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02 janeiro 2013

Minha vida - Parte III-B (Curso Técnico-Etfam- 1972-76)

Terminado o curso ginasial industrial, dei início, sem a necessidade de seleção, ao curso Técnico de Estradas. Esse curso me foi indicado pelo teste psicotécnico, pois eu fui dado como bastante habilidoso com números, cálculos. Fiquei muito feliza com essa constatação, além de que achava muito "legal" os alunos fazerem mediçõea com aparelhos topsgráfico. Não poderia ter escolhido um curso melhor! Foi amor à primeira vista. Já estamos em 1973.
Nessa época, meu primo José já enchera a casa de rebentos, todos com nomes artísticos, faltando apenas a Gina Lolobrígida... Não havia muito espaço para mim na rede debaixo daquela mesa onde por cinco anos me espremia no corredor, entrando na cozinha, onde me acordavam às cinco da manhã.
Dessa forma, José Brito, o pai das celebridades, me aprontou uma que nunca esqueço: como havia completado 18 primaveras, Brito me fez tirar minha documentação (RG, CPF, CTPS, essas coisas) e me levou para um passeio no centro da Zona Franca de Manaus, mais precisamente na rua Dr. Moreira, na loja Credilar Centro, e lá me apresentou para quem já conhecia da Etfam, o "Metralha". Dado esse nome, não precisa dizer mais nada: estava ferrado! O Brito, semeu saber, havia me empregado e lá fui encaminhado para uma megera, a gerente da Loja, que foi logo me dando um esporro e apontando para uma lata dágua, panos e esfregões, com os quais ela me apresentou ao trabalho. Há "filho da tia"! Foi meu primeiro com CTPS assinada. Um salário mínimo! Aquilo não dava pra nada! Mas assim mesmo fui despedido, desmamado pela mimha tia, e fui morar com minha mãe, a quem tinha trazido do Careiro em 1971 fugindo da enchente, como sempre.
Para poder pagar o quarto em que minha mãe veio morar com meu irmão Renato e minha irmã Jânia, tive de pedir, rogar, implorar mesmo, uma bolsa de estudos na Etfam, Contando minha situação, consegui sensibilizar o pessoal da Assistência Social, essa gente boa... Era Cr$ 50,00, o valor do quarto. Meu irmão renato é quem "segurava as pontas" para comprar o feijão, arroz e jabá. Para isso se tornou um excelente vendedor: bombons, pupunha cozida, cocada, e tudo o que pudesse ter valor de troca nesse capitalismo selvagem... Até hoje meu irmão compra e vende... De tudo, até casa pegando fogo, desde que a prazo para pagar com os lucros da operação...
Nosso pai, que retornara de ssua turnê de 3 anos, aparecu "morto de bêbado" em 1970, em plena copa do mundo, na casa de minha tia Alice. Não tinha onde ficar e tinha de lhe dizer que fosse embora, quase de madrugada, após assistrimos ao vídeotape dos jogos, e de ver os belos gols de Pelé & Cia.
Além de sofre a ausência de minha mãe e de meus irmãso, sofria a ausência de meu pai, e ainda tive de lhe sofrer a presença incômoda na casa de minha tia, que não tinha por ele nenhuma estima...
Aguentei firme por uns cinco meses. Trouxe minha mãe e irmãos do Petrópolis para a Praça 14. Mais perto do meu trabalho, pois teria de morar com eles, "expulso" que fui de minha tia Alice, que continuava ocupada em criar celebridades. Ia e vinha a pé da loja para casa e vice-versa, e para a Etfam à noite, onde iniciava meu curso técnico de Estradas. Isso me levou a uma estafa e a uma gripe "mortal". Fui hospitalizado por isso. Como não tinha ninguém para informar a megera na loja, ela me demitiu. Graças a Deus! Fui ao Cie-e e de novo roguei, implorei, que me conseguissem um estágio... Mas estava apenas no primeiro ano, se estivesse no terceiro... Mas tanto insisti que o Hamilton - grande alma! -, responsável pelo Sie-e, me encaminhou no meio da turma do terceiro ano embora estivesse no primeiro. Era uma roubada, mas vá lá, não timha outra saída.
Assim, fui encaminhado para a Prefeitura, para a Secretaria de Obras, e de lá direto para o campo. Graças a Deus, pois ali tinha mais chances de "esconder" minha ainda insuficiente qualificação... Passei a ganhar dois salários mínimos! Uau! Dobrei os ganhos, além do que passei a ser respeitado como estagiário da Etfam, quase um auxiliar de engenharia, tinha carro para me pegar em casa e levar à noite na Etfam, alimentação... Puxa! Que mudança! Da água para o vinho.
Ao final do estágio fui realmente contratado como Auxiliar de Engenharia, Nível I-A, na Secretaria de Obras, ganhando seis salários mínimos (!). Tinha sido tão bem sucedido, aprendendo tudo sobre as técnicas de construção de ruas fazendo as urbanizações do Parque Dez, Santo Antônio, Colônia Oliveira Machado, Petrópolis, etc., mas também em razão do engenheiro meu chefe ter-se tornado Secretário de Obras. Sorte!
O azar é que Dr. Fonseca, meu engenheiro-chefe era tão bom, mas tão bom, que não voltou de suas férias na Bahia, pois, como bom baiano, por lá ficou em carreira bem mais promissora...
Caí nas garras dos leões: meus "colegas" de estágio. Fizeram com que o chefe da Topografia, para onde fui transferido justamente para ser "moído" pelo "sistema" (um ente despersonalizado ao qual a gente se referia quando não se conseguia determinar a origem do mal), fui demitido por não ter aceitado fazer tarefa reservada a peões desqulificado. O engenheiro que perpetrou essa ignomínia comigo, um homem de pequena estatura - física e moral -, coitado, morreu de cirrose hepática segundo me disseram... Bebia muito. Como geralmente todo esse pessoal de engenharia de campo.
Como mais uma vez me vi desempregado, surgiu uma chance de ganhar algum dinheiro nos Correios. Para lá me dirigi e tirei dez nas provas. O salário era praticamente o mesmo e ainda tinha muito tempo livre para estudar.
Contudo, alguns meses depois, surgiu uma grande chance de passar em uma seleção feita pelo Incra na Etfam, entre alunos do terceiro e do quarto ano de Estradas, para cinco vagas de Topógrafo. Era minha grande chance. Passei! Fui o quarto colocado e fui contratado no Incra em outubro de 1975, ganhando seis salários mínimos. Era o piso de referência do Crea. Ganhava ainda cerca de 25 diárias mensais porque, novamente, fui agraciado com o campo, com a selva. Meus colegas ficaram no escritório.
Já como funcionário do Incra, fiz o meu primeiro vestibular em janeiro de 1976 e passei de cara para a primeira opção: Graduação em Matemática. Pronto! Não tive mais sossego. Todos me olhavam como um ET, visto que somente eu passei e logo para matemática. Uma disciplina que para mim se tornou particularmente prazerosa graças a execelentes professores na Etfam, muitos deles seriam também meus professores na UA (hoje Ufam).
No entanto, minha vida de estudante da UA não foi nada fácil. Meus chefes no Incra - não por culpa deles, é claro -, não me permitiam estudar, pois o horário diurno era incompatível. Tinha de me aausentar do Incra e voltar para compensar horário, mas cada vez mais se tornava insuportável o assédio moral para largar os estudos e cuidar do emprego: ou um, ou outro, segundo diziam.
Em respeito aos colegas, vou omitir alguns de seus nomes.
Com meu pai morrendo de câncer, já em 1977, tive uma das mais ternas dmonstrações de carinho por parte de meus colegas de trabalho: a ida em peso para o funeral de meu pai. Ria e chorava ao mesmo tempo.
Logo após esse triste e ao mesmo tempo bonito episódio, fui chamado à sala do superintendente do Incra, Sr. José Augusto Carioca - que todos tinham na conta de "Coronel" -, na presença  do Assessor do ASI-SNI, Sr. José Maria Castelo Branco, que era também o Executor do Projeto Integrado de Colonização - Tabatinga, e fui comunicado da minha transferência manu militari para Tabatinga, na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Meus pés não encontraram o chão! Esbocei a pergunta: "por que?" e tive como resposta palavrões, xingamentos e ameaças de demissão. Não tive como evitar tal violência... Era julho de 1977. Não estava indo bem nos estudos por conta das dificuldades de horário e porque passei 3 meses cuidando de meu pai no hospital. Praticamente ia ao INCRA apenas para assinar o ponto... Meus colegas me davam "cobertura".
Assim, me vi pela primeira vez na vida dentro de um avião seguindo para Tabatinga. Tentei entender isso, mas não achava explicação a não ser uma formaa de perseguição. Hoje sei que foi isso mesmo, pois, como topógrafo, demarcava as terras dos caboclos que não constavam dos Projetos, e por isso era questionado pela chefia. Era colega de acampamento do "comunista" João Pedro Gonçalves, que foi líder estudantilm deputado estadual e suplente de senador (imposto por Lula, quem era amigo de cachaça); ainda gostava de falar muito sobre a situação política do país em um período extremo da ditadura militar. O Incra viva infestado de militares, de quem herdou a metodologia de demarcação topográfica.
Fui demitido em 31.07.77 em Manaus e fui contratado em Tabatinga em 01.08.77. Morei ali 2 anos afastado da família e de todos.
No próximo post falarei desse período no "exílio".