Aos 18 anos, iniciei minha vida profissional com CTPS assinada como office-boy da loja Credilar Centro -loja da senhora e esposa (a "madame") do Sr. Nathan -, onde ganhava a enorme cifra de 1 salário mínimo.
Após 5 meses que me renderam uma enorme experiência nessa "profissão" - misto de xereta e "sabe tudo", pois o antigo office-boy se metia em tudo, porque para tudo era usado (menos, é claro, para aquilo...) -, na qual aprendia-se como "se virar" na vida. Eu ia e voltava a pé do trabalho para casa e vice-versa, pela manhã e pela tarde, sob o esplêndido e escaldante sol manauara. Cheirava como um bode. Não por acaso havia um colega lá que apelidavam de "Bodinho".
Bem, deixei esse honroso cargo para estagiar na Secretaria de Obras da Prefeitura Municipal de Manaus, em 1972, sob a batuta do prefeito Franklin Abrahim Lima, como aluno de Estradas da Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam). Como estagiário da PMM, passei a ganhar 2 salários mínimos. Findo o estágio, fui contratado como Auxiliar de Engenharia I-7-A, com CTPS assinada e tudo, ganhando 6 salários mínimos. Não poderia ter sido um desfecho melhor de tão rápida "carreira"!...
Foi - como estão vendo - uma "carreira" meteórica para quem havia chegado em Manaus vindo do Careiro da Várzea (ainda não era município) em 1967, analfabeto aos 13 anos. Minha tia Alice Pinheiro pagou para eu estudar 2 anos na Escola Industrial Salesiana Domingos Sávio da Rua Visconde de Porto Alegre, na paróquia de São José, onde alem de estudar e fazer 'arte na madeira' assistia a todos os filmes clássicos de capa-e-espada, aventuras, comédias, e lia de tudo na sala de leitura dominical. Nunca esquecerei ambas: minha tia e minha escola. Ali aprendi a viver, amar e sofrer. Minha vida se circunscrevia à praça 14 de Janeiro, com expedições ao Parque Dez, ao Japiim, ao Igarapé do 40....
Quando tinha 21 anos, em 1975, fui recrutado e selecionado dentre todos os alunos do terceiro e do quarto ano do curso de Estradas da antiga Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam), passei no quarto lugar das 5 vagas, e fui trabalhar no INCRA (Projeto Fundiário Manaus) como Topógrafo (que minha namoradinha chamava "fotógrafo", coitadinha). Passei a ganhar então, além dos mesmos 6 salários mínimos, cerca de mais 25 diárias de campo ao mês (como topógrafo de campo). Não me limitei ao campo e nem à profissão de topógrafo. Passei no primeiro vestibular de que participei, em 1976, para o curso de Matemática da Universidade do Amazonas (UA, hoje Ufam).
A vida ia de vento em popa, fruto de muito estudo e dedicação, pois minha tia Alice me advertira de que não deveria nunca ser reprovado em nenhum curso, pois estava muito atrasado nos estudos.
Contudo, uma surpresa a vida me reservara: em 1977, após a morte de meu pai ceifado pelo câncer aos 55 anos, meus chefes do Incra, o superintendente José Carioca (um "coronel") e seu chefe do ASI (Assessoria de Informações do SNI - um "tenente"), Castelo Branco, me trancaram na sala do primeiro e sob ameaças de demissão me transferiram para Tabatinga...
Dessa forma, em um só golpe, me cortaram do curso de matemática, da minha vida familiar e da esperança por dias melhores em Manaus.
Sem entender as razões da transferência "manu militari" - pois estas nunca me foram dadas, a não ser aos berros naquela única ocasião: "...não tem 'que' nem 'por que'..., ou vai, ou te demitimos, seu merda! -, fui deportado... Minhas CTPS assim rezam: "demitido" em 31.07.1977 no PF-Manaus e "readmitido" em 01.08.1977 no Projeto Integrado de Colonização (PIC) Tabatinga.
Fiquei me perguntando: 'será que foi porque demarcava as terras dos colonos que não constavam dos Projetos?' 'Mas se eles viviam nas terras centrais e os técnicos do Incra nunca os encontravam, como poderiam constar dos Projetos?'. 'Será que foi por que eu era colega daquele 'comunista' do João Pedro?' (ex-senador suplente do Alfredo Nascimento). Nenhuma razão me foi dada. E nem mais perguntei. Segui a regra daquele velho agrônomo: "anula-te e vive..."
Após 2 longuíssimos anos em Tabatinga, onde li a Bíblia umas 4 vezes todinha (uma delas em espanhol - chique, não?), quando já achava que finalmente encontrara a razão da minha vida, ou seja, meu encontro com o Deus da Bíblia (que não tem nada a ver com o Deus dos padres nem dos pastores) e ter tempo para estudar tudo quanto me chegava às mãos, dos clássicos aos modernos... Estava numa felicidade de dar dó...
Foi quando novamente fui reencontrado por um outro meganha do Incra de Manaus, o qual, vendo o meu "estado de felicidade geral", novamente me transferiu na marra para Manaus... Ele me perguntou: o que você está fazendo aqui? Eu respondi: - bem, vocês é que me mandaram, para cá.... "Não tem 'que' nem 'por que'. Esteja transferido!
Novamente fui demitido e readmitido com requintes de crueldade: demissão: 31.07.1979 e readmissão: 01.08.1979, respectivamente (mudando apenas os anos nas datas). Chegando em Manaus, tive de fazer outro vestibular. Desta vez para Administração Noturno, uma vez que assim me diziam que seria possível estudar... Na verdade, não acreditavam que após o degredo de 2 anos em Tabatinga ainda seria capaz de emitir qualquer raciocínio lógico que demonstrasse algum parentesco como qualquer símio...
Quebraram - aliás, quebrei - a cara novamente. 'Quebraram a cara' por que logrei êxito...'Quebrei a cara' porque não me deixaram estudar coisa nenhuma. O lema daqueles tempos era o seguinte: "ou estuda ou trabalha...".
Bem, diante disso não me restou outra saída: passei a evitar as viagens e a estudar à noite sem que eles soubessem. Mas naqueles tempos todos sabiam de tudo... Me demitiram do Incra em maio de 1980... Fui trabalhar no Instituto de Terras do Amazonas (Iteram), órgão estadual onde pude estudar em paz... Lá cheguei a Diretor Técnico em exercício. Fiz o curso de Administração ente os anos de 1980 e 1984. Em 1985 prestei novo vestibular para Direito. Bingo! Terceira aprovação. 100% de aproveitamento. Êita Tabatinga boa, sô! Depois disso relaxei um pouco... Terminei Direito apenas em 1992. Nesse ano terminei também a Especialização em Docência Superior. Desde 1990 fui professor de administração do Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa), a primeira faculdade particular do Amazonas.
Fui então, depois de formado em Administração, delegado federal do Ministério da Agricultura do Amazonas, entre 1988 e 1990, por indicação do Senador Carlos Alberto De Carli.
Por indicação do Ministro da Justiça Bernardo Cabral, voltei triunfalmente ao Incra como seu Superintendente em agosto de 1990, mas fiquei pouco tempo, o suficiente para fazer uma devassa administrativa e jurídica naquele órgão - não por vingança ou coisa parecida, mas por solicitação do então Presidente Collor e do próprio Incra em Brasília, Sr. José Reinaldo Vieira da Silva. Isso rendeu a minha exoneração, pois as verdades que revelei feriu muitas susceptibilidades políticas. As patifarias reveladas eram muitas e de muitos milhões... muita gente grande estava envolvida.
Em 1994 ingressei com pedido de anistia política e logrei êxito, sendo reintegrado ao Incra, mas tendo de novamente bater em retirada por força de ter de escolher entre esse órgão e a Universidade Federal do Amazonas - Ufam, onde fui aprovado em concurso para docente do curso de Administração, minha grande paixão acadêmica. Entre 1991 e 1992 fui delegado federal dos ministérios dos Transportes e das Comunicações no Amazonas por indicação do senador Carlos Alberto De Carli.
Entre 1995 até hoje me dedico à faina diária de estudar e ensinar na Ufam. Fiz mestrado em 1999. Fui chefe do departamento acadêmico de Administração da Ufam em duas oportunidades: de 1998 a 2001 e entre 2008 e 2010. Fui representante da Ufam em Brasília entre julho de 2001 e julho de 2002.
Hoje luto pela indenização como anistiado político, mas não está fácil... Me pergunto: será por que não fui esquerdista suficiente lá em 1975-85? Ou será que me consideram hoje um direitista extremado? Por qual das ditaduras devo ser mais execrado? Por aqueloutra ou por esta?
Julguem os senhores que leem estas mal traçadas...








