Deu na Vejam Online. É um bom resumo do tão famoso REUNI do governo Lula e Dilma, parido por F. Hadadde e embalado por Mercadante, esses esoantos do lupetismo:
Por trás dos números do Reuni, a expansão das universidades se revela precária. No interior do estado, contêineres servem de sala de aula e de depósito para material que deveria servir para cursos da UFF. Em Angra dos Reis, alunos dividem espaço com escola
Cecília Ritto, do Rio de Janeiro (Veja.com)
Em vez de
salas, instalações do campus da UFF em Rio das Ostras utilizam
contêineres: obras atrasadas e gastos a mais com aluguel de estruturas
de lata - Luiz Montenegro
O quadro de docentes da UFF em Rio das Ostras não chega a 50% do
necessário e o prédio prometido para estar pronto até 2009, para
acomodar os alunos em salas, sequer teve o projeto aprovado
A meta lançada em 2008 pelo Reuni,
o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades Federais, é ambiciosa: dobrar o número de alunos de
graduação até 2018. Assim, a década a ser contada a partir da metade do
segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, nesse quesito, poderia ser
de glória para o ensino no Brasil, com a criação de mais portas de
entrada no ensino superior público e a formação de profissionais e
acadêmicos fundamentais para sustentar a transformação estrutural de que
o país necessita para seguir em frente. A análise fria dos números
mostra que, de fato, mais alunos ingressaram nessas instituições de
ensino e novos cursos foram abertos no interior dos estados. Mas a meio
caminho do ano estabelecido como alvo pelo programa o que se vê é um
abismo entre teoria e prática na criação de cursos, vagas e
infraestrutura para as levas crescentes de universitários.
A situação no Rio de Janeiro é emblemática. O estado que concentra
quatro das principais universidades federais brasileiras ganhou 6.397
novas vagas – passando de 21.023 para 27.420, um crescimento de 30% nos
primeiros dois anos da ‘década de ouro’ planejada pelo governo federal.
Nada mal, se a ideia for criar formalmente posições de matrícula. Mas na
instituição que mais cresceu no Rio, a Federal Fluminense (UFF), onde
foram abertas 2.056 posições de 2008 a 2010, o quadro não é exatamente
de uma ampliação da qual a população fluminense possa se orgulhar. A
saída para promover o crescimento a toque de caixa foi alocar turmas em
contêineres, em vez de salas com a estrutura que pede um curso
universitário. Ou seja: grande parte do que se comemora como expansão do
ensino superior estuda, atualmente, em universidades de lata.
A melhoria nas condições das faculdades Brasil afora faz parte da pauta
de reivindicações da greve prestes a completar dois meses. E é uma
queixa que une mestres e alunos. A UFF é o retrato, no Rio, de uma
expansão desordenada. Antes mesmo do Reuni – projeto criado em 2007, e
posto em prática no ano seguinte – havia uma política de interiorização
dos campi das federais, iniciado em 2003. É aí que começa a história da
UFF de Rio das Ostras, na região dos Lagos, onde atualmente há cerca de
40 contêineres que funcionam como salas de aula, salas de professores e
estoque de material. As estruturas de lata usadas como módulos escolares
custam, cada uma, dois mil reais por mês. A princípio, a universidade e
a prefeitura firmaram convênios para que professores de Niterói, onde
fica a sede, lecionassem na cidade. Em 2005, o executivo municipal de
Rio das Ostras acusou a UFF de ser deficiente em sua prestação de
contas. O Ministério da Educação entrou na discussão para repactuar a
negociação e o polo deixou de ser uma extensão para se transformar em um
campus autônomo.
Hoje, o quadro de docentes da UFF em Rio das Ostras não chega a 50% do
necessário e o prédio prometido para estar pronto até 2009, para
acomodar os alunos em salas, sequer teve o projeto aprovado. A estrutura
principal é uma escola pública desativada, onde há 12 salas de aula
para atender seis cursos – enfermagem, psicologia, produção cultural,
ciência da computação, engenharia de produção e serviço social –, quase
todos integralizados, ou seja, com todos os períodos em andamento. A
prefeitura, que goza de orçamento irrigado pelos royalties do petróleo,
fez doações de terrenos no entorno da escola para ampliar o campus. Até
agora só foram construídos um alojamento e uma clínica para psicologia
aplicada. Ambos estão fechados há quase dois anos, segundo relatos de
professores, à espera do habite-se, que é dado pela própria prefeitura.
Com a falta de prédios, foi necessário recorrer às estruturas de lata
para acomodar precariamente os estudantes. Aproximadamente 20 delas
também são usadas como local para armazenagem de material comprado e
guardado desde 2005. Há aparelhos de pressão, computadores, camas
hospitalares, mesas, carteiras, quadros. “É Tudo o que deveria estar
dentro dos prédios que não foram construídos”, explica o diretor do
Instituto de Humanidades e Saúde da UFF de Rio das Ostras, Ramiro
Piccolo. “No planejamento, era para termos um prédio com três blocos.
Não saiu do papel. Agora são feitas obras para erguer um prédio
multiuso, que será na verdade um tapa-buraco. Mas a ideia é tentar parar
de usar os contêineres”, explica.
A unidade da UFF de Campos dos Goytacazes – outra cidade onde jorram os
royalties – passa por problemas parecidos. Com o Reuni e a consequente
expansão do campus, houve o projeto de erguer um prédio até 2010 para
abrigar novos cursos. Em parte do terreno ainda nem foi feita
terraplanagem. A solução adotada também foi a de espalhar contêineres.
“Em 2010, começamos a alugar contêineres. Atualmente usamos cerca de 30.
Para o próximo ano, precisaremos de mais 20 porque os cursos estão
avançando e, além de demandarem salas, é necessário construir
laboratórios. Estamos crescendo em estruturas provisórias. Crescer é
motivo de orgulho para nós, mas temos problema de gestão do espaço.
Temos custo, atraso de aluguéis de contêineres. Estamos inventando novas
formas de gerir”, explica um professor que preferiu não se identificar.
De volta ao banco da escola – Em Angra dos Reis, a
unidade da UFF divide o espaço com uma escola de ensino fundamental,
apesar de desde 2009 ser prometido à universidade que as crianças serão
realocadas em outro local. Antes disso, o curso de pedagogia funcionou
por 17 anos em um colégio público, onde os estudantes do ensino superior
sentavam-se em carteiras infantis. A mudança para o novo local, há três
anos, ficou aquém do ideal. O único curso em Angra é o de pedagogia,
que se somará ao de políticas públicas a partir do próximo semestre. O
de geografia também está previsto para começar em breve. Quando isso
acontecer, não haverá espaço, e pode ser que mais contêineres apareçam
pelas unidades do interior.
Como a estrutura cedida para a universidade era um antigo alojamento,
há outros tipos de problemas. Todos os aparelhos de ar condicionados,
por exemplo, não podem ser ligados. O motivo: a rede elétrica não
aguenta e houve pane quando, no verão, tentou-se refrigerar as salas. As
calhas, de acordo com docentes, estão entupidas. Quando chove, o que
acontece com frequência no município, a biblioteca fica alagada. “Nós
professores e os alunos corremos para retirar a água, porque o pessoal
da limpeza não dá conta”, conta um docente.
Os contêineres da UFF são um caso extremo. Mas os problemas estruturais
se repetem em formas e graus diferentes nas outras federais do Rio. Em
maio, veio à tona a precariedade das instalações da UFRJ em Macaé, no
Norte Fluminense. Cinquenta estudantes do curso de medicina criado
naquela cidade desembarcaram na capital do estado para ter aulas na Ilha
do Fundão. A primeira turma de medicina da UFRJ de Macaé foi aberta no
segundo semestre de 2009, dentro da política de expansão do Reuni. Mas,
novamente, descobre-se que criar números de matrícula e expandir o
ensino universitário são coisas bem distintas.
Com a falta de professores em Macaé, os estudantes passaram parte do
ciclo básico em turmas da nutrição e da enfermagem. Segundo os
estudantes, havia apenas 12 docentes do curso de medicina, nem todos com
diploma de médicos, pouquíssimos com mestrado ou doutorado no
currículo. Os professores chegavam a pedir ajuda da turma para planejar a
aula e discutir o cronograma. Não havia sequer um laboratório de
anatomia, o básico do curso, que põe o estudante em contato com o corpo
humano.
No Rio, o grupo de Macaé disse ter sentido uma grande diferença no
ensino. Para corrigir o desnível, foi preciso repor aulas em um período
abaixo, pois o conteúdo não havia sido plenamente contemplado em Macaé.
“Parece aula de outro mundo”, diz Daniele Guedes Allan, de 29 anos, em
referência à maior qualidade dos professores do Rio.
Este ano, em abril, todos os matriculados na faculdade de medicina de
Macaé entraram em greve por 40 dias. Uma comissão composta pelo reitor,
vice-reitor, diretor do curso de medicina do Rio e mais dois professores
foram à cidade verificar os problemas. No município, detectaram que nem
o hospital Público Municipal de Macaé nem o hospital São João Batista
estavam aptos a receber as turmas de 5º período, momento em que começam
as aulas práticas. A solução encontrada foi a transferência das turmas.
Os estudantes começaram a frequentar o Hospital Universitário Clementino
Fraga Filho, no Fundão, e em seguida foram transferidos para o Hospital
Geral de Bonsucesso, no Rio.
De acordo com o diretor-geral do campus de Macaé, Gilberto Zanetti, os
problemas estão sendo contornados. A universidade firmou convênio com o
SUS há cerca de duas semanas, e os alunos passarão a ter aulas nos
hospitais da cidade do Norte Fluminense. “Estamos criando uma rotina.
Não estamos em uma”, diz Zanetti, confirmando o estado de instabilidade
que as planilhas do Reuni não mostram.
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