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02 abril 2014

O que lembro de "1964"

Estava com dez anos de idade quando o idiota do Jango e todos os socialistas ao seu redor empurraram o país para uma ditadura de 21 anos.
Nesta época, eu morava no Careiro da Várzea (AM), a 17 km e a 2,5 h por barco de linha de Manaus - com minha mãe, e meu pai sempre ausente - e não tive qualquer notícia desse evento "1964".
O Careiro da Várzea é uma ilha cercada à esquerda pelo rio Amazonas a partir do Rio Negro, no encontro das águas, e, à direita pelo paraná do Careiro. 
Entre idas e vindas de Manaus ao Careiro, vivi ali por cerca de 13 anos. Até que me mudei definitivamente para Manaus em dezembro1966, com doze anos.
Nasci em Manaus em 1954 e logo minha mãe Alzira me levou de volta para o Careiro, onde morava no terreno deixado por meu avô Guilherme Pinheiro Bastos, oriundo do Ceará.
Em 1960, quando minha irmã Jânia nasceu, meu pai Waldetário Pinheiro, de origem pernambucana, fez minha mãe vender a pequena propriedade e se mudar para Manaus.
Ao chegar em Manaus, lembro que havia cartazes da seleção brasileira por todos os lugares e de nomes como Pelé e Garrincha, mas para mim estes eram ilustres desconhecidos. Nem pelo rádio acompanhei "1958". E pra dizer a verdade, nem mesmo "1962" significou para mim nenhuma novidade.
Aprendi a ler aos sete anos e fazia da leitura uma viagem mágica. Todos os domingos passava no Oratório Domingos Sávio, da paróquia de São José Operário. Fazia da sala de leitura meu lugar favorito.
Vivemos em Manaus até 1964, quando meu pai vendeu a nossa casa e ficamos sem ter onde morar, quando então voltamos novamente para o Careiro - na verdade para o paraná do Cambixe (um paraná que corta a ilha do Careiro do início até o final, por cerca de 150 km) - , onde passamos a morar como caseiros da fazenda do Sr. Adalto Leite, que era conhecido da família. O irmão dele, Oscar Leite, que morava na parte norte, ou baixa, do Cambixe, era meu padrinho de batismo. Para mim, um pai.
Nessa fazenda fiz tudo o que para mim era de um prazer indizível, tal como nadar no rio, pescar e caçar no lago, trabalhar como vaqueiro, andar de cavalo, tocar boiada, tirar leite, fazer queijo, manteiga, etc. Eram atividades lúdicas maravilhosas que me dão imensa saudade. Contudo, nada disso significava para mim o meu "futuro", uma vez que vivia em uma fazenda como de favor.
Daí ter me mudado definitivamente, em dezembro de 1966, para Manaus, eu sozinho, para morar com minha tia Alice Pinheiro, e ali realmente completar a minha alfabetização e prosseguir nos estudos. Minha mãe Alzira ficou na fazenda do Adalto Leite, no Cambixe, juntamente com meus irmãos Renato e Jânia.
De 1967 a 1968, estudei justamente na Escola Industrial Salesiana, que funcionava no meu já querido Oratório Domingos Sávio, da paróquia São José, onde completei minha alfabetização e então, em 1969, dei início ao "ginásio industrial" da Escola Técnica Federal, que corresponde às hoje quinta a oitava séries do ensino fundamental.
Na querida Etfam foi onde percebi com maior proximidade a existência de um regime político duro, pois ali éramos tratados com um rigor quase militar. Éramos obrigados a estudar em regime integral, pois tínhamos que, além das aulas "normais", fazer a cada semestre um curso profissionalizante. Portanto, após quatro anos de ginásio industrial, já tinha feito mais de oito cursos profissionalizantes: eletricidade, encadernação, tipografia e linotipia, marcenaria e carpintaria, serralheria e solda, mecânica de autos e mecânica de máquinas. Sem contar as famosas "horas cívicas" em que éramos obrigados a cantar o hino nacional e astear a bandeira nacional, isso após ouvirmos o professor da disciplina "educação moral e cívica", um "coronel", dizia-se. Algumas vezes um aluno era escalado para falar na hora cívica. Quem fazia isso frequentemente era o hoje pastor Samuel Câmara. Era evidente o medo que reinava entre os professores, os quais se negavam a emitir qualquer opinião sobre a situação geral do país. Não estudavam mulheres na Etfam. Estas foram admitidas apenas em 1970. Acho que para pacificar o clima de "guerra" havida entre os homens, alunos e professores.
Vivíamos um momento ao mesmo tempo difícil politicamente, mas rico nas áreas culturais, na música (bossa nova, jovem guarda, tropicália), no cinema, etc.
Manaus, é óbvio, na verdade estava muito longe dos centros cultural e político do país e pouca coisa se percebia  além dos muros da Etfam. Estou falando de minha própria experiência.
Apenas em 1975, quando o Incra me recrutou na Etfam, eu e mais quatro colegas (José das Graças, Darlindo Alves, Tadashi e Pedro Marçal), para trabalharmos como topógrafos, é que fui me dar conta da estrutura de poder militar que estava comandando o país. O Incra era comandado por um "coronel". Coloco aspas porque nem sempre esses dirigentes eram militares, mas faziam questão de serem conhecidos e reconhecidos como tais.
Em 1976, ainda estudando na Etfam o quarto ano do curso técnico de Estradas, passei no meu primeiro vestibular na UA (hoje Ufam) para Matemática. Não sabia que isso era praticamente "proibido", isto é, não sabia que estudar na Universidade era como receber um "carimbo" de comunista. O certo é que minhas atitudes no Incra também acabaram "ajudando" para esse estereótipo, pois demarcava as terras tanto dos que constavam quanto dos que NÃO constavam dos Projetos de demarcação, causando perplexidade no departamento de cartografia.
Na verdade, comunista existiam aos magotes, tanto na UA quanto no Incra. Um e principal deles era o colega João Pedro Gonçalves, hoje um petista de carteirinha. Éramos colegas de campo, de demarcação de terras. A reforma agrária era um "campo minado" ideologicamente.
Em 1977, sem entender porque, fui transferido "mano militari" do Incra de Manaus para o Incra de Tabatinga, na fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, onde fiquei "exilado" por dois anos. Isso me rendeu, em 1994, a anistia política e a reintegração ao Incra. Um anos depois, preferi ser professor da Ufam, aprovado que fui em concurso para professor de administração (depois fui credenciado também pela Faculdade de Direito para ministrar as turmas de direito oferecidas para o departamento de administração). Formei em direito em 1992, também na Ufam. Estou até hoje como professor, embora já esteja tecnicamente aposentado desde 2009. Contudo, embora anistiado, não recebo a indenização a que faço jus. A Comissão de Anistia dos "companheiros" não tem interesse pelo meu caso. Ingressei no STJ com Mandado de Segurança. Oremos!
Tenho outras lembranças do meu "1964", mas fica para outros posts.