
"Não
será governo de todos o comando dos poucos que estudaram bem, os
informados, levando pela argola do nariz de bicho domesticado milhões e
milhões de seres humanos cegos, aflitos ou alienados, que não sabem"
(Publicado em VEJA de 18 de julho de 2012)
O instinto animal
“Sendo bom esse instinto, o fator educação terá de ser
visto como o mais importante de todos na construção de um país mais
justo”
Alguns traduzem por “instinto animal” o que o economista inglês John Maynard Keynes na década de 30 descreveu como animal spirit,
isto é, espírito animal. A tradução do termo original não importa
muito, importa o que significa, e significa várias coisas: o gosto ou a
capacidade pelo risco ao investir, por exemplo, quando se fala em
empresários e economia.
Neste artigo tomo a expressão como nossa capacidade geral de sentir,
pressentir algo, e agir conforme. Isso se refere não só a indivíduos,
mas a grupos, instituições, Estados, governos. Sendo intuição e audácia,
ele melhora se misturado com alguma prudência e sabedoria, para que o
bolo não desande.
Não me parece muito apurado o espírito animal que, nas palavras de
uma autoridade, declara que empregar 7% do PIB em educação (e 10% em
mais alguns anos) vai “quebrar o país”. Educação não quebra nada: só
constrói. Sendo bom esse instinto ou espírito, o fator educação terá de
ser visto como o mais importante de todos. Aquele, sólido e ótimo, sem o
qual não há crescimento, não há economia saudável, não há felicidade.
A verdadeira democracia só floresce no terreno da boa educação e ótima informação do povo
Uso sem medo o termo “felicidade”, pois não me refiro a uma cômoda
alienação e ignorância dos problemas, mas ao mínimo de harmonia interna
pessoal, e com o mundo que nos rodeia. Não precisar ter angústias
extremas com relação ao essencial para a nossa dignidade: moradia,
alimentação, saúde, trabalho. Como base para tudo isso, educação.
Educação que pode consumir bem mais do que 7% do PIB sem quebrar
coisa alguma, exceto a nossa miséria nascida da ignorância; nossas
escolhas erradas nascidas da desinformação; nossa má qualidade de vida; e
a falta de visão quanto àquilo que temos direito de receber ou de
conquistar, com a plena consciência que nasce da educação.
A verdadeira democracia só floresce no terreno da boa educação e
ótima informação de seu povo. Pois não será governo de todos o comando
dos poucos que estudaram bem, os informados, levando pela argola do
nariz de bicho domesticado milhões e milhões de seres humanos cegos,
aflitos ou alienados, que não sabem; e que, se quiserem boa educação
desde as bases na infância, correm o risco de ser acusados de querer
quebrar o país.
Precisamos medir nossas palavras: cuidar do que dizemos, do que
escrevemos, e também do que pensamos e não dizemos. Podem acusar quanto
quiserem os empresários, os louros de olhos azuis, as elites, os ricos,
os intelectuais, não importa: mas não acusem de querer o mal da nação
aqueles que batalham pela mera sobrevivência ou por uma vida melhor, num
orçamento que tenha a educação como prioridade.

Educação
já, "para não estarmos entre os últimos nas listas de povos mais ou
menos educados e saudáveis, mas plenamente inseridos no mundo
civilizado" (Foto: Eduardo Martino/Documentography)
Na treva da ignorância nasce o atraso
Pois não é certo que da treva sempre nasce a luz: dela brotam como flores fatídicas o sofrimento, a miséria, a subserviência.
Na treva da ignorância nasce o atraso, de suas raízes se alimenta a
pobreza em todos os sentidos, financeira, moral, intelectual. Uma
educação bem cuidada e fomentada, com professores bem pagos, boas
escolas desde a creche até a universidade, com orientação sadia e não
ideológica, mas realmente cultural, aberta ao mundo e não isolacionista,
grande e não rasa, promove crescimento, nos insere no chamado concerto
das nações, e nos torna respeitados – nos faz incluídos, consultados,
procurados.
Na vida do país, cuidar é também iluminar a mente
Dirão que continuo repetitiva com esse tema: sou, e serei, porque
acredito nisso. Precisamos ter cuidados pelos que nos governam: se nas
relações pessoais amar é cuidar, na vida do país cuidar é nutrir não só o
corpo e fortalecer condições materiais de vida, mas iluminar a mente.
Para que a gente possa ter esperanças fundamentadas, emprego digno,
salário compensador, morando e trabalhando num ambiente saudável,
aprendendo a administrar nossos ganhos, poucos ou abundantes. Para não
estarmos entre os últimos nas listas de povos mais ou menos educados e
saudáveis, mas plenamente inseridos no mundo civilizado.
Parece utopia, aceito isso. Mas batalharei, com muitos outros, para
que ela se transforme na nossa mais fundamental realidade: simples
assim.
