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04 maio 2011

Bem-vindo, Delúbio! (Por Ricardo Noblat)


Desculpem substituir o artigo de FHC do topo deste blog por um que fala do "nosso Delúbio do Lula", mas o Ricardo Noblat merece ser lido:
…Lula e Delúbio são mais ligados do que Lula e o ex-ministro José Dirceu, por exemplo. Quem escondia dos fotógrafos o cigarro fumado por Lula? Delúbio, o serviçal.
De duas, uma. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, não deveria ter sido expulso do partido depois que estourou o escândalo do mensalão. Não foi o único culpado. De resto, como diz Lula convicto, o mensalão jamais existiu.
Ou então: Delúbio deveria ter sido expulso, sim. Sua volta ao PT só se justificaria se a Justiça o declarasse inocente.
Delúbio é um dos 38 mensaleiros denunciados pela Procuradoria-Geral da República por formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção e evasão de divisas. O Supremo Tribunal Federal (STF) acatou a denúncia que fala de uma “organização criminosa” empenhada em se apoderar de parte do aparelho do Estado.
Ocorre que Delúbio imagina ser candidato a vereador no próximo ano em Goiânia e a deputado federal em 2014. E para isso precisa filiar-se a um partido. Que partido de peso estaria disposto a abrigá-lo?
O PT. Foi nele, sob as bênçãos de Lula, que o simplório, mas esperto Delúbio, construiu sua trajetória política.
Lula e Delúbio são mais ligados do que Lula e o ex-ministro José Dirceu, por exemplo. Quem escondia dos fotógrafos o cigarro fumado por Lula? Delúbio, o serviçal. Mais de uma vez, Delúbio e Lula saíram juntos do Palácio do Planalto no mesmo carro. Uma vez, pelo menos, Delúbio foi hóspede de Lula na Granja do Torto.
O que disse a senadora Marta Suplicy (SP) sobre a volta de Delúbio ao PT, consumada na última sexta-feira, é mais ou menos o que pensa a maioria dos seus colegas de partido. Marta: “A volta de Delúbio é uma questão ainda muito mal compreendida pela sociedade, de difícil assimilação.”
De difícil assimilação, é. Mal compreendida, não.
Se Delúbio foi um dos cérebros do mensalão; se a Procuradoria-Geral da República classificou o mensalão de crime; se ele figura em processo na condição de réu; e se o próprio PT preferiu expulsá-lo, a sociedade entende com razão que Delúbio não deveria ter voltado ao partido. O processo do mensalão chegará ao fim no próximo ano.
Por que não esperar a decisão do Supremo? Porque para se candidatar qualquer pessoa é obrigada a estar filiada a um partido no mínimo um ano antes do dia da eleição. Ou Delúbio se filiaria até outubro deste ano ou daria adeus às chances de se eleger vereador em 2012. De todo modo, a sua não será uma eleição tão simples.
Delúbio foi condenado pelo Tribunal de Justiça de Goiás a devolver 164 mil reais desviados por meio de documentos falsos que o davam como professor ativo no ensino público. E teve seus direitos políticos suspensos por 8 anos. Sua candidatura deverá esbarrar na Lei da Ficha Limpa – salvo se instância superior da Justiça lhe for generosa.
O deputado Ricardo Berzoini (SP), ex-presidente do PT, valeu-se de um argumento falacioso em defesa da reintegração de Delúbio: “Até os banidos do regime militar voltaram”.
Comparar a situação dos banidos com a de Delúbio é uma agressão à inteligência. É também um deboche, um escárnio, um acinte.
Os banidos foram vítimas de uma ditadura que censurou a imprensa, cassou políticos, aposentou juízes, prendeu, torturou e matou desafetos. Enfraquecida, revogou o banimento.
Delúbio não foi vítima de nada e nem de ninguém – a não ser de sua própria conduta.
“Ele já pagou”, disse o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo.
Delúbio pagou pelo o quê? Pelo mensalão que o PT prefere chamar de Caixa 2?
Caixa 2 e mensalão são crimes. O PT puniu Delúbio só para dar uma satisfação à sociedade. Assim como fez com José Dirceu, demitido da Casa Civil da Presidência da República e depois cassado como deputado federal.
Uma vez que Lula sobreviveu ao escândalo, se reelegeu e elegeu Dilma, o PT concluiu que chegara a hora de premiar Delúbio, o militante que não entregou ninguém. Que pagou sozinho por um crime coletivo.
Seja bem-vindo, pois, companheiro! A casa é sua! Nada mudou desde que você foi obrigado a deixá-la.
Ricardo Noblat é jornalista. Foi editor-chefe do Correio Braziliense e da sucursal do Jornal do Brasil em Brasília. Há sete anos mantém o Blog do Noblat, hoje no portal do jornal O Globo

02 maio 2011

"Um novo Brasil"_Por FHC



“Um novo Brasil”, um artigo de Fernando Henrique Cardoso

ARTIGO PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE DOMINGO
Fernando Henrique Cardoso
Décadas atrás havia uma discussão sobre a “modernização” do Brasil. Correntes mais dogmáticas da esquerda denunciavam os modernizadores como gente que acreditava ser possível transformar o País saltando a revolução socialista. Com o passar do tempo, quase todos se esqueceram das velhas polêmicas e passaram a se orgulhar das grandes transformações ocorridas. Até mesmo pertencermos aos Brics, uma marca criada em 1999 pelo banco Goldman Sachs, passou a ser motivo de orgulho dos dirigentes petistas: finalmente somos uma economia emergente!
Na verdade, o Brasil é mais do que uma “economia emergente”, é uma “sociedade emergente” ou, para usar o título de um livro que analisa bem o que aconteceu nas últimas décadas, somos um novo país (ver Albert Fishlow, O Novo Brasil, Saint Paul Editora, 2011). Para entender as dificuldades políticas que foram transpostas para acelerar estas transformações basta ler a primeira parte de um livrinho que tem o instigante título Memórias de um Soldado de Milícias, escrito por Luiz Alfredo Raposo e publicado este ano em São Luís do Maranhão.
Embora os livros comecem a registrar o que é este novo Brasil – e há outros, além do que mencionei –, o senso comum, especialmente entre os militantes ou representantes dos partidos políticos e seus ideólogos, ainda não se deu conta por completo dessas transformações e de suas consequências.
Os fundamentos deste novo País começaram a se constituir a partir das greves operárias do fim da década de 1970 e da campanha das Diretas-Já, que conduziram à Constituição de 1988. Este foi o marco inicial do novo Brasil: direitos assegurados, desenho de um Estado visando a aumentar o bem-estar do povo, sociedade civil mais organizada e demandante, enfim, liberdade e comprometimento social. Havia na Constituição, é certo, entraves que prendiam o desenvolvimento econômico a monopólios e ingerências estatais. Sucessivas emendas constitucionais foram aliviando essas amarras, sem enfraquecer a ação estatal, mas abrindo espaço à competição, à regulação e à diversificação do mundo empresarial.
O segundo grande passo para a modernização do País foi dado pela abertura da economia. Contrariando a percepção acanhada de que a “globalização” mataria nossa indústria e espoliaria nossas riquezas, houve a redução de tarifas e diminuição dos entraves ao fluxo de capitais. Novamente os “dogmáticos” (lamento dizer, PT e presidente Lula à frente) previram a catástrofe que não ocorreu: “sucateamento” da indústria, desnacionalização da economia, desemprego em massa, e assim por diante. Passamos pelo teste: o BNDES atuou corretamente para apoiar a modernização de setores-chave da economia, as privatizações não deram ensejo a monopólios privados e mantiveram boa parte do sistema produtivo sob controle nacional, seja pelo setor privado, seja pelo Estado, ou em conjunto. Houve expansão da oferta e democratização do acesso a serviços públicos.
O terceiro passo foi o Plano Real e a vitória sobre a inflação, não sem enormes dificuldades e incompreensões políticas. Juntamente com a reorganização das finanças públicas, com o saneamento do sistema financeiro e com a adoção de regras para o uso do dinheiro público e o manejo da política econômica, a estabilização permitiu o desenvolvimento de um mercado de capitais dinâmico, bem regulado, e a criação das bases para a expansão do crédito.
Por fim, mas em nada menos importante, deu-se consequente prática às demandas sociais refletidas na Constituição. Foram ativadas as políticas sociais universais (educação, saúde e Previdência) e as focalizadas: a reforma agrária e os mecanismos de transferência direta de renda, entre eles as bolsas, a primeira das quais foi a Bolsa-Escola, substituída pela Bolsa-Família. Ao mesmo tempo, desde 1993 houve significativo aumento real do salário mínimo (de 44% no governo do PSDB e de 48% no de Lula).
Os resultados veem-se agora: aumento de consumo das camadas populares, enriquecimento generalizado, multiplicação de empresas e das oportunidades de investimento, tanto em áreas tradicionais quanto em áreas novas. Inegavelmente, recebemos também um impulso “de fora”, com o boom da economia internacional de 2004-2008 e, sobretudo, com a entrada vigorosa da China no mercado de commodities.
Por trás desse novo Brasil está o “espírito de empresa”. A aceitação do risco, da competitividade, do mérito, da avaliação de resultados. O esforço individual e coletivo, a convicção de que sem estudo não se avança e de que é preciso ter regras que regulem a economia e a vida em sociedade. O respeito à lei, aos contratos, às liberdades individuais e coletivas fazem parte deste novo Brasil. O “espírito de empresa” não se resume ao mercado ou à empresa privada. Ele abrange vários setores da vida e da sociedade. Uma empresa estatal, quando o possui, deixa de ser uma “repartição pública”, na qual o burocratismo e os privilégios políticos, com clientelismo e corrupção, freiam seu crescimento. Uma ONG pode possuir esse mesmo espírito, assim como os partidos deveriam possuí-lo. E não se creia que ele dispense o sentimento de coesão social, de solidariedade: o mundo moderno não aceita o “cada um por si e Deus por ninguém”. O mesmo espírito deve reger os programas e ações sociais do governo na busca da melhoria da condição de vida dos cidadãos.
Foi para isso que apontei em meu artigo na revista Interesse Nacional, que tanto debate suscitou, às vezes a partir de leituras equivocadas e mesmo de má-fé. É inegável que há espaço para as oposições firmarem o pé neste novo Brasil. Ele está entre os setores populares e médios que escapam do clientelismo estatal, que têm independência para criticar o que há de velho nas bases políticas do governo e em muito de suas práticas, como a ingerência política na escolha dos “campeões da globalização”, o privilegiamento de setores econômicos “amigos”, a resistência à cooperação com o setor privado nos investimentos de infraestrutura, além da eventual tibieza no controle da inflação, que pode cortar as aspirações de consumo das classes emergentes. Para ocupar esse espaço, entretanto, é preciso que também as oposições se invistam do espírito novo e sejam capazes de representar este novo Brasil, tão distante do pequeno e às vezes mesquinho dia a dia da política congressual.

O "nosso Delúbio" do Lula é absolvido no PT...Ora,bolas!


Por Augusto Nunes (Veja.com):
“Ele segurou tudo calado”, disse tudo em quatro palavras a senadora Marta Suplicy. Os Altos Companheiros ainda caçavam explicações menos cafajestes para a volta de Delúbio Soares ao PT e se enredavam nos palavrórios costurados para justificar a invenção da expulsão temporária quando Marta, com a sinceridade de primeira-dama das estrebarias e a arrogância de granfina quatrocentona, foi direto ao ponto. Já passara da hora de absolver e homenagear o companheiro que poderia, se quisesse, transformar-se na versão brasileira do mafioso italiano Tommaso Buscetta.
Preso no Brasil e devolvido à Itália em 1984, Buscetta ganhou a delação premiada para contar o que sabia sobre as ligações entre a máfia e políticos de alta patente. Extraditado para os Estados Unidos, fez outro acordo com a Justiça americana: em troca da inclusão no programa de proteção a testemunhas, enfileirou revelações que resultaram no desmonte da “Conexão Pizza”, codinome da rede de tráfico de drogas controlada pela máfia de Nova York, e na condenação de 22 chefões a longas temporadas na cadeia.
Só o depoimento na Itália demorou 45 dias. Se resolvesse abrir o bico, Delúbio Soares teria assunto para algumas semanas. A primeira das duas partes do interrogatório seria reservada ao esclarecimento das maracutaias colecionadas pelo depoente no Fundo de Amparo ao Trabalhador, onde agiu entre 1994 e 2000. Escolhido por Lula e José Dirceu para representar a CUT no FAT, foi ali que o companheiro recrutado no PT goiano aprendeu o ofício de gatuno. Nos seis anos seguintes, o medíocre professor de matemática especializou-se em multiplicar milhões mal explicados, dividir o produto do roubo, somar bandalheiras e reduzir as dívidas do partido com quantias de embasbacar banqueiro suiço.
A segunda parte do depoimento mostraria o meliante em ação entre o começo de 2000 e julho de 2005, período em que acumulou as funções de tesoureiro do PT e gerente do mensalão. Nesses cinco anos, entre uma reunião do partido, um animado reveillon na casa de praia de Marta Suplicy e uma visita ao Planalto para dois dedos de prosa com o amigo Lula, Delúbio fez coisas de que até Deus duvida ─ mas muitos petistas cinco estrelas testemunharam, endossaram, esconderam ou ajudaram a executar.
Em parceria com o vigarista Marcos Valério, “nosso Delúbio”, como Lula a ele se referia, mostrou do que é capaz um fora-da-lei vocacional. Esvaziou cofres públicos e privados, extorquiu empresários, financiou dezenas de candidaturas com dinheiro sujo, negociou empréstimos bancários ilegais, estuprou a legislação eleitoral, subornou meio mundo, montou um balcão de compra de votos nas catacumbas do Congresso, lavou pilhas de dólares em contas no Exterior, burlou a Receita Federal, cometeu perjúrio e reduziu o templo das vestais de araque a um cabaré devotado à exploração do lenocínio político.
Pilhado em flagrante no centro do pântano colossal, Delúbio só usou a voz pastosa de quem almoçou arroz com Lexotan para informar, em exasperantes performances na CPI, que nada diria. Expulso do partido, retirou-se para o interior de Goiás e renovou o voto de silêncio. Começou a preparar a volta quatro anos mais tarde, quando recordou aos companheiros, numa carta-aberta, que não agira por conta própria nem solitariamente. “Não fui um alegre, um néscio, um ingênuo”, escreveu. “Aceitei os riscos da luta. Mas não fui senão, em todos os instantes, sem exceção, fiel cumpridor das tarefas que me destinou o PT”. O recado foi claro: fez o que mandaram que fizesse, cumpriu ordens, atendeu a encomendas, e sempre com a ajuda de comparsas. Houve, portanto, cúmplices e mandantes.
Mandantes e cúmplices acharam prudente reintegrá-lo à seita o quanto antes. Se pudessem, esperariam o julgamento no Supremo Tribunal Federal do processo em que Delúbio, soterrado por um himalaia de provas, é acusado de corrupção ativa e formação de quadrilha. Preferiram antecipar um dos atos mais repulsivos do interminável espetáculo do cinismo para livrar-se de espasmos de ressentimento. Além do mais, ele sempre pediu pouco para não cair em tentação. Como tem o DNA do PT, queria apenas recuperar o direito de conviver publicamente com a turma. Delúbio Soares faz questão de andar em má companhia.
O gerente do mensalão roubou muitos milhões. Mas cobra um preço baixo pela mudez. É uma caixa-preta barata.

01 maio 2011

Vejam essas "cinemagraphs": as fotos que contêm movimentos...

Por Domitila Becker
Vocês se lembram das fotos que se mexiam nos jornais e porta-retratos das histórias de Harry Potter?
Pois bem, a fotógrafa novaiorquina Jamie Beck, com a ajuda do webdesigner Kevin Burg, desenvolveu uma técnica parecida que promete revolucionar revistas e jornais digitais.
Beck animou, sutilmente, pequenos elementos das fotos, em formato GIF, criando respeitadas obras de artes. Suas imagens sobre a Semana de Moda de Nova York são impressionantes. Lindas modelos com os cabelos ao vento, reflexos movendo-se nas janelas, um jornal sendo silenciosamente folheado.
Por serem simples imagens GIF, elas são leves e carregam rapidamente, ao contrário dos vídeos. Batizadas de “Cinemagraphs”, as fotos em movimento tiradas por Beck são apenas uma mostra do que ainda pode ser feito a partir dessa nova técnica.









29 abril 2011

Dilma economista é capturada por Celso Arnaldo...


Dilma mira na inflação, tropeça no idioma, derruba a sensatez e é capturada por Celso Arnaldo: ‘Ela merece vigilância diuturna’

Por Celso Arnaldo Araújo
Foi o grande Reinaldo Azevedo, em texto postado às 18:21 de hoje em seu blog, quem escancarou o momento Odorico Paraguaçu da bem-amada presidente Dilma Rousseff no discurso pronunciado hoje na 37ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social, o Cades.
Ao falar do recrudescimento da inflação, tentou dizer que seu governo estava ligado dia e noite na questão:
“Então eu quero dizer a esse conselho. O meu governo está diuturnamente, e até noturnamente, atento a todas as pressões inflacionárias, venham de onde vier”.
Será possível? Não terá havido um erro de transcrição? Bem sei que Dilma merece vigilância diuturna – prolongada, prorrogada, protelada, que não se esgota. É virar as costas e ela se supera. Mas essa odoricada seria ultrajante até para os padrões do dilmês. Uma quase mestre e doutora confundindo diuturno com diurno para pespegar um “até noturnamente”, fechar um suposto ciclo de 24 horas e desenhar, enfaticamente, o tamanho da atenção do governo ao surto inflacionário.
Fui checar com minha fonte secreta – o site oficial da presidenta. Tudo verdade e mais um pouco. Reinaldo não falha. Quem falha é Dilma. No auditório do Cades, só faltaram os irmãos Cajazeiras que a acompanharam à China – Mercadante, Lobão e Pimentel.
Aos exatos 10:20 deste vídeo, o governo de Dilma se transfere para Sucupira. Até o ritmo da fala é Paraguaçu puro – o “venham de onde vier” não surpreende, é concordância dilmística lato senso.
Mas reparem que o “até noturnamente” vem acompanhado de um girar repentino de cabeça e do ensaio de um risinho sardônico, conjugado a um lamber nervoso do lábio inferior — sinais inconfundíveis de orador que busca cumplicidade da plateia para uma bobagem dita mas não pensada.
Uma pessoa que conhecesse o significado pleno da palavra diuturno, e do advérbio de modo dela derivado, poderia até ter usado esse contraponto noturno como um quase sofisticado trocadilho semântico. Não é o caso. Eu aposto que não é o caso. E certamente não seria o caso, se fosse o caso, em se tratando de presidente da República diante de um conselho de notáveis e a respeito de um tema tabu, a inflação.
O desconhecimento de Dilma, a respeito de virtualmente todas as coisas, segue o ritmo circadiano que governa biologicamente os seres humanos – é full time, tempo integral, 24 horas por dia, around the clock, sem intervalo, sem trégua, diuturnamente, pelos próximos quatro anos.
Veja o vídeo abrindo o Link no YouTub: http://www.youtube.com/user/PalaciodoPlanalto

28 abril 2011

Aeroportos: herança maldita é isso aí...


Por Augusto Nunes:
Em julho de 2006, quando o acasalamento do descaso administrativo com a escassez de investimentos pariu o apagão aéreo, o presidente Lula comunicou ao país que o ministro da Defesa, Waldir Pires, cuidaria de matar o monstrengo no berço. O plácido baiano nada fez. Foi substituído em julho de 2007 por Nelson Jobim, que prometeu matar de susto a criatura que acabara de festejar o primeiro aniversário. Além de brincar de general, almirante e brigadeiro, também o gaúcho falastrão nada fez. Em julho de 2008, repassou o filho da inépcia federal a Dilma Rousseff, chefe da Casa Civil.
No país real, as coisas seguiram piorando. No Brasil Maravilha inventado por Lula, não foi pouco o que a Mãe do PAC fez. Só em São Paulo,inaugurou o terceiro aeroportque até hoje ninguém viu, modernizou Guarulhos sem deixar marcas visíveis da proeza e ampliou Viracopos sem acrescentar-lhe um único metro. Em julho de 2010, durante a campanha eleitoral, deu o problema por resolvido e foi cuidar do trem-bala. No País do Carnaval, não é agosto o mais inquietante dos meses.  É julho, confirmou a reunião de terça-feira em Brasília.
Invocando a aproximação da Copa do Mundo, os cardeais do novo e já velho governo resolveram enxergar o colapso da aviação civil. Também decidiram que cabe à iniciativa privada solucionar o problema que conceberam, amamentaram e carregam no colo. Em julho ─ sempre no sétimo mês ─ estarão prontos os editais que instituem nos cinco principais aeroportos o modelo de concessão. Concessão é a privatização que não ousa dizer seu nome.
“Queremos combinar a urgência das obras com os investimentos públicos e privados”, disfarçou o ministro Antonio Palocci, chefe da Casa Civil. Tradução: empresas privadas ganharão, em troca do trabalho que o governo não consegue ou não sabe fazer, o direito de explorar os espaços comerciais dos colossos. Além de muito dinheiro, naturalmente. Sempre que os pais-da-pátria têm pressa, somem as licitações e aparecem contas muito mais salgadas. Fora as comissões negociadas nas catacumbas do poder.
Dilma escorregou na caricatura do falatório triunfalista de Lula. “Sabemos que muitos dos problemas que vivemos hoje, e que temos o compromisso de enfrentar e resolver, podem ser chamados de bons problemas”, acabou de descobrir.  Bom problema é aquele que, visto de perto, vira mais uma prova de que o Brasil Maravilha existe. “Os aeroportos que temos de expandir estão cheios porque o aumento das viagens aéreas supera, em muito, o crescimento do país”, exemplificou a presidente.
Essas zonas conflagradas, portanto, não são uma evidência escancarada da incompetência de  governantes de araque. São sinal de progresso. O problema é o excesso de passageiros. Um bom problema. Os pobres que morriam de fome nos tempos de Fernando Henrique Cardoso hoje comem três vezes por dia e viajam de avião. Estão felizes porque sofrem a bordo de aparelhos que parecem ônibus de grotão e nas filas que lembram rodoviárias de antigamente. Graças a Lula, a nova classe média agora conhece o inferno nos céus e em terra.
“A Copa e Olimpíada são importantes, mas não estamos olhando só para a Copa ou Olimpíada”, fantasiou Dilma para justificar a pressa e a súbita descoberta dos encantos da privatização. “É preciso que os aeroportos estejam prontos para atender a demanda da população, que é atual”. Se é assim, por que não se começou a fazer até antes de 2006 o que só agora é esboçado, a pouco mais de três anos da Copa? Se é assim, por que Dilma se contentou com a inauguração de pedras fundamentais?
A causa da correria nem é o medo da vergonha ─ esse sentimento foi revogado há muito tempo por Lula e seus devotos. É o medo das urnas. Quando a Copa começar, os candidatos à Presidência já terão entrado em campo. Aeroportos em frangalhos não melhoram a vida de caçadores de votos. Ao medo das urnas se soma o entusiasmo com obras dispensadas de licitações. Enquanto os brasileiros comuns se angustiam com o pesadelo, os incomuns dormirão o sono de quem sonha com cifrões.
Neste fim de abril, Dilma admitiu que as promessas que vendeu ao lado do padrinho só foram cumpridas no Brasil Maravilha registrado em cartório. A demora foi tanta que os aeroportos não estarão prontos mesmo com anabolizantes bilionários. Herança maldita é isso aí.

Requião roubou um gravador à luiz do dia


Por Celso Arnaldo Araújo
O Brasil leniente, o Brasil cordial, vai acabar atirando o caso Requião na vala comum do folclore político. Não deveria. Porque o distinto senador da República – um lorde inglês na visão do falso acadêmico e político profissional que preside a casa e avalia muito mal palavras e caracteres – passou dos limites de sua prosaica truculência para aderir ao crime comum, penalmente em nada diferente das saidinhas de banco.
Políticos normalmente são dados ao furto – através de canetadas certeiras na mosca dos orçamentos públicos, compostos por nossos dinheiros. Roberto Requião é o primeiro que pratica um roubo à luz do dia, com testemunhas oculares e gravações eletrônicas. Também é o primeiro a apregoar e bravatear seu crime pelo twitter.
O repórter da Band, vítima do assalto, disse que tentou registrar o surrupio junto à corregedoria do Senado. Foi desaconselhado, não era o foro próprio – é evidente: a corregedoria do Senado não está ali para corrigir senadores. Pensou em recorrer ao Conselho de Ética do Senado – órgão que equivale, em autenticidade, ao Ministério da Marinha da Bolívia e ao Ministério da Justiça do Brasil nos anos sangrentos da ditadura militar. Também não conseguiu, porque o conselho estava ainda em formação (de quadrilha, diriam os mais afoitos). Se o fizesse hoje, teria preferido ter mil gravadores roubados e chamar os ladrões deles: daria de cara com Renan Calheiros e Gim Argelo, vestais da ética senatorial, recém-nomeados para o Conselho.
Eu, se fosse o rapaz da Band, iria ao Distrito mais próximo. O roubo de meu gravador, instrumento de trabalho, crime contra o patrimônio por meios violentos ou ameaça, estava bem caracterizado. A lavração de um B.O. com essa tipificação seria obrigação de um delegado cumpridor das leis – sob pena de incorrer em crime de prevaricação. Se o caso mais tarde fosse levado a um juiz togado, e esse realmente fizesse justiça, agravaria o senador mão pesada pelo delito de defesa cretina. Diz ele ter se apropriado do equipamento para impedir que sua entrevista fosse editada em seu prejuízo – como se Requião, quando fala, não fosse seu próprio advogado de acusação, sem edição, sem retoques de qualquer natureza.
Na versão do senador, seria um roubo preventivo, portanto. Se legítima a modalidade, todos nós estaríamos autorizados a roubar um banco – para impedir que o mesmo, no fim do mês, nos cobrasse uma taxa Selic mensal a título de juros pelo cheque especial, editando nosso extrato a seu bel prazer.
Ciente de sucessivas boçalidades de Roberto Requião, confesso que ainda tinha por ele alguma admiração – pela linguagem intimorata, em contraste com a semântica vaselinada dos políticos em geral, e absolutamente escorreita, com tudo no seu devido lugar. Era, confesso, um viés próprio de quem se indigna com o dilmês elevado à Presidência.
Mas o afano do gravador, na mão grande, colocaria Requião no Presídio da Papuda num país mais sério –se existisse um Papuda num país mais sério.

Lula agora virou censor do PSDB e não olha pro seu traseiro e o do PT



O homem não quer sair do noticiário.
O ex-presidente Lula concedeu ontem à noite entrevista à TVT – TV dos Trabalhadores – em que, uma vez mais, critica os tucanos. Diz Lula que o PSDB “não tem perfil ideológico”.
Muito bem. Concordo. Há um núcleo, tendo FHC como centro, que ainda guarda coerência com as linhas mestras que determinaram a criação do partido, em 1988, mas hoje o saco de gatos tucanos abriga todo tipo de político, de “ideológicos” a fisiológicos.
Agora, e o PT? Que perfil ideológico tem o PT, além de sua sede de poder? Esqueçamos os estatutos do PT, que ainda defendem um “socialismo” que nunca os petistas conseguiram explicar.
O PT fundado nos anos 80 faria alianças com Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros – até Collor e Maluf?
O próprio Lula, na entrevista, acaba por confirmar, talvez sem perceber, a salada pouco edificante em que se transformou o PT, com essa frase confusa mas reveladora:
– Eles [os tucanos] têm o PT como adversário principal. E o PT precisa juntar todos os diferentes para que a gente possa vencer os antagônicos.
Diferentes mesmo: há também Romero Jucá, Edison Lobão, o pessoal da Igreja Universal…
Tutti buona gente, não é mesmo?

Comissão de Ética do Senado "é do sarney!"



BRASÍLIA – O Conselho de Ética do Senado reiniciou nesta quarta-feira, 27, suas atividades sem dar sinal de que conseguirá recuperar a credibilidade. O colegiado estava desativado havia dois anos.
Na nova composição, o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), tem o apoio de 13 dos 15 integrantes, além de ter assegurado o comando do órgão ao senador João Alberto (PMDB-MA), de sua confiança.
Na gestão anterior, o conselho arquivou todos as denúncias feitas contra Sarney, entre elas a responsabilidade pelos atos secretos e outros desmandos administrativos da Casa.
Iniciada com atraso de mais de uma hora, a sessão de instalação deixou claro que, na prática, pouco se deve esperar do conselho. O senador Mário Couto (PSDB-PA) chegou a fazer um discurso sobre a necessidade de o colegiado “começar com moral e terminar por moral”.
Como ninguém o aparteou, ele não conseguiu nem mesmo ouvir seus colegas sobre os motivos que os levariam a endossar a escolha de João Alberto para presidente e a do senador Jayme Campos (DEM-MT) como vice.
No cargo pela terceira vez, João Alberto afirmou que não mudará o procedimento de antes, ou seja, as denúncias poderão continuar a ser arquivadas. Ele atribui essa prática pessoal ao fato de não ser “açodado”.