Publicado no Estadão
ROLF KUNTZ
ROLF KUNTZ
Se toda unanimidade for mesmo burra, como escreveu Nelson Rodrigues,
respeitados economistas nacionais e estrangeiros devem estar errados,
porque as avaliações negativas da economia brasileira estão ficando
quase unânimes. A Standard & Poor’s, uma das principais agências de
classificação de risco, poderá mudar a nota do país antes das eleições
de 2014, se a situação das contas públicas continuar piorando, disse em
Nova York, na quarta-feira, o diretor responsável pelo acompanhamento do
Brasil, Sebastian Briozzo. Ele também revelou a previsão de crescimento
econômico para este ano e para 2014, em torno de 2,5%. Um dia antes o
Conference Board, organismo especializado em estudos macroeconômicos,
havia indicado uma projeção pouco menor para o próximo ano, 2,3%.
Estimativas semelhantes haviam sido divulgadas pela Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): expansão de 2,2% neste
ano, 2,5% no próximo e 3,1% em 2015. Os cálculos anteriores, publicados
no primeiro semestre, haviam sido mais otimistas ─ 3% para 2013 e 3,6%
para 2014. Mas essas estimativas são apenas uma parte ─ e a menos
preocupante ─ da unanimidade em formação.
As coincidências mais importantes referem-se à qualidade da política
econômica, ao ambiente de negócios e ao fiasco brasileiro no cenário
internacional, sintetizado recentemente na capa da revista The Economist
pela queda do Redentor-foguete. Na pesquisa da OCDE, as economias
emergentes e em desenvolvimento continuam perdendo impulso, mas ainda
devem crescer em média 4,5% em 2013, 5% em 2014 e 5,3% em 2015. A zona
do euro continuará em marcha lenta, mas a recessão vai ficando para
trás. Os Estados Unidos, mesmo com a trava nos gastos públicos, devem
manter-se em aceleração.
Na sondagem de clima econômico, realizada pelo instituto alemão IFO
em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a projeção de
crescimento para o Brasil nos próximos três a cinco anos ficou em 2,6%,
número modestíssimo quando confrontado com aqueles previstos para Chile
(3,8%), Colômbia (3,9%), Equador (4,1%) e Peru (5%). Na avaliação do
clima econômico o Brasil aparece em 9.º lugar numa lista de 11
latino-americanos. Os principais problemas detectados nas entrevistas
são três faltas: de confiança na política econômica, de competitividade
internacional e de mão de obra qualificada.
Bem conhecidos no país, esses pontos negativos se tornaram
lugares-comuns nas avaliações divulgadas por entidades internacionais
públicas e privadas, como a OCDE, o Banco Mundial, o Fórum Econômico
Mundial e as agências de classificação de risco.
A quase unanimidade internacional a respeito das más condições do
país tem sido alimentada por informações e avaliações também de
entidades oficiais brasileiras. O Banco Central (BC) tem chamado a
atenção, há um bom tempo, para as limitações do lado da oferta, para o
desajuste no mercado de trabalho, para a demanda de consumo
perigosamente aquecida e para a inflação resistente, mas a cúpula do
Executivo continua agindo como se o grande entrave ao crescimento
brasileiro estivesse do lado dos consumidores. Como consequência, o
governo tem queimado dezenas de bilhões de reais em estímulos fiscais ao
mercado, com pouquíssima ou nenhuma resposta da indústria. Mesmo o
dinheiro do Tesouro entregue aos bancos públicos para financiar o
investimento produziu efeitos abaixo de pífios nos últimos anos. O valor
investido pelo governo e pelo setor privado continua na vizinhança de
19% do produto interno bruto (PIB), uns cinco pontos abaixo da média
latino-americana.
Os sinais de estagnação continuam pipocando. O mais recente é o
Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma
prévia do PIB. O número de setembro foi 0,01% inferior ao de agosto e
2,68% maior que o de um ano antes na série com ajuste sazonal. O índice
do terceiro trimestre foi 0,12% inferior ao do segundo e o acumulado em
12 meses chegou a 2,48%.
A estimativa do PIB atualizada até o período de julho a setembro só
deve ser divulgada no começo do próximo mês pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE). Por enquanto, os levantamentos indicam
um resultado muito fraco. Isso inclui o crescimento industrial de apenas
1,1% nos 12 meses até setembro, segundo os últimos dados do IBGE.
Enquanto isso, a alta dos preços ao consumidor continua em
aceleração, mesmo com a acomodação dos preços no atacado (IPA). O IGP-10
de novembro subiu 0,44%, freado por seu componente de maior peso: o
IPA, com elevação de 0,4%, avançou bem menos que no mês anterior
(1,48%). Mas os preços ao consumidor, também cobertos pela pesquisa,
aumentaram 0,61%, com variação de 5,44% em 12 meses. Em outubro haviam
subido 0,33%. A nova apuração mostrou alta de preços em seis dos oito
grupos de bens e serviços pesquisados, com destaque, novamente, para os
serviços – mais um forte sinal de excesso de demanda.
Toda unanimidade pode ser burra, mas pode causar muito prejuízo antes
de ser descoberta a burrice. A movimentação no mercado financeiro já
tem mostrado os efeitos da desconfiança em relação à política fiscal,
muito frouxa, e às possibilidades de crescimento econômico nos próximos
anos. Além disso, restam dois motivos de preocupação. Primeiro: talvez
haja algum exagero na tese de Nelson Rodrigues. Nesse caso, pelo menos
algumas unanimidades poderão ser fundamentadas. Segundo: mesmo
avaliações defeituosas podem motivar profecias autorrealizáveis. Pelo
sim, pelo não, a presidente Dilma Rousseff deveria pensar nessas
possibilidades, para tentar garantir nos próximos anos uma economia mais
bonitinha e menos ordinária.