O Instituto Datafolha, que se tem como "sério" até prova em contrário, parece que também está se lixando para a utilização das pesquisas como fator eleitoral" ao aplicar 50% dos questionários de 2a a 4a. feiras da semana passada e aplicar os demais 50% na 5a feira. Com que objetivo?
Reinaldo Azevedo analisa a questão, vejam:
"Não, não vou contestar pesquisas. O que não consigo, aí sim, é condescender com boçalidade, com burrice. Acho o Datafolha um instituto sério, já escrevi várias vezes. E isso me deixa ainda mais animado para, num particular, afirmar: “Epa! Assim não!” Minha contestação, se procedente, mudaria a ordem das coisas, inverteria os números? Eu não estou preocupado com isso. Não faço campanha eleitoral, embora alguns trouxas tentem provar o contrário. Minha contradita é bem mais simples: existe o certo, e existe o errado. Pode ser que, na semana que vem ou na seguinte, o instituto faça uma nova pesquisa, a que eu não tenha restrição nenhuma, e chegue ao mesmo resultado ou a uma distância ainda maior. Não importa!
NEM POR ISSO O QUE VEM DEPOIS CORRIGE O QUE VEM ANTES. NEM POR ISSO O QUE VEM DEPOIS REFERENDA O ERRO QUE VEM ANTES. É lógica. Eu sou lógico.
Um trecho do texto assinado pelo repórter Fernando Rodrigues, na Folha, gerou uma penca de comentários no blog que me deixou, de fato, espantado. Eu havia escrito, tão logo a pesquisa Datafolha foi divulgada, que parte dos que responderam o questionário havia assistido apenas à entrevista de Dilma Rousseff no Jornal Nacional. Pois bem, no aludido texto da Folha, lê-se:
“A pesquisa Datafolha teve cerca de 50% das suas entrevistas realizadas anteontem, quinta-feira, quando já era possível medir o efeito das entrevistas que os três principais candidatos ao “JN”. Os percentuais apurados nos dias anteriores não diferem dos de quinta-feira.”
Foi o bastante para que os tontons-maCUTs da política, do pensamento e da matemática viessem como horda: “Tá vendo? Foi 50% para cada um!” Bem, eu confio na democracia, claro!, mas, em horas assim, apelo: “Jesus nos proteja”. O que foi feito, amigo, de tudo o que a gente sonhou nas aulas de matemática?
É evidente que as linhas acima buscam, de modo um tanto oblíquo, negar qualquer fator de desvio, embora o referendem, já digo por quê. O que me deixou estupefato é que os gênios que leram o trecho entenderam que, assim como 50% responderam sem terem visto a entrevista de Serra (é o que está sendo informado acima), outros 50% o fizeram sem terem visto a entrevista de Dilma! E tudo estaria, pois, igual. Trata-se de uma interpretação verdadeira ANTAlógica!
Agora vamos à escolha do Datafolha
Trabalhei na Folha e já editei pesquisas lá. Nunca sofri pressão de nenhuma natureza, e sempre me parece um trabalho sério — refiro-me ao período que vai de 1992 a 1996. A direção do Datafolha mudou, mas creio que os critérios não. Adiante. Respeitar seu trabalho e sua história não me impede de apontar um problema e de fazer questionamentos lógicos:
- se o campo ia de 9 a 12, por que o Datafolha informa ter deixado 50% dos questionários para quinta, um dia depois da entrevista de Serra? Porque considerou, certamente, que era importante que as três tivessem ido ao ar;
- se o Datafolha admite essa relevância, por que, então, para metade da amostra apenas? O fator que influencia uma metade pode influenciar outra. Será que estou errado? Não! Eu não estou;
.- em que momento o Datafolha decidiu: “Opa! Pára tudo! Agora, só depois da entrevista de Serra” Isso já estava decidido desde o começo? Se estava, por que se considerou que metade deveria ver a entrevista dele e a outra metade não?;
- informa o texto que os percentuais apurados numa metade não diferem dos percentuais apurados na outra, o que evidenciaria a irrelevância do JN na pesquisa. Vamos ver:
a) quando se faz uma amostra, ela tem de ser representativa — expressar o Brasil no que diz respeito a região, escolaridade, renda, sexo, idade… Uma vez definida, só o conjunto fechado reproduz as características do todo;
b) ainda que o Datafolha tivesse mesmo conseguido fechar o resultado de metade dos questionários, ele só teria relevância se esses 50% da amostra reproduzissem a ponderação empregada para definir o todo. Duvido que o Datafolha possa assegurar isso;
c) finalmente, ainda que as duas metades reproduzissem rigorosamente os fatores ponderados que definiram o todo e ainda que seja verdade que elas apresentem o mesmo resultado, não há estatístico no mundo que possa assegurar: o JN seria inócuo para a metade que não viu Serra. Estariam, de novo, usando um fato posterior para explicar uma falha anterior.
Muda o quê?
Não estou acusando o Datafolha de fraude, não! E também não estou sendo oblíquo, tentando sugerir qualquer coisa além do texto. Eu nunca sou oblíquo, o que deixa muita gente até zangada, convocando-me a ser mais sutil às vezes. A minha síntese é esta:
- se o Datafolha julgava que o fator JN era irrelevante, não precisava ter adotado, então,o procedimento dos 50%;
- se adotou o procedimentos dos 50%, isso só evidencia que deveria ter adotado o mesmo critério para os 100%;
- ainda que as duas metades tenham apresentado o mesmo resultado, essa igualdade só seria relevante se cada uma delas reproduzisse o conjunto da amostra;
- mesmo na hipótese acima, as duas metades continuaram expostas a realidades distintas, e nada consegue mudar isso.
Não sei quando será feita a próxima pesquisa. Mas certamente será depois do início do horário eleitoral, que costuma influenciar bastante o comportamento do eleitor — Gilberto Kassab e Marta Suplicy que o digam, não é mesmo? Qualquer que seja o resultado, o efeito JN terá ficado no passado, assim como esse interessante debate técnico. Caso diminua a distância entre Serra e Dilma, o fato será atribuído à nova realidade. Caso se mantenha ou aumente, não faltará quem diga: “Viu, Reinaldo, como não havia problema?” E, pela enésima vez, num país acostumado a dispensar a lógica por um bom punhado de alfafa, se estará usando o que vem depois para referendar o erro que veio antes.
O Datafolha é sério. A explicação é furada. E dois mais dois continuam a ser quatro.