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31 janeiro 2012

Para historiador, rigor de Dilma é “pura fantasia”

Por Gabriel Manzano, no Estadão:
A ideia de que a presidente Dilma Rousseff é uma boa gestora, como anunciam seus aliados e indicam as pesquisas de opinião, “decorre não de seus méritos, mas da baixa consciência política dos cidadãos”, afirma o historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Para ele, “não faz sentido considerar boa gestora uma presidente que está permanentemente em conflito com sua própria equipe, afastando auxiliares e, ao mesmo tempo, deixando de ir até o fim na apuração das denúncias”.
Essa mistura de má gestão com alto prestígio ocorre, segundo ele, “porque o Brasil é um país que foge inteiramente dos parâmetros”. A participação política dos cidadãos “é mínima e vive de espasmos, depois dos quais tudo volta logo à rotina”, acrescenta. Villa entende que, à parte o ato formal de se votar em eleições, a democracia “ainda está muito longe de se consolidar no País”.
Dizer que a presidente é uma grande gestora, diz ele, “é apenas mais uma invenção do PT”. Sua visão do petismo é que, assim como o partido inventou a falsa ideia de que foi o primeiro partido de trabalhadores, agora inventou que Dilma é uma grande gestora. “O PT tem conseguido construir sua própria história política, porque é o partido das invenções”, conclui.
Villa menciona desde iniciativas “importantíssimas” que foram para a geladeira, como o trem-bala, até projetos prioritários como a construção de creches, que praticamente não saiu do papel, além do ritmo lento do Minha Casa, Minha Vida, como “exemplos de uma gestão confusa e ineficaz”, que deixam claro que “sua fama de boa gestora é só propaganda”. A entrega das creches “revela, se não o desinteresse, a incapacidade do governo, e a construção de casas vai aos trancos e barrancos. Mas, do outro lado, o BNDES repassou bilhões a grandes empresas, para iniciativas nem sempre prioritárias”.
O historiador descreve como “pura fantasia” a ideia de que Dilma é “muito rigorosa” nas cobranças. “Se fosse, já teríamos gente punida, e a punição tornada pública, na leva das demissões por escândalos que atingiram seis ministérios.” Ao contrário, o que se viu, conclui, foram “elogios incabíveis aos demitidos” nas cerimônias de troca.

30 janeiro 2012

Raul Cutait, o médico que operou Lula, Covas e Gianecchini: “Quem deve decidir é o paciente"

Nas páginas amarelas de Veja desta semana:

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Raul Cutait: "Respeitar a vontade do paciente é algo relativamente novo na história da medicina" (Foto: Alexandre Schneider)

Por Adriana Dias Lopes, cujo título original vai abaixo.
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Raul Cutait: Quem decide é o paciente

O cirurgião que operou José Alencar e o ator Gianecchini diz que as decisões na medicina devem obedecer a um novo componente ético — a vontade do doente

Em 38 anos de profissão, o cirurgião Raul Cutait, de 61, fez cerca de 8 000 cirurgias, escreveu nove livros e publicou uma centena de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais. Ainda assim, ele considera que continuar aprendendo e praticando a arte de ouvir os pacientes é essencial para aprimorar mais ainda suas habilidades na cirurgia digestiva, sobretudo aquelas destinadas à extração de tumores cancerígenos.
O ex-governador Mario Covas, a governadora Roseana Sarney, o ex-vice-presidente José Alencar e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foram alguns de seus pacientes famosos. Cutait divide suas doze horas diárias de trabalho entre as salas de cirurgia do Hospital Sírio-Libanês, os alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e o consultório.
Até que ponto a vontade do doente deve prevalecer no processo em que o cirurgião avalia o procedimento a seguir?
A vontade do paciente deve ser levada em conta em toda e qualquer circunstância. Essa é uma tendência que começou a se estabelecer nos Estados Unidos há mais de trinta anos. O objetivo inicial era resguardar o médico de processos judiciais posteriores. Mas essa abordagem evoluiu e tornou-se um bem para o paciente e para a própria medicina.
Ser honesto sempre foi obrigação de todo profissional sério. Mas respeitar a vontade do paciente é algo relativamente novo na história das ciências médicas. Na minha opinião, a vontade do doente tem de prevalecer, seja qual for a situação. Quem decide é ele.
O ex-vice-presidente José Alencar, morto no ano passado de câncer, enfrentou cirurgias grandes e complexas, mas não escondia de ninguém que não queria ser colostomizado. Mesmo assim, o senhor realizou nele esse procedimento. O que aconteceu?
Em julho de 2009, minutos antes do início de uma cirurgia de extração de diversos tumores dos intestinos, o vice-presidente me pediu para fazer tudo o que fosse possível, com exceção da colostomia. “Prefiro morrer”, disse ele. Eu sabia que seria um procedimento complicado e que a probabilidade de a colostomia ser necessária era alta. Mesmo assim, concordei.
Durante a cirurgia, percebi que a colostomia era praticamente inevitável. Porém, guiado pela vontade expressa do paciente, decidi evitar a opção que ele temia. Estava consciente de que aquela não era a conduta ideal, mas era o que ele queria.
Depois da cirurgia, José Alencar me agradeceu por ter cumprido o que havíamos combinado antes. Quinze dias depois, tive de reoperá-lo. O procedimento temido por ele tornara-se incontornável. O vice-presidente entendeu e não se opôs mais.
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O ex-vice-presidente José de Alencar capitulou e aceitou um procedimento que de início não queria de modo algum: "a vontade de viver prevaleceu" (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Prevaleceu a gravidade da situação, e não a vontade do paciente, certo?
Eu diria que a vontade de viver prevaleceu. Minha proposta era convencê-lo a aceitar a solução que preservaria sua vida naquele momento.
Se a vontade do paciente for desistir de lutar contra a doença, como deve proceder o médico?
Eu respeito a vontade dele e interrompo o tratamento.
Mesmo que isso signifique a morte do paciente?
O que não posso fazer, e não faço, é proativamente abreviar a morte de um doente, mesmo que em estado terminal. Isso é eutanásia. Estou falando aqui de deixar de oferecer procedimentos agressivos, complexos e dolorosos quando a perspectiva e a qualidade de sobrevida são limitadas.
Na relação médico-paciente, conversa-se o bastante?
Infelizmente, cada vez menos. Essas conversas são mais comuns no sistema privado de saúde.
A maior parte dos médicos que atendem pelo sistema público de saúde ou por convênios se vê obrigada a cumprir uma agenda que os limita a ter com o paciente consultas muito rápidas.
Quanto tempo deve durar uma consulta ideal?
Depende. Eu só sei a hora em que começo a consulta. A maneira que escolhi para administrar meu consultório é não registrar o tempo das consultas. Algumas duram vinte minutos, outras uma hora. Isso independe da gravidade do caso. O importante é ouvir o paciente.
Isso ficou claro para mim logo no começo da minha carreira. Um episódio, em especial, me marcou. Eu estava no primeiro ano de residência médica no Hospital das Clínicas em São Paulo, onde fazia a triagem dos pacientes do pronto-socorro, separando os casos urgentes dos demais. Um dia apareceu no hospital um senhor na faixa dos 60 anos com escoriações no rosto. Nada de grave. Ele, no entanto, começou a chorar e logo contou que apanhara do filho. Vi que ele precisava falar. Entendi que eu precisava ouvir.
O senhor já cometeu erros?
Só não errou o cirurgião que nunca operou. Errar é parte de qualquer atividade humana, em especial quando em fases iniciais de aprendizado, e, assim, obviamente fiz coisas que poderia ter feito melhor.
Mas acho vital insistir em um ponto. Em medicina o compromisso do médico é procurar oferecer o melhor a seu paciente, o que nem sempre redunda no sucesso desejado, por causa de alguma intercorrência relacionada com o próprio tratamento ou outras variáveis, tais como as condições do paciente, as características da doença ou as circunstâncias do tratamento.
Inaceitável é o médico não procurar fazer o melhor que pode por seu paciente, mesmo que isso lhe custe esforços adicionais e sacrifícios pessoais. O que todo médico deve ter em mente é que cada resultado indesejado precisa motivar uma intensa reflexão, começando pela pergunta mais crua: será que errei? Eu poderia ter tomado alguma decisão diferente? O que será preciso fazer para evitar que esse evento indesejado ocorra no futuro em uma situação semelhante?
Essas perguntas refletem humildade, virtude que tanto se ensina cultivar nas escolas de medicina, mas que raramente se vê sendo praticada no cotidiano pelos médicos. A humildade é o instrumento mais eficaz na escolha da conduta médica mais adequada, porque ela coíbe a onipotência.
Qual é a diferença entre o erro médico e a intercorrência?
A diferença é abissal. O erro é fruto de inépcia, desleixo ou desconhecimento médico. A intercorrência é uma situação imprevista, que está associada ao procedimento mesmo quando executado corretamente.
O caso ocorrido com o ator Reynaldo Gianecchini (diagnosticado com câncer no sistema linfático no ano passado), que teve uma veia perfurada durante a colocação de um cateter, em procedimento realizado pelo senhor, foi uma intercorrência?
Sim. Foi uma raridade decorrente de uma questão anatômica. O cateter bateu em um ponto da veia subclávia, perfurando-a. Em determinado momento, o cateter não seguiu o trajeto normal. Essa é uma situação impossível de ser prevista. O que cabe ao cirurgião é estar atento para identificar a intercorrência e tomar todas as medidas necessárias.
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Reynaldo Gianecchini: intercorrência causou desconforto (Foto: Fernando Cavalcanti / VEJA)
Quais foram as consequências disso para o ator?
Ele ficou alguns dias a mais no hospital. E, claro, sofreu o desconforto de passar por uma etapa que não estava prevista no tratamento da doença. Em benefício da clareza e transparência, como tem de ser sempre, contei a ele o que havia se passado. O paciente entendeu e hoje somos amigos.
Confesso que fiquei chateado, como fico se alguma coisa não corre como o desejado. Mas o cirurgião não tem de camuflar o problema. Tem de enfrentá-lo com rapidez e envolvimento.
Em que momento da faculdade um aluno resolve que seu futuro profissional é ser cirurgião?
Isso varia muito. Alguns resolvem ser cirurgiões antes mesmo de entrar na faculdade de medicina, enquanto outros tomam essa decisão apenas nos últimos meses do curso médico. O interessante é que os futuros cirurgiões têm algo em comum: eles gostam de ação. Depois, de acordo com sua personalidade, suas habilidades técnicas e as oportunidades que encontra, o futuro cirurgião define, em geral no decorrer da residência  médica, qual será sua especialidade.
Eu, em particular, durante o curso de medicina fui trabalhar como estudante com um grupo de pesquisas em cirurgia cardíaca, empolgado pelos transplantes de coração capitaneados pelo professor Euryclides de Jesus Zerbini. Contudo, dois anos depois passei a trabalhar com outros grupos, cujo foco eram as pesquisas em cirurgia digestiva. Foi assim que encontrei meu caminho, mesclando ao longo de minha vida a assistência aos meus pacientes, o ensino aos meus estudantes e residentes e um pouco de pesquisa básica e clínica.
Apesar dos avanços da medicina, uma cirurgia, independentemente de sua complexidade, ainda implica risco de vida. Por quê?
Muitas pessoas pensam apenas na figura solitária do cirurgião quando imaginam uma operação sendo feita. Mas o ato cirúrgico envolve um número enorme de profissionais. Na sala de cirurgia somos cerca de seis a oito pessoas, que formam uma verdadeira equipe, no sentido de que todos buscam um mesmo resultado, mas cada um tem sua cota específica de responsabilidade. A do anestesista é grande. Quanto melhor ele faz  seu trabalho, mais condições proporciona ao cirurgião de se concentrar no ato cirúrgico em si.
O bom estado geral de saúde do paciente é decisivo para o sucesso da cirurgia, não?
Sim, mas infelizmente nem sempre os exames pré-operatórios são feitos com cuidado.
Nos Estados Unidos, onde tudo se mede, estima-se que, a cada ano, cerca de 100 000 pessoas morram em cirurgias por complicações que poderiam ter sido perfeitamente evitadas caso os pacientes tivessem passado por avaliações conduzidas da maneira correta.
Como um paciente pode ter certeza de que o cirurgião que vai operá-lo é qualificado?
Em primeiro lugar, o paciente deve escolher alguém com uma sólida formação. Segundo, é preciso ter em mente que a experiência do cirurgião propicia a ele a capacidade de tomar melhores decisões e, claro, dota-o de habilidades técnicas mais aprimoradas. Eu diria que um cirurgião precisa de dez a quinze anos de prática para atingir a maturidade.
Outro fator importante é a instituição na qual o cirurgião trabalha. O hospital tem de ser bem equipado. Parece óbvio falar disso, mas menos da metade dos hospitais brasileiros está plenamente apta a abrigar cirurgias de grande porte. Esse é um problema que aflige os médicos.
Uma das reclamações mais comuns de cirurgiões brasileiros é a impossibilidade de oferecer a solução para seus pacientes por falta de estrutura hospitalar. Nas pesquisas feitas com médicos em todo o Brasil, esse desconforto supera até as queixas por baixa remuneração.
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Para uma cirurgia, é recomendável sólida formação e experiência do cirurgião e hospital bem equipado (Foto: Getty Images)
Como anda o ensino médico no Brasil?
Estamos vivendo um momento especialmente perigoso. O Brasil tem 185 faculdades de medicina em funcionamento. Boa parte delas não tem condições básicas de oferecer cursos de medicina de qualidade.
O governo falhou clamorosamente ao permitir que esses cursos fossem abertos e falha ao permitir que eles continuem em funcionamento. São escolas sem corpo docente qualificado e sem estrutura hospitalar adequada ao  ensino.
Por isso, é insuficiente o número de vagas para a residência, etapa fundamental na qualificação do médico. Apenas 60% dos médicos formados hoje tiveram acesso à residência médica. Na medicina não basta ler o manual, é preciso praticar. É justamente na residência médica, sob a coordenação de um profissional experimentado, que se tem contato com as melhores práticas. A partir dessa etapa, cada um voará de acordo com sua competência, interesse e dedicação.
Seu pai, o cirurgião Daher Cutait, foi um dos grandes nomes da medicina brasileira. O senhor aprendeu muito com ele?
Meu pai sempre foi uma pessoa fechada. Muito do que aprendi com ele foi observando a dedicação que dispensava aos pacientes e sua paixão pela profissão. Desde cedo, sempre que podia, acompanhava-o ao trabalho. Lembro de brincar nos jardins dos hospitais enquanto o esperava acabar de operar. Vez ou outra meu pai me deixava ver seus pacientes.
Em casa, ele passava a maior parte do tempo lendo, estudando. Para estar  próximo a ele, fazia minhas lições de casa em seu escritório, ao seu lado. Nunca me esquecerei da felicidade estampada no seu rosto quando lhe comuniquei a minha decisão de ser médico.
Vi meu pai chorar três vezes na vida. Uma, quando um irmão dele morreu. Outra, quando um irmão meu morreu. Outra, quando entrei na faculdade de medicina.
Não apenas na sala de cirurgia, mas, talvez mais ainda do que isso, no aprendizado da relação médico-paciente, ele foi meu grande mestre.

27 janeiro 2012

Reprovado no Enem_José Serra

O Enem — Exame Nacional do Ensino Médio — foi criado pelo ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza, em 1998, como parte de um esforço para melhorar a qualidade das escolas desse ciclo educacional. Para isso,  precisava de um  instrumento de avaliação do aproveitamento dos alunos ao fim do terceiro ano, com o propósito de subsidiar reformas no sistema. Iniciativas desse tipo também foram adotadas nos casos do ensino fundamental e do universitário. Nada mais adequado do que conhecer melhor o seu produto para adotar as terapias adequadas. O principal benefício para o estudante era avaliar o próprio conhecimento.
O Enem é uma prova voluntária e de caráter nacional. As questões são as mesmas em todo o Brasil. Sua expansão foi rápida: até 2002, cerca de 3,5 milhões de alunos já tinham sido avaliados. Note-se que Paulo Renato chegou a incentivar que as universidades levassem em conta o resultado do Enem em seus respectivos processos seletivos. Em 2002, 340 instituições de ensino superior faziam isso.
Ainda que o PT e seus sindicatos tivessem combatido o Enem, o governo Lula o manteve sem nenhuma modificação até 2008, quando o Ministério da Educação anunciou, pomposamente, que ele seria usado como exame de seleção para as universidades federais, o que “acabaria com a angústia” de milhões de estudantes ao por fim aos vestibulares tradicionais.
A partir dessa data, dados os erros metodológicos, a inépcia da gestão e o estilo publicitário (e só!) de governar, armou-se uma grande confusão: enganos, desperdício de recursos, injustiças e, finalmente, a desmoralização de um exame nacional.
O Enem, criado para avaliar o desempenho dos alunos e instruir a intervenção dos governos em favor da qualidade, transformou-se em porta de acesso — ou peneira — para selecionar estudantes universitários. Uma estupenda contradição! Lançaram-se numa empreitada para “extinguir os vestibulares” e acabaram criando o maior vestibular da Terra, dificílimo de administrar e evitar falhas, irregularidades e colapsos. A angústia de milhões de candidatos, ao contrário do que anunciou o então ministro, Fernando Haddad, cresceu em vez de diminuir. E por quê?
Porque a um engano grave se juntou a inépcia. Vamos ao engano. Em 2009, o Enem passou a usar a chamada “Teoria de Resposta ao Item” (TRI) para definir a pontuação dos alunos, tornados “vestibulandos”. Infelizmente, recorreu-se à boa ciência para fazer política pública ruim. A TRI mede a proficiência dos alunos e é empregada no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) desde 1995,  prova que não seleciona candidatos – pretende mostrar o nível em que se encontra a educação,  comparar as escolas e acompanhar sua evolução, para orientar as políticas educacionais.
Como o Enem virou prova classificatória, o uso da TRI, que não confere pontos aos alunos segundo o número de acertos (Teoria Clássica dos Testes – TCT), renovou a “angústia”. O “candidato” não tem ideia da pontuação que lhe vão atribuir porque desconhece os critérios do examinador. Uma coisa é empregar a TRI para avaliar o nível dos jovens; outra, diferente, é fazer dela um mistério que decide seu destino. Na verdade, o “novo” Enem passou a usar a TRI para, simultaneamente,  selecionar alunos, avaliar o desempenho das escolas, criar rankings, certificar jovens e adultos que não completaram o ensino médio e orientar o currículum desse ciclo. Não há exame no mundo com tantas finalidades discrepantes.
A Teoria Clássica dos Testes não distingue o acerto derivado do “chute” daquele decorrente da sabedoria. A TRI pode ser mais apropriada como forma de avaliar o nível da educação, mas, como critério de seleção, vira um enigma para os candidatos. Os vestibulares “tradicionais”, como a Fuvest, costumam fazer sua seleção em duas etapas; uma primeira rodada com testes e uma segunda com respostas dissertativas — que não comportam o chute.
O Enem-vestibular do PT concentrou, ainda, na prova de Redação a demonstração da capacidade argumentativa do aluno. Além de as propostas virarem, muitas vezes, uma peneira ideológica, assistimos a um espetáculo de falta de método, incompetência e arbítrio. O país inteiro soube de um aluno da escola Lourenço Castanho, em São Paulo, que recorreu à Justiça e sua nota, de “anulada”, passou para 880 pontos — o máximo possível é mil. Outro, ao receber uma explicação sobre seus pontos, constatou um erro de soma que lhe roubava 20 pontos. Outros 127 estudantes conseguiram ter suas notas corrigidas. Atentem para a barbeiragem técnica: nos testes, recorre-se à TRI para que o “chute” não tenha o mesmo peso do acerto consciente, mas o candidato fica à mercê de uma correção marcada pelo subjetivismo e pelo arbítrio.
É conhecida também a sucessão de outros problemas e trapalhadas: quebra do sigilo em 2009, provas defeituosas em 2010 e nova quebra de sigilo em 2011. Além disso, os estudantes que, via Justiça, cobram os critérios de correção das redações, costumam receber mensagens com erros grotescos de português. Todos nós podemos escorregar aqui e ali no emprego da norma culta. Quando, porém, um candidato questiona a sua nota de redação e recebe do próprio examinador um texto cheio de erros, algo de muito errado está em curso.
Se o MEC queria acabar com os vestibulares, não poderia ter criado “o” vestibular. Se o Enem deve ser também uma prova de acesso à universidade, não pode ser realizado apenas uma vez por ano — promete-se duas jornadas só a partir de 2013. A verdade é que o governo não criou as condições técnicas necessárias para que a prova tivesse esse caráter. A quebra de sigilo em 2011 se deu porque questões usadas como pré-testes foram parar na prova oficial. O banco de questões do Enem não suporta a demanda. O PT se esqueceu de cuidar desse particular no afã de “mostrar serviço” — um péssimo serviço!
O ex-ministro Haddad, antes de deixar o cargo, fingiu confundir a crítica que fizeram a seu desempenho com críticas ao próprio Enem, o que é falso. Talvez seu papel fosse mesmo investir na confusão para tentar apagar as pegadas que deixava. O nosso papel é investir no esclarecimento.

26 janeiro 2012

Mercadante dá um show de bajulação explícita

Por Celso Arnaldo (Veja.com)

DILMA, SEGUNDO MERCADANTE: A VERGONHOSA AULA MAGNA DO NOVO MINISTRO DA EDUCAÇÃO
Celso Arnaldo Araújo
O bizarro bigode do ministro Mercadante – cópia escarrada do símbolo do Batman criado por Bob Kane – não é do tempo em que um único fio valia o compromisso assumido. Não que ele não seja suficientemente honesto para tal. Apenas é muito jovem. Quando ele nasceu, o bigode de Sarney já se melava no pires do gato. Na política brasileira, um bigode é tudo aquilo que Sarney representa.
Mas o bigode-morcego de Mercadante vale, sim, por um compromisso assumido – o de prestar vassalagem à presidente que o livrou do ostracismo de uma segura derrota em eventual tentativa de reeleição para o Senado; e lhe deu o consolo de uma pasta com a qual não tinha a mais remota afinidade – Ciência, Tecnologia e Inovação.
Em um ano e 22 dias de gestão, a única ideia conhecida de Mercadante para seu ministério foi sugerir que os hackers que infernizavam os sites da República fossem contratados para dar um upgrade na informática do Planalto. Os próprios hackers devem ter se recusado a entrar para o funcionalismo público, como pichadores que fossem convidados a usar o elevador social para deixar sua marca no topo do edifício–alvo. Porque nunca mais se falou no assunto. E nunca mais se falou no Mercadante.
O problema do Mercadante não é o fio do bigode – que ele os tem abundantemente – mas a mediocridade. E mediocridade também sangra os cofres públicos e as esperanças da nação. Sua promoção ao Ministério da Educação, depois do vazamento de Haddad, dá bem a medida de valor que o governo Dilma, fora do blá-blá-blá dos palanques e das entrevistas capengas, devota à Educação.
Mercadante só pode estar gratíssimo, reconhecidíssimo, por esse segundo “voto de confiança” da presidente Dilma. Daí não temer a exposição de sua bajulação explícita, despudorada, mistificadora, na cerimônia de posse do matemático Marco Antonio Raupp no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, agora livre de Mercadante.
Numa espécie de instrução de sobrevivência a seu sucessor, e na frente de Dilma, o agora biministro capricha no perfil mitológico da superexecutiva que, com sua eficiência, reduz a trainees Carlos Slim, Bill Gates e Eike Batista – mas que, pelo desempenho prático de seu governo, é a estagiária que ainda apanha para desatarrachar a garrafa térmica do café.
No fundo, o que faz Mercadante, em escandalosos 1 minuto e 48 segundos, é ensinar Raupp a ludibriar a presidente. Porque, seguindo essa mesma fórmula de três etapas, pelo menos oito ministros — os seis que ela tentou salvar e não pôde e os dois aos quais deu sobrevida por boca-a-boca e massagem cardíaca – conseguiram ludibriar por meses a mulher que sabe tudo de tudo, mas ainda não fez quase nada.
ETAPA N° 1
Primeira lição da aula-show do curso “Como se comportar num despacho com a presidenta”, ministrado pelo professor Mercadante, em língua que parece simular a sintaxe presidencial:

“Toda vez que cê levá um projeto, um programa, a primeira fase vai sê de espancamento do projeto (risos). O projeto vai ser disconstituído (sic) em todas as suas dimensões e, se não tiver muito bem consistente, você vai ouvir a seguinte expressão: Ele não fica de pé (risos). Conselho que eu dou, Raupp: não insista (…), porque a vivência administrativa e de governança e de gestão, você não vai convencê-la e vai perder tempo tentando. Volte para casa, junte a equipe, trabalhe intensamente e volte a apresentá o projeto”.
Deve ter sido exatamente assim que ganharam vida, em caráter de emergência, os projetos que prometiam acabar com as enchentes da região serrana do Rio, em janeiro do ano passado – espancados com carinhosas palmadas pedagógicas, foram aprovados por Dilma com louvor, entusiasmo, dinheiro e entrevistas chorosas depois de sobrevoos de helicóptero. Todos pararam em pé. Pena que as casas, não.
ETAPA N° 2
Para os projetos que não pararam em pé de primeira, uma segunda lição do ministro que aprendeu as manhas de Dilma:

“Mas quando cê voltá, se o projeto já tiver de pé, cê pode ouvir uma segunda expressão: Tá de pé mas ocê não vai entregá (risos). É gravíssimo, Raupp, volte e se dedique, aí uma semana, um mês, pra prepará e entregá o projeto, com gestão on-line de tudo o que for definido e o monitoramento em todos os detalhes do projeto”
Dilma tem razão em sua descrença: depois de serem espancados e ficarem de pé, a maioria dos projetos só foram materializados com o esforço concentrado da equipe. O ministro Bezerra Coelho botou toda a família pra trabalhar neles, em sua pasta – tudo acompanhado on-line e monitorado pela presidente que sabe de tudo. Pena que, entregues, não foram cumpridos na prática – com exceção dos de Pernambuco. Mas todos foram pagos assim mesmo, para demonstrar o apreço que Dilma tem pela família, o “berço de tudo”.
ETAPA N° 3
Terceira lição, para o caso de o projeto enfim ter ficado de pé e ter sido entregue, mas ainda não tiver sido pago pelo governo:

“Depois que você tem segurança de que ele vai ficar de pé e que você vai entregá, não espere que haverá novos comentários do tipo: agora Raupp, é na nona casa decimal que nós vamos discutir o projeto. É agora que vai começar a discussão”.
Beleza. É assim que Dilma, zelosa da nona casa decimal, cuida da casa da nona. Evitando o desvio e o malfeito. Dá um pouco de trabalho e um pouco de chateação participar dessas discussões intermináveis sobre a “nona casa decimal”. Até o ministro Raupp, matemático de fama internacional, está preocupado – porque nem no quadro-negro conhecia esse número infinitesimal. Mas foi assim, contando microtostões, que, segundo Mercadante, a presidente Dilma decretou o fim da roubalheira no Brasil.
“É a mais profunda verdade. E essa atitude é a atitude de quem tem compromisso com o gasto público, quem quer eficiência, quem quer que cada real pago por esse povo seja aplicado naquilo que é absolutamente fundamental ao Brasil”.
Nessa fase “stand-up comedy” de seu discurso, com a plateia recheada de figurões do PT e de membros do ministério de Dilma, incluindo os dois Fernandos, Mercadante acabava de entrar no que um velho editorialista carioca costumava chamar de “o perigoso terreno da galhofa”.