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PONTO FORA DA CURVA — Com dona Ruth, a primeira mulher de presidente a
chegar a Brasília com uma profissão (Foto: Egberto Nogueira)
Resenha de Augusto Nunes, publicado em edição impressa de VEJA
O ACORDE DISSONANTE
Como Fernando Henrique, o candidato que tinha tudo para dar errado, virou o presidente certo na hora mais incerta
O sociólogo convertido em político aos 48 anos tinha tudo para dar
errado como candidato a qualquer coisa. Tal suspeita vira certeza com a
leitura das revelações de Fernando Henrique Cardoso no livro escrito em
parceria com o jornalista americano Brian Winter.
A versão em português de O Improvável Presidente do Brasil
(Civilização Brasileira; 368 páginas; 35 reais) justifica o título com a
exposição de traços de temperamento, marcas de nascença, heranças
genéticas e outras particularidades que, se favoreceram a trajetória
vitoriosa do professor admirado em muitos sotaques, pareciam condenar ao
fiasco o político aprendiz.
E reafirma que a chegada de FHC ao Palácio do Planalto em 1994 foi
muito mais surpreendente que o triunfo de Lula ou sua substituição por
Dilma Rousseff.
O grande viveiro de cabeças baldias tem tudo a ver com o ex-operário
sem compromisso com a verdade (e o plural) ou com a mulher que fala
dilmês (e não diz coisa com coisa).
Assombrosa, portanto, é a constatação de que um intelectual
puro-sangue foi autorizado pelo voto a reinar, durante oito anos, num
país em que a palavra elite deixou de designar o que há de melhor num
grupo social para tornar-se estigma.
Foi Fernando Henrique o acorde dissonante na ópera do absurdo
composta pelos que o antecederam e retomada por seus sucessores. Vistos
de perto, os presidentes brasileiros exibem muito mais semelhanças que
diferenças. Se estivessem vivos, todos seriam parceiros na base aliada.
Menos Fernando Henrique Cardoso, informam os paradoxos que fizeram dele
uma figura sem similares.
No país do futebol e do Carnaval, ele jamais calçou um par de
chuteiras e não vestiu fantasias nem mesmo quando criança. Na terra dos
extrovertidos patológicos, que na campanha se engalfinham com um eleitor
desconhecido a cada metro e derramam lágrimas de esguicho na vitória ou
na derrota, ele nunca foi além de tapinhas nas costas e chorou menos
que Clint Eastwood.
No Brasil dos analfabetos sem cura, que instalam e mantêm no poder
populistas iletrados, dedicou a maior parte da vida a ensinar,
pesquisar, ler, escrever e, sobretudo, pensar. “Como poderia um
professor de sociologia, paulista (embora nascido no Rio), ‘elitista’,
‘sem carisma’ e ‘arrogante’ derrotar um homem como Lula?”,
perguntava-se.
Um marqueteiro da tribo de Duda Mendonça trataria de reconstruí-lo
dos cabelos (sempre com cada fio em seu lugar) aos sapatos (muitos de
cromo alemão). Em junho de 1994, com o candidato já em campanha pela
Presidência, publicitários amigos tentaram aproximá-lo do que chamavam
de “povão” com mudanças menos radicais.
“Decidiu-se que eu devia aparecer mais em mangas de camisa e tentar
mostrar mais senso de humor”, exemplifica. “Especulava-se também que
talvez eu precisasse de um apelido. Alguém sugeriu ‘FHC’, mas concluímos
que era muito parecido com DDT. Acabamos ficando mesmo com Fernando
Henrique.”
Com anêmicos 19% nas pesquisas que mantinham Lula acima de 40%,
pensou em desistir. Não podia imaginar que derrotaria duas vezes, ambas
no primeiro turno, o adversário invencível. Muito menos que FHC seria,
ao lado de JK, uma das duas únicas siglas tombadas pelo patrimônio
político nacional.
“Sempre tive muita sorte”, reconhece o beneficiário de uma
extraordinária soma de acasos, ventos favoráveis, coincidências
intrigantes e talento de sobra. Feliz com a vida de chanceler, foi
surpreendido pelo presidente Itamar Franco com o convite para assumir o
Ministério da Fazenda.
Nunca entendeu as razões da escolha de um sociólogo sem intimidade
com assuntos econômicos para domar a hiperinflação. Repassou a tarefa a
uma equipe de especialistas que montaram o Plano Real com o expurgo dos
erros que haviam cometido no Plano Cruzado. “Fui eleito pela economia”,
reconhece Fernando Henrique no capítulo que narra a mais espetacular
virada eleitoral desde a redemocratização do país.
Mas foi reeleito por milhões de brasileiros convencidos de que a
estabilidade da moeda fora apenas a maior e mais improvável proeza do
presidente. Há muitas outras no livro, que é uma espécie de “Fernando
Henrique Cardoso para Estrangeiros”.
Não há nada que lembre a densidade informativa e a profundidade analítica do essencial A Arte da Política,
coordenado pelo jornalista Ricardo Setti – hoje colunista de VEJA.com.
“Mas nunca me referi de modo tão pessoal a certos acontecimentos”, avisa
FHC. “É mais fácil, às vezes, entrar em pormenores pessoais conversando
em outro idioma.”
As revelações em inglês permitem conhecer melhor alguns interiores,
até agora indevassados, do homem que mudou a história de um país que
pedia socorro em português.

