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18 janeiro 2012

Unctad: economia mundial está à beira de nova recessão

A economia mundial está à beira de uma nova recessão, disse a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) em seu relatórioSituação e Perspectivas da Economia Mundial, divulgado nesta terça-feira. A organização prevê a deterioração do cenário econômico caso os governantes não consigam frear o aumento do desemprego ou evitem a escalada dos riscos gerados pela crise da dívida soberana e a fragilidade do setor financeiro.
“A economia mundial está oscilando e muito perto de uma nova recessão. Espera-se crescimento anêmico nos anos de 2012 e 2013. Os problemas que assolam a economia mundial são múltiplos e interligados. Entre os maiores desafios está a luta contra a crise do emprego e o declive das perspectivas de crescimento, especialmente no mundo desenvolvido”, diz o relatório.
O texto define o desemprego como “calcanhar de Aquiles” da recuperação econômica na maior parte dos países desenvolvidos e ressalta que o “déficit global de 64 milhões de empregos deve ser eliminado”. Com a projeção de recessão, no entanto, o déficit de empregos no mundo se elevaria para 71 milhões, 17 milhões somente nos países ricos, prevê a organização.
Além disso, a Unctad revela que, se a recessão ocorrer, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial deve alcançar 0,5% em 2012, número que pode chegar a 2,6% no caso de “a crise da dívida soberana ficar concentrada a uma ou algumas poucas pequenas economias”.
Para os autores do relatório, no entanto, as recentes medidas adotadas pelos governos europeus para conter a crise não são suficientemente eficazes. “O contágio da dívida soberana poderia achatar o crédito no mundo, e provocar uma quebra nos mercados financeiros, em um cenário com reminiscências do ocorrido em setembro de 2008 com o colapso do Lehman Brothers”, diz o texto.
EUA - O texto considera que as novas medidas de austeridade fiscal nos Estados Unidos levariam a uma recessão, por isso sugere ao Federal Reserve (Fed, banco central americano) que responda adotando medidas monetárias mais agressivas. O relatório prevê aumento do PIB da União Europeia em 2012 de 0,7%, e de 1,7% em 2013. Para os Estados Unidos, a Unctad estima avanço de 1,5% em 2012 e de 2% em 2013.
A respeito dos riscos globais se as economias dos Estados Unidos ou da União Europeia entrassem em recessão, o relatório é taxativo: “Uma recessão na Europa ou nos Estados Unidos pode não ser suficiente para induzir uma recessão global, mas o colapso de ambas as economias seguramente teria força para tal”.
Diante dessa situação, o relatório considera que, no curto prazo, é preciso estímulo fiscal, coordenado internacionalmente, para gerar empregos. “Os países desenvolvidos deveriam ser mais cautelosos em não embarcar prematuramente em políticas de austeridade fiscal, diante do ainda frágil estado da recuperação e os elevados níveis de desemprego”.
A principal preocupação das nações em desenvolvimento terá de ser evitar que o aumento dos já voláteis preços das matérias-primas e a instabilidade das taxas de câmbio contamine o crescimento.
Brasil e América LatinaO PIB da América Latina e do Caribe crescerá 3,3% em 2012 e 4,2% em 2013, segundo o relatório da Unctad. O texto considera que a região teve um ‘crescimento robusto’ em 2011 - aumento de 4,3% do PIB -, uma melhora que, no entanto, representou uma ‘desaceleração’ com relação aos 6% obtidos em 2010.
(…)

13 janeiro 2012

O Enem ideológico dos petistas_Por Reinaldo Azevedo (Veja.com)

O estudante Michael Cerqueira de Oliveira, bolsista da escola Lourenço Castanho, em São Paulo, que teve a sua nota de Redação alterada de “anulada” para “880 pontos” (de um total de mil), recebeu do MEC os critérios da correção da prova. O ministério se limitou a reproduzir os quesitos que já eram públicos, acrescentando, e isso não se sabia, que cada um deles vale 200 pontos:
1 - Demonstrar domínio da norma culta;
2 - compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo;
3 - Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista;
4 - Demonstrar reconhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação;
5 - Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, demonstrando respeito à diversidade e aos direitos humanos
Muito bem! Mas por que a redação de Michael - um rapaz de família modesta, que só tem bolsa numa escola privada porque excelente aluno - tinha sido anulada? Porque o primeiro corretor escreveu em sua prova: “Fuga ao tema”. O estudante recorreu à Justiça, o texto foi relido, e, como se sabe, ele não só “estava no tema” como deve ter tido um ótimo desempenho em cada um dos itens. Lembremo-nos: a redação vale nada menos de 50% da nota do Enem, o que já é um absurdo! Um erro, ainda que nem tão escandaloso como esse, pode prejudicar terrivelmente a vida dos jovens, que já não sabem, em razão da aplicação da tal Teoria da Resposta ao Item (TRI), por que obtiveram, nos testes, essa ou aquela nota. Hoje, a situação é rigorosamente esta: “Façam a prova; pouco importa se vocês vão acertar ou errar: a nota será sempre uma surpresa…
A cada vez que leio esses cinco itens da correção, sou levado a pensar na miséria moral e intelectual do ensino no país.  Há muito tempo chamo a atenção para o fato de que o Enem convida o aluno a dissertar sobre uma tese previamente definida, sempre com viés de esquerda. Em nenhum país do mundo democrático um exame público serve como filtro para barrar os que não se orientam pela metafísica do poder. Isso está em curso no Brasil, e é uma vergonha que as escolas privadas ainda não tenham botado a boca no trombone. Estão deseducando os estudantes.
Ora, prestemos atenção àquele quinto quesito da correção: “Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, demonstrando respeito à diversidade e aos direitos humanos”. Digam-me: pode haver algo mais subjetivo do que isso? No raiar de 2009, o governo federal lançou, vocês devem se lembrar, o “Plano Nacional (Socialista) dos Direitos Humanos”. Entre outros mimos, havia lá a defesa da descriminação do aborto - lembro que a Declaração Universal dos Direitos do Homem defende a vida… -, a censura à imprensa e a decretação, na prática, do fim da propriedade privada: no caso de uma invasão, um juiz só poderia determinar a reintegração de posse depois de ouvidos invadidos e invasores… Ou seja: o criminoso era considerado parte da solução.
Muito bem! Um aluno que, por qualquer razão, argumentasse contra a invasão de terras - e em defesa, pois, da Constituição - estaria ou não “respeitando os direitos humanos”? Cito um outro exemplo, este ainda mais polêmico: o autor de uma redação que, sei lá, criticasse o casamento gay, evidenciando que o Supremo, ao tomar a decisão que tomou, desrespeitou um artigo da Constituição, estaria indo contra a diversidade?
Notem: estamos lidando com valores. A sociedade brasileira é plural e pluralista. Não cabe ao Estado - ou a qualquer uma de suas franjas - decretar o “certo” e o “errado” no terreno das escolhas individuais, morais. Um estudante que, no curso de uma argumentação qualquer, defendesse, por exemplo, a ação da Polícia Militar de São Paulo na cracolândia estaria, entendo, fazendo a defesa dos direitos humanos dos moradores da região, dos comerciantes honestos e, sim!, dos viciados. Mas será esse o “valor” de quem está corrigindo a prova? Não é preciso ser muito sagaz para perceber que o quesito nº 5 incorpora como critério objetivo de correção de redação a patrulha politicamente correta.
Ouvia outro dia a conversa de alguns adolescentes que já perceberam como toca a música. Todos eles dominam os, como chamarei?, maneirismos ideológicos do Enem e de boa parte dos vestibulares concorridos. Isso quer dizer que já sabem o que podem e o que não podem escrever. Desenvolveram suas técnicas para passar pela vigilância esquerdopata. Fizeram até uma listinha das coisas que devem ser defendidas e das que devem ser criticadas.
- movimentos ‘occupy’ isso e aquilo”: a favor;
- novo Código Florestal: contra;
- energia eólica: a favor;
- hidrelétricas: contra;
- “consumo consciente”: a favor;
- influência americana no mundo: contra;
- Cuba: a favor…
Um gaiato ainda brincou: “Mulher feia: a favor; mulher bonita: contra”! E veio a galhofa da área feminina: “Homem rico: contra; homem pobre e limpinho: a favor”. E caíram na gargalhada.
Todo o “trabalho de conscientização” das esquerdas nos ensinos fundamental e médio tem servido para criar ou um geração de idiotas - os que levam a sério aquela baboseira - ou uma geração de pragmáticos cínicos, que escrevem aquilo que o “examinador” - eventualmente, o professor - quer ler, ainda que sua convicção seja outra. Ora, por que correr riscos?
Não nos damos conta do absurdo daquele quinto quesito. Um examinador não pode jamais ser um juiz das convicções de um candidato a uma vaga na universidade. Ainda agora, como sabemos, arma-se um cerco ideológico contra a correta atuação da Prefeitura e do governo de São Paulo na cracolândia. Segundo os críticos, manter aqueles pobres zumbis nas ruas é uma questão de respeito aos… direitos humanos!!!
O Enem se transformou no maior vestibular do mundo, orientado por critérios ideológicos e gerido por incompetentes. Uma redação “880″ tinha sido “anulada”. Imaginem quantas tolices anuláveis não ganharam 880 só porque repetiram os chavões e clichês do humanismo oficialista…

11 janeiro 2012

J. R. Guzzo: Momento de aprender_Veja.com

Mais um artigo primoroso de J. R. Guzzo em Veja:


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O momento, mais do que nunca, é de aprender e não de ensinar (Foto: Iconica/Getty Iamges)
Publicado em VEJA em 28 de dezembro, artigo de J. R. Guzzo faz um balanço do ano de 2011. 

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Momento de aprender

J. R. Guzzo
J. R. Guzzo
É possível que 2011 seja lembrado, no futuro, como o ano em que o Brasil foi apresentado a uma das grandes miragens da sua história – e, ao mesmo tempo, teve todas as oportunidades de olhar para dentro do abismo que separa as suas aparências e as suas realidades. Na miragem, o Brasil aparece como um caso exemplar de sucesso mundial, uma nova potência capaz de ensinar ao resto do planeta, hoje em dia, a maneira realmente certa de fazer as coisas. Ela é anunciada, sem descanso, pelo evangelho do governo e turbinada pelo que dizem altos burocratas e empresários estrangeiros de passagem por aqui, órgãos internacionais especializados em distribuir notas de bom comportamento econômico e a imprensa escrita em outros idiomas, sobretudo em inglês. No mundo das coisas reais, que pode ser visitado por qualquer cidadão, a qualquer hora do dia e em qualquer lugar do território nacional, há um outro país, com outra alma e outra história a ser contada – e os fatos, nesse Brasil aí, não combinam em nada, ou quase nada, com a ideia de uma nação que enfim acertou a sua vida e virou modelo de virtude.
Não se trata, na verdade, de algo descoberto no ano que agora termina; mais exatamente, é uma prorrogação do espetáculo que o ex-presidente da República montou algum tempo atrás e que, desde então, não saiu mais do ar. Mas foi em 2011 que a visão do Brasil como uma sinfonia do bem e do certo chegou ao seu ponto máximo. Essa nota de aprovação com louvor começa com o julgamento, feito lá fora e também aqui dentro, sobre o desempenho da presidente Dilma Rousseff, às vésperas de completar seu primeiro ano de mandato. Dilma, na opinião da maioria dos que têm algo a dizer sobre ela, é um fenômeno. Um dos motivos mais citados para isso é que o país finalmente tem no seu comando uma presidente duríssima – para começo de conversa, não engole gente corrupta à sua volta e põe na rua, sem dó, quem é flagrado com a mão na massa. Em apenas seis meses, de junho para cá, demitiu seis ministros do seu próprio governo, soterrados por suspeitas de mau comportamento, e um sétimo que parecia infeliz no emprego; no momento, pelas informações disponíveis na praça, parece que há mais dois ou três na rampa de lançamento, prontos para ser despachados rumo ao espaço. Quem, antes dela, conseguiu algo parecido? Não esses bananas que, na avaliação do brasileiro comum, povoam a alta política nacional, e que não têm peito para demitir nem o homem do cafezinho.
O temperamento de pugilista da presidente, visível nas descomposturas que passa em ministros e outros arquiduques da burocracia federal, é mais um traço considerado admirável em sua gestão – no mínimo, é divertido. Acredita-se também, como verdade quase científica, que Dilma é uma das melhores administradoras públicas do mundo, a gerente top de linha que tanta falta vem fazendo ao Brasil desde o governador-geral Tomé de Souza. Para completar, a presidente é uma das peças-chave da crença segundo a qual o Brasil de hoje é um farol para o resto do mundo, com as importantes lições de conduta econômica e social que tem para dar. Gente muito séria, no exterior, está convencida disso. Dilma é descrita como uma heroína dos nossos tempos pelos mais respeitados órgãos de imprensa dos Estados Unidos e da Inglaterra – os que realmente contam na mídia internacional. A presidente fechou 2011, nessa área, com chave de ouro: assina um artigo na celebrada edição de fim de ano da revista inglesa The Economist, com destaque na capa, propondo o “modelo brasileiro” para as nações desenvolvidas e indicando o que se deve fazer para que o mundo de hoje seja mais bem governado.
O Brasil da fantasia, naturalmente, vai muito além da figura da presidente. No governo e fora dele, insiste-se, por exemplo, que hoje o Brasil está em condições de emprestar dinheiro ao Fundo Monetário Internacional – em vez de pedir, como era comum no passado. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, se mostra particularmente encantado com isso, como revelou, mais uma vez, na recente visita da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, a Brasília, quando foram trocadas ideias a respeito de uma possível contribuição brasileira de 10 bilhões de dólares para o caixa do fundo. O que mais se poderia querer como prova de que estamos, enfim, entre os grandes deste mundo? Gente de responsabilidade, na área pública ou privada, já vê o Brasil como uma nova China ou se orgulha de sermos pelo menos um Bric. O ex-chanceler Celso Amorim, por exemplo, tem certeza de que os Brics existem, com a mesma fé de quem acredita em disco voador; não admite que essas letras, basicamente, sejam apenas uma abreviatura para designar “Brasil, Rússia, Índia e China”, e que é utilizada pela imprensa para economizar espaço. O ministro Mantega é outro fiel da mesma  crença; imagina que vai discutir “com os Brics”, numa decisão “de bloco”, se aqueles 10 bilhões saem ou não. É o novo Brasil, dando as cartas mundo afora.
Já seria suficiente se essa feira de ilusões ficasse por aí, mas ainda temos o PAC, o maior conjunto de obras públicas do mundo. Temos o maior programa de ajuda aos pobres do mundo. Temos as lojas de “grife” que mais vendem no mundo. Temos multinacionais de cerveja, carne de boi e minério de ferro que estão entre as maiores do mundo. Temos cada vez mais bilionários na lista da Forbes. Temos a Copa e a Olimpíada. Temos o empresário Eike Batista. Na Avenida Europa e em sua vizinhança imediata, em São Paulo, olha-se com orgulho para concessionárias Maserati, Ferrari, Lamborghini, Bentley, Aston Martin; promete-se, para breve, uma loja da Rolls-Royce. Ainda em São Paulo, há hoje 500 helicópteros em atividade – é a segunda maior frota do mundo, superada apenas pela de Nova York. A renda per capita em Brasília bate recordes de crescimento. Comenta-se, com reverência, que os preços de muita coisa já começam a ficar mais altos no Brasil do que em Paris, isso para não falar em Miami. Eis aí mais um sinal óbvio de que subimos para a primeira divisão.
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São Paulo possui a segunda maior frota de helicópteros do mundo
Durante o tempo todo, porém, aparecem fatos que recomendam um segundo olhar para cada uma dessas coisas – e quando se olha de novo para elas, e para muitas outras, o que aparece é o avesso. As demissões em série de ministros, por exemplo: todos eles, sem uma única exceção, só foram expulsos do governo porque a imprensa, a começar por esta revista, publicou informações sobre a corrupção maciça praticada ao seu redor. Não houve nenhum caso em que a iniciativa de investigar a roubalheira tivesse partido do Palácio do Planalto; ao contrário, no único episódio em que a sossegada Comissão de Ética Pública, após muita meditação, recomendou que se exonerasse um ministro, a presidente ficou por conta – não com o ministro, mas com a comissão, a quem pediu “explicações”. O resumo da ópera é que todos os demitidos continuariam até hoje em seu cargo se nada tivesse saído na imprensa. Que “pulso firme” é esse? Continua sem explicação, igualmente, uma dúvida primária: se a presidente é a espetacular gerente a quem tanto se elogia, por que raios nomeou nada menos que seis ministros (ou sete, ou oito, ou sabe-se lá quantos) tão ruins assim? Nesse ritmo mandará embora uns trinta, mais ou menos, até o fim do seu governo – coisa para o livro dos recordes, sem dúvida.
Na verdade, toda essa prosa sobre a competência da presente administração continua sendo um dos grandes enigmas da Idade de Ouro que estaría­mos vivendo no Brasil de hoje. Não dá para entender como poderia funcionar bem uma máquina pública cujos níveis de inépcia, corrupção e vadiagem são comparáveis aos dos países mais atrasados do mundo. As evidências disso estão por todo lado. As obras de transposição do Rio São Francisco, como mostrou uma reportagem recente de O Estado de S. Paulo, estão semiabandonadas, e do pouco que se fez boa parte já começa a virar ruína; até agora não se conseguiu levar uma única caneca d’água para lugar algum.
Punições extremas foram anunciadas contra a multinacional Chevron pelo vazamento de óleo que acaba de provocar no litoral do Rio de Janeiro, mas nos últimos dez anos, segundo informou há pouco a Folha de S.Paulo, só uma das 93 multas aplicadas pelo governo nessa área foi paga; todas as outras 92, por sinal, foram dadas a empresas do grupo Petrobras. Um novo terminal do Aeroporto de Cumbica, que deveria ficar pronto neste fim de ano, está com problemas; parte da obra simplesmente acaba de desabar. A “ajuda ao FMI” é uma ficção; o Brasil apenas faz parte de um grupo de quarenta outros países que podem, eventualmente, contribuir com alguma coisa. Os outros Brics não perguntam nada ao Brasil antes de tomar alguma decisão sobre seus interesses. Pode haver, em São Paulo, fachadas da Lamborghini ou da Ferrari, mas, à sua frente, as calçadas são de Porto Príncipe.
Metade da população nacional vive sem esgoto – e por aí se vai. O momento, mais do que nunca, é de aprender e não de ensinar – aprender o que falta para que o Brasil se torne um país mais parecido com a potência que gostaria de ser. O resto é pura ilusão.

A farsa-tarefa de Dilma, por Celso Arnaldo

Vejam este texto de Celso Arnaldo sobre o cinismo petista em janeiro de 2012 sobre as chuvas e os desastres iguais aos de janeiro de 2011 na zona entre MG/RJ:


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(Foto: Ichiro Guerra/PR)
Celso Arnaldo Araújo
São seis os cavaleiros do pós-apocalipse que aparecem na foto que deveria figurar em qualquer dicionário universal junto à palavra Cinismo. Cinco envergam ternos circunspectos, um ostenta farda verde oliva; quatro estão de cabeça baixa, fingindo assumir a vergonha que não têm; um tem o olhar perdido no infinito a dois metros de distância, mas no fundo exulta: meia hora antes, salvara o empregão; o último, o de bigode em forma de símbolo do Batman, aparentemente balbucia alguma promessa morta no berço por sua incompetência científica e tecnológica. Sem ter como inovar ─ terceira missão de sua pasta – repete o anúncio feito por algum outro mentiroso exato um ano atrás, diante da devastação da região serrana pelas chuvas do verão de 2011: “Vamos fazer um mapeamento in loco para identificar as áreas mais vulneráveis e ajudar a Defesa Civil na remoção das famílias”.
A sétima figura da encenação galhofeira, única mulher presente a essa imagem da farsa como método de governo, é também o único membro do sinistro septeto a desfilar um olhar desafiador, de quem está à cavaleiro da situação – na qualidade de ministra da Casa Civil e gestora de mais um embuste inventado por Dilma, já saboreia a possibilidade de fazer cobranças imaginárias bem longe dos cenários da tragédia de 2012, ela e a chefa fingindo que é dor a dor que deveras nunca sentiram.
Há poucos minutos, no Blog do Planalto, a imagem revoltante ganhou um título arrasador, na acepção mais destrutiva da palavra:
“Governo cria força-tarefa para atuar nas áreas atingidas pelas chuvas”
Já no olho da matéria, começa a fantasia tonitruante, cheia de pompa e circunstância: “O governo federal vai criar uma força-tarefa, composta por 35 geólogos e 15 hidrólogos, para atuar nas áreas de risco dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, afetados pelas chuvas. A decisão foi tomada hoje (9) pela presidenta Dilma Rousseff em reunião com seis ministros no Palácio do Planalto. A força-tarefa vai trabalhar na identificação das áreas sujeitas a deslizamentos e inundações, de onde as famílias devem ser removidas pela Defesa Civil”.
E sabem da maior?
“Evitar mortes é nossa prioridade número um”, disse a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, em entrevista coletiva após a reunião com a presidente”.
A seguir, todos os homens de preto e o de verde oliva também falaram, sequencialmente, bem roteirizados pelas respectivas assessorias, numa espécie de jogral da fraude.
Para evitar as mortes que já ocorreram no ano passado e neste, incluindo a morte civil de quem perdeu tudo na vida, a presidenta que não chove no molhado também determinou que “os centros de operação e monitoramento permaneçam nos estados até fim de março para atuar nas ações de prevenção e reconstrução das cidades mais afetadas pelas chuvas”. O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aloizio Mercadante, informou em primeira mão – pelo menos para quem não viu os boletins de 15 dias atrás — que o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemanden) prevê fortes chuvas na região serrana do Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e Ouro Preto. Por essas e outras é que ele conta os dias de ir para a Educação.
Já o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, revelou que mais 800 quilos de medicamentos serão enviados para as áreas mais atingidas, “somando 12,8 toneladas o total já encaminhado pelo governo”, por decisão pessoal de Dilma assim que voltou das férias, numa estranha ênfase na abordagem epidêmica de uma inundação.
Por fim, segundo o Blog do Planalto, o ministro que hoje salvou o empregão, Fernando Bezerra Coelho, transmitiu, em nome da gerentona Dilma, solidariedade às famílias das vítimas do deslizamento na cidade de Sapucaia, no norte do Rio de Janeiro – a mais recente tragédia que o governo vai prevenir. E afirmou, sem ficar vermelho e sem rir:
“Vamos envidar esforços para resgatar as vítimas e oferecer apoio aos familiares.”
Ele já o ofereceu ao irmão burocrata, ao filho deputado e ao correligionário proprietário do terreno em Petrolina comprado e pago duas vezes.
Todo brasileiro que ainda não se afogou nesse mar de lama, de corrupção, de inépcia, da pior forma de cinismo que existe, o cinismo que mata, deve olhar compenetradamente para cada um dos descarados da foto e anunciar em alto e bom som:
EU SEI O QUE VOCÊS FIZERAM NO VERÃO PASSADO.

06 janeiro 2012

Caso em aberto_J. R. Guzzo

PUBLICADO NA REVISTA VEJA DESTA SEMANA

O ano de 2012 começa com uma porção de coisas que deveriam ter sido resolvidas pelo governo em 2011 e não foram. É natural. Não dá mesmo para resolver tudo, e menos ainda para resolver tudo da maneira mais certa. Robert McNamara, homem que muito mandou e muito errou no governo dos Estados Unidos, durante os sete anos mais complicados da Guerra do Vietnã, dizia que o grande problema dos governos deste mundo é que o dia tem 24 horas. É logicamente impossível, sustentava McNamara, qualquer governo fazer tudo o que precisa ser feito durante as 24 horas diárias que tem para funcionar; não dá tempo, pura e simplesmente. Como não há tempo, não se decide, ou então se decide com pressa ─ e aí é fatal que se acabem tomando decisões erradas. Tudo fica ainda pior, é claro, quando a essa dificuldade toda se junta a deliberação de não resolver questões que nada têm a ver com o relógio, na esperança de que elas desapareçam sozinhas. O problema, então, não é falta de tempo. É falta de vontade, e para isso não existe remédio.
Em matéria de história não resolvida, poucas se comparam à do ministro Fernando Pimentel, da Indústria e Comércio, que a esta altura poderia perfeitamente estar na condição de ex-ministro e de ex-problema, o que sem dúvida daria mais sossego para o governo e não faria a menor diferença para a indústria ou para o comércio. Mas não: eis que ele continua aí, sobrevivendo no ministério com equipamento de respiração artificial, e servindo de exemplo vivo de um desses surtos de rompimento com a realidade que se tornaram um dos hábitos mais curiosos do governo da presidente Dilma Rousseff. Como se sabe, segundo revelou O Globo no começo de dezembro, Pimentel recebeu 2 milhões de reais durante os anos de 2009 e 2010, período entre sua saída da prefeitura de Belo Horizonte e sua entrada no ministério Dilma; pelo que disse, esse dinheiro lhe foi pago por clientes privados, em troca de serviços descritos como de “consultoria”.
A história, em si, não é boa. Seu principal cliente, pelo que deu para entender, foi a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), conhecido cartório que representa interesses particulares mas se alimenta de dinheiro público para sobreviver, como acontece com suas irmãs espalhadas pelos demais estados brasileiros. Já o próprio Pimentel, na época em que recebeu os seus 2 milhões, era um personagem muito público; em boa parte desse tempo, aliás, trabalhou abertamente como um dos chefes da campanha para a eleição de Dilma. Estaria certa uma coisa dessas? Não deu nem para começar a discussão ─ na verdade, não deu sequer para saber, até agora, se ele fez mesmo o trabalho pelo qual foi pago, ou se apenas recebeu o dinheiro. A presidente, o ministro e todo o governo decidiram, automaticamente, que não havia coisa nenhuma para discutir, informar ou esclarecer. O que ocorreu foi um negócio entre particulares. É confidencial. Ninguém tem nada a ver com isso. Caso encerrado.
No mundo da lógica, normalmente, o procedimento é examinar primeiro os fatos e só depois, com base no que foi constatado nesse exame, chegar a uma conclusão. No governo Dilma Rousseff, chega-se primeiro à conclusão  e por aí mesmo se fica. A consequência, como no episódio das consultorias de Pimentel, é que os problemas não fecham. Como poderiam fechar, se não são respondidas perguntas básicas sobre o que realmente aconteceu? Toda consultoria, no mundo das realidades, exige reuniões entre consultor e consultado, entrevistas com uma porção de gente, apresentações em PowerPoint, gráficos coloridos, curvas disso e daquilo. Mais que tudo, exige a apresentação de um relatório por escrito ao fim do trabalho, com as recomendações do consultor ao cliente. No caso, nem a Fiemg nem Pimentel comprovaram que houve qualquer reunião, entrevista, apresentação etc. E o relatório final? Isso, pelo menos, existe? Ninguém, até agora, respondeu a nenhuma pergunta a respeito. Outro enigma são as conferências que, segundo a Fiemg, Pimentel fez para seus associados, e que justificariam uma boa parte dos pagamentos que recebeu. De novo, aqui, temos problemas com a realidade. Onde foram dadas essas palestras? Em que dias? A que horas? Quem assistiu a elas? Não se sabe.
A respeito disso tudo, a presidente da República, no fim do ano, fez uma declaração extraordinária. “Se quiser falar, ele fala”, disse Dilma. “Se não quiser, ele não fala.” O governo imagina, ao tratar o público dessa maneira, que está sendo forte. Está sendo apenas incompreensível.

Já esqueceram o Pimentel?

Vejam o que o Augusto Nunes de Veja fala a respeito:

O andor de Bezerra não vai livrar Pimentel da procissão dos pecadores federais

O caso está encerrado, decidiram Dilma Rousseff e Fernando Pimentel, ambos grávidos de ansiedade pelo pronto engavetamento das histórias muito mal contadas que envolvem o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O caso está mais aberto que nunca, avisa o artigo de J. R. Guzzo na última página da mais recente edição de VEJA, reproduzido na seção Feira Livre. Como registra o texto, a chefe do Executivo ─ provavelmente animada com as festas da virada do ano ─ nomeou-se comandante também do Legislativo e do Judiciário para dispensar de quaisquer esclarecimentos aos três Poderes o velho parceiro de comunismo & clandestinidade. “Se quiser falar, ele fala”, resolveu o neurônio solitário. “Se não quiser, ele não fala”. Má ideia, alerta o texto de J. R. Guzzo.
Se optar pela mudez seletiva, Pimentel vai anexar uma silenciosa confissão de culpa à pilha de provas e evidências que denunciam a presença, no primeiro escalão federal, de um ex-prefeito de Belo Horizonte que, antes de virar ministro, embolsou pelo menos R$ 2 milhões traficando influência fantasiado de “consultor”. Como a fila dos vigaristas federais não para de andar, o ministro e a presidente aparentemente acreditam que o andor ocupado por Pimentel na procissão dos pecadores já cruzou a zona de turbulência e foi substituído pelo que hospeda o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho. Logo saberão que se enganam.
No momento, o inventivo pernambucano que combate inundações no Sudeste plantando barragens em currais eleitorais no Nordeste lidera a luta por espaço no noticiário. Mas o duelo será equilibrado pela iminente divulgação de outro lote de maracutaias protagonizadas por um ministro do Desenvolvimento que não consegue encontrar explicações para o próprio desenvolvimento financeiro. Caso tivesse juízo, Dilma aproveitaria a farsa da “reforma ministerial” para livrar-se do duplo abraço de afogado. Como a superexecutiva de araque não sabe a diferença entre manifestações de autoridade e chiliques de debutante que errou na escolha do vestido de baile, talvez prefira manter no emprego esses anões morais paridos pela Era da Mediocridade.
Onde o país decente enxerga dois sócios remidos do clube dos cafajestes, Dilma vê um par de patriotas com a cara do Brasil que reinventou em parceria com o padrinho Lula. Faz sentido. Desde janeiro de 2003, as coisas mudaram muito nesses trêfegos trópicos. O cinismo eleitoreiro e a ganância de agiota, por exemplo, viraram virtudes.