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31 janeiro 2012

As provas da conspiração forjada para sepultar o caso Celso Daniel

Publicado originalmente no blog de Augusto Nunes (Veja.com):

Entre o fim de janeiro e meados de março de 2002, investigadores da Polícia Federal encarregados de esclarecer o assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André, gravaram muitas horas de conversas telefônicas entre cinco protagonistas da história muito mal contada: Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”,  suposto mandante do crime, Ivone Santana, viúva da vítima, Klinger Luiz de Oliveira, secretário de Serviços Municipais de Santo André, Gilberto Carvalho, secretário de Governo, e Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado-geral do PT. Todos sabiam da existência da fábrica de dinheiro sujo instalada na prefeitura para financiar campanhas do partido.
As 42 fitas resultantes da escuta foram encaminhadas ao juiz João Carlos da Rocha Mattos. Em março de 2003, pouco depois da posse do presidente Lula, Rocha Mattos alegou que as gravações haviam sido feitas sem autorização judicial e ordenou que fossem destruídas. Em outubro de 2005, condenado à prisão por venda de sentenças, o juiz revelou a VEJA (confira a reportagem na seção Vale Reprise) que os diálogos mais comprometedores envolviam Gilberto Carvalho, secretário-particular de Lula entre janeiro de 2003 e dezembro de 2010 e hoje secretário-geral da Presidência da República. “Ele comandava todas as conversas, dava orientações de como as pessoas deviam proceder. E mostrava preocupação com as buscas da polícia no apartamento de Celso Daniel”.
Em abril de 2011, depois de ter cumprido pena por venda de sentenças, Rocha Mattos reiterou a acusação em escala ampliada. “A apuração do caso do Celso começou no governo FHC”, afirmou. “A pedido do PT, a PF entrou no caso. Mas, quando o Lula assumiu, a PF virou, obviamente. Daí, ela, a PF, adulterou as fitas, eu não sei quem fez isso lá. A PF apagou as fitas, tem trechos com conversas não transcritas. O que eles fizeram foi abafar o caso, porque era muito desgastante, mais que o mensalão. O que aconteceu foi que o dinheiro das companhias de ônibus, arrecadados para o PT, não estava chegando integralmente a Celso Daniel. Quando ele descobriu isso, a situação dele ficou muito difícil. Agentes da PF manipularam as fitas de Celso Daniel. A PF fez um filtro nas fitas para tirar o que talvez fosse mais grave envolvendo Gilberto Carvalho”.
Só escaparam da minuciosa queima de arquivo algumas cópias que registram diálogos desidratados dos trechos com alto teor explosivo. Ainda assim, o que se ouve escancara uma conspiração forjada para bloquear o avanço das investigações e enterrar o caso na vala dos crimes comuns. E revela a alma do bando de comparsas que, em vez de chocar-se com a execução brutal de Celso Daniel, só pensa em livrar da cadeia o companheiro Sombra ─ e livrar-se do abraço de afogado do suspeito decidido a afundar atirando. Confira os diálogos nos seis áudios:
Áudio 1: Luiz Eduardo Greenhalg diz a Gilberto Carvalho que é preciso evitar que João Francisco, um dos irmãos de Celso Daniel, “destile ressentimentos” no depoimento que se aproxima. “Pelo amor de Deus, isso é fundamental!”, inquieta-se Carvalho.


Áudio 2: Um interlocutor não identificado elogia Ivone Santana pela entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo e incentiva a viúva a repetir a performance no programa de Hebe Camargo. Alegre, a viúva informa que vai fazer o reconhecimento das roupas da vítima. Do outro lado da linha, a voz pergunta como estava vestido, afinal, “o cara”. O cara é o marido morto horas antes.


Áudio 3: À beira de um ataque de nervos, Sombra cobra de Klinger um imediata ação de resgate. Assustado com o noticiário da imprensa, exige que Gilberto Carvalho trate imediatamente de “armar alguma coisa”.


Áudio 4: Klinger diz a Sombra que Gilberto Carvalho está preocupado com o teor do iminente depoimento do companheiro acusado de ter ordenado a morte do prefeito. Sugere um encontro entre os três para combinar o que será dito. No fim da conversa, os parceiros comemoram a prisão de um suspeito.


Áudio 5: Gilberto Carvalho cumprimenta Ivone Santana pela boa performance em entrevistas e depoimentos. Carvalho acha que as declarações mudarão o rumo das investigações.


Áudio 6: A secretária de Klinger transmite a Gilberto Carvalho rumores segundo os quais a direção nacional do PT pretende manter distância do caso “para não respingar nada”. Carvalho nega e encerra o diálogo com uma observação ambígua: é nessas horas que se percebe quem são os verdadeiros amigos.


Em vez de exigir o esclarecimento da morte do amigo, Gilberto Carvalho resolveu matar as investigações no nascedouro. Por que agiu assim? 

Para historiador, rigor de Dilma é “pura fantasia”

Por Gabriel Manzano, no Estadão:
A ideia de que a presidente Dilma Rousseff é uma boa gestora, como anunciam seus aliados e indicam as pesquisas de opinião, “decorre não de seus méritos, mas da baixa consciência política dos cidadãos”, afirma o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Para ele, “não faz sentido considerar boa gestora uma presidente que está permanentemente em conflito com sua própria equipe, afastando auxiliares e, ao mesmo tempo, deixando de ir até o fim na apuração das denúncias”.
Essa mistura de má gestão com alto prestígio ocorre, segundo ele, “porque o Brasil é um país que foge inteiramente dos parâmetros”. A participação política dos cidadãos “é mínima e vive de espasmos, depois dos quais tudo volta logo à rotina”, acrescenta. Villa entende que, à parte o ato formal de se votar em eleições, a democracia “ainda está muito longe de se consolidar no País”.
Dizer que a presidente é uma grande gestora, diz ele, “é apenas mais uma invenção do PT”. Sua visão do petismo é que, assim como o partido inventou a falsa ideia de que foi o primeiro partido de trabalhadores, agora inventou que Dilma é uma grande gestora. “O PT tem conseguido construir sua própria história política, porque é o partido das invenções”, conclui.
Villa menciona desde iniciativas “importantíssimas” que foram para a geladeira, como o trem-bala, até projetos prioritários como a construção de creches, que praticamente não saiu do papel, além do ritmo lento do Minha Casa, Minha Vida, como “exemplos de uma gestão confusa e ineficaz”, que deixam claro que “sua fama de boa gestora é só propaganda”. A entrega das creches “revela, se não o desinteresse, a incapacidade do governo, e a construção de casas vai aos trancos e barrancos. Mas, do outro lado, o BNDES repassou bilhões a grandes empresas, para iniciativas nem sempre prioritárias”.
O historiador descreve como “pura fantasia” a ideia de que Dilma é “muito rigorosa” nas cobranças. “Se fosse, já teríamos gente punida, e a punição tornada pública, na leva das demissões por escândalos que atingiram seis ministérios.” Ao contrário, o que se viu, conclui, foram “elogios incabíveis aos demitidos” nas cerimônias de troca.

30 janeiro 2012

Raul Cutait, o médico que operou Lula, Covas e Gianecchini: “Quem deve decidir é o paciente"

Nas páginas amarelas de Veja desta semana:

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Raul Cutait: "Respeitar a vontade do paciente é algo relativamente novo na história da medicina" (Foto: Alexandre Schneider)

Por Adriana Dias Lopes, cujo título original vai abaixo.
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Raul Cutait: Quem decide é o paciente

O cirurgião que operou José Alencar e o ator Gianecchini diz que as decisões na medicina devem obedecer a um novo componente ético — a vontade do doente

Em 38 anos de profissão, o cirurgião Raul Cutait, de 61, fez cerca de 8 000 cirurgias, escreveu nove livros e publicou uma centena de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Ainda assim, ele considera que continuar aprendendo e praticando a arte de ouvir os pacientes é essencial para aprimorar mais ainda suas habilidades na cirurgia digestiva, sobretudo aquelas destinadas à extração de tumores cancerígenos.
O ex-governador Mario Covas, a governadora Roseana Sarney, o ex-vice-presidente José Alencar e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram alguns de seus pacientes famosos. Cutait divide suas doze horas diárias de trabalho entre as salas de cirurgia do Hospital Sírio-Libanês, os alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e o consultório.
Até que ponto a vontade do doente deve prevalecer no processo em que o cirurgião avalia o procedimento a seguir?
A vontade do paciente deve ser levada em conta em toda e qualquer circunstância. Essa é uma tendência que começou a se estabelecer nos Estados Unidos há mais de trinta anos. O objetivo inicial era resguardar o médico de processos judiciais posteriores. Mas essa abordagem evoluiu e tornou-se um bem para o paciente e para a própria medicina.
Ser honesto sempre foi obrigação de todo profissional sério. Mas respeitar a vontade do paciente é algo relativamente novo na história das ciências médicas. Na minha opinião, a vontade do doente tem de prevalecer, seja qual for a situação. Quem decide é ele.
O ex-vice-presidente José Alencar, morto no ano passado de câncer, enfrentou cirurgias grandes e complexas, mas não escondia de ninguém que não queria ser colostomizado. Mesmo assim, o senhor realizou nele esse procedimento. O que aconteceu?
Em julho de 2009, minutos antes do início de uma cirurgia de extração de diversos tumores dos intestinos, o vice-presidente me pediu para fazer tudo o que fosse possível, com exceção da colostomia. “Prefiro morrer”, disse ele. Eu sabia que seria um procedimento complicado e que a probabilidade de a colostomia ser necessária era alta. Mesmo assim, concordei.
Durante a cirurgia, percebi que a colostomia era praticamente inevitável. Porém, guiado pela vontade expressa do paciente, decidi evitar a opção que ele temia. Estava consciente de que aquela não era a conduta ideal, mas era o que ele queria.
Depois da cirurgia, José Alencar me agradeceu por ter cumprido o que havíamos combinado antes. Quinze dias depois, tive de reoperá-lo. O procedimento temido por ele tornara-se incontornável. O vice-presidente entendeu e não se opôs mais.
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O ex-vice-presidente José de Alencar capitulou e aceitou um procedimento que de início não queria de modo algum: "a vontade de viver prevaleceu" (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Prevaleceu a gravidade da situação, e não a vontade do paciente, certo?
Eu diria que a vontade de viver prevaleceu. Minha proposta era convencê-lo a aceitar a solução que preservaria sua vida naquele momento.
Se a vontade do paciente for desistir de lutar contra a doença, como deve proceder o médico?
Eu respeito a vontade dele e interrompo o tratamento.
Mesmo que isso signifique a morte do paciente?
O que não posso fazer, e não faço, é proativamente abreviar a morte de um doente, mesmo que em estado terminal. Isso é eutanásia. Estou falando aqui de deixar de oferecer procedimentos agressivos, complexos e dolorosos quando a perspectiva e a qualidade de sobrevida são limitadas.
Na relação médico-paciente, conversa-se o bastante?
Infelizmente, cada vez menos. Essas conversas são mais comuns no sistema privado de saúde.
A maior parte dos médicos que atendem pelo sistema público de saúde ou por convênios se vê obrigada a cumprir uma agenda que os limita a ter com o paciente consultas muito rápidas.
Quanto tempo deve durar uma consulta ideal?
Depende. Eu só sei a hora em que começo a consulta. A maneira que escolhi para administrar meu consultório é não registrar o tempo das consultas. Algumas duram vinte minutos, outras uma hora. Isso independe da gravidade do caso. O importante é ouvir o paciente.
Isso ficou claro para mim logo no começo da minha carreira. Um episódio, em especial, me marcou. Eu estava no primeiro ano de residência médica no Hospital das Clínicas em São Paulo, onde fazia a triagem dos pacientes do pronto-socorro, separando os casos urgentes dos demais. Um dia apareceu no hospital um senhor na faixa dos 60 anos com escoriações no rosto. Nada de grave. Ele, no entanto, começou a chorar e logo contou que apanhara do filho. Vi que ele precisava falar. Entendi que eu precisava ouvir.
O senhor já cometeu erros?
Só não errou o cirurgião que nunca operou. Errar é parte de qualquer atividade humana, em especial quando em fases iniciais de aprendizado, e, assim, obviamente fiz coisas que poderia ter feito melhor.
Mas acho vital insistir em um ponto. Em medicina o compromisso do médico é procurar oferecer o melhor a seu paciente, o que nem sempre redunda no sucesso desejado, por causa de alguma intercorrência relacionada com o próprio tratamento ou outras variáveis, tais como as condições do paciente, as características da doença ou as circunstâncias do tratamento.
Inaceitável é o médico não procurar fazer o melhor que pode por seu paciente, mesmo que isso lhe custe esforços adicionais e sacrifícios pessoais. O que todo médico deve ter em mente é que cada resultado indesejado precisa motivar uma intensa reflexão, começando pela pergunta mais crua: será que errei? Eu poderia ter tomado alguma decisão diferente? O que será preciso fazer para evitar que esse evento indesejado ocorra no futuro em uma situação semelhante?
Essas perguntas refletem humildade, virtude que tanto se ensina cultivar nas escolas de medicina, mas que raramente se vê sendo praticada no cotidiano pelos médicos. A humildade é o instrumento mais eficaz na escolha da conduta médica mais adequada, porque ela coíbe a onipotência.
Qual é a diferença entre o erro médico e a intercorrência?
A diferença é abissal. O erro é fruto de inépcia, desleixo ou desconhecimento médico. A intercorrência é uma situação imprevista, que está associada ao procedimento mesmo quando executado corretamente.
O caso ocorrido com o ator Reynaldo Gianecchini (diagnosticado com câncer no sistema linfático no ano passado), que teve uma veia perfurada durante a colocação de um cateter, em procedimento realizado pelo senhor, foi uma intercorrência?
Sim. Foi uma raridade decorrente de uma questão anatômica. O cateter bateu em um ponto da veia subclávia, perfurando-a. Em determinado momento, o cateter não seguiu o trajeto normal. Essa é uma situação impossível de ser prevista. O que cabe ao cirurgião é estar atento para identificar a intercorrência e tomar todas as medidas necessárias.
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Reynaldo Gianecchini: intercorrência causou desconforto (Foto: Fernando Cavalcanti / VEJA)
Quais foram as consequências disso para o ator?
Ele ficou alguns dias a mais no hospital. E, claro, sofreu o desconforto de passar por uma etapa que não estava prevista no tratamento da doença. Em benefício da clareza e transparência, como tem de ser sempre, contei a ele o que havia se passado. O paciente entendeu e hoje somos amigos.
Confesso que fiquei chateado, como fico se alguma coisa não corre como o desejado. Mas o cirurgião não tem de camuflar o problema. Tem de enfrentá-lo com rapidez e envolvimento.
Em que momento da faculdade um aluno resolve que seu futuro profissional é ser cirurgião?
Isso varia muito. Alguns resolvem ser cirurgiões antes mesmo de entrar na faculdade de medicina, enquanto outros tomam essa decisão apenas nos últimos meses do curso médico. O interessante é que os futuros cirurgiões têm algo em comum: eles gostam de ação. Depois, de acordo com sua personalidade, suas habilidades técnicas e as oportunidades que encontra, o futuro cirurgião define, em geral no decorrer da residência  médica, qual será sua especialidade.
Eu, em particular, durante o curso de medicina fui trabalhar como estudante com um grupo de pesquisas em cirurgia cardíaca, empolgado pelos transplantes de coração capitaneados pelo professor Euryclides de Jesus Zerbini. Contudo, dois anos depois passei a trabalhar com outros grupos, cujo foco eram as pesquisas em cirurgia digestiva. Foi assim que encontrei meu caminho, mesclando ao longo de minha vida a assistência aos meus pacientes, o ensino aos meus estudantes e residentes e um pouco de pesquisa básica e clínica.
Apesar dos avanços da medicina, uma cirurgia, independentemente de sua complexidade, ainda implica risco de vida. Por quê?
Muitas pessoas pensam apenas na figura solitária do cirurgião quando imaginam uma operação sendo feita. Mas o ato cirúrgico envolve um número enorme de profissionais. Na sala de cirurgia somos cerca de seis a oito pessoas, que formam uma verdadeira equipe, no sentido de que todos buscam um mesmo resultado, mas cada um tem sua cota específica de responsabilidade. A do anestesista é grande. Quanto melhor ele faz  seu trabalho, mais condições proporciona ao cirurgião de se concentrar no ato cirúrgico em si.
O bom estado geral de saúde do paciente é decisivo para o sucesso da cirurgia, não?
Sim, mas infelizmente nem sempre os exames pré-operatórios são feitos com cuidado.
Nos Estados Unidos, onde tudo se mede, estima-se que, a cada ano, cerca de 100 000 pessoas morram em cirurgias por complicações que poderiam ter sido perfeitamente evitadas caso os pacientes tivessem passado por avaliações conduzidas da maneira correta.
Como um paciente pode ter certeza de que o cirurgião que vai operá-lo é qualificado?
Em primeiro lugar, o paciente deve escolher alguém com uma sólida formação. Segundo, é preciso ter em mente que a experiência do cirurgião propicia a ele a capacidade de tomar melhores decisões e, claro, dota-o de habilidades técnicas mais aprimoradas. Eu diria que um cirurgião precisa de dez a quinze anos de prática para atingir a maturidade.
Outro fator importante é a instituição na qual o cirurgião trabalha. O hospital tem de ser bem equipado. Parece óbvio falar disso, mas menos da metade dos hospitais brasileiros está plenamente apta a abrigar cirurgias de grande porte. Esse é um problema que aflige os médicos.
Uma das reclamações mais comuns de cirurgiões brasileiros é a impossibilidade de oferecer a solução para seus pacientes por falta de estrutura hospitalar. Nas pesquisas feitas com médicos em todo o Brasil, esse desconforto supera até as queixas por baixa remuneração.
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Para uma cirurgia, é recomendável sólida formação e experiência do cirurgião e hospital bem equipado (Foto: Getty Images)
Como anda o ensino médico no Brasil?
Estamos vivendo um momento especialmente perigoso. O Brasil tem 185 faculdades de medicina em funcionamento. Boa parte delas não tem condições básicas de oferecer cursos de medicina de qualidade.
O governo falhou clamorosamente ao permitir que esses cursos fossem abertos e falha ao permitir que eles continuem em funcionamento. São escolas sem corpo docente qualificado e sem estrutura hospitalar adequada ao  ensino.
Por isso, é insuficiente o número de vagas para a residência, etapa fundamental na qualificação do médico. Apenas 60% dos médicos formados hoje tiveram acesso à residência médica. Na medicina não basta ler o manual, é preciso praticar. É justamente na residência médica, sob a coordenação de um profissional experimentado, que se tem contato com as melhores práticas. A partir dessa etapa, cada um voará de acordo com sua competência, interesse e dedicação.
Seu pai, o cirurgião Daher Cutait, foi um dos grandes nomes da medicina brasileira. O senhor aprendeu muito com ele?
Meu pai sempre foi uma pessoa fechada. Muito do que aprendi com ele foi observando a dedicação que dispensava aos pacientes e sua paixão pela profissão. Desde cedo, sempre que podia, acompanhava-o ao trabalho. Lembro de brincar nos jardins dos hospitais enquanto o esperava acabar de operar. Vez ou outra meu pai me deixava ver seus pacientes.
Em casa, ele passava a maior parte do tempo lendo, estudando. Para estar  próximo a ele, fazia minhas lições de casa em seu escritório, ao seu lado. Nunca me esquecerei da felicidade estampada no seu rosto quando lhe comuniquei a minha decisão de ser médico.
Vi meu pai chorar três vezes na vida. Uma, quando um irmão dele morreu. Outra, quando um irmão meu morreu. Outra, quando entrei na faculdade de medicina.
Não apenas na sala de cirurgia, mas, talvez mais ainda do que isso, no aprendizado da relação médico-paciente, ele foi meu grande mestre.