PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA

DORA KRAMER
Dos pactos ao plebiscito às carreiras, passando pela Constituinte
exclusiva e uma reunião ministerial inócua, nada do que o governo
federal disse ou fez nos últimos dias “colou”. Uma série de palpites
infelizes descolados da realidade.
Evidência de total falta de sintonia com o conteúdo do que diz o
respeitável público e ausência de um diagnóstico (planejamento) sobre os
problemas a serem resolvidos em ordem de prioridade conforme as
necessidades reais do país. Em duas palavras: propaganda enganosa.
Pode ser só uma primeira impressão, mas tudo indica que o
artificialismo “morreu” como solução para situações difíceis, que
feitiçarias marqueteiras não têm mais o mesmo efeito reparador e as
velhas artimanhas estão com a validade vencida.
Pelas propostas até agora apresentadas ficou claro que o governo só
tinha uma agenda: navegar na onda da popularidade da dupla Dilma/Lula
com o único objetivo de vencer eleições por apreço ao poder pelo poder.
O Congresso não rejeita a realização de um plebiscito no molde
proposto porque seja contra o princípio da consulta ao povo. Esta
conclusão rudimentar é a que o Planalto gostaria que prevalecesse, mas
não é isso que emerge do debate a respeito.
As coisas são mais complexas que uma mera jogada de transferência de
responsabilidades. Ao contrário, trata-se de usurpação ladina de
prerrogativas. Inversão dolosa dos fatos.
Ou a presidente e seus conselheiros não sabem que a função de
convocar e definir a pauta do plebiscito é do Congresso? Ou desconhecem
que uma consulta da complexidade da reforma política não se faz assim de
estalo? Ou não notaram que a ira contra políticos não era motivada por
regras eleitorais e sim pelo dar de ombros do Estado traduzido em
desleixo administrativo e degradação moral?
Bobagem achar que o governo não entendeu. Entendeu perfeitamente o
nome do jogo. Até porque do contrário teríamos de admitir que o Brasil é
governado há dez anos por um bando de tolos. São mesmo bem espertos.
Mas, como reza o velho dito, a esperteza quando é muita vira bicho e
come o dono. Pelo jeito, é o caso.
O Congresso só tem uma maneira de desarmar o truque: fazendo a sua
parte, trabalhando direito, atuando com autonomia, adotando critérios de
decência, abrindo mão de privilégios.
Quanto à reforma política, é colocar mãos e cabeças à obra para a
elaboração de uma pauta voltada para o eleitor que depois seria chamado a
referendo para aprovar ou rejeitar as mudanças. Nem tão devagar que
pareça embromação nem tão depressa que dê margem a retrocessos. Para
2014 ou 2016. Importante é que valha a pena para sempre.