
TUDO
PARA CIMA — Sobem os juros, a inflação continua em alta, o déficit
público aumenta… Só o crescimento econômico continua medíocre
O governo de Dilma Rousseff prestou uma inestimável contribuição para
os estudos econômicos. Usou o país de cobaia e o submeteu a um
experimento destinado a comprovar a hipótese segundo a qual uma redução
abrupta na taxa de juros não teria efeitos sobre a inflação.
Julgava, dessa maneira, colocar contra a parede todo o conhecimento
sobre política monetária acumulado nos últimos quarenta anos. Resultado
do teste de laboratório: a hipótese é completamente furada.
Na concepção da equipe econômica e de seus colaboradores, a economia
brasileira estaria preparada para funcionar em um ambiente de juros mais
baixos, similares aos de países desenvolvidos.
Sob essa premissa, a taxa básica, a Selic, foi derrubada rapidamente
no fim de 2011 e em 2012, chegando a 7,25%, o menor valor já registrado.
Mas a inflação começou a subir ainda mais, distanciando-se do centro da
meta de 4,5% ao ano. O governo custou a dar o braço a torcer e tentou
conter a escalada dos preços lançando mão de expedientes tão antiquados
quanto ineficientes, entre eles o controle dos preços dos combustíveis e
a manipulação de tarifas.
A inflação, apesar do represamento de reajustes, permaneceu
teimosamente elevada. Só então o Banco Central voltou a subir os juros.
Na semana passada, a taxa Selic foi elevada para 11% ao ano – acima,
portanto, dos 10,75% herdados por Dilma.
Juros mais altos, subsídios, contas públicas sendo arruinadas…
O país acabou no pior dos mundos. O governo desestruturou o arcabouço
que dava base à estabilidade econômica sem com isso ter alcançado o seu
objetivo de reduzir, de maneira duradoura, a Selic. O novo ciclo de
alta deixou a taxa básica maior do que era no fim de 2010, carregando
para cima os juros bancários cobrados dos consumidores e das empresas.
A inflação, nos anos Dilma, não ficou em nenhum momento no centro da
meta oficial de 4,5% e ameaça estourar mais uma vez o limite superior,
de 6,5%. Isso mesmo com o adiamento nos reajustes dos combustíveis e da
eletricidade.
Ao mesmo tempo, os subsídios distribuídos para sustentar os bancos
públicos e segurar as tarifas de energia estão arruinando as contas
públicas, para não falar no choque nas finanças da Petrobras e da
Eletrobras. Por fim, o déficit nas contas externas se aprofundou,
deixando o país mais vulnerável a capitais especulativos. Todas essas
dificuldades resultaram exclusivamente das ações de governo, e não foram
obra de crises externas, como no passado.
Na avaliação do economista Mário Mesquita, sócio do banco Brasil
Plural e ex-diretor do BC, o governo parece ter se esquecido de que a
inflação é um efeito monetário, ou seja, inevitavelmente aumenta quando
existe mais dinheiro em circulação.
De acordo com Mesquita, não fossem as interferências no valor das
tarifas e no preço dos combustíveis, a inflação já estaria rodando acima
de 7%. “A queda nos juros não foi amparada pela política fiscal”, diz
Mesquita. “As despesas públicas aumentaram, e houve também expansão dos
gastos parafiscais.”
Por “parafiscais” entendam-se os fartos financiamentos liberados
pelos bancos públicos nos últimos anos, que, por determinação do
governo, mantiveram os cofres abertos, tornando ainda mais difícil a
tarefa do BC de conter as expectativas de alta inflacionária.
“Certamente, a deterioração dos indicadores tem mais a ver com os
erros da política econômica do que com a crise global”, afirma Mário
Torós, sócio da Ibiuna Investimentos e também ex-diretor do BC. “A
atividade econômica está de fraca para fraquejante. Existe uma grande
probabilidade de a inflação ficar acima do teto da meta, e em 2015
teremos um ano complicado, com o inadiável reajuste de energia,
transportes e combustíveis. A tudo isso se junta uma possível crise
energética. A alta recente nos juros não foi suficiente para reduzir as
expectativas em relação à inflação futura.”
O experimento do governo serviu para atestar a debilidade da hipótese
inicial, mas o preço do equívoco será pago por um bom tempo. A
confiança na trajetória da economia ruiu, e o efeito foi o desincentivo
aos investimentos e a queda no crescimento.
Quanto mais a inflação demorar a ceder, maior o estímulo para a reindexação de preços, o que torna o seu combate mais difícil.