Publicado na edição impressa de VEJA


“Era uma espécie de cão leproso.” Assim o general Ernesto Geisel
classificou a situação em que estava quando João Goulart tomou posse, no
apressado arranjo parlamentarista, em 1961. Não teve cargo, comando nem
prestígio junto ao novo chefe de governo, a quem considerava “um homem
fraco e dominado pelas esquerdas”. Três anos depois, era um dos
integrantes mais importantes do grupo chefiado pelo general Humberto
Castello Branco.
A aproximação entre os dois futuros presidentes militares não tinha
sido exatamente fácil. Conspirador de primeira hora, Geisel, tão austero
que quando cursava a Escola Militar do Realengo não aceitava convites
de fim de semana de colegas cariocas porque não tinha roupas que
considerasse apresentáveis, fazia restrições ao cearense que gostava de
poesia e seguia a linha legalista. “Muitos de nós não gostávamos do
Castello na vida militar, inclusive eu e meu irmão Orlando, por causa do
seu feitio, por ser irônico”, relatou muitos anos depois, na série de
entrevistas transformada em livro por Maria Celina D’Araujo e Celso
Castro.
Ao se afastar de “generais amigos, contrários a nós e ligados ao
sistema Jango”, Castello se aproximou de Geisel e Golbery do Couto e
Silva, que estava na reserva e, como sempre, transitava no fluido mundo
das sombras. O general de cintura dura também teve seus momentos de
maquiavelismo, já nos estertores do governo Goulart, quando o presidente
apoiou em pessoa os sargentos praticamente em estado de sublevação.
“Alguns companheiros vieram a mim com a proposta de cercar o acesso ao
Automóvel Clube com elementos de confiança e assim impedir a realização
da reunião. Fui contrário a isso, dizendo: ‘Deixem que se faça a
reunião; agora, quanto pior, melhor para a nossa causa’.”
Geisel e Golbery acompanharam Castello em suas movimentações de 31 de
março e 1º de abril, no quartel-general do Exército e entre
apartamentos cedidos por simpatizantes que passaram a ser chamados de
postos de comando. Ironizada como a “revolução por telefone”, a
articulação na verdade foi essencial para aglutinar os diferentes focos
de rebelião militar. “Não havia um comando único na revolução. Mas, para
o nosso grupo, o chefe era o Castello”, descreveu Geisel.
O outro grupo se inclinava pelo general Arthur da Costa e Silva.
Falando com palavras cuidadosamente inteiras, como era de seu feitio,
ele resumiu assim a disputa em gestação: “Essa divergência, no meu modo
de ver, teve influência muito grande depois”. Mas, nos idos de março de
1964, Castello era o nome mais forte e Ernesto Geisel um de seus homens
de total confiança. Passados dez anos, tornou-se presidente com um voto
só que realmente contava ─ o de seu antecessor, Emílio Garrastazu Médici
─ e um projeto “lento, gradual e seguro” de retorno à democracia.
Demorou mais dez anos. Sua seca e final avaliação: “Foi um erro ter-se
ficado tanto tempo”.
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Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes,
Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio
Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie
Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma
Gryzinski.