
O
ex-presidente em sua sala no Instituto que leva seu nome, em São Paulo:
militares golpistas não tinham projeto (Foto: Eduardo Nicolau /
Estadão)
se entre ser socialista nos modos e marxista nas ideias. E fazia a
cabeça da estudantada da Faculdade de Filosofia da Universidade de São
Paulo (USP).
Daí o golpe se consumou e o professor Fernando Henrique teve que
sumir. Vazou, como se diz hoje. “Quando os policiais chegaram na Maria
Antonia (nome da rua onde ficava a faculdade, em São Paulo) para me
prender quase levaram o (filósofo) Bento Prado, achando que era eu”,
comenta o ex-presidente ao lembrar de um tempo em que precisou pular de
casa em casa, de cidade em cidade, às escondidas, até se fixar no Chile,
para onde seguiram a mulher, Ruth Cardoso, e os filhos pequenos.
entrevista que se segue, o trigésimo-quarto mandatário brasileiro
reflete sobre a ditadura e conclui que ela não chegou a desmontar o
Estado regulador. “Falam tanto em neoliberalismo, mas nunca tivemos isso
no País. Já liberalismo político, esse eu até gostaria que houvesse
mais”.
A 50 anos do golpe que o levou para o exílio e aos 82 de idade,
Fernando Henrique, deixa passar uma nota de amargura: “Não estamos em
condição de ensinar democracia a ninguém, porque há muito a aprender.
Faltam-nos, sobretudo, crença na democracia e grandeza na vida
política.”
Onde o senhor estava quando tudo aconteceu, 50 anos atrás?
Semanas antes do golpe, quando houve aquele comício da Central do
Brasil, eu estava no Rio, onde vivia meu pai. Passei pelo comício e
embarquei lá mesmo, rumo a São Paulo.
Era 13 março. No trem estavam o (hoje ex-ministro) José Gregori, o
(hoje ex-deputado federal) Plínio de Arruda Sampaio, com quem eu
acabaria me reencontrando no exílio, e um rapaz chamado Marco Antonio
Mastrobuono, que depois viria a casar com a Tutu, filha do Jânio
Quadros.
Viemos conversando ao longo da viagem sobre a situação. Ali ninguém
era entusiasta do Jango, eu também não era. Embora meu pai fosse um
militar nacionalista, que inclusive havia sido deputado pelo PTB.
Seu pai era um nacionalista. E o senhor?
Um socialista. Tivera contato com o comunismo nos anos 1950, mas
àquela altura, depois do stalinismo, não sobravam ilusões. Também não
tinha ilusão de que o Jango seria algo extraordinário ao país, porque
ele era um populista e eu, um acadêmico. E, na universidade, tínhamos a
convicção de que as mudanças viriam da luta de classes, não do
populismo.
Pois bem, chegando a São Paulo, encontrei um clima de grande
agitação. Nessa época o Darcy (Ribeiro) já havia sido nomeado chefe da
Casa Civil do Jango. E era muito amigo da minha família.
Nós nos falamos algumas vezes por telefone naqueles dias e isso
terminou me trazendo uma dor de cabeça tremenda, pois o aparelho do
Darcy estava grampeado e fui grampeado, também.
O que aconteceu exatamente?
O Darcy um dia me disse que viria a São Paulo e eu comentei “vem com
cuidado aí com o Grupo dos Onze” (grupo de resistência radical concebido
em 1963 pelo então governador gaúcho Leonel Brizola).
Disse aquilo por dizer, sem qualquer intenção, porque havia
acontecido uma violência contra o ministro da Reforma Agrária do Jango,
em São Paulo, algo assim. Esse comentário grampeado iria me complicar no
futuro, quando fui processado na Justiça Militar.
Mas, na noite do golpe, lá na Maria Antonia, havia mesmo muita
confusão. Eu exercia certa influência sobre alunos e professores mais
jovens, embora fosse jovem também – tinha só 33 anos, mas já fazia parte
do Conselho Universitário. Muitos dos meus colegas achavam que o golpe
era do Jango e dos generais leais a ele, o Amaury Kruel, o Osvino
Ferreira Alves.
A confusão era tanta que eu telefonei para o Luiz Hildebrando da
Silva, que era da Medicina da USP e ligado ao Partidão (o então
clandestino Partido Comunista Brasileiro), dizendo para ele vir até a
Maria Antonia, pois estavam preparando um manifesto contra um golpe do
presidente. E não um manifesto contra o golpe no presidente! Veja como
estávamos perdidos na USP, isolados da vida política, mergulhados num
marxismo teórico.
Vou contar uma passagem estapafúrdia: naqueles dias soubemos que
haveria uma resistência armada no Sul e então o Bento Prado, o
(cientista social) Leôncio Martins Rodrigues, o Paulo Alves Pinto, que
era sobrinho do general Osvino, e eu cogitamos tomar um aviãozinho no
Campo de Marte para lutar no Sul.
Ainda bem que não houve luta alguma (ri). Então, assim foi a minha
última noite andando pela rua Maria Antonia. No dia seguinte, a polícia
apareceu por lá para me prender. Quase levaram o Bento Prado, pensando
que fosse eu.
Como escapou de ser preso na Maria Antonia?
Alunos meus ficaram nas esquinas, à espreita, para me avisar que a
polícia estava lá, assim que eu me aproximasse. Acabei não indo à
faculdade e naquela noite dormi na casa de um amigo, o cineasta Bráulio
Muniz. Continuei me escondendo, daí fui para o Guarujá na casa do
(fotógrafo) Thomas Farkas, com o Leôncio. E a Ruth (Cardoso), minha
mulher, ficou aqui, tentando entender o que se passava.
Ruth procurou o Honório Monteiro, que fora ministro do presidente
Dutra e era meu colega no Conselho Universitário. O Honório tentou
interferir a meu favor junto ao Miguel Reale, então secretário de
Segurança. Mas o Reale respondeu que no meu caso não havia o que fazer,
porque “esse professor Cardoso não é só teórico, mas prático também”.
Outro amigo, o (economista, museólogo e autor teatral) Maurício
Segall, que já se ocupava de organizar fugas, achou que eu tinha que
cair fora, não havia condições de ficar no país. Saí por Viracopos e fui
para Argentina, para a casa de um ex-colega meu na França, que mais
tarde viria a ser ministro do Kirchner, o José Nun.
Tive convite para lecionar na Universidade de Buenos Aires, mas
também convite para trabalhar na Cepal, no Chile. Preferi ir para o
Chile. Meses depois Ruth veio ao meu encontro, com as crianças, e lá
ficamos anos.
Voltou ao Brasil nesse período?
Duas vezes. Eu me encontrei em Paris com (o professor e crítico
literário) Antonio Candido, que dava aulas por lá, e ele me ajudou a
voltar ao Rio para ver meu pai. Era 1965. Quando meu pai morreu, eu
estava no Chile, mas já com passaporte validado, portanto voltei para o
enterro. Houve uma missa com muitos oficiais e um deles chegou perto do
meu irmão para dizer, referindo-se a mim: “Ou ele vai embora ou vai ser
preso”.
Vim para a casa do (empresário e editor) Fernando Gasparian, em São
Paulo, dormi outra noite na casa do (sociólogo) Pedro Paulo Popovic, e
regressei ao Chile. Acabei não sendo preso.
Houve o processo contra mim na Justiça Militar, com acusações
ridículas, entre as quais aquela envolvendo o telefonema grampeado do
Darcy, e outras histórias vindas da universidade, de colegas que naquele
momento dedo-duraram bastante, mas depois virariam ultra-esquerdistas.
O general Peri Bevilacqua, neto do Benjamin Constant e homem ligado à
minha família, foi quem me deu um habeas corpus anos depois (no
Superior Tribunal Militar, de que era ministro). Mais tarde ele seria
cassado, também. Pude devolver as medalhas do general para a família
dele, quando estava na Presidência.
O que o senhor pesquisava na época do golpe?
O empresariado brasileiro. Foi minha tese de livre-docência, defendi em 1963 e publiquei-a no ano seguinte.
Contestava a visão da esquerda de que havia uma aliança dos
latifundiários com os imperialistas, contra a burguesia nacional e o
povo. Isso era bobagem. Os empresários tinham ligação com o campo e não
eram antiimperialistas, com exceção de dois ou três. A esquerda apostava
no papel progressista da burguesia nacional e eu tinha uma visão
crítica em relação a isso.
Disse que não se entusiasmava por João Goulart. Como o definiria?
Jango não era de assustar ninguém e hoje seria um político muito mais
tranquilo do que qualquer um desses governantes populistas da América
Latina. Mas, no contexto da Guerra Fria, e pelos contatos que tinha com
os comunistas, representava o horror naquele momento.
Vi isso acontecer de novo no Chile. Allende era um reformista e virou
o belzebu. Enfim, Jango era um político brasileiro tradicional,
populista, um latifundiário que nunca quis fazer revolução alguma.
Levantava a bandeira das reformas de base e ninguém sabia exatamente o
que eram.
Olhando sociologicamente: tínhamos o mundo contingenciado pela Guerra
Fria, porém o Brasil começava a se encaixar no eixo dos investimentos
estrangeiros, desde o Juscelino. Havia crescimento industrial, forte
migração campo-cidade e um Estado incompetente para atender às demandas
de uma sociedade que crescia.
Então, a população começou a se movimentar e ir para as ruas. Nós,
acadêmicos, estávamos tão entretidos com os debates teóricos, que quando
nos demos conta as ruas tinham entrado na universidade!
Qual era o projeto dos militares em 1964? Submeter o País a uma modernização imposta de cima para baixo?
Acho que nem tinham projeto. Setores pensavam de forma diferente e
foram variando de posição até o final. O general Amaury Kruel (foi
ministro da Guerra de Jango), por exemplo, foi um que variou até o
momento do golpe. Mesmo o general Mourão, de Minas, não tinha noção do
que deveria ser feito.
Quem tinha? Os oficiais da Escola Superior de Guerra, o grupo do
Castello Branco. Esses sabiam que seria importante empreender no País a
modernização conservadora. Mas, veja só, entregaram a economia ao
(Otávio Gouveia de) Bulhões e ao (Roberto) Campos, que por sua vez
saíram atrás da modernização capitalista – arrocho fiscal, arrocho
salarial, tudo feito a machadinhas, o povo pagando um preço alto.
Implantaram um programa austero, que deu na explosão econômica dos
anos 70. Ora, quem fez isso não foram os militares, mas o Bulhões e o
Campos. Havia necessidade de modernizar o capitalismo brasileiro. E,
consequentemente, frear o avanço do setor estatal. Até porque o
Juscelino já tinha feito o enganche do país com o setor produtivo global
e os militares sabiam disso.
O senhor acha que o regime, no seu primeiro momento, tratou de sepultar o legado varguista?
O Castello, talvez. A verdade é que os militares já estavam
claramente divididos, e isso era visível no Clube Militar: havia o setor
ultranacionalista e o setor democrático-liberal. Este se aproximava dos
Estados Unidos. E o ultranacionalista, embora não engolindo os russos,
achava que eles funcionavam como contrapeso ao poderio americano.
Isso, evidentemente, tem a ver com as posturas “ser Getúlio” ou “ser
anti-Getúlio”, levando-se em conta que o Getúlio simbólico foi sempre o
nacionalista-estatizante. É interessante notar como era o contexto da
época: os militares nacionalistas-estatizantes, que nunca confiaram nas
forças do mercado, eram chamados de esquerda, o que era exagero. E os
democráticos-liberais eram vistos como direita, outro exagero.
Daí o regime foi se radicalizando.
Exato, foi radicalizando a tendência autoritária. Isso não foi
pretendido no começo, mas foi se formando. E virou um monstro que, não
fosse o (general Ernesto) Geisel ter-se oposto, justo ele, um
nacionalista-estatizante, correríamos o risco de cair numa direita
fascista. Uma direita que se justificaria pelo apego à ordem, e não pelo
desenvolvimento capitalista.
Cabe ainda muita pesquisa sobre o período, para analisar com
objetividade e entender como tudo aconteceu ao largo de um intenso
processo de industrialização e urbanização. São Paulo, em meados da
década de 70, crescia 5% ao ano. Havia mais de cinco milhões de pessoas
vivendo aqui. Tivemos um crescimento econômico que não correspondeu ao
social.
Isso começa a ser corrigido com a redemocratização e vem até agora.
Penso que hoje, de novo, vivemos algo parecido. Não se tem mais a
mobilidade rural-urbana do passado, mas uma intensa mobilidade social.
As pessoas querem mais e o Estado não tem como dar.
Instalados no poder, os militares trataram de providenciar uma
fachada de legalidade ao regime. Chegaram a falar em “democracia
relativa”.De fato, eles nunca aceitaram que o regime não fosse visto
como democrático.