No horário eleitoral na TV e no rádio, nos comícios e em entrevistas, Dilma Rousseff continua recitando a fábula da menina boazinha que rasgava dinheiro quando via criança pobre. Repetiu tanto a historinha, tão confiável quanto uma cédula de 3 reais, que caiu outra vez mira certeira do jornalista Celso Arnaldo Araújo. Segue-se o texto que destrincha o palavrório.
CELSO ARNALDO ARAÚJO
“Tem uma cena da minha infância que eu não esqueço, apareceu um menino na porta da minha casa querendo comer, eu tinha uma nota de dinheiro, rasguei e dei metade a ela”.
Se eu escrevesse ou dissesse isso e o Nando Esposito me pegasse em flagrante, denunciando-me num post em sua coluna, eu tentaria justificar o “ela” com uma das cinco palavras femininas que antecedem na frase o pronome aparentemente invertido. Pela ordem em que elas aparecem:
1)Dei metade da nota à cena, justamente para montar a cena, que é pelo menos 50% inacreditável
2)Dei metade da nota à minha infância, como uma metáfora para minha jornada em busca da outra metade, vida afora
3)Dei metade da nota à porta, que foi onde o menino bateu
4)Dei metade da nota à casa, que precisava de uma meia reforma
5)Dei metade da nota à própria nota que acabara de ser leviana e até criminosamente rasgada (pela Constituição, vilipêndio de símbolo nacional), colando as partes com durex e reconstituindo seu poder de compra, por alguns instantes nulo para ambas as partes – Dilma e o menino.
Finalmente, se Dilma conhecesse algum rudimento de técnica narrativa em sua própria língua, poderia alegar que o “ela”, nesse caso, se refere a criança do sexo masculino.
Mas é evidente que o “ela” não apareceu aí por nenhuma dessas hipotéticas concordâncias. Todos concordamos em que essa nota bipartite nunca existiu e que esse menino é fruto da fantasia rasgada de Dilma, pois não?
Uma criança que já tenha suficiente maturidade para portar uma cédula de dinheiro no bolso do macacãozinho não a inutilizaria, nem na mais inocente das presunções, para dar um pedaço imprestável a um menino com fome, seja essa criança generosa e solidária a filha de Bill Gates ou a de um retirante do Vale do Jequitinhonha.
A menina Dilma já tinha a noção de que cédulas de dinheiro compram comida – mas não que elas só fazem isso quando inteiras. Em casa, provavelmemnte, nunca viu ninguém rasgar dinheiro.
Estranho esse descompasso de desenvolvimento mental. Será que por isso Dilma foi fazer Economia? Será por isso que Dilma Rousseff, futura presidente da República, é do jeito que é?
Resumindo: ele ou ela, tanto faz como tanto fez, nessa fabulosa impostura que não para de pé. Na verdade, é Dilma que não existe, nunca existiu com vida própria – como a metade da cédula que deixou uma criança dormir com fome naquele dia.
Nossa cédula, no próximo dia 3 de outubro, essa sim tem valor integral.
No Brasil, onde faltam a cólera e a ira santas, quem, senão elas, hão de expulsar do Templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? Ou exterminarão da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? Ou banirão da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, senão elas, a varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão públicos? Quem, senão elas, a precipitar do governo o negocismo, a prostituição política e a tirania? (Rui Barbosa)