Atenção! Este texto é longuíssimo, mas é histórico. Vale a pena ler "...para entender como se movem as esferas do poder no Brasil –
Executivo, Judiciário, Legislativo, governo, oposição, Receita Federal,
Polícia Federal, Caixa Econômica e imprensa", que "moeram" o caseiro Francnildo dos Santos. Vale cada linha. Publicado por Ricardo Setti em Veja.com.
Com outro texto de abertura, este post foi publicado originalmente a 12 de junho de 2011.
* * * * * * * * * *
Francenildo dos Santos Costa era caseiro, tinha 24 anos, quatro
bermudas, três calças jeans, cinco camisetas, três camisas, cinco
cuecas, três pares de meia, dois pares de tênis, um sapato e um salário
de 370 reais quando tudo começou, em março de 2006.
Com quadra de tênis, campinho de futebol, piscina e churrasqueira, a
casa de que tomava conta desde 1999 era grande, mas discreta. Ficava no
final de uma rua sem saída, num pequeno largo formado por cinco casas.
Era bege, tinha dois andares e câmeras de segurança no telhado. Sua
particularidade eram dois grandes portões de chapa de ferro, brancos, um
na frente e outro atrás. O terreno dava fundos para uma via expressa,
de modo que um carro poderia deixar a casa sem ser visto. Francenildo e a
mulher, Noelma, moravam numa edícula nos fundos do terreno.
Em 2003, o proprietário da casa, o advogado Luiz Antonio Guerra,
decidiu alugá-la e entrou em contato com um corretor chamado João
Gustavo Abreu Coutinho. João Gustavo trazia clientes para visitar o
imóvel, Francenildo abria a porta e ajudava a mostrar as dependências.
Com o tempo, os dois ficaram próximos, camaradas.
Um dia, o corretor apareceu com um homem de meia-idade, rechonchudo e
simpático, de cabelos ralos e um bigode largo que lhe caía feito um
circunflexo sobre a boca. Chamava-se Vladimir Poleto. Vinha de Ribeirão
Preto, no interior paulista, e falava em nome de um grupo de amigos que
procuravam uma boa casa na capital federal. Depois de percorrer o
jardim, avaliar a piscina, medir a sala e ver os quartos, pareceu
satisfeito. Abriu a porta do carro e, antes de dizer ao motorista
Francisco das Chagas que partisse, avisou ao corretor que entraria em
contato.
O negócio foi fechado no dia seguinte. Vladimir Poleto praticamente
dobrou o salário do casal de empregados: “Agora você vai ganhar 700
reais e tua mulher também.” Francenildo se alegrou, e não teve problema
em concordar – “Claro, é o senhor que está me pagando” – quando Poleto
estabeleceu as novas regras: “O que acontecer aqui, você não conta a
ninguém, principalmente ao dono da casa.”
Logo veio a mudança. “Encostou um caminhão grande e foi descarregando
cama. Só tinha cama e mais um sofá, geladeira, televisão e um aparelho
de som”, lembra Francenildo. “A mulher até comentou: ‘Oxe, só tem
cama?’” Mobiliaram os quartos e deixaram as salas quase nuas. Compraram
uma mesa de sinuca.
A casa ficava vazia boa parte do tempo. Seu uso era restrito a
festas, duas por semana, que varavam a noite. Francisco das Chagas, o
motorista, trazia as convidadas. O caseiro preparava a carne, acendia a
churrasqueira e gelava a cerveja. Volta e meia Poleto lhe acenava com um
espeto na mão: “Fica aqui, come uma carninha, toma uma cervejinha…” Era
um sujeito simpático.
Aos poucos, Francenildo foi conhecendo o grupo, liderado pelo
advogado Rogério Buratti. Eram todos homens de Ribeirão, onde haviam se
conhecido durante as duas administrações do Partido dos Trabalhadores.
Alguns mexiam com máquinas lotéricas, outros ocupavam cargos públicos.
Havia um funcionário da Caixa e um homem de formação mais modesta,
secretário de ministro, além de convidados ocasionais, como um homem
baixo, calvo e bom de sinuca.
Poleto havia feito uma boa escolha. A casa atendia às necessidades do
grupo, era afastada. “Só tem a casa ali do lado”, comentou com um
amigo. “É de uma jornalista.” “Pô… Jornalista?”, reagiu o outro.
Na segunda semana, avisaram Francenildo: “Olha, o chefão quer
conhecer a casa.” Providenciou-se salaminho, latinhas do energético Red
Bull e vinho. Arrumaram a mesa da cozinha, deixaram uns salgadinhos,
guardanapos de papel e duas taças de cabeça para baixo. Naquela vez não
haveria churrasqueira. “Vai ser discreto”, disseram antes de partir.
Pediram ao caseiro que não saísse da edícula.
Por volta das oito da noite, ouviu-se o mecanismo do portão. O carro
estacionou no pátio interno sob a luz de holofotes regulados por sensor
eletrônico. No quarto escuro, Francenildo e Noelma ergueram a cabeça e,
como hipopótamos, deixaram apenas os olhos acima da linha d’água do
peitoril. A porta do carro se abriu. “Aquele é o ministro da Fazenda”,
cochichou Francenildo.
Nos oito meses seguintes, Francenildo levou uma vida tranqüila. No
fim do ano, foi a Teresina visitar a mãe. Lá, viu na televisão um rosto
que não conhecia, o do bicheiro Carlos Cachoeira, e ouviu a palavra
“bingo”, que não lhe dizia grande coisa. Dois dias depois, recebeu um
telefonema de Vladimir Poleto: era preciso acertar as contas porque a
casa seria desocupada imediatamente. “Nessa coisa de dinheiro eles nunca
me deixaram pra trás”, contaria dois anos depois. Tomou um ônibus,
atravessou o único trecho do país que conhecia e recebeu o que lhe era
devido. Ajudou o ex-patrão a fazer a mudança e nunca mais o viu.
Francenildo retomou seu trabalho. Vieram outros locatários e a vida
seguiu até que, no segundo semestre de 2005, a casa perdeu novamente o
inquilino, e, como permanecesse desocupada, Luiz Antonio Guerra passou
Francenildo de caseiro a diarista.
Com o dinheiro da rescisão, ele pensou, pensou, tomou coragem e comprou uma passagem de avião para Teresina. Ia tentar resolver a maior questão de sua vida: encontrar o pai e pedir-lhe que o reconhecesse como filho. Ficou no Piauí quinze dias e, ao voltar, se sentiu “meio alegre”. Para um rapaz fechado, de fala baixa e voz triste, era muita coisa.
Com o dinheiro da rescisão, ele pensou, pensou, tomou coragem e comprou uma passagem de avião para Teresina. Ia tentar resolver a maior questão de sua vida: encontrar o pai e pedir-lhe que o reconhecesse como filho. Ficou no Piauí quinze dias e, ao voltar, se sentiu “meio alegre”. Para um rapaz fechado, de fala baixa e voz triste, era muita coisa.

O caseiro Francenildo e o deputado Palocci
A ENTREVISTA
A poucos quilômetros da casa, no Congresso, começava a entrar nos
eixos a engrenagem que o moeria. A Comissão Parlamentar de Inquérito que
investigava a atividade dos bingos acabava de chegar ao nome de
Vladimir Poleto e Rogério Buratti. No dia 26 de janeiro de 2006,
Francenildo acompanhou pela televisão o depoimento de Antonio Palocci à
CPI. Num ambiente de cordialidade, o ministro respondeu a todas as
perguntas. “Vossa Excelência não esteve nenhuma vez na casa que ele
[Poleto] alugou no Lago Sul?”, perguntou o senador Garibaldi Alves, do
PMDB. “Não, não estive nenhuma vez”, respondeu Palocci.
Poucos dias depois, no início de fevereiro, o advogado Rogério
Buratti procurou o Ministério Público de São Paulo para reiterar com
novos dados a acusação de que Palocci recebera propina de 50 mil reais
por mês de uma empresa de Ribeirão Preto, na época em que era prefeito
da cidade. Os dois haviam se desentendido por razões que extrapolavam os
negócios e a política. A oposição afiou os dentes e mirou em Palocci, o
homem a ser derrubado, o esteio da estabilidade econômica, o herdeiro
presumido de Lula.
Na mesma semana, depois de meses sangrando por conta de escândalos
vários, o presidente Lula ultrapassara os adversários nas pesquisas
sobre a eleição presidencial de outubro. PFL e PSDB precisavam reagir.
Dizia-se que a casa do Lago Sul era freqüentada por gente de negócios
heterodoxos e hábitos mundanos. Se fosse possível confirmar a presença
de Palocci ali, estaria provado que ele mentira à Comissão. Ouviram
falar de um motorista que trabalhara para Vladimir Poleto.
No dia 8 de março, um senhor de rosto grave e gasto abriu a 61ª
sessão da CPI dos Bingos: “Sou um homem humilde, motorista desempregado.
Peço desculpas se não puder me expressar direito. Sou homem de poucos
estudos, mas estou à disposição dos senhores para responder a qualquer
pergunta.” Era Francisco das Chagas.
Na casa, Francenildo foi alertado pelo patrão, Luiz Antonio Guerra:
“Olha, o motorista está lá na CPI. O próximo vai ser você.” O caseiro
correu até um rádio. Francisco das Chagas contava aos parlamentares que
garotas de programa iam à casa e afirmava ter visto o ministro Palocci
lá – “mas não para festas”. Com trinta minutos de sessão, Garibaldi
Alves perguntou: “Na casa havia duas empregadas e dizem que um caseiro,
companheiro de uma delas. É isso?” Francisco das Chagas confirmou: “Isso
mesmo, um caseiro.” E nada mais foi dito sobre Francenildo.
Era uma quinta-feira, 9 de março, o início de tudo.
Francenildo, ou Nildo, como é chamado, nasceu em 1981, na capital do
Piauí. Chegou a Brasília catorze anos depois, levado pela mãe, Benta.
Tinha a vaga impressão de que o pai era o dono de uma pequena empresa de
ônibus de Teresina. Aos dez anos adoeceu e, sem dinheiro para comprar
remédio, pediu a um amigo que o levasse até o homem que diziam ser seu
pai. Entrou na garagem, pôs-se diante do proprietário e explicou o que
fazia ali. Eurípedes Soares da Silva, um cinqüentão, ouviu o menino e
negou a paternidade. Francenildo insistiu e o homem acabou lhe dando o
equivalente a 80 reais. “Some daqui”, mandou.
Em Brasília, Francenildo arranjou serviço num bar-mercearia. Tinha 15
anos, trabalhava das seis da manhã às onze da noite. Ao sair do
emprego, em 1998, deixou 800 reais com o patrão, por não ter onde
guardá-los. Foi para uma chácara fazer trabalho de roça e conheceu
Noelma, que se encantou pelo rapaz esguio, magro e tímido, de nariz
afilado e braços longos feito galhos finos. Nesse período, seu tio lhe
pediu emprestada a poupança da mercearia – “Preciso comprar um terreno
em Luziânia” – e ele cedeu. Tinha uma dívida com o irmão de sua mãe, que
pagara a passagem para tirá-lo de Teresina.
Noelma e Francenildo tiveram um filho, Thiago, e a vida apertou. Foi
preciso ligar para o tio e pedir que adiantasse 200 reais da dívida para
o enxoval do menino. Ouviu: “Como é que você quer o dinheiro, se nem
sabe se o filho é teu?” Só recuperou uma parte do que emprestara. “Eu
tinha consideração pelo meu tio, que me trouxe daquele lugar velho,
daquela vida velha que eu tinha”, contou. “Eu vivia jogado na casa de um
e de outro. Meus irmãos têm pai, então têm café-da-manhã, almoço e
janta. Eu não.” Não deu sorte com os homens da família, mas teve um bom
padrasto: “Ele nunca bateu em mim.”
Na manhã seguinte ao depoimento de Francisco das Chagas, Francenildo abriu o Correio Braziliense e leu:
A partir do depoimento do motorista, a CPI decidiu procurar uma das
empregadas da casa do Lago Sul, chamada Neuma [sic], e seu marido, ainda
não identificado, que trabalhava de caseiro no local. Há informações de
que ele teria levado malas de dinheiro a Ribeirão Preto, viajando de
carro, junto com Poleto.
Francisco das Chagas não falara em malas de dinheiro na CPI, mas, de
alguma forma, a falsa notícia chegara ao jornal. Malas, dinheiro e poder
– Francenildo ficou com medo: “Quem estava sendo acusado podia vir me
pegar.” A campainha tocaria às dez da manhã. Ele deu uma espiada – eram
três homens de terno. Ele os atendeu pelo interfone: “Qual é seu nome”,
perguntaram. “Raimundo”, ele mentiu. “Você conhece o caseiro que
trabalhou na época do Poleto?” “Não.” Pediram que viesse ao portão. Eram
policiais federais a serviço do Congresso e queriam ver sua identidade.
Disse que era diarista, não andava com documentos. Os homens foram
embora.
Francenildo começou a correr na memória as pessoas que conhecia.
Precisava de ajuda, e o patrão, Guerra, estava viajando. Parou no nome
de João Gustavo Coutinho, o corretor que trouxera Poleto à casa. Devia
ter influência e sempre o tratara bem. Desde que o escândalo estourara,
João Gustavo lhe dizia, rindo: “Dá pra ganhar um dinheirinho bom com
essa história. Uns 30 mil reais, quem sabe? Pra você comprar uma
casinha.” (João Gustavo nega ter mencionado dinheiro.)
Francenildo ligou: “Gustavo, preciso de ajuda para encarar os
homens.” O corretor pediu uma hora. Quando ligou de volta, disse: “Já
falei com uma pessoa de confiança. Amanhã, às dez e meia, passo aí pra
te pegar e a gente vai se encontrar com ele no Gilberto Salomão.”
Francenildo conhecia o lugar. Era o centro comercial onde ficava a
agência da Caixa em que tinha conta.
No fim de tarde, o telefone tocou no gabinete do senador Antero Paes
de Barros, do PSDB. Do outro lado da linha, alguém informava que o
caseiro fora encontrado e queria falar.
Às oito da manhã do dia seguinte, uma sexta-feira, João Gustavo disse
a Francenildo que se abaixasse no banco de trás do carro. O caseiro
saiu escondido pelo portão dos fundos, para escapar de policiais que
porventura estivessem à espreita. Estacionaram em frente à padaria Lago
Sul, no Gilberto Salomão. Cinco minutos depois, um homem barbado, calvo,
de uns 60 anos, “fumador de cigarro”, como lembraria o caseiro,
caminhou na direção deles.
Era Enéas de Alencastro Neto, assessor de Teotônio Vilela Filho,
senador tucano de Alagoas. “Você é o caseiro de quem o motorista falou?”
“Sou.” Desconfiado, pediu que Francenildo descrevesse o que vira na
casa. Convenceu-se e lhe disse: “Rapaz, sabe quem você é? Você é o homem
mais importante do mundo. Vai virar celebridade. Vai derrubar o homem
mais poderoso depois do Lula.” Como Francenildo estivesse de bermudas,
Alencastro disse que o levaria até a casa para vestir uma calça, pois
iriam ao Congresso Nacional. Abriu a porta de um jipinho Mitsubishi, pôs
o caseiro para dentro e partiu, deixando João Gustavo para trás.
Chegaram ao Senado por volta de nove e meia. Francenildo foi
conduzido por corredores, escadas e salões até uma sala de espera, onde
esperou sozinho durante uns vintes minutos.
Foi levado enfim à sala do tucano Antero Paes de Barros, de quem
jamais ouvira falar. O senador estava sentado: “E aí, você é o caseiro
da mansão lá? Você vai ficar muito famoso. Quer dar a entrevista?”
Francenildo disse que estava com medo e precisava de ajuda, mas preferia
não falar com a imprensa. “Não dá pra falar sem ser com eles?”,
perguntou. Paes de Barros fez que não: “Não te protege. Vou arranjar um
jornalista de confiança.” O senador garante que Francenildo quis falar:
“Foi decisão dele.”
Paes de Barros e os assessores começaram a discutir. Qual jornalista
chamar? “Esse não é confiável, aquele outro também não.” Os nomes eram
levantados e imediatamente derrubados. Sentado num sofá, Francenildo
ouvia sem nada compreender. Imaginava que, ao dizerem “confiável” ou
“não confiável”, referiam-se à proteção dele próprio. “Andrei
Meireles!”, exclamou por fim o senador, lembrando-se do jornalista da
revista Época em Brasília.
“Andrei, vem aqui que eu tenho uma coisa boa pra você”, disse Paes de
Barros, por telefone. Meireles estava no dentista, de boca aberta.
Pediu que o senador adiantasse o assunto. “Você sabe que não é assim que
funciona”, ouviu em resposta, “mas vem que é uma bomba.” O jornalista
insistiu. “Não!”, irritou-se Paes de Barros. Desejou um bom fim de
semana a Meireles e desligou.
“Então pensei na Rosinha, que cobria a CPI do Banestado”, diria dois
anos depois o agora ex-senador, no terraço de um hotel em Brasília.
Referia-se à repórter Rosa Costa, do Estado de S. Paulo. Ele foi direto
ao assunto: “Ô Rosinha querida, como é que você está? Tem uma matéria
para você soltar.”
Levaram Francenildo de volta à sala de espera. Em silêncio, ele
esperou com Enéas de Alencastro durante quase uma hora até que Rosa
Costa chegasse. Ela perguntou: “Você quer fazer a matéria?” Em busca de
um último conselho, ele olhou para Alencastro e recebeu um sinal
afirmativo. Virou-se para a jornalista e assentiu com a cabeça.
Rosa Costa precisava de provas de que estava mesmo com o caseiro da
notória casa do Lago Sul. Foram juntos até a casa para que ele buscasse a
carteira de trabalho. Com a confirmação, seguiram para a sucursal do
Estado, onde foi feita a entrevista.
Já eram três e meia da tarde quando ela lhe fez a primeira pergunta:
“Quantas vezes o ministro Antonio Palocci foi à casa?” Cinqüenta minutos
depois, saíram. Pararam no Giraffas, uma cadeia de fast-food, onde
Francenildo pediu o lanche mais barato. “Eu estava com uma fome danada. E
você sabe como é pobre: depois que passa a hora de comer, não come mais
nada.” Um fotógrafo do jornal tirou duas fotos do entrevistado, uma
diante da casa do Lago Sul, a outra em frente de uma placa que avisava:
“Perigo – Altamente inflamável”.
Palocci soube da entrevista e telefonou duas vezes a Sandro Vaia,
diretor de redação do Estado, para pedir cautela e se dizer vítima de
manobras de adversários. Vaia adiou por dois dias a publicação da
entrevista, para que a repórter pudesse checar detalhes.
“Você quer ir para um hotel?”, perguntou Rosa Costa ao caseiro. “O jornal se dispõe a pagar a hospedagem até que a matéria saia.” Francenildo interpretou a oferta de duas maneiras: preocupação com ele ou, então, conforme disse, “medo de eu dar a mesma entrevista em outra imprensa”. Ele recusou o oferecimento, refugiou-se numa chácara e só voltou à cidade na segunda de manhã. Rosa Costa avisou que a entrevista seria finalmente publicada no dia seguinte.
“Você quer ir para um hotel?”, perguntou Rosa Costa ao caseiro. “O jornal se dispõe a pagar a hospedagem até que a matéria saia.” Francenildo interpretou a oferta de duas maneiras: preocupação com ele ou, então, conforme disse, “medo de eu dar a mesma entrevista em outra imprensa”. Ele recusou o oferecimento, refugiou-se numa chácara e só voltou à cidade na segunda de manhã. Rosa Costa avisou que a entrevista seria finalmente publicada no dia seguinte.
No dia em que ficou famoso – 14 de março de 2006 – Francenildo
acordou às seis da manhã. Ligou a televisão e ouviu: Um caseiro afirmou
em entrevista ao Estadão que o ministro Palocci freqüentava a casa. E
soube que estava intimado a comparecer à CPI dali a dois dias.
Às sete e meia, chegou à casa do Lago Sul. Cortava a grama quando a
secretária do proprietário veio chamá-lo: “Chegou um carro de imprensa.”
Era a RedeTV! Em seguida, vieram Record, Globo e SBT. A campainha
tocava sem parar. Francenildo viu fotógrafos e cinegrafistas da Globo
encostarem escadas na fachada da casa vizinha, onde morava a jornalista
de quem ouvira falar. Subiam no telhado para filmá-lo e fotografá-lo.
Escondeu-se dentro da casa. Meia hora depois, Luiz Antonio Guerra lhe
disse: “Você não pode ficar aqui, não vão te deixar em paz.” Pela
segunda vez em menos de uma semana, alguém o deitou no banco de trás de
um carro para que pudesse sair fugido da casa.
Guerra o deixou no Gilberto Salomão para que tomasse um ônibus, mas,
quando chegou a condução, ele decidiu não entrar. Perambulou,
desnorteado, pelo centro comercial. Era, naquele momento, o homem mais
procurado do país. “Eu solto no Gilberto, sem noção nenhuma. A única
coisa que me passava pela cabeça era que eu tinha que achar uma roupa
boa pra ir na CPI. Eu via todo mundo depondo de terno. Pensei no vexame,
em alguém dizer ‘Dá um terno aí pro rapaz…’”
À beira do desespero, ligou para João Gustavo: “Vocês disseram que
iam me ajudar. E agora isso.” O corretor estava com clientes. Disse ao
caseiro que o esperasse na mesma padaria de quatro dias antes.
Francenildo comprou uma quentinha e comeu no estacionamento. João
Gustavo chegou às 13h30 e abriu a porta do passageiro: “Estou tentando
ligar para um primo meu que é advogado. Ele vai pegar o teu caso e não
vai cobrar nada.”
O ADVOGADO
Wlicio Chaveiro Nascimento tem um rosto divertido. Lembra o
personagem Wallace, do desenho animado Wallace & Gromit. Costeleta
grisalha, sorriso largo, lábio inferior meio caído para fora e fumante
contumaz. Seu pai, Analício, gostava muito da letra W. Batizou o filho
juntando-a ao final do próprio nome – “E eu tenho penado a vida
inteira.”
Wlicio, ou Ulício, como o chamam, tinha 36 anos em março de 2006.
Fazia um pouco de tudo: “Eu gosto de negócios…” Fundou a Câmara de
Comércio Brasil-República Democrática do Congo – CINBRACONGO – da qual
ainda é presidente, na esperança de vender 500 mil coturnos para o
Exército congolês. Não deu certo. No seu segundo dia em Kinshasa, foi
detido por tirar fotografias turísticas na beira do rio Congo.
Aparentemente, ao fundo divisava-se* uma instalação militar. Foi cercado
por soldados que exigiam 200 dólares por cabeça. Num francês
macarrônico, acabou comprando o batalhão inteiro por 50. Não vendeu um
coturno sequer.
Advogado, Wlicio atendia os clientes numa sala na sobreloja do hotel
onde morava. Sua especialidade eram divórcios e contratos de locação.
Não lia jornais, não acompanhava política nem se interessava pelos
escândalos da República. Na tarde em que Francenildo era procurado por
toda a imprensa, Wlicio estava no fórum de Inhumas, em Goiás, quando o
celular tocou. Era João Gustavo, amigo de adolescência que tratava por
“primo” e a quem prestava ajuda legal. “Primo, estou precisando de um
favor teu”, disse-lhe o corretor. “Tenho um amigo que precisa de um
advogado, mas não tem dinheiro. Você topa?” Wlicio respondeu que sim.
“Mas olha, tem imprensa. Tudo bem?” Wlicio perguntou qual era o
problema. “Quando você chegar aqui eu te conto”, disse João Gustavo. O
advogado falou que o procuraria no dia seguinte. “Não”, cortou o
corretor, “tem que ser hoje. Vem para cá.”
No final da tarde, Wlicio tomou a estrada. Meia hora depois, o
celular tocou. “Aqui é a CBN. O senhor confirma o que seu cliente disse
ao Estado de S. Paulo?” “Hein?”, balbuciou Wlicio. “O que ele vai dizer
na CPI?” Sem muito a acrescentar, repetiu: “Hein?”, e achou melhor
fingir que a ligação caíra. O celular voltou a
tocar. Folha, Estadão, Veja e Globo, todos com a mesma pergunta: “Seu
cliente confirmará tudo na CPI?” Wlicio não sabia quem era o “seu
cliente” e muito menos de que CPI estavam falando. Telefonou então a
João Gustavo, que havia passado seu número aos jornalistas. “Que porra é
essa? O que esse cara fez pra todo esse povo estar atrás dele?” O amigo
riu: “Vem pra cá que eu te digo.”
Wlicio chegou à casa de João Gustavo por volta das nove da noite.
Francenildo estava assustado. Apertou sem força a mão do advogado,
abaixou os olhos e, com um fiapo de voz, começou a contar a história.
João Gustavo falou da entrevista ao Estadão. Wlicio pediu silêncio e
disse: “Antes de qualquer coisa, eu quero ver essa matéria.” Foi para um
canto, leu, releu e, ao terminar, virou para Francenildo e só conseguiu
dizer: “Moooooço…”
A primeira página do jornal trazia a foto de Francenildo na frente da
casa e a manchete: Caseiro desmente Palocci e revela partilha de
dinheiro em mansão.
A entrevista não diferia, na substância, do que o motorista Francisco
das Chagas dissera à CPI. A novidade estava no peso da palavra escrita,
nas ênfases. Francenildo falou de garotas de programa, de maços de
dinheiro e da presença de Palocci, não duas ou três vezes, como afirmara
o motorista, mas “umas dez ou vinte”, embora jamais nas festas. “Mas
ele disse que nunca foi à casa”, argumentou a repórter. “Ele está
mentindo”, contrapôs o caseiro, taxativo.
Pior: ao decidir esclarecer o que Francisco não dissera à CPI e que
tanto o assustara – a ida a Ribeirão com malas de dinheiro – ,
Francenildo acabara corrigindo o que não precisava de correção. A
Ribeirão não fora, mas ao estacionamento do Ministério da Fazenda, sim.
Ali, segundo disse ao Estadão, viu Francisco das Chagas entregar um
envelope ao secretário particular de Palocci, Ademirson Ariosvaldo da
Silva. Haveria dinheiro dentro.
Wlicio se aproximou de Francenildo: “Você tem noção do que fez? Tem
noção do que está envolvido?” O advogado apontava trechos da entrevista e
ia perguntando: teve isso? E isso, teve? E teve até isso aqui?
Atordoado, “em transe”, como lembra Wlicio, o caseiro respondia que sim.
“Olha, juridicamente isso não vai dar em nada. Mas, politicamente, é
uma bomba. Se prepara porque você acabou de entrar numa guerra.”
A oposição não podia desejar presente melhor: um caseiro nordestino e imigrante que desmontava com palavras simples a versão do ministro mais poderoso de um governo presidido igualmente por um imigrante nordestino. “É um Davi capaz de enfrentar vários Golias”, peroraria o oposicionista Arthur Virgílio, falando, como de hábito, para os autos.
A oposição não podia desejar presente melhor: um caseiro nordestino e imigrante que desmontava com palavras simples a versão do ministro mais poderoso de um governo presidido igualmente por um imigrante nordestino. “É um Davi capaz de enfrentar vários Golias”, peroraria o oposicionista Arthur Virgílio, falando, como de hábito, para os autos.
Wlicio virou-se para João Gustavo e perguntou: “Gustavo, por que você
não me trouxe esse rapaz antes da entrevista? Se ele tivesse sido
orientado, é provável que a coisa não tivesse explodido.” Era uma boa
pergunta. Se não tivesse falado ao Estadão, ou se tivesse sido lacônico
como Francisco das Chagas na CPI, é provável que Francenildo fosse logo
deixado de lado. A diferença entre o benfazejo anonimato de um e a
brutal notoriedade do outro se explica, em boa parte, pela existência,
no caso de Francenildo, de João Gustavo Coutinho e Enéas de Alencastro.
Naquela noite, o caseiro chegou em casa “cansado, cansado”. Ligou
para a mãe, no Piauí, para dizer que estava tudo bem. Ela atendeu aos
soluços. O filho tinha aparecido em todos telejornais noturnos. Sua avó,
de 70 anos, tinha ouvido alguém na rua comentar “Esse filho da Benta só
volta pra cá enterrado”, e desmaiou. O caseiro conseguiu dormir já de
madrugada.
“Quarta, quinta e sexta vão ficar pra sempre na minha memória”, diz
Francenildo. Às dez da manhã, chegou ao Metropolitan, o hotel onde
Wlicio morava e tinha escritório. Percebeu que a vida não era mais a
mesma. Todos sabiam quem era ele.
Wlicio se deu conta de que o caso não cabia na sua sala de trabalho.
Seu cliente era reconhecido por toda parte, dezenas de jornalistas
insistiam em entrevistá-lo. Procurou um parente, Elson Crisóstomo,
também advogado, mas com escritório bem estabelecido. “Isso é briga de
cachorro grande, me ajuda”, pediu-lhe. Precisava de espaço físico e de
conselhos; o parente cedeu um escritório maior, no qual poderia receber a
imprensa. Wlicio marcou uma entrevista coletiva para as seis da tarde.
No pequeno largo sem saída, na casa vizinha à do escândalo, uma nova
peça da moenda que vitimaria Francenildo e derrubaria Antonio Palocci
fez clique. Um jardineiro olhou a foto de Francenildo, estampada na
primeira página de todos os jornais, e comentou com as empregadas:
“Agora ele está famoso, justo no dia em que a gente ia lá comprar o lote
da minha irmã.”
Na mesa do café-da-manhã, a dona da casa escutou. Era Helena Chagas,
chefe da sucursal do Globoem Brasília. A jornalista perguntou se o homem
da foto era mesmo o caseiro do vizinho, e se era verdade que ele
pretendia comprar um terreno. Era.
“Olha, essa história já ficou para trás”, disse Helena Chagas, num
fim de tarde de julho passado, em sua sala no prédio da Radiobrás. Seus
dedos tremiam. Ela tentava controlá-los dobrando e desdobrando
interminavelmente o canto de uma folha de papel. Ao ouvir que seu
interlocutor estava apurando a história há um ano e que, a essa altura,
imaginava conhecer bem Francenildo, ela perguntou: “Conhece mesmo?
Conhece direito?”
Por quê? Desconfia dele? “Desconfiar, não”, ela disse. “Tenho
curiosidade. Não sei se aquela história do dinheiro ficou bem explicada.
De toda maneira, eu já disse tudo. No dia em que saiu a entrevista dele
no Estadão, deixei uma equipe do Globo entrar na minha casa para
fotografar. Numa dessas, meu jardineiro deve ter dito a um repórter
qualquer que conhecia o caseiro e que ele estava querendo comprar uma
casa. No Globo, mandei fazer a matéria. Dizia algo do tipo ‘Colegas do
caseiro afirmam que ele vai comprar uma casa’. Mandei para o Rio, e eles
não quiseram dar. É decisão editorial do jornal, não faço reparos.”
O Globo não publicou a matéria por considerar que era um relato
inconsistente, que irresponsavelmente dava curso a rumores de pessoas
não identificadas.
No início daquela tarde, Helena Chagas foi ao Congresso Nacional e,
no café do Senado, encontrou o senador Tião Viana, do PT do Acre. “Eu
disse para o Tião: ‘Olha, parece que tem uma informação de que o rapaz
recebeu um dinheiro, e a gente está indo atrás disso. Você sabe de
alguma coisa?’ Era troca de chumbo: você dá informação para receber
informação. Servia até para confirmar o que até ali não passava de
boato. Imagina, eu tinha sido furada na minha própria rua! Eu queria
tomar a frente dessa história. Não fiz nada errado.” Devido ao episódio,
semanas depois Helena Chagas teve de sair do Globo.
Tião Viana vinha atuando como porta-voz informal de Palocci, que
estava em Londres. Conversara por telefone com o ministro e declarara à
imprensa que Francenildo havia mentido na entrevista: Palocci nunca
estivera na tal casa. Por meio de Helena Chagas, o governo recebia a
primeira boa notícia desde que o caso explodira: o caseiro tinha
dinheiro. Interrogado, Viana diria à polícia, posteriormente, que não se
lembrava se realmente mencionara a Palocci a conversa com Helena
Chagas, mas completou: “O fato de eu não me lembrar não significa que
não discuti o tema do caseiro com o ministro Palocci.”
A ABORDAGEM
No escritório emprestado, Wlicio e Francenildo tentavam antecipar as
perguntas da coletiva quando foram interrompidos. Um conhecido cujo
nome, dois anos depois, Wlicio não quer revelar, vinha trazer um recado.
O conhecido se apresentou como intermediário do dono de um restaurante
onde, no passado, dirigentes do PT costumavam se reunir, Lula inclusive.
O dono do restaurante mandava avisar: “O pessoal está querendo uma
conversa. Nada objetivo. Querem só trocar umas idéias.”
O subtexto era claro: “Eu tinha que negar na entrevista coletiva tudo o
que contei para a Rosa”, relembra Francenildo. “Vocês têm de ouvir”, insistiu o conhecido. Wlicio o autorizou a saber o que o tal dono de restaurante de fato queria e, ao vê-lo ir embora, ligou imediatamente para João Gustavo. “O negócio é esse. O que você acha?” Antes da resposta, João Gustavo desligou. O advogado tentou telefonar de novo, em vão. Acabou por desistir, pois precisava ir à sede da Polícia Federal, pegar a intimação de depoimento à CPI. Deixou o caseiro sozinho ali, no escritório.
que contei para a Rosa”, relembra Francenildo. “Vocês têm de ouvir”, insistiu o conhecido. Wlicio o autorizou a saber o que o tal dono de restaurante de fato queria e, ao vê-lo ir embora, ligou imediatamente para João Gustavo. “O negócio é esse. O que você acha?” Antes da resposta, João Gustavo desligou. O advogado tentou telefonar de novo, em vão. Acabou por desistir, pois precisava ir à sede da Polícia Federal, pegar a intimação de depoimento à CPI. Deixou o caseiro sozinho ali, no escritório.
Passados uns minutos, tocou o celular de Francenildo. Era João
Gustavo: “Preciso falar urgente com você”, disse, e marcaram um encontro
nas imediações. Francenildo foi a pé. Quando chegou, viu que o corretor
estava acompanhado de Enéas de Alencastro, o assessor tucano que o
levara ao Congresso. Não perderam tempo com bom-dia ou boa-tarde. “Você
já recebeu a proposta?”, perguntou João Gustavo. “Não pega de jeito
nenhum, você vai complicar teu futuro, mais na frente vão te
desmascarar.” Francenildo garantiu que não recebera nem aceitaria
proposta nenhuma. Antes de se despedirem, o corretor lhe disse que não
comentasse com ninguém a conversa que acabavam de ter. O caseiro não
contou nem a seu advogado – Wlicio só saberia dela muito tempo depois.
Francenildo voltou devagar e cabisbaixo para o escritório. “Foi o pior momento”, lembra. “Era um pessoal querendo me comprar pra eu mentir de um lado, pra mentir do outro, achando que eu era uma prostituta.”
Francenildo voltou devagar e cabisbaixo para o escritório. “Foi o pior momento”, lembra. “Era um pessoal querendo me comprar pra eu mentir de um lado, pra mentir do outro, achando que eu era uma prostituta.”
Reencontrou-se com Wlicio às três da tarde. A proposta, se proposta
havia, surgiria às cinco, uma hora antes da coletiva. O tempo não
passava: “Chegava as dez da noite, mas não chegava as cinco, que era a
hora esperada.” Sobre a combinação com seu advogado, Francenildo conta:
“O Wlicio deixou claro que a decisão era minha. Mas ele recomendou que
eu não pegasse. Ele disse assim: ‘Eu até posso explicar se aparecer
algum dinheiro na minha conta, mas e você?’” Minutos depois do horário
marcado, tocou o telefone. Era o intermediário, avisando que eles
queriam tomar um café.
Nesse ponto, a versão dos dois diverge. Segundo Wlicio, ele pediu a
seu parente, o dono do escritório, que desse a resposta. Este pegou o
telefone e cortou o assunto de chofre: “Não tem café, nem almoço, nem
janta.” Wlicio garante que a abordagem foi encerrada sem que se falasse
em valores.
Em casa, sozinho, Francenildo lembrou diferente: “Eles falaram em um
milhão de reais, mais uma casa, para eu negar tudo. O Wlicio me disse
assim: ‘O conhecido falou em um milhão de reais. O dinheiro é bom: você
arranja a tua vida e eu fico com a metade. Mas o dinheiro também é ruim:
você vai ter que mentir e vai correr perigo. No teu lugar, eu não
aceitaria.’”
João Gustavo Coutinho também confirma a sondagem. “Eu me lembro muito
bem”, disse em abril deste ano, dirigindo um Toyota Triton novo e bem
cuidado. “O Wlicio me telefonou dizendo que um povo ligado ao PT queria
oferecer dinheiro. Senti que ele estava em dúvida. Liguei para o Nildo e
pedi para ele me encontrar no Gilberto Salomão. Lá eu disse a ele: ‘Eu
tentei te ajudar e agora você vai mentir?’”
Mas por que, além de não chamar Wlicio para a conversa, João Gustavo
levou consigo Enéas de Alencastro, o assessor dos tucanos? Sem graça,
ele disse que não se dava muito bem com o “primo” Wlicio. Desconversou,
não soube se explicar.
Foi a segunda vez em que se mostrou evasivo. Na primeira, assegurou
que, ao receber o primeiro telefonema de Francenildo – na quarta-feira, 9
de março -, levou-o imediatamente a Wlicio. Não tinha qualquer dúvida:
“Ele precisava de um advogado.” Somente depois de muito rodar de Toyota e
de ouvir uma cronologia detalhada daqueles dias de 2006, ele admitiu:
sim, era verdade, quatro dias antes de apresentar o caseiro ao amigo
advogado, ele o levou a Enéas de Alencastro. Confundira-se, já havia
passado tanto tempo. E deu uma nova explicação: “Achei mais importante
ele se proteger, ter o amparo do Estado. Liguei então para o Enéas e
pedi ajuda. O Enéas me disse que podia proteger o Francenildo no Senado,
através da imprensa.”
Alguém que conhece por dentro o funcionamento do poder político e
econômico de Brasília afirma não acreditar em articulações partidárias
para comprar depoimentos. No máximo, pessoas ou grupos periféricos ao
poder podem agir por conta própria, para mais tarde cobrar favores. Por
outro lado, entregar testemunhas letais que tenham serventia aos
interesses da situação ou da oposição traz dividendos políticos, a serem
resgatados em momento oportuno. Mas dinheiro vivo, não. Dinheiro vivo é
coisa de aloprados, *e mesmo estes preferem comprar documentos a
pessoas*.
Às seis da tarde, cerca de trinta jornalistas se espremeram para
ouvir Francenildo. O caseiro confirmou tudo o que havia dito ao Estadão.
Às 20h05, o jornalista -Ricardo Noblat publicou em seu blog:
O caseiro não é homem de medir as palavras. Conta com uma sinceridade
espantosa tudo que viu na mansão e não foge às perguntas. Os
jornalistas apertaram o caseiro para ver se ele caía em contradição –
não caiu. Para ver se ele vacilava – não vacilou.
Por volta da mesma hora, em mais um giro da mó, o coordenador-geral
de fiscalização da Receita Federal pediu a um subordinado que
descobrisse o CPF, o endereço residencial e a data de nascimento de
Francenildo dos Santos Costa.
Clique. O último daquela quarta-feira.
Clique. O último daquela quarta-feira.
A CPI
Na manhã seguinte, quinta-feira, 16 de março, Wlicio chegou à casa de
Francenildo às sete e meia da manhã. Deu uma olhada na roupa que ele
escolhera para se apresentar à CPI – camisa pólo, jeans e sapato – e
recomendou que tirasse o boné porque “não dava credibilidade”. A caminho
do escritório, rezaram juntos em voz alta, “porque tudo isso era muito
novo para a gente”. Chegaram ao Senado por volta das nove e meia. Um
funcionário pediu a Francenildo que lhe entregasse os documentos – CPF e
carteira de identidade – para poder qualificá-lo como depoente.
Pouco antes, às 9h09, o técnico da Receita Federal Nilton Cruvinel
havia acessado o CPF de Francenildo dos Santos Costa. Obedecia a uma
ordem superior que, como uma bola empurrada do alto de uma escadaria,
descera a cadeia hierárquica quicando de degrau em degrau até cair no
seu colo. Passou a informação a seu chefe, que fez uma consulta mais
ampla. Abriu um “Dossiê Integrado/Pessoa Física” do caseiro, com dados
sobre CPMF e o banco que recolhia o tributo, a Caixa Econômica Federal.
Anotou as informações e as repassou ao coordenador-geral de fiscalização
que, na véspera, instruíra um subordinado a investigar Francenildo.
No Congresso, numa sala reservada, o senador Efraim Morais, do PFL,
presidente da CPI dos Bingos, perguntava ao caseiro se preferia que a
sessão fosse aberta ou fechada. “Aberta”, respondeu Francenildo. Todos
os senadores da oposição lhe entregaram cartões pessoais: “Se precisar
de alguma coisa, é só ligar…” *Garçons trouxeram uns salgadinhos
“mixurucas”, segundo Francenildo.* Eduardo Suplicy foi o único
parlamentar governista que falou com ele: “Vem cá, meu filho, você não
está mesmo recebendo dinheiro de ninguém pra vir aqui falar mal do
ministro Palocci?” Ao contrário de seus colegas de partido, Suplicy fora
o único que votara a favor da convocação do rapaz. Seu voto havia
desempatado a questão, contra o interesse do governo.
Às 11h30, finalmente, Francenildo e Wlicio entraram na sala da CPI.
Na primeira fila, Arthur Virgílio e Antonio Carlos Magalhães. Na
segunda, a bancada do governo: Tião Viana, Ideli Salvatti e Wellington
Salgado, cujos cabelos lembram o de Maria Bethânia.
Tião Viana pediu a palavra: “Temos hoje a CPI dos Bingos tendo como
audiência ouvir o senhor… me foge o nome agora…” – consultou papéis – “…
o senhor Francenildo dos Santos Costa.” Avisou que entrara com um
mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal para impedi-lo de
falar, sob a alegação de “brutal desvio de finalidade”, visto que o
caseiro nada teria a dizer sobre bingos. A presença de Francenildo ali
era uma manobra da oposição para invadir a vida pessoal de um ministro.
E, de forma algo confusa, concluiu: “Na hora que eu me sentir conivente
com a destruição de qualquer indivíduo segundo o que lhe diz respeito
puramente, eu deixo de ter condição de olhar com autonomia e liberdade
para qualquer indivíduo.”
A dois metros de Francenildo, Arthur Virgílio, do PSDB, pegou o
microfone e pronunciou: “Não posso mais empenhar solidariedade política
ao ministro Antonio Palocci. Não era para ele estar aqui sendo julgado
pelo senhor Francenildo. Ele rebaixou seu papel!”
Heloísa Helena pediu a palavra. “Primeiro, quero dizer, senhor
Francelino, da minha admiração pela sua coragem, meu filho.” E, sempre
tratando Francenildo por Francelino, prosseguiu falando de si mesma:
“Sei dos preconceitos. Quando uma mulher entra na política, dizem que é
prostituta ou lésbica.” Wlicio e Francenildo concordaram com a cabeça.
Vinte e sete minutos depois de iniciada a sessão, ouviu-se pela
primeira vez a voz de Francenildo, em resposta a uma pergunta da
senadora: “Eu só quero saber o seguinte: você confirma tudo o que
disse?”
“Confirmo.”
Quatro minutos depois: “O senhor recebeu algum dinheiro para dar esse depoimento?”
“Não.”
Agripino Maia, do PFL, *olhou nos olhos do caseiro e sussurrou*:
“Francenildo, meu conterrâneo, você é um brasileiro típico. Você é a
quem o presidente Lula se refere. Você comparece vestido modestamente,
com uma camisa discreta, uma calcinha surrada, um sapato modesto, mas o
seu olhar é firme e sua palavra, decidida” – até o momento, duas
palavras: confirmo e não. E numa exortação súbita, que chegou a assustar
a platéia: “Diga tudo, Francenildo! Diga tudo! Não esconda nada!”
É a vez do senador Pedro Simon, que se dirigiu a Francenildo sem
condescendência ou descaso: “O destino é isso. De repente, você é
colocado numa posição na qual você pode ser uma pessoa da maior
importância para o Brasil. Mas você tem que dizer a verdade.”
Afastando uma mecha de cabelo, o senador Wellington Salgado se
indignou: “Esse cidadão que eu nunca vi, ele nem sabe o jogo em que ele
está entrando. Isso aqui parece mitologia grega, onde os deuses brincam
com os mortais. O senador Simon disse que, se o cidadão falar, o
ministro cai. O que esse… como é?…” – remexeu papéis – “… esse
Francenildo disser, eu vou escutar, mas quero também escutar o
ministro.”
Flávio Arns, senador do PT, começou *bem, chamando* Francenildo de
Francenildo, mas durou pouco: “Lino, destruir a reputação de pessoas com
declarações infundadas é uma questão muito séria. É preciso fazer uma
reflexão muito profunda sobre a ética da comunicação.” Wlicio e
Francenildo concordaram com a cabeça.
Duas horas e quinze minutos depois de abertos os trabalhos, o relator
da CPI enfim deu início à oitiva. O depoente se apresentou: “Bom, eu
sou um caseiro, o homem lá é um ministro, então é a minha palavra contra
a dele.” Mostrando o celular, prosseguiu: “Se eu tivesse esse celular
na época, tinha tirado fotografia. O meu arrependimento só foi esse. É
tudo o que eu tinha a declarar. Eu sou Francenildo dos Santos Costa.”
Às 14h30, a senadora Ideli Salvatti interrompeu a sessão para avisar:
acabava de receber a liminar do STF, que acatara o mandado de Tião
Viana. Perplexo, Pedro Simon perguntou: “Quem impetrou o mandado foi o
PT?” Ao ouvir a resposta, cochichou: “Quem diria, quem diria…”
Francenildo ficou três horas sentado diante dos senadores. Falou apenas
41 minutos.
Efraim Morais leu ao microfone a liminar em que o ministro Cezar
Peluso, do Supremo, aceitara a tese de desvio de finalidade: a
entrevista ao Estadão demonstrava ser o caseiro uma “pessoa simples que
se propõe a fazer afirmações constrangedoras sobre a vida íntima de
pessoas ligadas ao governo”. De resto, Francenildo não poderia
compreender a natureza do dinheiro que circulava dentro da casa: “É o
que se presume à condição cultural e ao próprio trabalho que a
testemunha desempenharia no local apontado.” O presidente da CPI
exclamou: “Vou solicitar à Polícia Federal que dê garantia de vida ao
senhor Francenildo!”, e três homens se postaram atrás do caseiro.
Arthur Virgílio apoiou Efraim Morais: “É essencial que o senhor exija
garantia de vida ao senhor Francenildo Costa, que eu imagino
potencialmente ameaçado porque seu depoimento causou celeuma. Pedirei a
demissão de Antonio Palocci, que não tem mais condições de ser ministro
porque temeu as palavras de um jovem que mal podia balbuciar suas
frases.”
Ideli Salvatti agora berrava. A oposição espetava dedos fotogênicos
no ar e Tião Viana, sereno, garantia: “Não feri o manto constitucional.”
Enquanto um cordão de policiais retirava Francenildo da sala,
ouviu-se a última manifestação do dia. Era o senador governista Magno
Malta, aproveitando as câmeras ainda ligadas: “Quero deixar claro que
não fui contra a vinda do senhor… do senhor…” E esticando a cabeça para
ler a plaquinha diante da cadeira agora vazia: “… do senhor Francenildo
dos Santos Costa.”
A sessão terminava como havia começado, com um senador que não se
dera ao trabalho de guardar o nome da testemunha interrogada.
Francenildo se lembraria do que sentiu naqueles momentos: ninguém sabia
quem ele era, e ninguém se importava.
Num café de Brasília, comendo uma pamonha, um jovem assessor
parlamentar do quadro técnico do Congresso, de nível superior,
concursado, explica a natureza de seu trabalho e como funciona uma CPI.
“Quando sou chamado para assessorar um senador, abro mão da minha
posição funcional e viro partidário: sou do Tião Viana, sou do Arthur
Virgílio. Quem faz a CPI são funcionários como eu. Chamamos gente do
Banco Central, da Receita, formamos uma força tarefa e damos a linha
mestra. As perguntas são entregues aos senadores na véspera, à noite.
Repassamos com eles as questões, dizemos por onde seguir e por onde não
entrar. Eles não têm tempo para investigar e, francamente, nem sempre
têm capacidade. Fazemos o trabalho sujo. Quando a Justiça permite,
passamos dias analisando extratos, e aí damos de cara, por exemplo, com
um gasto de 20 mil reais numa joalheria. O bom assessor não hesita: liga
para a mulher do suspeito e pergunta se ela ganhou uma jóia. Ah, não?
Ah, ele é um safado? Ah, a senhora quer acabar com ele? Então acabe com
ele aqui, com a gente.”
Qual era o objetivo da CPI dos Bingos? “Conseguir o maior número de
baixas no governo. A linha mestra era atacar o Palocci e achar um elo
entre ele e os bingos. Conseguimos. De bingo mesmo, investigamos muito
pouco. Só no final, para constar. Nós é que direcionamos as perguntas
para o motorista. Antes do depoimento, a gente sentou com ele e
perguntou o que ele sabia. Ele nos falou que existia um caseiro. Então
dissemos aos senadores que perguntassem sobre o caseiro. E foi assim que
o Francenildo entrou na história.”
O petista Tião Viana sabia disso. “Ele era o grande personagem
daquela CPI. Nada não passava por ele”, diz o assessor. Havia fundamento
no mandado de segurança que impetrou, ainda que os argumentos do STF
tivessem sido mais de classe do que de mérito. Francenildo fora mesmo
convocado apenas para prejudicar Palocci.
Naquela quinta-feira, na sala da CPI, os únicos que não sabiam disso
eram o próprio caseiro e seu advogado. Ambos ignoravam também que, na
mesma tarde, o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, recebia o
CPF de Francenildo. E que no Palácio do Planalto, às 17h30, numa reunião
para discutir a situação dos bancos estatais, o presidente Lula se
reunia com sete integrantes do governo, entre os quais os ministros
Antonio Palocci e o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge
Mattoso.
Mattoso saiu tenso do Planalto. Em vez de ir para casa, como parecia planejado, disse ao seu motorista que voltasse à Caixa.
A QUEBRA
Ao deixar o Senado, Francenildo e Wlicio foram levados à sede da
Polícia Federal, aonde chegaram por volta das quatro da tarde. Pegaram o
elevador e entraram na sala do delegado Wilson Damázio, diretor da
Coordenação-Geral de Defesa Institucional. Logo apareceram outros
policiais.
Diante da dupla, o grupo se pôs a discutir pormenores da inclusão de
Francenildo no “programa”- o Programa de Proteção ao Depoente Especial.
Wlicio não compreendia, e Francenildo menos ainda. “A verdade é que nós
estávamos perdidos”, disse Wlicio. “A gente estava à margem de tudo o
que estava sendo discutido. Ninguém nos informou como era o programa.
Quando chegamos lá, eles já haviam tomado a decisão.”
Um agente perguntou a Francenildo: “É só você que quer proteção, ou também a tua família?” “Minha e de meu filho”, ele respondeu. “Então vamos lá na tua casa pra você pegar umas roupas e perguntar se a tua mulher quer entrar no programa.”
Um agente perguntou a Francenildo: “É só você que quer proteção, ou também a tua família?” “Minha e de meu filho”, ele respondeu. “Então vamos lá na tua casa pra você pegar umas roupas e perguntar se a tua mulher quer entrar no programa.”
Wlicio avisou que às cinco horas deveriam estar no escritório, pois
haveria uma entrevista coletiva, sobre a decisão do Supremo. “Não”,
disse-lhe o policial. “Depois que entra no programa, não pode mais falar
com ninguém.” A entrevista teria de ser cancelada. “Nildo, você vai em
casa, pega uma roupa e a gente se fala mais tarde”, disse.
Em São Sebastião, cidade-satélite onde Francenildo estava morando,
Noelma viu os policiais chegarem. Não quis participar do programa e
brigou com o marido. Não compreendia por que a casa estava ocupada por
agentes que vasculhavam cada cômodo, abriam a geladeira, olhavam dentro
do guarda-roupa. O marido não soube explicar.
Apenas juntou uma muda de roupas, beijou o filho e foi levado embora.
Apenas juntou uma muda de roupas, beijou o filho e foi levado embora.
De volta à Polícia Federal, quase oito da noite, o delegado Damázio
disse ao caseiro que precisava dos documentos dele. Francenildo entregou
o CPF e a carteira de identidade. “Tudo”, insistiu Damázio, e recebeu
de Francenildo o cartão do banco. Um escrivão pegou os documentos,
atravessou duas salas sem fechar as portas atrás de si e, à vista de
Francenildo, tirou xerox de tudo. “Celular e chaves também”, disse
Damázio. Ele esvaziou os bolsos.
Enquanto esperava que a papelada ficasse pronta, ouviu o toque de um
celular na outra sala. Era o seu, reconhecia pelo tom característico.
“Meu telefone está tocando.” “Não é o teu”, respondeu um agente. Mas
era, sim: *Wlicio estava ligando*.
Ele contaria depois: “Tentei insistentemente, mas ninguém atendia.
Lembro até hoje. Pus a mão na cabeça e disse: ‘Puta que o pariu! Nem no
Congo eu fiz tanta cagada! Como é que eu estou defendendo uma pessoa
contra o governo e deixo ela na mão do governo?’” Jornalistas
telefonavam e Wlicio lhes dizia que perdera contato com o cliente.
Informaram a Francenildo que ele tinha direito a um único telefonema.
Foi para a mãe que ele ligou, no Piauí. Trouxeram então papéis para que
assinasse.
Às dez da noite, o delegado Damázio telefonou a Wlicio: “Doutor, que
história é essa de dizer para a imprensa que a PF seqüestrou o seu
cliente?” “Doutor, eu não usei o verbo ‘seqüestrar’. A minha reclamação é
que, desde as cinco da tarde, estou tentando falar com ele e não
consigo.” Damázio respondeu: “Você pode falar com ele quando quiser, mas
agora o telefone dele é o da Polícia Federal, o endereço dele é o
da Polícia Federal.” Ao assinar os papéis, Francenildo abdicara do direito de ir e vir e passara a ser tutelado pela PF. Eram as normas do programa. “Está tudo bem, Nildo?”, perguntou Wlicio. Ouviu um titubeante “Está, está”.
da Polícia Federal.” Ao assinar os papéis, Francenildo abdicara do direito de ir e vir e passara a ser tutelado pela PF. Eram as normas do programa. “Está tudo bem, Nildo?”, perguntou Wlicio. Ouviu um titubeante “Está, está”.
Eram 22h40 quando Francenildo entrou num carro com motorista e dois
agentes. Passaram-lhe as regras: “Você está sendo levado para uma casa.
Você vai dividir o quarto com alguém. Não vai fazer perguntas a ele, nem
ele a você.” O carro pegou uma estrada e deixou a cidade para trás.
Chovia forte.
Poucas horas antes, o presidente da Caixa Econômica Federal Jorge
Mattoso saíra no meio da reunião no Palácio do Planalto e voltara ao
soturno prédio redondo que abriga a sede do banco. Subiu até o 21º
andar, entrou em seu gabinete e chamou Ricardo Schumann, consultor da
presidência. Segundo Schumann declarou à Polícia Federal, Mattoso lhe
passou verbalmente o número do CPF de Francenildo e disse: “Veja o que
ele tem na Caixa.”
Era um pedido insólito. Quando há suspeita em relação à movimentação
de um correntista, o canal institucional da Caixa a ser acionado é a
Superintendência de Controle Interno, que, por sua vez, se descobrir
razão sólida para aprofundar a averiguação, acionará o Conselho de
Controle de Atividades Financeiras, Coaf, agência ligada ao Ministério
da Fazenda cuja atribuição é exatamente investigar movimentações
atípicas de dinheiro. Mattoso confirmou à polícia que pediu a impressão
dos extratos do caseiro, e não usou os canais de praxe, “tendo em vista o
adiantado da hora”.
Já Schumann afirmou à Polícia Federal que, por desconhecer as
atribuições do Coaf, não considerou estranha a ordem, até porque,
segundo disse, “consultor faz de cafezinho a Boeing”. Estava a minutos
de acrescentar um novo item à sua ampla gama de atribuições: a quebra
ilegal de sigilo bancário.
Como é característico das burocracias, a ordem foi passada adiante,
adiante e mais adiante. Schumann ligou para uma funcionária, pediu-lhe
que viesse à sua sala – não queria falar por telefone. Perguntou se ela
chefiava alguém de confiança que tivesse acesso à senha do sistema de
consulta a extratos. Explicou que se tratava de assunto sigiloso, para
fins de comunicação ao Coaf. A funcionária anotou o nome e o CPF de
Francenildo, tomou o elevador e entregou as informações a um subordinado
que, do seu laptop, gerou o primeiro extrato do caseiro, no qual foi
impresso, automaticamente, o horário da consulta: 20h56min06s.
O extrato registrava que Francenildo dos Santos Costa, com renda
declarada de 510 reais por mês, recebera, a partir de 6 de janeiro
daquele ano, três depósitos mensais, nos seguintes valores sucessivos:
10 mil reais, 9 990 reais e 5 mil reais. O último baixara na conta em 6
de março, dois dias antes de o motorista Francisco das Chagas depor à
CPI. Clique. A moenda acabava de ser azeitada, e pôs-se a moer.
As câmeras de segurança gravaram imagens de Jorge Mattoso deixando o
prédio da CEF às 20h58, dois minutos depois da violação. Schumann
permaneceu ali mais um pouco. Nos dez minutos seguintes, foram impressos
outros dois extratos, às 20h58 e às 21h06. Ele os recebeu da
funcionária, colocou-os num envelope pardo com o timbre da Caixa, e foi
embora. Eram 21h19, *treze* minutos depois da impressão do último
extrato.
Quando o presidente da Caixa apareceu no estacionamento, o motorista
saiu do carro e abriu a porta. Mattoso lhe fez sinal e disse que não,
iria no carro de seu assessor de imprensa. O motorista deveria segui-lo.
Os dois carros pararam no La Torreta, um pequeno restaurante espanhol
com sofás brancos capitonês. À mesa, Mattoso sentou-se com um assessor
jurídico e outro de imprensa. Entre 21h15 e 21h30, conversou por
telefone com Antonio Palocci – “Eram assuntos pendentes”, explicaria
posteriormente o ministro à Polícia Federal.
Ricardo Schumann chegou ao La Torreta pouco depois e entregou o
envelope a seu chefe. Jorge Mattoso o abriu, conferiu as folhas,
devolveu-as ao envelope, terminou o jantar e partiu. Saiu do restaurante
com ar contrariado, conforme seu motorista. Usualmente boa-praça e
falante, estava calado e assim ficou. Deu apenas o destino: a casa do
ministro Antonio Palocci, um trajeto que *o motorista* só havia feito
uma vez desde que Mattoso tomara posse na Caixa. Eram onze horas da
noite.
Palocci abriu a porta e Mattoso lhe entregou o envelope. Não falaram
mais de dez minutos. Em depoimento à Polícia Federal, Palocci disse que
Mattoso precisava conversar sobre a instalação de agências da Caixa no
Japão e nos Estados Unidos. Trocaram idéias e, ao cabo, Mattoso lhe
mostrou os extratos. Eram da conta do caseiro, disse-lhe, e, como
revelavam indícios de movimentação atípica, teriam sido impressos para
efeito de comunicação ao Coaf. Palocci assentiu, deixou o envelope sobre
uma escrivaninha, e, ao levar Mattoso até a porta, pediu que seguisse
adiante com os trâmites legais cabíveis. (Mattoso não quis ser
entrevistado para esta reportagem.)
O ministro voltou para a sala, onde estavam duas pessoas: Marcelo
Netto, seu assessor de imprensa, e Daniel Goldberg, secretário de
Direito Econômico do Ministério da Justiça. À PF, Goldberg relatou que,
na conversa que se seguiu, passaram a avaliar mecanismos de investigação
para descobrir a origem “da grana levada pelo caseiro para comprar a
casinha”. Como era tarde, combinaram que se reencontrariam na manhã
seguinte, ali mesmo. A conversa terminou pouco antes da meia-noite.
Era a hora em que Francenildo se aproximava do abrigo que lhe
reservava o Programa de Proteção à Testemunha. O carro da Polícia
Federal entrou por uma estrada de terra batida. A noite era funda e
chovia sem parar. Temeroso, o caseiro tentava se localizar, caso
precisasse fugir, mas não enxergava nada. Quando chegaram, finalmente,
viu uma lâmpada nua na frente do portão. Outra iluminava a fachada do
prédio de dois andares que alojava os agentes da polícia. Francenildo
divisou um barraco e intuiu que era para lá que o levariam. Estava
certo.
“Andei uns 70 metros embaixo de uma chuva danada, com um homem de
capa que tinha um bafo de pinga horrível. Quase pedi um gole”, lembra. O
guarda bateu na porta do barraco e um “protegido” abriu. “Ele estava
vendo televisão. Olhei em volta, tinha dois colchõezinhos e uns gatos.
Sei que era perto da meia-noite porque estava passando o Jornal da
Globo.”
A porta se fechou atrás de Francenildo. A passos lentos, hesitantes,
*ele* foi até o meio da sala e esperou alguma reação do homem. Nada, o
*protegido* mantinha os olhos na televisão. “Como eu só tinha comido os
salgadinhos da CPI , perguntei: ‘Tem comida aí?’” “Tem um resto na
geladeira”, o outro respondeu. Na cozinha, encontrou tudo sujo: fogão,
panelas, pratos. Achou uma lata de sardinhas e uns ovos. Limpou a
frigideira, acendeu o fogo e fritou sardinha com ovo.
Da sala, o protegido gritou: “Você acabou de aparecer aqui no jornal.
Deve passar também naRecord.” Francenildo se aproximou enquanto o homem
trocava de canal. Não demorou muito: “O caseiro Francenildo dos Santos
Costa disse que o ministro Palocci…”
O homem se virou e, curioso, cravou os olhos em Francenildo. Era um
moreno gordo, de uns 20 e tantos anos. Apresentou-se: traficante no
Ceará, havia denunciado comparsas, a mulher fora assassinada e ele
fugira para se proteger. Relatou assaltos e assassinatos que cometera.
Estava abrigado na casa já fazia quatro meses. “É bom, tem até caminhada
de manhã cedinho.”
Francenildo perguntou onde poderia dormir. “Tem um colchão aí. Cama
não tem não.” O caseiro notou um vão de 10 centímetros entre o chão e a
porta: “Dormir em chão que não conheço, no meio do mato, não durmo,
não.” Usou duas caixas como base, pôs uma tábua por cima, jogou o
colchonete e fechou os olhos. “Quando o sono batia, eu me sentava. Tinha
medo de dormir, não queria sonhar. Passei a noite deitando e sentando,
deitando e sentando.”
Às seis da manhã, tomou um banho gelado para ficar de pé. Enquanto a
água caía e o bandido roncava, pensou: “Não matei, não tenho que estar
aqui. Vou embora.” Disse a um guarda que queria voltar para casa. Ficou
sabendo que, para sair do programa, era preciso voltar a Brasília e
passar pela burocracia. Chegou três horas depois à sede da PF. Seu
advogado o esperava. “Quando vi o Wlicio, pensei que era Deus”, disse.
“Acho que quem fica preso dez, quinze anos, deve sentir isso quando revê
pela primeira vez um conhecido.”
A burocracia demorou até o meio-dia. Às três e meia, depois de
almoçarem juntos, Wlicio deixou Francenildo em casa e voltou para o
escritório. Tinha trabalho acumulado a despachar. Sentou-se na
escrivaninha às seis da tarde. Meia hora depois, o telefone tocou: “Ô
Wlicio, vem cá, que dinheiro é esse na conta do teu cliente?” Era o
jornalista Andrei Meireles, da Época.
No governo, as horas que antecederam o telefonema de Meireles foram
frenéticas. Pela manhã, Daniel Goldberg, do Ministério da Justiça,
retornou à casa de Palocci. Vinha acompanhado de Cláudio Alencar, chefe
de gabinete do ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, que estava em
Rondônia. Palocci disse aos dois que telefonara para Helena Chagas,
do Globo, para saber se era verdade que o jornal estava fazendo uma
matéria sobre o dinheiro suspeito do caseiro. Helena Chagas confirmara a
informação. Do ponto de vista * legal*, o telefonema de Helena Chagas –
citado por Palocci no inquérito policial – era decisivo: significava
que o ministro podia falar com seus assessores sobre o dinheiro de
Francenildo sem trazer à baila os extratos que Jorge Mattoso lhe
entregara na véspera, pois eram eles, justamente, a prova da quebra
ilícita do sigilo bancário.
Palocci negou à Polícia Federal ter mostrado os extratos a quem quer
que fosse. Negou também ter dado a ordem para a quebra de sigilo.
Nenhuma das pessoas investigadas o contradisse, e Mattoso declarou
expressamente à PF que foi dele, Mattoso, a iniciativa de consultar os
registros bancários do caseiro.
“Nunca dei ordem para a quebra. Pedi, sim, que tentassem explorar a
possibilidade da Polícia Federal investigar a origem daquele dinheiro,
que àquela altura parecia suspeita”, contou Palocci no final de
setembro. Goldberg e Alencar se mostraram céticos. O caminho mais
correto seria acionar o Coaf, o que implicava a desvantagem do tempo – o
órgão seguia um rito investigatório cuidadoso, lento, e havia pressa.
Ainda assim, os dois assessores de Márcio Thomaz Bastos disseram a
Palocci que iriam à sede da PF para tentar descobrir alguma alternativa a
ser explorada. Deixaram a casa do ministro por volta de uma da tarde.
Na Polícia Federal, Goldberg e Alencar se reuniram com o mais alto
funcionário disponível, o diretor-executivo Zulmar Pimentel, um delegado
amazonense de 54 anos conhecido pelos nomes exuberantes com que
batizava as grandes operações da PF: Anaconda, Cavalo de Tróia,
Curupira, Narciso. Pimentel ouviu o caso e não demorou a responder: “Não
se instaura um processo sem suporte técnico, em especial se baseado em
boatos.” Decerto, havia mais do que boatos. Existiam os extratos – mas
estes não podiam ser exibidos.
Na mesma tarde o presidente do Coaf, Antonio Rodrigues, recebeu um
telefonema do Ministério da Fazenda. O chefe de gabinete do ministro
queria falar com ele pessoalmente. Encontraram-se às 17h30, no prédio da
Fazenda. Rodrigues ouviu que “estava na imprensa a informação de que o
caseiro havia recebido dinheiro.” Respondeu que nada sabia e esclareceu
que “o Coaf não faz investigação aleatória”. A reunião não durou mais de
dez minutos.
De volta ao Coaf, teve o cuidado de fazer uma rápida consulta para
saber se havia chegado alguma comunicação sobre Francenildo. Nada.
Vasculhou a imprensa e só encontrou notícias sobre o depoimento do
caseiro à CPI. Diferentemente do que lhe dissera o chefe de gabinete de
Palocci, a informação de que “o caseiro recebera dinheiro” ainda não
“estava na imprensa”. Estaria dentro de alguns minutos.
Goldberg e Alencar retornaram à casa de Palocci por volta das seis da
tarde. O ministro estava com Marcelo Netto, seu assessor de imprensa.
Informaram Palocci sobre a posição da PF. Haviam inclusive ligado para
Márcio Thomaz Bastos, que diria um mês mais tarde: “Não participei da
quebra de sigilo, nem meus assessores. Eu estava em Rondônia. Não fui
informado da quebra, mas sim de um pedido de Palocci para que fosse
investigada a suspeita de que o caseiro havia recebido dinheiro para
prestar depoimento.”
A polícia e o Coaf haviam fechado as portas. Restava a imprensa. A
Polícia Federal quebrou o sigilo telefônico de Marcelo Netto. Minutos
antes de Wlicio receber o telefonema de Andrei Meireles, ele ligou para
órgãos de imprensa e, em especial, várias vezes para a Época.
O PAI
“Eu senti como se fosse uma facada”, diz Wlicio. “O Andrei começou a
ler depósito por depósito, 10 mil num mês, quase 10 mil no outro, 5 mil
no seguinte. E eu ali, feito um babaca, sem saber o que dizer. Porra, eu
tinha pegado o caso de graça e agora isso? O cara tava levando grana?”
Meireles listava, Wlicio ia anotando num bloquinho: CEF, ag. 0674, Lago
Sul; 02/01 saldo: R$ 224. 06/01: dep 10.000,00… Extrato: 20h58min21s. O
repórter da Época conseguia agora, finalmente, pular à frente de uma
história que poucos dias antes lhe caíra no colo e ele deixara escapar
porque estava no dentista.
“Andrei, eu não tenho idéia do que é isso. Mas uma coisa eu te
garanto: se tiver sacanagem, eu vou ser o primeiro a pôr a boca no
trombone.” Wlicio desligou o telefone e enterrou o rosto nas mãos. “Puta
que o pariu! Depois de tanta aventura, depois do Congo, onde é que eu
fui me meter…” Já imaginava o que todos diriam: ou era idiota, por não
saber de nada, ou era *bandido*, por participar da maracutaia. “Liguei
para o Nildo já metendo o pé na goela: ‘Que caralho de dinheiro é esse
na tua conta, meu irmão? Eu não estou te cobrando nada e você me apronta
uma dessas?’”
“Quando o telefone tocou e eu ouvi a voz do Wlicio, foi duro”, lembra
Francenildo. “Era voz de briga, os termos eram feios. Pensei: ‘Agora a
minha vida acabou. Quem estava do meu lado vai embora.’”
E então explicou.
Cinco meses antes, havia tomado um avião e viajara a Teresina com uma
coisa na cabeça: falar com o pai e pedir para ser registrado como
filho. “Por quê?”, perguntou Wlicio. “Ué, porque eu tenho um pai!”,
respondeu espantado *o caseiro*.
Ao chegar lá, esperou uns dias e, num domingo, foi à garagem de
ônibus da empresa Soares. Sabia, por amigos, que o homem com quem queria
falar costumava passar os domingos trabalhando. A sala dele estava
aberta e Francenildo entrou. Um senhor atarracado levantou a cabeça: “É
reclamação?” Francenildo ficou um instante parado antes de dizer: “Não
está me reconhecendo, não?” O homem não compreendeu. Houve um silêncio.
“Sou o filho da Benta, sou teu filho, o Francenildo.” O pai se levantou.
Era um homem já na casa dos 70 anos, de semblante duro e rosto
pedregoso. “O que você veio fazer aqui?”, perguntou. O filho respondeu:
“Você sabe o que eu vim fazer aqui.”
Eurípedes Soares da Silva começou a gritar. “Ele grita até com o
vento”, conta o filho. Saiu porta afora e ficou dando voltas no pátio,
até finalmente voltar à sala e perguntar. “Você quer uma ajuda?” “Eu
quero um registro”, respondeu Francenildo. Ameaçou-o com uma ação de
paternidade e saiu.
Dois dias depois, recebeu o recado de que o pai queria conversar.
Encontraram-se na beira de um posto de gasolina. Eurípedes lhe propôs
que aceitasse um dinheiro para “dar um jeito na vida” e que voltasse
dali a um ano. Era o tempo de que precisava para acertar a vida
familiar. Tinha esposa e filhos, o assunto era delicado. Ao longo de
dois outros encontros, discutiram cifras – Francenildo chegou a pedir
cem mil reais – e chegaram a um acordo: o pai lhe daria 30 mil reais. A
cada dia 5 do mês, depositaria 5 mil na conta do filho, até completar o
valor. Adiantou 10 mil em dinheiro. No escritório, entregou os maços –
“Me pediu pra contar” – e levou Francenildo à Caixa, para fazerem o
depósito. Depois foram almoçar juntos.
“Vê só”, concluiu Francenildo, “eu com oito anos tinha ido lá no pai,
ele me deu um dinheirinho e me mandou embora. Depois, bem mais tarde,
voltei lá, insisti, quis entender ele e que ele me entendesse, aí
conversamos, ele me levou para almoçar e chegou a me dar a mão, fiquei
sentindo uma coisa boa de que eu tinha pai. Eu estava feliz porque ele
disse: ‘No dia que você voltar aqui no Piauí, na casa da tua mãe, você
vem aqui na garagem, vem me visitar.’ Isso me deixou meio alegre. A
única coisa que ele pediu foi para eu não falar do dinheiro antes dele
acertar com a família.”
Wlicio ouviu a explicação. No pé da mesma página em que anotara as
informações de Andrei Meireles, escreveu: Expresso Soares. Teresina.
Eurípedes Soares. (86) 3249-21… “Você tem os extratos?”, perguntou. Sim,
tinha.
E então Wlicio teve o estalo, a iluminação: “Você tirou o extrato
ontem na PF?”, perguntou. “Não”, respondeu o caseiro “Você autorizou
alguém a tirar o extrato pra você?” Ao ouvir outra negativa, o coração
disparou: “Separa todos os depósitos que eu vou te buscar. Acho que
acabamos de ser salvos pelo gongo.”
Pela primeira vez, a moenda começava a moer em outra direção.
Wlicio telefonou a Andrei Meireles, contou o que acabara de ouvir e
deu o telefone de Eurípedes. “Você podia confirmar tudo e não publicar a
história”, pediu. “É coisa pessoal, ninguém vai levar em conta, só vão
falar que ele tem dinheiro e vai ficar ruim pra ele.” Antes de desligar,
passou uma informação relevante: “Eu disse que não foi o Nildo que
tirou o extrato.”
Francenildo, aflito, correu para comprar um cartão e ligar para o pai
em Teresina. Tentou três vezes. Na quarta, conseguiu. “Alô?” Era a voz
surpreendentemente suave do pai. “Eurípedes” – nunca teve liberdade de
chamá-lo de pai -, “descobriram o dinheiro na minha conta e vão procurar
você”, disse. Sem saber direito quem eram eles, e no que o filho estava
envolvido, Eurípedes respondeu: “Deixa eles ligarem.” Foi a última vez
que Francenildo conversou com o pai.
Andrei Meireles falou com Eurípedes Soares, que confirmou os
depósitos, mas negou a paternidade. Às 18h45, sem qualquer aviso prévio,
a revista Época inaugurava às pressas o seu primeiro blog. Meireles
assinava o primeiro post:
Extratos revelam depósitos para caseiro – O caseiro Francenildo dos
Santos Costa, que ganhou fama ao aparecer na CPI dos Bingos esta semana
acusando o ministro Antonio Palocci de freqüentar a “casa do lobby”,
montada por lobistas de Ribeirão Preto, pode ser um trabalhador humilde,
como foi descrito diversas vezes, mas está longe de passar por
dificuldades financeiras…
A notícia não fazia menção à origem dos extratos.
Vinte e cinco minutos depois de a notícia entrar na internet, Jorge
Mattoso entregou uma cópia xerox dos extratos de Francenildo à
Superintendência de Controle Interno da Caixa, para que fosse remetida
ao Coaf. “Saiu numa revista, é preciso comunicar aos órgãos
competentes”, disse ao funcionário que recebeu as cópias. Palocci
destruiria os originais num triturador depois de ter certeza de que a
comunicação chegara ao Coaf.
Era o início da operação para dar amparo legal à quebra de sigilo.
O telefone de Wlicio “parecia que estava com febre”. Toda a imprensa
queria saber de onde surgira tanto dinheiro. Eram imensas as
desconfianças sobre a “teoria do filho bastardo”, como alguns
jornalistas começaram a se referir à relação entre Eurípedes Soares e
Francenildo. O advogado achou melhor convocar uma coletiva para aquela
mesma noite, às 21 horas, no hotel em que morava. Saiu para buscar seu
cliente em São Sebastião.
Francenildo estava abalado, sabia que tinha rompido o trato com o
pai. Para piorar, a caminho do hotel, soube um pouco mais da gravidade
da situação: “Era tudo o que eles queriam”, ouviu do advogado.
“Foi nessa hora que o Nildo entregou os pontos”, contou Wlicio. “Ele
começou a chorar, um choro convulsivo. Disse que não ia se perdoar se a
avó morresse. Ela entrava em estado de choque toda vez que ele aparecia
na televisão. Dei a mão para ele e pela segunda vez nós começamos a
rezar dentro do carro. Fechei o vidro pra não atrapalhar. Dessa vez, era
uma reza aos berros, a gente rezava e chorava, chorava e rezava.” De
mãos erguidas, triscando o teto, pediam aos soluços: “*Senhor*, nos
ajude a saber o que dizer, como dizer e quando dizer.”
Chegaram ao hotel uma hora antes da coletiva e subiram para o
terraço. Francenildo olhava em volta e só encontrava olhares de
desconfiança. “Ninguém acredita em mim, minha avó está passando mal, e
até o Lula falou ontem que eu era um simples caseiro”, pensou. (Não há
registro de que Lula tenha dito essa frase.) “Foi quando eu senti que
não tinha valor. Tive vontade de largar tudo. Pensei em duas coisas:
fazer eu mesmo, com uma faca ou uma corda, ou me atirar embaixo de um
carro. Aí pensei no Thiago. Eu cresci sem pai e não ia fazer a mesma
coisa com ele. O menino me salvou.”
Às nove horas da noite, com toda a imprensa diante deles, Wlicio
começou a falar: “Não vamos responder a nada antes de explicar a origem
do dinheiro.” Deu os esclarecimentos, mostrando recibo por recibo.
Francenildo se mantinha calado, olhos inchados. “Está o.k.? Está
claro?”, quis saber Wlicio. “Então, antes de abrir, eu tenho uma
pergunta para vocês: gostaria de saber quem retirou o extrato do meu
cliente, já que às 20h58min21s ele se encontrava em poder da Polícia
Federal, no Programa de Proteção à Testemunha.”
Cabeças começaram a se mexer. Bloquinhos foram freneticamente
folheados, à cata de uma página nova. Falava-se alto, ninguém mais se
entendia. Do meio da confusão, alguém gritou: “Você está acusando a
Polícia Federal de ter violado o sigilo bancário do seu cliente?” “Não”,
respondeu Wlicio. “Estou apenas dizendo que ele não retirou esse
extrato. E que, portanto, o sigilo dele foi violado.”
A entrevista terminou perto das 22 horas. Acompanhados por um
segurança do hotel, os dois foram em direção ao elevador. Rosa Costa, a
jornalista do Estadão, e outros dois repórteres que haviam sido *
corretos* ao longo daqueles dias entraram com eles. Quando a porta se
fechava, Andrei Meireles tentou entrar. Wlicio se virou para o segurança
e disse: “Esse não.”
Em pé, encostado na janela aberta de sua sala para não empestear o
ambiente com os cigarros que fuma sem parar, Wlicio pergunta: “Você
imagina o que teria acontecido se o Francenildo não tivesse saído do
programa de proteção? A notícia da Época saiu na sexta. Seria, no
mínimo, um fim de semana inteiro sem explicação. Sexta, sábado, domingo,
segunda. 1 a 0, 2 a 0, 3 a 0, 4 a 0 para o Palocci. Quatro dias é muita
coisa. Para explicar tudo depois, seria bem mais difícil. Por isso eles
cometeram o erro: pressa. Se tivessem esperado até segunda, não haveria
crime algum. A Caixa teria informado o Banco Central sobre a
movimentação atípica na conta do Francenildo, o BC teria repassado a
informação para o Coaf, que por sua vez teria expedido um ofício para a
PF pedindo a quebra de sigilo. Foi soberba. Eles não quiseram esperar um
fim de semana, e talvez não contassem que ele fosse deixar tão cedo o
programa. Na cabeça de quem fez isso, o Francenildo estava
incomunicável, sob a tutela da PF.”
Em junho passado, o senador Efraim Morais, que presidira a já extinta
CPI dos Bingos, recordou: “O rapaz estava com medo. Eu pedi proteção da
polícia. Não havia risco iminente, mas aquilo era uma bomba. Agora, não
me lembro de ter requisitado a inclusão dele no programa de proteção.”
Mas requisitou. Naquele 16 de março de 2006, um ofício assinado por
Morais foi expedido ao diretor-geral da Polícia Federal, pedindo
“proteção do referido depoente e seus familiares”, com menção explícita à
lei que rege o Programa de Proteção à Testemunha.
A sala do delegado Wilson Damázio é ampla e está repleta de diplomas.
Nas paredes, há também placas do FBI e de outras agências americanas de
combate ao crime com as quais ele estabeleceu laços ao longo da
carreira. Numa foto o delegado sorri ao lado do presidente Lula.
*Damázio* é grande, *cordato* e volumoso. Aparenta 50 e poucos anos e
tem um rosto redondo, adornado por um bigodinho fino que saiu de moda há
décadas.
Ele se sentou na cadeira de espaldar alto e abriu a conversa: “Então
você veio falar do caseiro? Antes da gente começar, me diz uma coisa:
aquela história do dinheiro que apareceu na conta dele ficou muito mal
explicada, não?” Ao ouvir que a própria Polícia Federal inocentara
Francenildo, Damázio assentiu: “Ah, então está resolvido. É que não
acompanhei as diligências. Vamos lá. O que você quer saber?”
O programa de proteção foi criado para salvaguardar a vida de pessoas
em situação-limite. Fazia sentido incluir Francenildo num programa tão
extremo? Damázio se reclina no encosto da poltrona e pondera antes de
falar: “Isso cabe à CPI responder. Veja, ele estava derrubando o
sucessor direto do Lula, alguém podia achar que de fato havia algum
risco.” A frase sai sem convicção, e ele percebe. Dobra-se para a
frente, apóia os cotovelos pesados na mesa, espalma as mãos na testa e
fecha os olhos. Então fala, com palavras escolhidamente burocráticas:
“Não quero que você ponha palavras na minha boca. Então deixa eu dizer:
‘Na qualidade de autoridade administrativa responsável pela execução da
medida assecuratória da testemunha, não me compete avaliar se seria o
caso de incluir a pessoa no programa.’” Abre os braços, espalma as mãos
nas extremidades da mesa e olha para seu interlocutor: “Compreendeu?”
Um funcionário do Congresso que trabalhou em inúmeras CPIs garante
que nunca viu ninguém sair de nenhuma sessão sob o peso de uma ameaça de
morte. “Afinal, o sujeito já falou o que tinha pra falar.”
Ao tentar sugerir ao país que o homem que comprometera Antonio
Palocci corria risco de vida, a oposição, com histrionice e jogo de
cena, acabou por jogar Francenildo num programa que, ironicamente, só
servia aos interesses do governo.
A PRESSÃO
Nos dias seguintes à divulgação dos extratos, aumentou a pressão
sobre Palocci e Francenildo. De um lado, havia o crime da quebra de
sigilo; de outro, a origem do dinheiro mandado por um pai que não se
dizia pai. “Eu ligava, e ninguém me atendia”, recorda-se Wlicio,
“ninguém mais confiava em mim.” Só recebeu um telefonema de apoio: o
jurista Miguel Reale Júnior, de São Paulo, ligou para empenhar
solidariedade e colocar-se à disposição.
Na segunda-feira, 20 de março, o telefone tocou de novo. Dessa vez
era um jornalista: “A Polícia Federal acaba de indiciar o Francenildo
por lavagem de dinheiro. Você tem alguma coisa a dizer?”
A comunicação feita ao Coaf havia seguido o seu curso – mas numa
velocidade espantosa. “O banco aciona o Coaf, o Coaf investiga, e
comunica à Polícia Federal, que pede à Justiça a quebra de sigilo”,
conta um especialista do mercado financeiro versado na matéria. “Esse
processo geralmente leva de sessenta a noventa dias. Dependendo do
interesse político, pode ser encurtado para dois meses.” A comunicação
da Caixa levou menos de 24 horas para cumprir esse percurso. O Coaf
sustenta no inquérito policial que existem exceções a esses prazos; de
fato, este é um deles.
Na CPI, membros do governo também exigiram a quebra de sigilo de
Francenildo. Tião Viana declarou: “Quero pedir tudo: cartão de crédito,
poupança e conta corrente. De janeiro para cá*!*” “Vai arrombar a porta
aberta?”, revidou o senador Antonio Carlos Magalhães, de bate-pronto.
Wlicio, ao ser informado do pedido de Tião Viana, mandou avisar: “Eles
querem abrir o sigilo que já foi quebrado ilegalmente? O Francenildo
autoriza.”
Na internet começaram a circular imagens de Francenildo com sacos de
dinheiro na mão. Um blog publicou: O caseiro sem caráter, que na
infância via todos os coleguinhas pronunciarem o nome do pai, um dia
disse: ‘Chega, não quero mais ser bastardo!’ E arranjou um suposto pai
para comprar seu silêncio. O Jornal do Brasil on-line expôs o seu
histórico de crédito: Nome sujo no SPC. Contas pendentes na C&A (410
reais), na Rival Calçados (114 reais), no Ponto Frio (63 reais), na
financeira Losango (108 reais).
Em São Paulo, dois assessores do PT foram à Polícia Federal para
dizer que um homem chamado Edson Tavares da Silva garantia ter recebido
uma proposta de Francenildo: se ele dissesse que Palocci freqüentava a
casa, os dois dividiriam um bom dinheiro. A polícia intimou o homem, que
se contradisse durante o interrogatório. A revista Carta Capital mandou
um repórter ao Piauí, para investigar a origem do dinheiro do pai de
Francenildo.
Os repórteres não o largavam. Descobriram onde morava. Conversaram
com vizinhos, mostraram a fachada de sua casa, disseram quanto pagava de
aluguel. “Um dia eu fui até o mercadinho e ouvi alguém dizer: ‘Esse
cabra está com muito dinheiro na conta, era o caseiro do Palocci.’”
Francenildo começou a ter medo de ser assaltado no próprio bairro ou,
pior, “que pegassem o meu menino”. A mulher, Noelma, foi à delegacia
pedir ajuda e ouviu do delegado que ele não podia fazer nada, mas
sugeria que deixassem o lote, pelo menos até que a poeira baixasse:
“Porque esse negócio é perigoso.” Acabaram se mudando. Noelma deixou de
falar com o marido.
Seis dias depois de ter seu sigilo exposto na imprensa, Francenildo
foi intimado a depor na Polícia Federal. Conheceu então o delegado
responsável pela investigação dos dois fatos: quebra de sigilo e
indícios de dinheiro suspeito na conta. Chamava-se Rodrigo Carneiro, era
jovem, ponderado e técnico. Fazia pouco tempo que estava na PF e esse
era o seu primeiro grande caso.
“Quero saber em que condição o meu cliente vai ser ouvido aqui hoje”,
perguntou-lhe Wlicio: “Na de vítima ou de acusado?” O delegado
respondeu: “Nem de vítima, nem de acusado, mas de investigado.” “O que é
a mesma coisa que indiciado. Só muda a palavra”, replicou Wlicio. “Qual
o crime?” O delegado se ajeitou na cadeira e, meio sem graça,
respondeu: “Lavagem de dinheiro.” O advogado desabafou: “Procede. A mãe
dele é lavadeira.”
Carneiro foi preciso no cumprimento do dever. Havia a denúncia do
Coaf e a investigação era um imperativo funcional. Ao longo do processo,
pediria à Justiça autorização para quebrar o sigilo bancário de
Francenildo – mais uma vez, agora legalmente.
Ainda que Carneiro não demonstrasse nada, Wlicio intuiu que o
delegado achava a denúncia absurda. No Código Penal, lavagem de dinheiro
pressupõe crimes antecedentes de “tráfico de drogas, contrabando de
armas, extorsão mediante seqüestro, crime contra o sistema financeiro ou
a administração pública e terrorismo.” E o delegado tinha diante de si
um caseiro desempregado, com 25 mil reais na conta.
Ao fim do depoimento, Carneiro sugeriu que os dois saíssem pelos
fundos, para evitar o constrangimento da imprensa. Wlicio balançou a
cabeça: “Não. Nós vamos sair pela porta da frente. Se estamos sendo
indiciados por lavagem de dinheiro, é preciso dizer alguma coisa.”
Diante da multidão de repórteres, Francenildo disse: “Eu peço àqueles
que quebraram o meu sigilo bancário que quebrem também o meu sigilo
eleitoral. Aí vão ver que um simples caseiro votou no operário, que
agora está lá em cima.”
Ao tentar furar o bloqueio de câmeras e microfones, Francenildo
perdeu um sapato. Descalço de um pé, entrou no carro a tempo de ainda
ouvir uma última pergunta: “Você não acha que vender tua paternidade é
um ato imoral?”
No Congresso, a senadora Ideli Salvatti acusou Francenildo de visitar
gabinetes da oposição. Insinuava que “esse rapaz” provavelmente
estivera ali muitas vezes – e não apenas uma -, decerto para pedir
dinheiro; exigia, portanto, que lhe fossem entregues as fitas das
câmeras de segurança do Senado. Uma reunião na Corregedoria foi
convocada para apurar a denúncia. Mais uma vez, Wlicio e Francenildo se
viam diante dos senadores. O corregedor, senador Romeu Tuma, não atendeu
ao pedido de Salvatti, mas contou: “Fui lá na sala de controle e revi
as fitas. A acusação era infundada. O rapaz só tinha vindo uma vez ao
Senado, no dia em que o levaram no gabinete do Antero.”
Foram dois dias de acareação. Além de Francenildo, convocaram o
corretor João Gustavo Coutinho e Enéas de Alencastro, o assessor
parlamentar que trouxera o caseiro para o Senado. Houve manifestações de
solidariedade -”Acho que temos que ter a coragem de votar por
unanimidade uma comenda a vossa senhoria, que é, sim, o verdadeiro
cidadão brasileiro”, propôs Antero Paes de Barros – e promessas: “Nós
devemos verificar a possibilidade de conseguir a casa própria e um
emprego definitivo para ele”, sugeriu Pedro Simon.
No dia 27 de março, onze dias depois da quebra do sigilo bancário de
Francenildo e duas semanas depois da entrevista ao Estadão, Antonio
Palocci pediu demissão do cargo de ministro.
Francenildo foi convidado a dar entrevista no Fantástico e nos
programas de Jô Soares, Ratinho, José Luiz Datena e Roberto Cabrini. Não
foi a nenhum. Wlicio só aceitou um convite, feito por Miguel Reale
Júnior, o advogado que lhe telefonara quando todos pensavam que
Francenildo fosse venal. Tratava-se de um ato de desagravo na seção
paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. O evento teve até convite e
nome de batismo: “Você está indignado?” Encimada por uma epígrafe de
Soljenítsin, a convocatória avisava: “Com a presença do caseiro
Francenildo Costa.”
De manhã bem cedo, meio contra a vontade, Francenildo embarcou com
Wlicio. Em Congonhas, foram recepcionados por uma alcatéia de advogados.
De olho nos fotógrafos, um procurador, “um cabra que falava assim meio
cuspindo”, não desgrudava do braço de Francenildo. Seguia-o até mesmo no
banheiro. Enquanto fazia xixi, o homem ligava do celular para uma
jornalista: “Olha, estamos saindo do aeroporto.”
Foram até a OAB numa comitiva de três carros. De tão apertado, um dos
advogados praticamente sentou no colo do caseiro. Entraram num
auditório repleto e subiram no palco, onde ocuparam uma mesa composta
pela alta cúpula do direito bandeirante – do presidente da OAB-SP, Luiz
Flávio Borges D’Urso, a seu antecessor, Rubens Approbato Machado, entre
vários outros dignitários. Havia também deputados de oposição, entre os
quais Zulaiê Cobra, do PSDB.
Começaram os discursos, que, num crescendo irresistível, evoluíram do
langoroso “Esse modesto homem que não sabe o que é cidadania nos deu
uma aula de cidadania” ao estrepitoso “Fora, Lula! Fora, Lula!”, puxado
por Zulaiê Cobra. Ergueu-se uma faixa que pedia o impeachment do
presidente. A platéia ficou de pé e explodiu em urros: “Fora, Lula!
Fora, Lula! Fora, Lula!”
Os advogados haviam agendado uma fieira de entrevistas em São Paulo,
mas Wlicio e Francenildo se recusaram. O retorno a Brasília estava
marcado para as sete da noite, e eles o adiantaram em duas horas. Foi a
primeira e única vez que Francenildo esteve em São Paulo. “O aeroporto
de lá é bonito”, diz.
Menos de trinta dias depois de instaurado o inquérito policial, o
delegado Rodrigo Carneiro entregou à 10ª Vara da Justiça Federal um
relatório em que listava os crimes de prevaricação, denunciação
caluniosa, quebra de sigilo funcional e quebra de sigilo bancário.
Acusados de pelo menos um desses crimes, foram indiciados Antonio
Palocci Filho, Jorge Eduardo Levi Mattoso e Marcelo Amorim Netto.
O inquérito eximia Francenildo de qualquer crime. O delegado diria: “Fiquei inteiramente convencido da inocência dele.”
“Olha, tem uma coisa que ainda não ficou clara nessa história: quem
quebrou o sigilo do caseiro?” A pergunta foi feita no último andar de um
hotel em Brasília, em junho passado, por Antero Paes de Barros. Barba
por fazer, olhos cansados, o ex-senador parece à deriva, um homem longe
do poder. Ao ouvir uma das conclusões do inquérito policial – que o
sigilo foi quebrado na Caixa -, Paes de Barros meneou a cabeça: “Nada. O
sigilo do caseiro foi quebrado no Senado. Foi ali que começou. Não
posso dizer que foi o Tião Viana que quebrou, porque provavelmente não
foi. Mas pode escrever: quem levou a bomba para o Palocci foi ele. Foi
Tião Viana quem estimulou o governo a quebrar o sigilo.”
O assessor parlamentar que trabalhou na CPI auxiliando a oposição faz
uma afirmação semelhante: “A gente falava para os assessores do PT –
eles também têm os deles, claro: ‘Esse chefe de vocês, hein? Quebrou o
sigilo do caseiro…’ E eles riam. Todo mundo sabia que Tião Viana era o
mentor da quebra. Tenho uma convicção forte disso, mas é claro que não
dá para provar.” (Tião Viana não quis ser entrevistado.)
O relatório final do delegado Rodrigo Carneiro é claro quanto aos
acontecimentos daquelas semanas de março. Mas ele não resolve um
mistério: como Jorge Mattoso obteve o CPF de Francenildo e como soube
que ele tinha conta na Caixa? O inquérito esclarece que, às 9h09 do dia
16 de março – *duas horas antes de Francenildo entregar seu CPF ao
funcionário da CPI, e doze horas antes da quebra do seu sigilo bancário*
-, os dados fiscais e tributários de Francenildo *dos Santos Costa*
foram acessados pela Receita Federal. Esses dados não informavam se ele
tinha dinheiro, mas revelavam algo mais importante, sem o que não se
chegaria à sua conta: quanto pagava de CPMF e qual banco recolhia o
tributo. O delegado Carneiro colheu depoimentos de todos os funcionários
envolvidos no acesso, inclusive o do secretário da Receita, Jorge
Rachid. Não conseguiu provar que houve motivação política nesse acesso.
“Se eu escrever que existe uma forte probabilidade de o CPF ter
chegado a Mattoso através da quebra de sigilo fiscal na Receita, isso
lhe soaria estranho?” A pergunta é feita a um agente federal que
acompanhou de perto a investigação criminal. Ele sorri e, depois de uma
pausa, responde calmamente: “Não.”
Por sua vez, o advogado de defesa de Antonio Palocci, José Roberto
Batochio, disse “achar muito estranho” o fato de o sigilo ter sido
quebrado meia hora depois de Francenildo haver entregue o cartão da
Caixa ao delegado Damázio, da Polícia Federal.
A CLÁUSULA
Francenildo digitou uma vez. Errou. Digitou outra. Errou de novo. Na
terceira tentativa, o terminal engoliu seu cartão. É provável que as
pessoas em volta não tenham reparado, mas não era esse o sentimento
dele. Acostumado a ser reconhecido na rua, supôs que todas eram
testemunhas, de olhos fitos nele. Sem jeito, entrou na agência da Caixa e
explicou o ocorrido. O funcionário lhe indicou uma fila. Francenildo
entrou nela, esperou, mostrou documentos, provou quem era, foi
encaminhado de guichê em guichê, esperou sentado e finalmente recebeu um
novo cartão. Consultou seu saldo – mil e poucos reais – e foi embora,
não sem pensar no que acabara de lhe acontecer: “Eu demoro quase três
horas pra conseguir ver a minha conta e eles, quando quiseram,
conseguiram na mesma hora.”
Era o dia 10 de setembro do ano passado, e, pela primeira vez desde a
quebra de seu sigilo, Francenildo voltava à agência da CEF no Centro
Comercial Gilberto Salomão. “Peguei um desgosto da Caixa e fiquei muito
tempo sem ir lá”, disse. No ano e meio que se passou desde a entrevista
aoEstado de S. Paulo, sua vida mudou bastante. O dinheiro do pai se foi.
Ele comprou um lote para a mãe em Nazária, na periferia de Teresina, e
gastou o resto: “Gastei pra me esconder, gastei pra fugir e pra me
manter depois que perdi o emprego.”
Wlicio entrou com uma ação contra a Caixa, no valor de 50 mil
salários mínimos (17 milhões de reais), e outra contra a Época, de 4,2
milhões de reais, quantia calculada com base na tiragem da edição que
trouxe a reportagem sobre o dinheiro do pai de Francenildo. Em 4 de
agosto passado, em audiência frente a um juiz, a Caixa fez uma
contraproposta de 35 mil reais, 0.2% do valor da ação. A revista Época
não compareceu.
Wlicio e Francenildo fizeram um acordo pelo qual toda indenização
será dividida meio a meio. “Um processo desses pode se arrastar por dez
anos”, diz Wlicio. “Muito honestamente, 35 mil reais é quase uma piada
de mau gosto. Para mim é mau negócio. Mas eu tenho que pensar no
Francenildo. Na situação em que ele está, 35 mil reais fazem diferença, e
no caso eu não ficaria com a metade. É ele quem tem que decidir.”
Na frente do advogado, Francenildo hesitou. “O problema é a tal
cláusula…” A cláusula em questão faz parte do acordo proposto pela
Caixa. Se Francenildo aceitá-lo, terá de assinar um documento no qual o
banco se isenta de qualquer culpa. Na prática, Francenildo estará
declarando publicamente que seu sigilo não foi quebrado. “Eu quero
conhecer a justiça”, ele diz. “Depois que ela trabalhar, então eu posso
aceitar 35 mil reais. Eu esperei até hoje, espero mais um pouco. Eu
quero que a Caixa cometa um crime. Aí, sim.” Com um sorriso nos olhos,
acrescenta: “E quando sair a indenização, nem precisa dar o número da
conta, eles já têm.”
Como é da sorte dos anônimos, os detalhes que dizem respeito a
Francenildo foram perdendo suas nuances, até desaparecerem na
indistinção. Esta reportagem foi apurada ao longo de um ano. Durante
esse tempo, boa parte das pessoas entrevistadas se lembrava apenas
vagamente do caso. Sabiam que envolvia Palocci e um caseiro. E se
lembravam do dinheiro na conta de Francenildo. Muitas pessoas iniciaram a
conversa com a pergunta: “É sobre aquele caseiro que recebeu dinheiro?”
Em 25 de fevereiro de 2008, dois anos depois de entregue o relatório
final do delegado Rodrigo Carneiro, o procurador-geral da República,
Antonio Fernando Souza, eliminou três artigos propostos pelo inquérito e
denunciou Antonio Palocci por violação de sigilo funcional; Mattoso,
por violação de sigilo funcional e bancário; e Netto, por quebra de
sigilo bancário. O processo corre em segredo de justiça no Supremo
Tribunal Federal. A pena máxima de dois anos prescreve em 2010. Caso
sejam julgados culpados e recebam a pena mínima de seis meses, o delito
já estará prescrito.
Francenildo ainda é reconhecido na rua. Há dois meses, ele e Wlicio
foram a um restaurante. Na saída, Francenildo passou pelo banheiro e
voltou de lá meio sem graça. Tentou sorrir, mas não era bem um sorriso.
“O que foi?”, perguntou Wlicio. Ele respondeu: “Um senhor me reconheceu
no espelho. Me disse: ‘Você não é o caseiro que derrubou o Palocci?’”
Francenildo desviou o olhar e completou: “Eu queria que algum dia alguém
dissesse assim pra mim: ‘Você não é o caseiro que quebraram o sigilo,
que expuseram a vida e que nunca mais conseguiu falar com o pai?’”
* * *
Antonio Palocci elegeu-se deputado federal em 2006 e é presidente da Comissão de Reforma Tributária da Câmara.
Antero Paes de Barros perdeu as eleições para governador do Mato Grosso. Ele tem um blog e dá consultoria a prefeituras do PSDB.
Um ano depois de levar Francenildo ao Senado, Enéas de Alencastro foi
detido pela Polícia Federal na operação Gautama e indiciado por
formação de quadrilha, peculato e corrupção passiva.
João Gustavo Coutinho continua a exercer a profissão de corretor em Brasília.
Helena Chagas dirige o jornalismo da TV Pública.
A jornalista Rosa Costa permanece no Estadão. De vez em quando, ela telefona a Francenildo para saber como ele está.
A revista Época publicou a reportagem sobre Francenildo na edição de
número 409. A edição 410 trouxe um encarte com 11 páginas de publicidade
da Caixa Econômica Federal, o equivalente à soma de todos os anúncios
da CEF publicados nas outras revistas semanais no período de março a
julho de 2006.
Wlicio Chaveiro Nascimento segue advogando e fazendo negócios.
Atualmente, tenta trazer para o Brasil um método dinamarquês de
construção de lajes chamado BubbleDeck. Não descarta voltar ao Congo.
Quando o caso completou um ano, um empresário de São Paulo (que não
quer ter seu nome divulgado) leu uma reportagem que contava a situação
de Francenildo. Procurou Wlicio e se dispôs a pagar os estudos do rapaz.
Francenildo faz o supletivo à noite e limpa piscinas dois dias por
semana. Não acha emprego fixo* em Brasília desde 2006.
*Alterações em relação à edição impressa