Pesquisar este blog

11 outubro 2010

Institutos de pesquisa ou 'lojas' de 'porcentagens'? _ Por Augusto Nunes (Veja)

Um dia antes da eleição, a última pesquisa do Vox Populi liquidou a fatura em favor de Dilma Rousseff: com 57% das intenções de voto, a candidata de Lula e do instituto foi dispensada da disputa do segundo turno —por uma diferença de muitos milhões de cabeças. “Fomos os primeiros a identificar o crescimento de Dilma”, gabou-se Marcos Coimbra, presidente da loja de porcentagens. Esqueceu-se de combinar com as urnas: terminada a contagem dos votos, os 57% foram reduzidos a 46%.
Entre a profecia de Coimbra e o encerramento da apuração, quase 14 milhões de brasileiros sumiram misteriosamente no buraco negro escavado por 11 pontos percentuais. É uma demasia de gente, mas comerciantes de índices não se abalam por tão pouco. Já na terça-feira, lá estava Coimbra no Correio Braziliense. Nem se deu ao trabalho de explicar o desaparecimento da imensidão de eleitores. Preferiu ensinar que até um caso de polícia tem seu lado positivo.
“O bom é que tudo isso mostra que o efeito da divulgação de pesquisas na opinião pública é muito menor do que temem alguns”, recitou. “Se dependesse delas, Marina teria tido metade da votação que obteve”. Quer dizer: o Voz Populi imaginava que a manipulação dos números elegeria a candidata do instituto já no dia 3. Infelizmente, a influência dos truques e acrobacias não abreviou a canseira.
Em paragens civilizadas, os coimbras da vida passariam a semana sentados no meio fio, chorando lágrimas de esguicho e examinando as opções possíveis: sair em desabalada carreira ou apresentar-se à delegacia mais próxima, escoltado por um advogado que cobra por minuto. Mas o País do Carnaval ainda não aprendeu a tratar como criminosos os especialistas em estelionato estatístico. Sem medo de cadeia, os ilusionistas preparam outro lote de pesquisas forjadas para que se dissemine a certeza da vitória governista.
Sem terem sequer balbuciado desculpas pelo fiasco no primeiro turno, estão prontos para o segundo ato da farsa. Tomara que os pesquisadores de araque reprisem a fraude. Depois de surpreendidos pela gargalhada coletiva dos brasileiros decentes, serão desmoralizados de vez pelas urnas.