Pesquisar este blog

24 março 2012

Governo não faz crescer o PIB sem aumentar a inflação

COISA DE FICÇÃO
É irreal a presunção dos governos de possuir superpoderes para inflar o crescimento do PIB com incentivos públicos, sem aumentar a inflação

super-dilma
O governo decidiu tolerar uma inflação mais elevada para, assim, permitir um crescimento mais acelerado.
As intenções da presidente Dilma Rousseff e de sua equipe foram escancaradas quando o IBGE divulgou o desempenho do PIB (o produto interno bruto, soma de tudo aquilo que é produzido pelo país) e confirmou a forte desaceleração da economia brasileira em 2011.
O crescimento foi de apenas 2,7%, um tombo expressivo em relação ao forte avanço de 7,5% em 2010. Tão logo os números foram divulgados, ministros e assessores de Dilma diziam que havia chegado a hora de o Banco Central (BC) apressar a queda nos juros.
No dia seguinte, o BC decidiu reduzir sua taxa básica, a Selic, de 10,5% para 9,75% ao ano. Os juros mais baixos, além de estimular a economia, teriam o efeito de combater a valorização do real.
Nem uma palavra sobre os riscos de alimentar a inflação
O governo promete ainda oferecer novos incentivos, entre eles a redução de tributos para alguns setores da indústria e também a ampliação das linhas de financiamento do BNDES. O objetivo declarado é alcançar um crescimento de pelo menos 4% em 2012.
Quanto aos riscos de essa política jogar lenha na fornalha da inflação, nenhuma palavra. O governo se julga assim dotado de superpoderes. Se fosse fácil assim, por que não fazer a economia crescer 100% ao ano, com inflação zero?
O exemplo é caricato, mas ajuda a explicitar a impossibilidade de os governantes sujeitarem uma economia a seus caprichos. A ideia de ter “um pouquinho mais de inflação para crescer um pouquinho mais” não é nova. Tem mais de cinquenta anos e foi aplicada nos Estados Unidos nos anos 1960.
Funcionou, mas por pouco tempo. A inflação foi se retroalimentando gradativamente. O erro dessa política foi explicitado pela revolução monetarista da Universidade de Chicago, liderada por Milton Friedman (Nobel de 1976).
Quando o governo tolera uma inflação mais elevada, as empresas e as pessoas incorporam às suas expectativas um aumento maior nos preços e nos salários. No fim, para evitar a propagação dessa bola de neve, foi necessário subir os juros e derrubar a atividade.
O passado mostra que, com juros menores, houve mais inflação
Mas o governo brasileiro parece não temer os riscos envolvidos. Segundo cálculos do economista José Júlio Senna, especialista em política monetária, a taxa real de juros (a Selic menos a inflação) foi de 9,4%, em média, entre 2005 e 2008. Nesse período, a inflação anual foi de 4,8%. No biênio 2010 e 2011, no entanto, a taxa real de juros caiu para menos da metade (foi de 4,2%).
Em contrapartida, a inflação média subiu para 6,2%. Conclusão: o governo aceitou um reajuste mais acelerado nos preços, optando por derrubar os juros.
“Apesar da queda expressiva nos juros, a inflação subiu, mas não explodiu”, afirma Senna. “Existem condições favoráveis, no momento, para que os preços não fujam do controle. Mas a história ensina que há riscos de essa política provocar pressões inflacionárias mais à frente.”
O caminho é aumentar a produtividade
Em outras palavras, de nada adiantará o governo incentivar o consumo se a oferta não crescer no mesmo ritmo. O resultado será apenas o aumento da inflação e das importações. A única maneira de acelerar o ritmo sem inflar os preços é ampliar a produtividade, indicador que mede a eficiência de um país em gerar riquezas a partir de seus recursos físicos e humanos.
O Brasil tem se saído mal nesse aspecto. Estudos do economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, revelam que a produtividade da economia brasileira não avançou nas duas últimas décadas. Nesse período, o indicador aumentou 10% nos Estados Unidos, 50% na China e 60% na Coreia do Sul.
“O Brasil passou por reformas importantes nestes últimos vinte anos, mas esse processo de ajustes perdeu velocidade recentemente. Ainda existem problemas sérios”, diz Scheinkman. “Na agropecuária, houve um crescimento significativo da produtividade, mas a indústria tem ficado para trás. Na média, a produtividade permaneceu estagnada.”
A “armadilha da renda média”
Em resumo, o Brasil avançou, mas numa velocidade inferior à de seus competidores, sobretudo pelas suas deficiências em educação, pesquisa tecnológica e infraestrutura. Para Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, o país terá de se esforçar mais se quiser deixar o bloco das nações em desenvolvimento e se aproximar das desenvolvidas.
“Os países bem-sucedidos mantiveram um ritmo elevado de crescimento graças ao forte investimento em educação e infraestrutura, num patamar superior ao que o Brasil tem apresentado”, afirma Eichengreen. Para o economista, apenas assim será possível escapar da chamada “armadilha da renda média”.
Nos estágios iniciais de desenvolvimento, uma economia tira proveito da tecnologia e do conhecimento acumulado pelas nações ricas. Mas quando um país atinge padrões de renda média, como é o caso do Brasil, o crescimento passa a depender também das reformas internas e do investimento em tecnologia.
Japão e Coreia do Sul são exemplos de que se pode escapar dessa armadilha. Conclui José Alexandre Scheinkman: “Entendo a queixa da indústria com relação à perda de competitividade por causa do câmbio. Mas não será assim que resolveremos nossos problemas com a baixa produtividade”.
jose-julio-senna
José Júlio Senna, sócio da MCM Consultores e ex-diretor do BC (Foto: Mauro Nascimento / AE)
José Júlio Senna: “O governo e o BC aceitaram o aumento da inflação em troca de uma queda acentuada na taxa de juros e de um crescimento maior a curto prazo. Temo que pressões inflacionárias latentes sejam sentidas mais adiante, porém não prevejo uma explosão dos preços a curto prazo.”
barry-eichengreen
Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) (Foto: Guenter Schiffmann / Bloomberg News / Landow)
Barry Eichengreen:“As perspectivas são favoráveis, mas o Brasil precisa se esforçar mais. Os países que mantiveram taxas elevadas de crescimento por um período prolongado investiram pesado em educação (mais do que o Brasil tem feito) e na infraestrutura (bem acima dos níveis brasileiros).”
jose-alexandre-scheinkman
José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton (EUA) (Foto: Gilberto Taday)
José Alexandre Scheinkman: “O Brasil passou por reformas importantes. Mas existem problemas sérios, como a falta de pesquisa tecnológica e a infraestrutura ruim, que se manifestam na baixa produtividade. Desde 1990, a produtividade cresceu 60% na Coreia do Sul e 50% na China. No Brasil, ela ficou estagnada.”
otaviano-canuto
Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial ((Foto: Sérgio Lima / FolhaPress)
Otaviano Canuto: “A questão da instabilidade econômica foi resolvida. É hora de retomar as reformas estruturais e atacar os gargalos que impedem o aumento da produtividade. Quanto antes retomarmos essa agenda, melhor.”
(Reportagem de Giuliano Guandalini publicada na edição impressa de VEJA)