
Artigo de Augusto Nunes publicado na edição impressa de VEJA
O sociólogo convertido em político aos 48 anos tinha tudo para dar
errado como candidato a qualquer coisa. Tal suspeita vira certeza com a
leitura das revelações de Fernando Henrique Cardoso no livro escrito em
parceria com o jornalista americano Brian Winter. A versão em português
de O improvável Presidente do Brasil justifica o título com a
exposição de traços de temperamento, marcas de nascença, heranças
genéticas e outras particularidades que, se favoreceram a trajetória
vitoriosa do professor admirado em muitos sotaques, pareciam condenar ao
fiasco o político aprendiz. E reafirma que a chegada de FHC ao Palácio
do Planalto em 1994 foi muito mais surpreendente que o triunfo de Lula
ou sua substituição por Dilma Rousseff.
O grande viveiro de cabeças baldias tem tudo a ver com o ex-operário
sem compromisso com a verdade (e o plural) ou com a mulher que fala
dilmês (e não diz coisa com coisa). Assombrosa, portanto, é a
constatação de que um intelectual puro-sangue foi autorizado pelo voto a
reinar, durante oito anos, num país em que a palavra elite deixou de
designar o que há de melhor num grupo social para tomar-se estigma. Foi
Fernando Henrique o acorde dissonante na ópera do absurdo composta pelos
que o antecederam e retomada por seus sucessores. Vistos de perto, os
presidentes brasileiros exibem muito mais semelhanças que diferenças. Se
estivessem vivos, todos seriam parceiros na base aliada. Menos Fernando
Henrique Cardoso, informam os paradoxos que fizeram dele uma figura sem
similares.
No país do futebol e do Carnaval, ele jamais calçou um par de
chuteiras e não vestiu fantasias nem mesmo quando criança. Na terra dos
extrovertidos patológicos, que na campanha se engalfinham com um eleitor
desconhecido a cada metro e derramam lágrimas de esguicho na vitória ou
na derrota, ele nunca foi além de tapinhas nas costas e chorou menos
que Clint Eastwood. No Brasil dos analfabetos sem cura, que instalam e
mantêm no poder populistas iletrados, dedicou a maior parte da vida a
ensinar, pesquisar, ler, escrever e, sobretudo, pensar. “Como poderia um
professor de sociologia, paulista (embora nascido no Rio), “elitista”,
“sem carisma” e “arrogante” derrotar um homem como Lula?”,
perguntava-se.
Um marqueteiro da tribo de Duda Mendonça trataria de reconstruí-lo
dos cabelos (sempre com cada fio em seu lugar) aos sapatos (muitos de
cromo alemão). Em junho de 1994, com o candidato já em campanha pela
Presidência, publicitários amigos tentaram aproximá-lo do que chamavam
de “povão” com mudanças menos radicais. “Decidiu-se que eu devia
aparecer mais em mangas de camisa e tentar mostrar mais senso de humor”,
exemplifica. “Especulava-se também que talvez eu precisasse de um
apelido. Alguém sugeriu FHC, mas concluímos que era muito parecido com
DDT. Acabamos ficando mesmo com Fernando Henrique.” Com anêmicos 19% nas
pesquisas que mantinham Lula acima de 40%, pensou em desistir. Não
podia imaginar que derrotaria duas vezes, ambas no primeiro turno, o
adversário invencível. Muito menos que FHC seria, ao lado de JK, uma das
duas únicas siglas tombadas pelo patrimônio político nacional.
“Sempre tive muita sorte”, reconhece o beneficiário de uma
extraordinária soma de acasos, ventos favoráveis, coincidências
intrigantes e talento de sobra. Feliz com a vida de chanceler, foi
surpreendido pelo presidente ltamar Franco com o convite para assumir o
Ministério da Fazenda. Nunca entendeu as razões da escolha de um
sociólogo sem intimidade com assuntos econômicos para domar a
hiperinflação. Repassou a tarefa a uma equipe de especialistas que
montaram o Plano Real com o expurgo dos erros que haviam cometido no
Plano Cruzado. “Fui eleito pela economia”, reconhece Fernando Henrique
no capítulo que narra a mais espetacular virada eleitoral desde a
redemocratização do país. Mas foi reeleito por milhões de brasileiros
convencidos de que a estabilidade da moeda fora apenas a maior e mais
improvável proeza do presidente. Há muitas outras no livro, que é uma
espécie de “Fernando Henrique Cardoso para Estrangeiros”. Não há nada
que lembre a densidade informativa e a profundidade analítica do
essencial A Arte da Política, coordenado pelo jornalista
Ricardo Setti ─ hoje colunista da VEJA.com. “Mas nunca me referi de modo
tão pessoal a certos acontecimentos”, avisa FHC. “É mais fácil, às
vezes, entrar em pormenores pessoais conversando em outro idioma.” As
revelações em inglês permitem conhecer melhor alguns interiores, até
agora indevassados, do homem que mudou a história de um país que pedia
socorro em português.