A resenha foi publicada originalmente em VEJA de 10 de agosto de 2011, sob o título de “O berço de um gigante: o jovem Churchill”.
MINHA MOCIDADE
Churchill narra seus primeiros 25 anos em um livro cheio de suspense e aventura, mas que contém as chaves para entender suas motivações mais profundas
Em tradução irretocável de Carlos Lacerda, político, jornalista e escritor morto em 1977, chega às livrarias a segunda edição de um livro extraordinário, Minha Mocidade (Nova Fronteira; 420 páginas; 79,90 reais), o relato autobiográfico dos primeiros 25 anos de vida de Winston Churchill. Nunca é demais reler Churchill. Nunca é demais ler mais livros escritos pela maior figura política do século XX, o homem que dizia ganhar “a vida com a garganta e a caneta” e que ganhou muito mais do que isso, ganhou a guerra contra Hitler usando com maestria aquelas mesmas armas.
De seus poderosos discursos transmitidos para a Europa ocupada pelas ondas curtas da BBC, disse o radialista americano Edward Murrow: “Churchill alistou a língua inglesa nas Forças Armadas e a mandou para o campo de batalha como ponta de lança de esperança para a Inglaterra e o mundo”. Em 1963, John Kennedy usou a mesma expressão, sem dizer que era de Murrow, ao conferir a Churchill o título de cidadão honorário dos Estados Unidos.
A melhor obra de um grande estadista que foi um grande escritor
Minha Mocidade é a melhor obra de Churchill, autor de 43 livros e centenas de artigos de jornal e dos discursos imortais. A melhor por nela exercitar com mais brilhantismo ainda seu formidável domínio do idioma inglês, o mais eficiente e flexível instrumento de expressão do pensamento humano. O livro foi escrito em 1930, quando Winston Churchill completou 56 anos e, tendo sido quase tudo na hierarquia política da Inglaterra, amargava um exílio longe do poder sem, é claro, imaginar as glórias que a vida lhe reservava, fosse como estadista, fosse como escritor.
Churchill escreveu Minha Mocidade pelos motivos mais básicos a mover os autores de grandes obras: dinheiro e glória. Nas suas páginas estão presentes as qualidades únicas que o levariam a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1953, assim descritas pela Academia Sueca: “Apenas em raras ocasiões temos grandes estadistas e soldados que também foram grandes escritores. Pode-se pensar em Júlio César, Marco Aurélio e até Napoleão… Mas Churchill pode ser comparado melhor ainda a Benjamin Disraeli (político e escritor de origem judaica, duas vezes primeiro-ministro da Inglaterra no século XIX). Ambos foram grandes atores da história e desempenharam formidavelmente o papel principal”.
A última carga de cavalaria da história militar — e ele estava lá
O papel principal foi sempre o único que satisfez Winston Churchill, proeminência que ele buscou com determinação em todas as fases da vida, tendo tido a sorte de ser correspondido pelas circunstâncias, como fica claro em diversas passagens de Minha Mocidade. Podia o jovem tenente Winston Churchill, com ambições de grandeza e de transcendência tão conspícuas, ter almejado algo melhor do que participar junto com o 21º de Lanceiros do que foi a última carga de cavalaria da história militar?
No capítulo 15 do livro ele narra sua participação nessa batalha, em que os ingleses derrotaram o exército de fanáticos “mahdistas”, seguidores de uma seita muçulmana messiânica que havia triunfado sobre os egípcios e os turcos no Sudão. Que tal, mais tarde, como correspondente na Guerra dos Bôeres, na África do Sul, ser capturado e escapar espetacularmente da prisão? O episódio rendeu ao jovem Winston fama instantânea na Inglaterra, abrindo caminho para a sua primeira eleição à Câmara dos Comuns e o início da ininterrupta carreira parlamentar que só cessou com sua morte, em 1965.
Expedições punitivas no Afeganistão
Tem especial sabor para o leitor atual a narrativa que Churchill faz das agruras dos militares ingleses em suas expedições punitivas aos indomáveis “pathans” do Afeganistão, país chamado de “fronteira noroeste”. Noroeste de Londres? Não. Noroeste da Índia, então a “joia da coroa” do império inglês. Churchill descreve a impenetrável geografia da região com seus vales plácidos circundados por formações montanhosas íngremes como agulhas e habitadas por etnias unidas (ora divididas) por indecifráveis acordos de sangue, de religião ou por teias ou ódios ancestrais ainda mais arcanos.
Desse cenário, onde por duas vezes Churchill se viu às portas da morte, a Inglaterra e, mais tarde, outras potências seriam expulsas pelos frugais e resilientes povos das montanhas – a União Soviética, em 1989, e, agora, como parece inevitável, os Estados Unidos. De tão movimentado e cheio de suspense, o subtítulo do livro de Churchill poderia ser eventualmente “O retrato do estadista quando jovem aventureiro”.
Um filho que tentou em vão mostrar seu valor ao pai
Mas Minha Mocidade é bem mais que um livro de aventuras. É também a investigação das motivações interiores de um filho que tentou em vão mostrar seu valor ao pai, Lord Randolph.
Alguns biógrafos reducionistas atribuem todo o ímpeto de Winston Churchill em busca de glória ao desejo de, a um tempo, triunfar sobre a sombra do pai e vingá-lo. Lord Randolph perdeu o posto de ministro da Fazenda ao cabo de uma manobra desastrada que, se tivesse dado certo, lhe daria mais independência dos políticos. Lord Randolph morreu desgostoso aos 45 anos. Winston tinha 20. “Quando releio esse livro tenho a sensação de ter feito o retrato de uma era extinta”, escreveu Churchill no prefácio de uma das edições inglesas, referindo-se ao longo reinado da rainha Victoria, um tempo já descrito como de “grandes homens e pequenos eventos”. Foi nesse período que nasceu e passou sua mocidade Winston Churchill, um grande homem e de um tempo de grandes eventos.


