Micou
de maneira retumbante o tal Dia Nacional de Lutas. A CUT, a Força
Sindical, outras centrais e os partidos políticos de esquerda foram
malsucedidos na tentativa de pegar carona da onda de protestos que
sacudiu o país. Houve, sim, muita atrapalhação nas estradas, ocupação em
porto, escaramuças, dificuldades aqui e ali, mas nada nem remotamente
parecido com os protestos havidos no mês passado. ATENÇÃO, LEITOR! Se eu
fosse um desses “cientistas sociais” que têm medo dos seus alunos e
gostam de posar de moderninhos – aquela gente, sabe?, que agora deu para
falar em “crise da democracia representativa” –, estaria achando lindo o
que aconteceu. Mas eu não acho, não. Na verdade, o evento desta quinta
jogou ainda mais luzes sobre os havidos no mês passado e só reforçaram
alguns temores que eu tinha. O que significa o micão desta quinta, em
contraste com aquele milhão e meio de dias atrás? Significa que
reivindicar o inexequível é bem mais gostoso, o que nos remete a um dos
lemas de Maio de 1968, na França: “Seja realista, peça o impossível”. O
evento também expõe uma das forças e, ao mesmo tempo, das maiores
fragilidades da “onda de protestos” no Brasil: a composição social de
quem vai ou foi às ruas. O primeiro passo para responder de forma
eficiente à realidade e admiti-la: os pobres, com raras exceções,
preferiram, até agora, ficar em casa.
Assim,
entendam direito o meu ponto: não lamento o fato de o protesto desta
quinta ter sido malsucedido porque gostaria de ver a CUT, a Força e até
os petistas a liderar a massa… Eu não! Deus me livre! Lastimo é que a
pobreza de liderança política no Brasil se reflita também nos sindicatos
e que estejamos sem o fio que possa desatar o nó. Vamos lá. Milhões de
trabalhadores poderiam ter ocupado as praças para cobrar redução na
jornada de trabalho, certo? É uma reivindicação muito mais, como direi?,
palpável do que os tais 20 centavos. Mas aí alguém se lembrou de
gritar: “Não é pelos 20 centavos”. E estava dada a deixa para uma
mobilização que tem, sim, âncoras no mundo real – corrupção dos
políticos, ineficiência do serviço público, gastança de dinheiro –, mas
que se expressa numa espécie de bolha de sensações e de emoções. Para
voltar a Maio de 1968, o que conta é fazer as barricadas do desejo. A
utopia é a da ausência de estado, assuma isso a forma violenta (os
baderneiros) ou pacífica (uma coisa, assim, “faça amor, não faça a
guerra”).
Cobrar
redução da jornada e fim do fator previdenciário, olhem que coisa!,
parece apequenar o movimento e a razão por que se vai às ruas; é, como
diriam os adolescentes hoje em dia (de maneira irritante), “tipo assim”
coisa de pobre, de um pragmatismo incompatível com o sonho e com as
evocações românticas. Os “sonháticos” querem um outro mundo possível…
Não! Na verdade, pretendem um outro mundo… impossível. Nele, não só os
políticos não roubam como, a rigor, não há políticos nem política.
É claro
que eu poderia lembrar àqueles valentes cientistas sociais que têm medo
de contrariar os alunos que também as manifestações de junho levaram às
ruas as… minorias!, ainda que tenham mobilizado, sei lá, 20 ou 30 vezes
mais gente do que a desta quinta-feira. Huuummm… Então vamos ver:
líderes que efetivamente representam grupos e com os quais se podem
fazer acordos mobilizam meia dúzia de gatos-pingados; não líderes – e
que, portanto, não lideram, mas alçados pela imprensa à condição de
estrelas da não representação – conseguem criar eventos que reúnem
alguns milhares. Muito bem! O que se vai negociar com eles? Chamem a
Mayara Vivian e os coxinhas radicais do Passe Livre…
Há quem se
deixe cair de encantos por um paradoxo cuja graça, havendo alguma, é
não mais do que literária – e literatura meio velha, da década de 60: a
“juventude” (ah, os tarados pela juventude…) que está nas ruas tem
força, mas não sabe o que quer, e os que sabem o que querem já não têm
força. Mas onde está a virtude desse troço? Se isso produzir algo, tenho
minhas dúvidas, será, no máximo, um impasse. Para o qual ninguém tem
resposta.
Dilma está
encalacrada? Está, sim, de dois modos distintos: há o impasse de fundo,
que diz respeito ao esgotamento do modelo lulo-petista, do qual, vamos
ser francos, até havia pouco, a esmagadora maioria da imprensa não havia
se dado conta. Ou havia? Leiam os jornais de há dois ou três meses. Com
ou sem “povo” na rua, o país ia mal das pernas. E agora ela enfrenta o
descontentamento com “tudo isso que está aí”. Ocorre que esse “tudo
isso” pode se voltar contra qualquer um; ele é dirigido, na verdade,
contra o governante de turno. E não consegue se transformar numa agenda.
Essa
conversa mole da “sociedade horizontal”, sem hierarquia de valores, sem
eixo e sem centro, sinto muito, é conversa de bêbados. É divertido e
coisa e tal, mas sempre chega a hora de pagar a conta e de voltar para
casa – sem contar a ressaca… Não vai a lugar nenhum e ainda pode
produzir alguns desastres. Boa parte do que o Congresso votou até agora,
emparedado pelas ruas, se querem saber, não é coisa boa e tende a ter
efeitos deletérios. Na esfera econômica, o país vive um congelamento
branco de tarifas públicas que pode ter efeitos desastrosos. Ensaia-se
facilitação de mecanismos de democracia direta que, se efetivados,
tornarão a democracia brasileira refém de minorias organizadas e
barulhentas.
Caminhando para a conclusão
Sim, as
centrais sindicais e os partidos quebraram a cara ao tentar, de maneira
oportunista, pegar carona no movimento das ruas. Tiveram uma lição e
tanto. Mas isso só nos diz o tamanho do impasse e os riscos que estão
por aí. Não há nada de belo ou de bom numa sociedade sem interlocutores
considerados confiáveis para articular o futuro. Vivemos, nesses dias,
sob uma espécie de ditadura do presente.
Pode dar
em quê? No quadro atual, há, sim, o risco de eleger em 2014 alguém que
fale em nome da “não política”, e aí saberemos o que é crise! Mas o mais
provável é que se tenha mesmo uma saída “conservadora” – no caso,
conservadora do statu quo; vale dizer: a continuidade do petismo. E isso seria igualmente desastroso.