Natália Oliveira, da Rádio
Estadão - O Estado de São Paulo - 04/02/2013 - São
Paulo, SP
Diplomas
falsificados de nível superior estão sendo vendidos
livremente na internet. A compra pode ser feita por qualquer pessoa –
até mesmo por quem nunca cursou uma universidade. Os supostos
comerciantes oferecem até certificados da área médica.
Um diploma de Enfermagem, por exemplo, custa R$ 6 mil.
Em diversos sites,
falsificadores prometem entregar os diplomas de curso superior em prazos de
até dez dias. Dizem também que o documento entregue
terá um suposto reconhecimento do Ministério da
Educação (MEC) e será oficializado, com a
publicação no Diário Oficial da União.
Sem saber que se
tratava de uma reportagem, um atendente do site Sucesso Corp
(www.sucessocorp.com.br) explicou por telefone como funciona o esquema
ilegal à Rádio Estadão. É preciso enviar
documentos à faculdade indicada pelo negociador e pagar 60% do
valor, como sinal. Por um diploma de Pedagogia, ele cobrou R$ 4,5 mil.
“Tudo
legalizado em 15 dias. Reconhecido e publicado”, afirmou.
“Você vai escanear os documentos e mandar por e-mail para
lá. Eles vão fazer o encaixe e mandar para o MEC. Em dois ou
três dias, o MEC deu OK. Você faz 60%. Mais oito dias, sai a
publicação e eu mando levar.”
Identificando-se
como Marcos, o atendente também disse que há a possibilidade
de o comprador escolher a universidade pela qual o documento falso
será emitido. “De repente, eu posso conseguir na (faculdade)
que você pretende. Como posso conseguir outra”, disse.
Em outro portal de
compras e vendas, um atendente ofereceu os serviços com a promessa
de entregar diplomas em todo o País. Também por telefone, o
infrator garantiu à reportagem a autenticidade do diploma e disse
conseguir um número de registro que dá acesso exclusivo ao
histórico escolar de um aluno desistente do curso pretendido.
O homem chegou a
oferecer a emissão do diploma por duas instituições de
ensino superior de São Paulo. “Aí em São Paulo
tem a Presbiteriana (Mackenzie) e, se for o caso, consigo pra você na
Unip”, disse.
“O diploma
é reconhecido e registrado e tem até o RA. Você vai
poder checar dentro da própria instituição a
autenticidade do que você está comprando. Tem muita gente que
te vende um pedaço de papel e você não pode averiguar
nada”, continuou.
Questionado se
havia riscos no esquema, ele garantiu que não: “Não vai
ter. Se der problema para você, com certeza eles vão chegar
até mim”.
Máfia.
Questionado sobre o caso, o diretor jurídico da
Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior,
José Roberto Covac, levantou a hipótese de que diplomas
originais estejam sendo usados no esquema fraudulento e de que haja
envolvimento de funcionários das universidades. “Quem assina o
diploma é o reitor. Quando a universidade faz o registro do diploma,
ela verifica todo o registro acadêmico do aluno. Parece que há
uma máfia e que alguém de dentro da universidade está
fabricando documentação e registro. E o reitor acaba
até assinando o diploma sem ter conhecimento”, disse.
A Universidade
Presbiteriana Mackenzie afirmou por nota que repudia a
comercialização de diplomas. A instituição diz
que o processo seria “praticamente impossível de ser realizado
dentro da universidade”, por causa do número de setores e
profissionais envolvidos na diplomação dos alunos.
Também
citada pelo fraudador, a Universidade Paulista (Unip) afirmou que “os
sistemas adotados pela instituição inviabilizam o esquema de
confecção de diplomas a não formandos”. A Unip
disse que pretende procurar a Polícia Civil para requerer a
instauração de um inquérito para investigar a
identidade de possíveis criminosos e a forma de
atuação deles.
Sobre a suposta
ajuda que os fraudadores mencionam ter na confecção dos
diplomas, a assessoria de imprensa do MEC disse que as universidades
são “inteiramente responsáveis” pelo documento e
“não cabe ao MEC parte alguma no processo”.