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26 dezembro 2013

Um retrato fiel do chavismo

Reproduzido do blog de Ricardo Setti (Veja.com)
Resenha do livro escrita pelo repórter David Blair, do tradicional jornal britânico The Daily Telegraph:
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Nem um heroico aliado dos pobres, nem um déspota demente
Existirá palavra que traga em si mais poder de intoxicação do que “revolução”? Quando um ativista carismático proclama o advento de uma “revolução socialista” num recanto apropriadamente exótico da América Latina, a tendência de não poucos analista do Ocidente é deixar de lado a racionalidade.
Assim foi com Fidel Castro e, talvez inevitavelmente, com Hugo Chávez, o autodefinido presidente “revolucionário” da Venezuela, que morreu de câncer no dia 5 de março passado. Para muita gente, Chávez foi de duas, uma: ou um heroico aliado dos pobres ou um déspota demente, com poucos conseguindo ficar no meio desses dois extremos.Comandante
A possiblidade de que Chávez possa ter sido uma figura complexa, um ser humano real capaz do praticar o bem e de fazer o mal perdeu-se entre personalidades como o ex-prefeito socialista de Londres Ken Livingstone, que o saudou certa vez como “amigo e camarada”, ou John Bolton, o rei dos neocons norte-americanos, que chegou a denunciar Chávez como uma “ameaça global”.
Na verdade, o ex-prefeito de Londres e o fiel escudeiro de George W. Bush tinham mais em comum do que qualquer dos dois quisessem admitir. Ambos julgaram Chávez com seus próprios preconceitos ideológicos e com a insustentável leveza de quem vive a milhares de quilômetros da Venezuela.
Rory Carroll, correspondente para a América do Sul do jornal britânico The Guardian baseado em Caracas, entre 2006 e 2012, realmente viveu o dia-a-dia venezuelano e tenta demolir a figura caricatural de Chávez como modelo de perfeição como vilão no livro Comandante – A Venezuela de Hugo Chávez. Carroll, irlandês, 40 anos de idade, consegue oferecer uma visão equilibrada e repleta das necessárias nuances de Chávez e sua “Revolução Bolivariana”.
Paralalamente a isso, porém, o autor consegue ir mais longe. Além de traçar um raro e detalhado retrato pessoal e político de Chávez, este livro extremamente bem escrito e dotado de fina percepção equivale a uma meditação sobre a natureza do poder, e os extremos de absurdo e corrupção que ele pode encerrar.
Na TV, Chávez anuncia: foi o “imperialismo” que destruiu a civilização que havia em Marte
No livro, o leitor vai se deparar com batalhões de subalternos de todos os matizes às voltas com os incontáveis dilemas que significam servir a um homem que se comportava como um monarca absoluto.
Para sobreviver na corte do Rei Chávez, os ministros precisavam “transformar as expressões faciais em máscaras, arranjar os traços em expressões apropriadas quando diante de uma câmera ou na linha de visão do comandante”, escreve Carroll. “Isto”, acrescenta, “era traiçoeiro quando o comandante fazia algo bobo ou bizarro porque a resposta requerida poderia contrariar o instinto”.
E ele, efetivamente, fazia coisas bobas ou bizarras. Chávez conduzia um programa semanal de TV intitulado Alô, Presidente, que tinha hora para começar mas nunca para terminar. Seu recorde foi permanecer nove horas e meia consecutivas no ar, ao vivo. Certa vez, num dos programas, ele anunciou que uma próspera civilização havia existido em Marte até que “o imperialismo chegou e destruiu o planeta”.
Chávez ao vivo pela TV: seu recorde foi permanecer 9 horas e meia no ar, sem interrupções. E ali chegou a demitir altos funcionários expulsando-os de campo com um apito, como juiz de futebol (Foto: Palácio de Miraflores)
Como deveriam seus ministros reagir ao histrionismo do comandante? “Mesmo para veteranos na audiência, muitas vezes não ficava claro se se tratava ou não de uma piada”, escreve Carroll. “Então eles faziam cara de paisagem, à espera de que a situação se esclarecesse. Mas isso nunca acontecia: o comandante mudava de um assunto para outro sem parar”.
Esse tipo de dificuldade certamente contribuiu para que, durante seu reinado, Chávez tenha tido 180 ministros.
Com apito de juiz de futebol, e ao vivo, ele demitia ministros
Chávez lançava mão de seu programa de TV para anunciar demissões ou promoções, abolir ministérios inteiros, expropriar empresas e, em uma ocasião pelo menos, mobilizar as Forças Armadas contra a Colômbia.
[De outra feita, Chávez demitiu ao vivo, perante todo o país, figurões do governo, executivos graúdos da gigante petrolífera estatal PDVSA, sem avisá-los previamente. “Eddy Ramírez, diretor geral, até hoje, da divisão Palmaven [energia elétrica] (…), muito obrigado. O senhor está dispensado!” E soprou um apito, como se fosse um juiz de futebol mandando um jogador para o vestiário. O público ovacionou, e o ‘comandante’ continuou seguindo a lista: (…) “Carmen Elisa Hernández. Muito, muito obrigado, señora Hernández, pelo seu trabalho e serviço”. A voz destilava sarcasmo, e ele soprou o apito de novo: “Impedimento!“]
Carroll foi convidado do presidente no capítulo 291 do programa de TV. Ele teve a ousadia de perguntar a Chávez por que ele estava propondo ao Legislativo uma emenda à Constituição permitindo sua reeleição por um número indeterminado de vezes, sem contudo estender a mesma possibilidade a governadores e prefeitos.
“Ele lançou a pergunta para o mar, para além do horizonte [o programa se realizava numa pequena cidade do litoral], e a transformou numa arenga contra os males da mídia tendenciosa, da hipocrisia europeia, da monarquia, da rainha da Inglaterra, da Marinha Real, da escravidão, do genocídio e do colonialismo”, conta o jornalista.
Chávez e sua multidão de seguidores: o “socialismo bolivariano” foi conduzido por um “autocrata eleito”, diz o autor do livro (Foto: patriagrande.com.ve)
A roubalheira, uma marca corrosiva
Enquanto isso, os ministros que trabalhavam para um homem que mandava gravar seus telefonemas e não raro os demitia por mero capricho tornaram-se figuras risíveis e dignas de pena. “O sucesso – conseguir uma posição cobiçada – acabava se tornando um inferno”, escreve Carroll.
Não é de admirar que tanta gente tenha optado por rechear seus bolsos com a renda do petróleo da Venezuela, juntando-se a um festival de corrupção que se tornou a marca mais corrosiva do reinado de Chávez. [O que o livro descreve em matéria de roubalheira, inclusive por parte de generais das Forças Armadas, faz o Brasil parecer um país de conto de fadas.]
Ainda assim, em meio a absurdos e excessos, o comandante continuou sendo um líder eleito, sujeito a constante crítica por parte de uma barulhenta imprensa de oposição. Carroll isenta Chávez de ser um ditador: ele, na verdade, apesar de tudo — sustenta o jornalista –, ganhou quatro eleições e não havia gulags ou câmaras de tortura na Venezuela.
Expurgo no Judiciário e lista negra
Mas Carroll descreve detalhadamente como Chávez feriu seus críticos, expurgou o Judiciário e utilizou uma lista negra com as 3 milhões de pessoas que assinaram um manifesto em 2003 pedindo um plebiscito revogatório — medida prevista na Constituição e que significa votar pela saíde de um político eleito.
Funcionários públicos que puseram seus nomes no fatídico documento foram demitidos, muitas outras pessoas foram caluniadas e perseguidas. Carroll acaba fazendo a Chávez a concessão de descrevê-lo como “um autocrata eleito”.
Um flerte com o suicídio
Ao longo de seu trabalho, o jornalista oferece uma memorável série de passagens. Como Chávez encurralado no subterrâneo do Palácio Miraflores durante um levante popular que acabou, via golpe de Estado, sacando-o do poder por efêmeras 48 horas. Durante um breve momento, ele fixou o olhar numa pistola e pensou em suicídio, voltando à razão após um telefonema de Fidel Castro.
Também ficamos sabendo como o general Raúl Baduel, o oficial que resgatou Chavez naquele momento de crise, congregando as Forças Armadas para restaurar o poder do comandante, foi mais tarde demitido de seu cargo de ministro da Defesa e jogado numa cela de prisão, por suposta acusação de corrupção.
O amigável âncora do programa de TV que construiu clínicas nas favelas, recheando-as de médicos importados de Cuba, acabou sendo moldado pelo poder em um dirigente cruel e vingativo.
Agora que o comandante morreu, Carroll terá que atualizar seu relato. Quando ele o fizer, este livro merecerá ser o trabalho definitivo sobre Chávez.
(Nota do colunista: tecnicamente, o jornalista Rory Carroll — hoje correspondente do jornal em Los Angeles, nos EUA — atualizou o livro nas páginas finais, descrevendo algo brevemente a doença e a lenta agonia de Chávez até  sua morte. O autor desta resenha, porém, se refere a como o chavismo sobreviverá à morte do caudilho, o que com certeza demandará algum tempo e merecerá alguns capítulos a mais na provável reedição da obra).