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01 abril 2010

O 'discurso' de Dilma

Por Celso Arnaldo:
Momento histórico da crônica política republicana, no auditório do Anexo 1 do Palácio do Planalto, neste 31 de março. Se as urnas de outubro recolherem o bom senso e a justiça, ali foram proferidas as derradeiras palavras de Dilma Rousseff investida num cargo público neste país. Pelo menos nos próximos oito anos.
“Alô? Ah! Eu vô (sic) cumeçá (sic) saudando o nosso presidente, é, como é do protocolo mas também devido à importância dessa solenidade. Cumprimentá (sic) o Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados, vou cumprimentá (sic) os ministros que tão (sic) tomano (sic) posse. Tenho certeza (sic) que todos eles vão cumpri (sic) a missão que têm pela frente tão (sic) ou melhor do que nós fizemos…”
A voz está embargada, os olhos sinceramente marejados ─ e sua despedida da Casa Civil, traduzida por estas últimas palavras, terá a marca indelével da oradora que assombrou o país nos últimos meses. Tão ou melhor ─ para usar sua expressão tão precisa─ do que os grandes tribunos da História.
“Eu cumeço (sic) saudando a querida Erenice Guerra, ministra-chefe da Casa Civil”
Agora é oficial e não houve resistência. Mas, em outros tempos, pespegar o posto de ministra-chefe da Casa Civil ao nome da companheira Erenice seria guerra na certa ─ se alevantariam, inclusive da tumba, todos os antigos ocupantes da função, desde o tempo em que a casa era gabinete, em 1938.
“Sim, presidente, com o senhor, nós vencemos. E vamos vencendo a cada dia. Vencemos a miséria, a pobreza. Ou parte da miséria e da grande pobreza deste país. Vencemos a submissão, vencemos a estagnação, vencemos o pessimismo, vencemos o conformismo e vencemos a indignidade. Talvez, presidente, nós tênhamos (sic, sic, sic, mayday, mayday, mayday) vencido esse pesado resquício da escravidão que este país carrega ou que carregou tão forte”.
Tão impressionados com as obras do PAC 1, agora embrulhadas pra viagem para o PAC 2, nós talvez não tênhamos percebido que vencemos tanta coisa ruim e agora é tudo de bom.
Pena que ainda tênhamos escravidão no Brasil ─ isso nós também não tínhamos percebido. Dilma invoca o testemunho do ministro da Integração Racial, um austero senhor negro de óculos cujo nome não foi anunciado por ela, provavelmente porque o conhece tanto quanto nós:
“Ele sabe do que estou falando, porque neste processo nós continuamos vencendo mais de 400 anos de peso e de exclusão que pesa e que oprime nosso país”.
Esses 400 anos de peso que pesa sobre nosso país põem um primeiro ponto final nesta análise do testamento político de Dilma Rousseff. Até aqui, passou-se pouco mais de um minuto e este último discurso durou quase uma hora.
Tão ou melhor emocionado que Dilma, preciso me refazer.