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23 janeiro 2012

73 mudanças na Constituição em 28 anos

... não sabemos, ainda, que país queremos

Publicado originalmente em 17 de novembro de 2011 por Ricardo Setti (Veja.com)
Amigos do blog, discute-se muito quais são os principais problemas do país. E aí aparece de tudo — desde a morosidade da Justiça à má distribuição de renda, dos altos índices de criminalidade à má qualidade da educação pública.
Campeões de Audiência
Campeões de Audiência
Não tem estado na agenda nacional, porém — pelo menos de maneira expressa –, um item fundamental: que país queremos que o Brasil seja?
Vejam bem, a próxima reforma constitucional (e não faltam, como veremos, emendas em andamento), quando for aprovada, será — segurem-se — a 74ª alteração a uma Constituição aprovada há apenas 23 anos. São 67 emendas constitucionais e 6 emendas chamadas “de revisão“, mas recebem esse apelido não por terem sofrido uma revisão ortográfica, e sim por haverem sido aprovadas cinco anos depois da entrada em vigor da Carta, que previa essa revisão automática.
A cada 3 meses e 24 dias, muda-se a Constituição
Feitas as contas, é uma coisa espantosa, absurda, sem pé nem cabeça: mudamos a nossa Carta Magna,, nossa lei fundamental, a cada 3 meses e 24 dias!
Com todo o respeito, nem regulamento de campeonato de futebol no Brasil muda tanto, e há muito tempo.
Só para comparar: a Constituição dos Estados Unidos foi emendada 27 vezes desde 1787 – uma alteração a cada 8,3 anos. A mais recente ocorreu há 19 anos. Na nossa Constituição, em dezembro do ano passado.
A Constituição da Espanha, desde 1978 regendo a vida de um país complexo, composto de várias nacionalidades, culturas e idiomas, e egresso de 36 anos de uma ditadura feroz instalada após uma guerra civil que causou 1 milhão de mortos, tinha sofrido até hoje apenas uma pontual alteração em 1992, para incorporar a elegebilidade de estrangeiros nas eleições municipais, em consequência do Tratado de Maastricht, um dos textos básicos da União Europeia.
constituicao-espanhola
Constituição espanhola: só uma alteração, em 1992, para incorporar um ponto do Tratado da União Européia; a outra entra em vigor apenas em 2020
Nossa Carta, na contramão da História
A segunda alteração se deu em setembro, como forma de conter a desconfiança na capacidade de o país honrar suas dívidas diante da maré da crise financeira, e estabelece que uma lei fixará limite para o déficit público.
A Constituição é tão levada a sério que houve um clamor nacional pelo fato de a emenda haver sido aprovada apenas pelo Congresso, embora por esmagadora maioria de 90% de votos devido ao acordo entre os dois grandes partidos, o Socialista, do governo, e o Partido Popular (PP), conservador, de oposição, e não ser submetida a um referendo. E isso para uma emenda que entrará em vigor em… 2020.
No Brasil, aprovada na contramão da História, a Constituição de 1988 atribuiu ao Estado um papel e um peso na vida do país que a experiência doméstica e internacional já tinham mostrado não ter mais sentido. O Muro de Berlim cairia um ano depois.
A “Constituição Cidadã” do dr. Ulysses Guimarães também não se sentou para fazer contas, distribuindo direitos para todo lado sem se preocupar com quem pagaria a fatura.
Ulysses Guimarães e a Constituição de 1988
Ulysses Guimarães e a Constituição de 1988, a "Constituição cidadã": ficou a pergunta - quem pagaria as contas de tantos direitos?
País “ingovernável”
Na fase final de discussões da Constituinte, o então presidente da República, José Sarney, que conviveria pouco mais de um ano de seu mandato (1985-1990) com a nova Carta, advertiu que o país se tornaria “ingovernável” com ela do jeito que estava sendo estruturada.
No governo Fernando Collor (1990-1992), o Palácio do Planalto realizou um levantamento em seu texto: ele continha cinco vezes mais a palavra “direito” do que a palavra “dever”.
Não é por acaso, pois, que só na Câmara dos Deputados tenham sido propostas desde sua entrada em vigor nada menos do que 2.702 emendas. Isto mesmo, amigos: duas mil, setecentas e duas emendas! Dessas, 225 aportaram na Câmara após aprovadas pelo Senado, e 2.477 se originaram do Executivo ou dos próprios deputados.
Delirante furor mudancista
Uma série de medidas propostas, sobretudo pelos governos que sucederam Sarney, se explica, é claro, pelo fato de que alterações, tendo em vista o timing ideológico da Constituição, eram, afinal de contas, necessárias. Mas o delirante furor mudancista corporificado em 2.702 emendas certamente reflete outro fenômeno, a respeito do qual pouco se fala: ainda não há, na sociedade brasileira, um consenso sobre como devem ser as instituições.
É evidente que a Constituição não forma o país, mas o Estado e o conjunto de leis que regerão os cidadãos. Não se pode negar, no entanto, que ela costuma ser o documento que exprime um consenso social sobre os rumos que o pais deve ter, que caminhos seguir, que contornos adquirir, que futuro ambicionar.
Nossa falta de convergência sobre os principais pilares sobre os quais deve se erguer o Estado, com sua brutal influência sobre a sociedade, é muito diferente do que ocorre nos Estados Unidos — para ficar de novo no exemplo da mais antiga República do mundo moderno e não falar de países civilizados multisseculares, como o Reino Unido.
Mesmo nas tumultuadas eleições americanas de 2000, nas quais o presidente George W. Bush, republicano, venceu o democrata Al Gore graças à anulação de cruciais votos democratas na Flórida, o respeito ao sistema, alvo do absoluto consenso geral, permaneceu incólume.
Carta constitucional norte-americana: 27 emendas em 224 anos
O preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos: em 224 anos, só 27 emendas. Nós, em 23 anos, já temos 73!
O resultado ficou constrangedoramente pendente durante mais de um mês – mas, quando a Suprema Corte decidiu o caso, o veredito foi engolido por todos e não passou pela cabeça de ninguém, a começar pelos democratas, contestar a legitimidade de Bush.
No Brasil, graças a Deus não mais derrubamos presidentes na marra. Mas faz-se greve contra decisão judicial, existem leis que não pegam, o flerte com o parlamentarismo continua – mesmo tendo sido o sistema maciçamente rejeitado no plebiscito de 1993 –, e uma corrente social forte como o MST debocha às claras da nossa “democracia burguesa”.
Nos EUA, o projeto de República dos fundadores foi desde sempre aceito e assimilado por todos — inclusive os dezenas de milhões de imigrantes que lá aportaram em busca do “sonho americano” – e quase santificado. Aqui, progredimos, mas estamos longe disso.