Reinaldo Azevedo escreveu há 3 anos sobre o poderia fazer a oposição para "se opor" ao petismo, mas pelo visto nada aprendeu. Leiam trecho que ele mesmo transcreveu em seu blog:
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Nesse
ambiente, fazer oposição ao governo liderado pelo PT, partido que
atribui a si mesmo a missão de depurar a história, é tarefa das mais
difíceis, especialmente quando a minoria parlamentar será minoria como
nunca antes na democracia deste país. Ao longo de oito anos, é preciso
convir, os adversários de Lula não conseguiram encontrar o tom e se
deixaram tragar pela voragem retórica que fez tabula rasa do passado e
privatizou o futuro. O PT passa a impressão de já ter visitado o porvir e
estar entre nós para dar notícias do amanhã.
A pergunta óbvia é com que discurso articular o dissenso, sem o qual a democracia se transforma na ditadura do consentimento?
Não
existem receitas prontas. Mas me parece óbvio que o primeiro passo
consiste em libertar a história do cativeiro onde o PT a prendeu. Isso
significa mostrar, e não esconder, os feitos e conquistas institucionais
que se devem aos atuais oposicionistas e que se tornaram realidade
apesar da mobilização contrária bruta e ignorante do PT. Ajuda também
falar a um outro Brasil profundo, que não aquele saído dos manuais da
esquerda, sempre à espera de reparações e compensações promovidas pelo
pai-patrão dadivoso ou a mãe severa e generosa, à espera da “grande
virada”, que nunca virá!
Temos já
um Brasil de adultos contribuintes, com uma classe média que trabalha e
estuda, que dá duro, que pretende subir na vida, que paga impostos
escorchantes, diretos e indiretos, a um estado insaciável e ineficiente.
Milhões de brasileiros serão mais autônomos, mais senhores de si e
menos suscetíveis a respostas simples e erradas para problemas difíceis
quando souberem que são eles a pagar a conta da vanglória dos governos. É
inútil às oposições disputar a paternidade do maná estatal que ceva
megacurrais eleitorais. Os órfãos da política, hoje em dia, não são os
que recebem os benefícios – e nem entro no mérito, não agora, se
acertados ou não -, mas os que financiam a operação. Entre esses,
encontram-se milhões de trabalhadores, todos pagadores de impostos,
muitos deles também pobres!
Esse
Brasil profundo também tem valores – e valores se transformam em
política. O que pensa esse outro país? O debate sobre a descriminação do
aborto, que marcou a reta final da disputa de 2010, alarmou a direção
do PT e certa imprensa “progressista”. Descobriu-se, o que não deixou
menos espantados setores da oposição, que amplas parcelas da sociedade
brasileira, a provável maioria, cultivam valores que, mundo afora, são
chamados “conservadores”, embora essas convicções, por aqui, não
encontrem eco na política institucional – quando muito, oportunistas
caricatos os vocalizam, prestando um desserviço ao conservadorismo.
Terão as
oposições a coragem de defender seu próprio legado, de apelar ao cidadão
que financia a farra do estado e de falar ao Brasil que desafia os
manuais da “sociologia progressista”? Terão as oposições a clareza de
deixar para seus adversários o discurso do “redistributivismo”, enquanto
elas se ocupam das virtudes do “produtivismo”? Terão as oposições a
ousadia de não disputar com os seus adversários as glórias do
mudancismo, preferindo falar aos que querem conservar conquistas da
civilização? Lembro, a título de provocação, que o apoio maciço à
ocupação do Complexo do Alemão pelas Forças Armadas demonstrou que quem
tem medo de ordem é certo tipo de intelectual; povo gosta de soldado
fazendo valer a lei. Ora, não pode haver equilíbrio democrático onde não
há polaridade de ideias. Apontem-me uma só democracia moderna que não
conte com um partido conservador forte, e eu me desminto.
Antes de
saber quem vai liderar um dos polos, é preciso fazer certas escolhas. O
Congresso aprovou há pouco, por exemplo, o sistema de partilha para o
pré-sal. Não se ouviu a voz da oposição, a exceção foi a senadora Kátia
Abreu (DEM-TO). O PT inventou a farsa, amplamente divulgada na campanha
eleitoral, de que não passava de “privatização” o sistema de concessão,
que conduziu o país à quase auto-suficiência e que fez dobrar a produção
de petróleo no governo FHC. Mentiu, mas venceu o embate. Podem vir por
aí as reformas. Quais setores da sociedade as oposições pretendem ter
como interlocutores? Continuarão órfãos de representação milhões de
eleitores que não se reconhecem na ladainha pastosa do “progressismo”?
As oposições têm de perder o receio de falar abertamente ao povo que
trabalha e estuda. Que estuda e trabalha. Em vez de tentar dividir os
louros da caridade, tem de ser porta-voz do progresso.
Essa
oposição tem, em suma, de enfrentar uma esquerda que, se morreu há muito
tempo na economia, exerce inquestionável hegemonia na cultura e na
política, onde se esforça para aplicar o seu programa, cuja marca é ódio
à divergência, que ela entende ser expressão da má consciência. Não
houve um só teórico esquerdista relevante cujo objetivo não fosse a
superação dos “limites” da democracia. Sem esse horizonte escatológico,
inexiste esquerdismo.
(…)