Publicado na edição impressa de VEJA
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
1. Copa do Mundo seria melhor com um pouco menos de patriotadas. No
México havia (ainda há?), pouco antes da competição, a cerimônia de
“embandeiramento” do time nacional. Nesse momento o time passava a
representar a nação. No Brasil, sem a mesma pompa de Estado, mas
presente ao fundo uma enorme bandeira nacional, o anúncio dos jogadores
convocados procurou igual efeito. O técnico Luiz Felipe Scolari, antes
de desfiar a lista, pediu que todos – “comissão técnica, direção da CBF,
imprensa, torcedores” – nos unamos em torno do mesmo “norte”, ainda que
discordando desta ou daquela convocação. Mais tarde, ao vivo no Jornal
Nacional, disse que era hora de todos os brasileiros vestirem a “camisa
amarela”. À sua maneira, embandeirou a seleção.
2. Copa do Mundo também seria melhor sem intoxicação publicitária.
Mais do que ninguém os publicitários deveriam saber que tudo o que é
excessivo cansa. E, no entanto, dá-lhe Felipão vendendo carro,
televisores, assinatura de telefone celular. Dá-lhe Neymar vendendo
tudo. Antes de começar a Copa já enjoou. Sorte que depois do apito
inicial do jogo inicial o enjoo passa. Cura-o a atração irresistível da
bola correndo.
3. Felipão preocupou-se à toa com eventuais discordâncias agudas na
convocação. Não houve dissenso nem poderia haver. Tirando Neymar, os
outros 22 poderiam ser substituídos por outros 22 sem diferenças
acentuadas. Isso não é sinal de pujança do futebol brasileiro; é sinal
de nivelação por baixo dos estoques de craques.
4. Outra razão para a falta de dissenso é a carência de identificação
dos torcedores com os jogadores. Muitos dos convocados saíram tão cedo
do país que nem disputaram campeonatos de primeira divisão no Brasil. De
repente aparece um sujeito chamado Luiz Gustavo, ou um sujeito chamado
Hulk, de quem nunca se ouvira falar e que, sem ter vestido a camisa de
nenhum grande clube brasileiro, agora é titular da seleção. Ou é
reserva, como o sujeito chamado Dante. Além das torcidas clubísticas,
havia também as rivalidades regionais. Paulistas e cariocas disputavam
quem forneceria mais quadros para a seleção. Hoje, a disputa possível
seria se serão convocados mais ingleses ou mais espanhóis, quer dizer:
mais entre os que jogam na Inglaterra ou mais entre os que jogam na
Espanha.
5. Felipão é esperto. Ao embandeirar a seleção, busca duplo efeito.
Primeiro, formar a famosa “corrente pra frente”. Segundo, dividir
responsabilidades. Mostrando-se desunidos, os brasileiros serão também
culpados, se sobrevier a cruel desdita da derrota. Ele tem plena noção
da carga que lhe pesa nos ombros. O pior cenário é a desclassificação
prematura. Já nas oitavas de final, é mais do que possível que o Brasil
venha a enfrentar ou a Holanda, que o desclassificou em 2010, ou a
Espanha, a campeã naquela ocasião. Derrotado o time de Felipão, o
torneio passaria a ser uma festa de argentinos, espanhóis, italianos,
ingleses e outros, com o Brasil pagando a conta. As massas poderão se
excitar.
6. Pior que o vexame no campo de jogo será o eventual vexame do
despreparo para o evento. Prometeram-se investimentos que não vieram. A
famosa “mobilidade urbana” será a de sempre, com forte tendência
imobilizante, atenuada quem sabe apenas por puxadinhos nos aeroportos e
decretação de feriados em dias de jogo. Alguns dos estádios só ficarão
prontos na última hora, e tomara que se mostrem seguros. Tomara que não
falte energia no pico das comunicações que cruzarão o planeta. Se isso
tudo ocorrer razoavelmente a contento (completamente a contento não é
mais possível) e se não houver torcedor com volúpia de jogar vaso
sanitário no adversário, será um alívio.
7. A Copa continua um risco para o governo, mas na semana passada
funcionou a favor. O craque Renan Calheiros, agora com cabeleira que
ameaça a de David Luiz, soube jogar de olho na tabela – tanto enrolou
que fez a CPI da Petrobras enroscar com a Copa. O assunto Petrobras
morreu. Agora é Copa. O embandeiramento da seleção marcou o início de
seu reinado.