoso do esquerdismo — a igualdade — e entendia que a liberdade era um bem derivado daquele outro, que me parecia essencial. Feitas algumas sinapses, constatei o que hoje me parece óbvio: a liberdade é o nosso mais importante e inegociável bem.
Mas eu continuo, sim, empenhado, a meu modo e dentro dos meus limites, na luta pela igualdade; vale dizer: em ter um país em que todos sejam, na prática, iguais perante a lei. Para que se realize esse propósito, é preciso que o dinheiro do povo seja aplicado com decência. Para que se seja eficiente nessa aplicação, é preciso mudar a forma como se elegem os nossos representantes. As esquerdas são essencialmente mentirosas quando se dizem partidárias do povo ou suas legítimas representantes.
Qualquer leitor que tenha se interessado pela história dessa gente sabe muito bem: os que falaram, ao longo do tempo, como líderes das massas sempre nutriram um profundo desprezo pelos pobres; tomam-nos como um bando de alimárias morais, que precisam ser civilizadas. Não há um só pensador relevante de esquerda — nem para ser a exceção que contraria a regra — que não tenha partido do princípio de que o “povo” é composto de bestas que podem ser conduzidas pra cá ou pra lá.
Entendam: é claro que deixados os homens entregues à sua própria natureza, cada um e todos eles dedicados apenas à defesa dos seus interesses, assistiremos à guerra de todos contra todos, ao caos. Ao longo do tempo, foram se criando instituições para mediar os conflitos. Sem elas, morremos todos no fim da história. É por isso que este “polemista”, como me definiu uma repórter da revista “TPM”, dá tanta importância às leis democraticamente instituídas e mete a botina no traseiro dos que especulam contra elas.
A política é a nossa única chance de civilização. Não há outra. Isso que chamo “civilização” compreende o acesso aos bens da cultura, àquilo que de melhor, humanos, conseguimos produzir. A luta pela democratização dessas conquistas é uma tarefa coletiva, um imperativo moral. A educação é o principal instrumento para compartilhar esse patrimônio. Ponto parágrafo. Leiam agora esta fala da presidente Dilma. Volto em seguida:
“Um país pode ser medido pela capacidade de atender às mães e as crianças. Se tivermos nossas crianças bem-educadas, com apoio, acolhimento e carinho, certamente teremos uma sociedade bem mais virtuosa, tanto do ponto de vista ético como no direito de cada um dos brasileiros a ter as mesmas oportunidades”.
Ela participava de uma solenidade, no Palácio do Planalto, para anunciar investimentos em educação. Está quase tudo errado nessa fala. É claro que as crianças e as mães precisam ser bem-atendidas; é claro que o esforço para eliminar a pobreza deve ser permanente, MAS É PURO PRECONCEITO, DOS MAIS DETESTÁVEIS E DOS MAIS REACIONÁRIOS, a afirmação de que a educação torna as pessoas mais éticas.
Dilma já teve de demitir cinco ministros, quatro por problemas éticos. A nenhum deles faltou educação esmerada; a nenhum deles faltaram as melhores condições para progredir e se desenvolver; a nenhum deles faltou o acesso aos bens universais da cultura; a nenhum deles faltaram as condições objetivas para uma vida digna, reta e feliz.
Corrupção, desmandos, malversação do dinheiro público, relações de compadrio… Nada disso é protagonizado pelo povo ignorante e deseducado. Ao contrário! O povo brasileiro — e, convenham, assim são os povos mundo afora — tem muito mais vergonha na cara do que suas elites. Com mais informação, com mais referências, com mais oportunidades, é bem possível que manejasse melhor o seu padrão ético, não votando em canalhas e vigaristas, por exemplo. Mas seu senso de moral é até mais severo do que o  de boa parte das pessoas com educação formal, tendentes ao relativismo.
Se os pobres brasileiros se comportassem como se comporta a elite política — na qual o PT é hoje força hegemônica —, seria impossível botar o nariz fora da porta. Uma minoria extrema dos pobres escolhe o caminho do crime — e tal escolha nada tem a ver com a pobreza. Não vou aqui abrir espaço para o “coitadismo” tão em voga no Brasil, mas eu conheço “o povo” de perto — Dilma não conhece. Ela vem daquilo que os petistas chamam “elite”. Tanto é assim que tentou instalar no país uma ditadura de esquerda para pôr a população no caminho reto; por isso queria ser a vanguarda das massas, que, naquela concepção, não chegariam sozinhas a lugar nenhum…
Não é a primeira vez que entro em contato com esse pensamento. A maioria dos “amigos do povo” que se distribuem na academia, no jornalismo e no debate público — UMA GENTE MUITO GENEROSA — parte do princípio estúpido, mentiroso, preconceituoso, de que o tal “povo” é constituído de zumbis à espera de uma alma, que lhe será concedida pela educação e pela cultura.
É falso! Falso e cruel! Os pobres também são capazes de fazer escolhas morais e escolhas éticas. Aliás, ao longo do dia, dos dias, da vida, têm muito mais oportunidades de optar entre o certo e o errado do que os que nasceram em famílias abastadas. Estas costumam proteger seus rebentos por um bom tempo das situações-limite.
Essa concepção vocalizada por Dilma Rousseff não é irrelevante e tem conseqüências perversas para os pobres. Ela se revela, por exemplo, no descaso de sucessivos governos com a segurança pública. O país é um dos campeões mundiais em homicídios por 100 mil habitantes. Entende-se que o crime é uma das expressões da falta de escola, da falta de saneamento, da falta de moradia. Não! A esmagadora maioria dos pobres segue as leis. O crime é expressão da falta de uma política decente de segurança pública, que proteja os pobres dos maus pobres e dos maus ricos.  Cadeia não substitui escola, mas escola não substitui cadeia, como quer certo onguismo picareta.
Precisamos de uma escola boa e de educação universalizada para que os brasileiros estudem matemática, ciências, língua portuguesa, história; para que possam desenvolver seu potencial criativo; para que dediquem seus melhores talentos ao pensamento e à investigação científica. O povo tem moral, presidente! O povo tem ética! Ele precisa de escola, sim, mas não para isso. A escola não é a nova VAR-Palmares da moral popular.
Infelizmente, presidente, são os bem-educados da política que atuam hoje como fatores da deseducação do povo".
Parabéns, Reinaldo Azevedo, pela brilhante aula de Ética!!