Resenha do livro escrita pelo repórter David Blair, do tradicional jornal britânico The Daily Telegraph:
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Nem um heroico aliado dos pobres, nem um déspota demente
Existirá palavra que traga em si mais poder de intoxicação do que
“revolução”? Quando um ativista carismático proclama o advento de uma
“revolução socialista” num recanto apropriadamente exótico da América
Latina, a tendência de não poucos analista do Ocidente é deixar de lado a
racionalidade.
Assim foi com Fidel Castro e, talvez inevitavelmente, com Hugo
Chávez, o autodefinido presidente “revolucionário” da Venezuela, que
morreu de câncer no dia 5 de março passado. Para muita gente, Chávez foi
de duas, uma: ou um heroico aliado dos pobres ou um déspota demente,
com poucos conseguindo ficar no meio desses dois extremos.

A possiblidade de que Chávez possa ter sido uma figura complexa, um
ser humano real capaz do praticar o bem e de fazer o mal perdeu-se entre
personalidades como o ex-prefeito socialista de Londres Ken
Livingstone, que o saudou certa vez como “amigo e camarada”, ou John
Bolton, o rei dos neocons norte-americanos, que chegou a denunciar Chávez como uma “ameaça global”.
Na verdade, o ex-prefeito de Londres e o fiel escudeiro de George W.
Bush tinham mais em comum do que qualquer dos dois quisessem admitir.
Ambos julgaram Chávez com seus próprios preconceitos ideológicos e com a
insustentável leveza de quem vive a milhares de quilômetros da
Venezuela.
Rory Carroll, correspondente para a América do Sul do jornal britânico The Guardian
baseado em Caracas, entre 2006 e 2012, realmente viveu o dia-a-dia
venezuelano e tenta demolir a figura caricatural de Chávez como modelo
de perfeição como vilão no livro Comandante – A Venezuela de Hugo Chávez.
Carroll, irlandês, 40 anos de idade, consegue oferecer uma visão
equilibrada e repleta das necessárias nuances de Chávez e sua “Revolução
Bolivariana”.
Paralalamente a isso, porém, o autor consegue ir mais longe. Além de
traçar um raro e detalhado retrato pessoal e político de Chávez, este
livro extremamente bem escrito e dotado de fina percepção equivale a uma
meditação sobre a natureza do poder, e os extremos de absurdo e
corrupção que ele pode encerrar.
Na TV, Chávez anuncia: foi o “imperialismo” que destruiu a civilização que havia em Marte
No livro, o leitor vai se deparar com batalhões de subalternos de
todos os matizes às voltas com os incontáveis dilemas que significam
servir a um homem que se comportava como um monarca absoluto.
Para sobreviver na corte do Rei Chávez, os ministros precisavam
“transformar as expressões faciais em máscaras, arranjar os traços em
expressões apropriadas quando diante de uma câmera ou na linha de visão
do comandante”, escreve Carroll. “Isto”, acrescenta, “era traiçoeiro
quando o comandante fazia algo bobo ou bizarro porque a resposta
requerida poderia contrariar o instinto”.
E ele, efetivamente, fazia coisas bobas ou bizarras. Chávez conduzia um programa semanal de TV intitulado Alô, Presidente,
que tinha hora para começar mas nunca para terminar. Seu recorde foi
permanecer nove horas e meia consecutivas no ar, ao vivo. Certa vez, num
dos programas, ele anunciou que uma próspera civilização havia existido
em Marte até que “o imperialismo chegou e destruiu o planeta”.

Chávez
ao vivo pela TV: seu recorde foi permanecer 9 horas e meia no ar, sem
interrupções. E ali chegou a demitir altos funcionários expulsando-os de
campo com um apito, como juiz de futebol (Foto: Palácio de Miraflores)
Como deveriam seus ministros reagir ao histrionismo do comandante?
“Mesmo para veteranos na audiência, muitas vezes não ficava claro se se
tratava ou não de uma piada”, escreve Carroll. “Então eles faziam cara
de paisagem, à espera de que a situação se esclarecesse. Mas isso nunca
acontecia: o comandante mudava de um assunto para outro sem parar”.
Esse tipo de dificuldade certamente contribuiu para que, durante seu reinado, Chávez tenha tido 180 ministros.
Com apito de juiz de futebol, e ao vivo, ele demitia ministros
Chávez lançava mão de seu programa de TV para anunciar demissões ou
promoções, abolir ministérios inteiros, expropriar empresas e, em uma
ocasião pelo menos, mobilizar as Forças Armadas contra a Colômbia.
[De outra feita, Chávez demitiu ao vivo, perante todo o país,
figurões do governo, executivos graúdos da gigante petrolífera estatal
PDVSA, sem avisá-los previamente. “Eddy Ramírez, diretor geral, até
hoje, da divisão Palmaven [energia elétrica] (…), muito obrigado. O
senhor está dispensado!” E soprou um apito, como se fosse um juiz de
futebol mandando um jogador para o vestiário. O público ovacionou, e o
‘comandante’ continuou seguindo a lista: (…) “Carmen Elisa Hernández.
Muito, muito obrigado, señora Hernández, pelo seu trabalho e serviço”. A
voz destilava sarcasmo, e ele soprou o apito de novo: “Impedimento!“]
Carroll foi convidado do presidente no capítulo 291 do programa de
TV. Ele teve a ousadia de perguntar a Chávez por que ele estava propondo
ao Legislativo uma emenda à Constituição permitindo sua reeleição por
um número indeterminado de vezes, sem contudo estender a mesma
possibilidade a governadores e prefeitos.
“Ele lançou a pergunta para o mar, para além do horizonte [o programa se realizava numa pequena cidade do litoral],
e a transformou numa arenga contra os males da mídia tendenciosa, da
hipocrisia europeia, da monarquia, da rainha da Inglaterra, da Marinha
Real, da escravidão, do genocídio e do colonialismo”, conta o
jornalista.

Chávez
e sua multidão de seguidores: o “socialismo bolivariano” foi conduzido
por um “autocrata eleito”, diz o autor do livro (Foto:
patriagrande.com.ve)
A roubalheira, uma marca corrosiva
Enquanto isso, os ministros que trabalhavam para um homem que mandava
gravar seus telefonemas e não raro os demitia por mero capricho
tornaram-se figuras risíveis e dignas de pena. “O sucesso – conseguir
uma posição cobiçada – acabava se tornando um inferno”, escreve Carroll.
Não é de admirar que tanta gente tenha optado por rechear seus bolsos
com a renda do petróleo da Venezuela, juntando-se a um festival de
corrupção que se tornou a marca mais corrosiva do reinado de Chávez. [O
que o livro descreve em matéria de roubalheira, inclusive por parte de
generais das Forças Armadas, faz o Brasil parecer um país de conto de
fadas.]
Ainda assim, em meio a absurdos e excessos, o comandante continuou
sendo um líder eleito, sujeito a constante crítica por parte de uma
barulhenta imprensa de oposição. Carroll isenta Chávez de ser um
ditador: ele, na verdade, apesar de tudo — sustenta o jornalista –,
ganhou quatro eleições e não havia gulags ou câmaras de tortura na Venezuela.
Expurgo no Judiciário e lista negra
Mas Carroll descreve detalhadamente como Chávez feriu seus críticos,
expurgou o Judiciário e utilizou uma lista negra com as 3 milhões de
pessoas que assinaram um manifesto em 2003 pedindo um plebiscito
revogatório — medida prevista na Constituição e que significa votar pela
saíde de um político eleito.
Funcionários públicos que puseram seus nomes no fatídico documento
foram demitidos, muitas outras pessoas foram caluniadas e perseguidas.
Carroll acaba fazendo a Chávez a concessão de descrevê-lo como “um
autocrata eleito”.
Um flerte com o suicídio
Ao longo de seu trabalho, o jornalista oferece uma memorável série de
passagens. Como Chávez encurralado no subterrâneo do Palácio Miraflores
durante um levante popular que acabou, via golpe de Estado, sacando-o
do poder por efêmeras 48 horas. Durante um breve momento, ele fixou o
olhar numa pistola e pensou em suicídio, voltando à razão após um
telefonema de Fidel Castro.
Também ficamos sabendo como o general Raúl Baduel, o oficial que
resgatou Chavez naquele momento de crise, congregando as Forças Armadas
para restaurar o poder do comandante, foi mais tarde demitido de seu
cargo de ministro da Defesa e jogado numa cela de prisão, por suposta
acusação de corrupção.
O amigável âncora do programa de TV que construiu clínicas nas
favelas, recheando-as de médicos importados de Cuba, acabou sendo
moldado pelo poder em um dirigente cruel e vingativo.
Agora que o comandante morreu, Carroll terá que atualizar seu relato.
Quando ele o fizer, este livro merecerá ser o trabalho definitivo sobre
Chávez.
(Nota do colunista: tecnicamente, o jornalista
Rory Carroll — hoje correspondente do jornal em Los Angeles, nos EUA —
atualizou o livro nas páginas finais, descrevendo algo brevemente a
doença e a lenta agonia de Chávez até sua morte. O autor desta resenha,
porém, se refere a como o chavismo sobreviverá à morte do caudilho, o
que com certeza demandará algum tempo e merecerá alguns capítulos a mais
na provável reedição da obra).