PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA
Embora nada contenham de realmente novo, são graves demais para não
serem rigorosamente investigadas as denúncias do publicitário Marcos
Valério Fernandes de Souza sobre o envolvimento pessoal do então
presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o mensalão. Como revelou
anteontem este jornal, em 24 de setembro passado o operador do esquema,
condenado na antevéspera pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas antes
de ser apenado a 40 anos de prisão, procurou a Procuradoria-Geral da
República para acusar Lula de praticamente tudo de que ele já foi
acusado desde que o ex-guerrilheiro e fundador do PT Paulo de Tarso
Venceslau foi expulso do partido por ter revelado, de público, o método
petista de governar visando, a qualquer preço, à maior permanência
possível no poder e à ampliação máxima da esfera do governo. De novo,
realmente, apenas as despesas pessoais de Lula bancadas por dinheiro
sujo do PT.
Além disso, no depoimento que se estende por 13 páginas, Valério fez
ainda diversas outras afirmações, entre elas a de que Paulo Okamotto,
amigo próximo de Lula e atual diretor do instituto que leva o seu nome, o
teria ameaçado de morte se não se “comportasse”. Em Paris, onde foi
colhido pela notícia, Lula se limitou a dizer que é tudo “mentira”. Para
a presidente Dilma Rousseff, trata-se de uma “lamentável” tentativa de
destituir o antecessor da “imensa carga de respeito” do povo brasileiro
por ele. O presidente petista, Rui Falcão, declarou que “a mídia e o
Ministério Público não deveriam dar crédito a alguém que, condenado,
tenta reduzir suas penas caluniando o PT”. Aqui e ali, talvez para
fomentar uma conveniente confusão, se disse que o Estado “denunciou”
Lula. O que o jornal fez foi apenas noticiar com apropriado destaque as
denúncias de Valério.
A desqualificação do denunciante, por sua vez, visa claramente a
impedir que as suas imputações sejam apuradas. O que conta, como também é
óbvio, não são os motivos que o levaram a falar aos procuradores, mas o
que possa haver de verdadeiro nas suas palavras. A título algum,
portanto, podem ser descartadas de antemão, por ser o que é quem as
proferiu. Assim se manifestaram o presidente do STF, Joaquim Barbosa
(que teve acesso “oficiosamente” ao texto), e dois de seus pares, os
ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, ao defender que Lula seja
investigado. A decisão cabe ao procurador-geral Roberto Gurgel. Ele vai
esperar o término do julgamento do mensalão, na próxima semana, para
resolver se tomará a si a incumbência ou se a encaminhará a uma
instância inferior do organismo, dado que Lula, ex-presidente, não goza
de foro privilegiado. Estará decepcionando quem passou a admirá-lo pela
atuação que teve no caso do mensalão, se decidir pelo arquivamento das
denúncias. Pressões nesse sentido não faltarão.
No julgamento do mensalão, Dilma instruiu a sua equipe a não se
manifestar ─ o assunto, argumentou, não envolvia o seu governo. Desta
vez, porém, fez saber que o Planalto se engajará na blindagem de Lula,
desacreditando aquele que, pela primeira vez ─ e com presumível
conhecimento de causa ─ apontou o dedo para o antecessor. A base aliada
não perdeu tempo em fazer a sua parte, a começar do titular do Senado,
José Sarney. Quando esteve no pelourinho por irregularidades na Casa,
anos atrás, Lula disse que ele não poderia ser tratado como “uma pessoa
comum”. Sarney acaba de retribuir a barretada, alçando Lula à condição
de “patrimônio do País”. Bons democratas que são, cada qual, portanto,
considera o outro invulnerável por definição. A rigor, foi o que o
ex-presidente vinha conseguindo, ao se manter no vestíbulo dos
escândalos que inundavam a copa e a cozinha de seu governo e as
dependências em geral de seu partido.
A mágica, ao que tudo indica, parou de funcionar. Algo realmente novo
e mais grave do que tudo que se sabia ate agora surgiu há cerca de três
semanas, quando a Polícia Federal expôs os malfeitos da namorada de
Lula, Rosemary Noronha, na chefia do escritório da Presidência da
República em São Paulo, em que ele a colocou. Agora vem Marcos Valério
pôr em xeque mais uma vez o alegado alheamento de Lula das enormidades
que os seus principais companheiros cometiam em benefício do governo
petista. Essa história está apenas começando.