* Rolf Kuntz
Com o desastre econômico do primeiro trimestre, uma
expansão miserável de 0,2% combinada com inflação alta e enorme rombo
comercial, a presidente-gerente Dilma Rousseff completou três anos e
três meses de fracasso econômico registrado oficialmente. O fracasso
continua, como confirmam vários indicadores parciais, e continuará nos
próximos meses, porque a indústria permanece emperrada e o ambiente
econômico é de baixa produtividade. Mas o ministro da Fazenda, Guido
Mantega, parece desconhecer a história dos últimos três anos e um
quarto. Em criativa entrevista, ele atribuiu o baixo crescimento
brasileiro no primeiro trimestre a fatores externos e a problemas
ocasionais. A lista inclui a instabilidade cambial, a recuperação ainda
lenta das economias do mundo rico e a inflação elevada principalmente
por causa dos alimentos. Culpa dos gringos, portanto, e isso vale
igualmente para o judeu Simão, também conhecido como São Pedro,
supervisor e distribuidor das chuvas e trovoadas.
No triste cenário das contas nacionais divulgadas nesta
sexta-feira, só se salva a produção agropecuária, com crescimento de
3,6% no trimestre e de 4,8% no acumulado de um ano. Os detalhes mais
feios são o investimento em queda e o péssimo desempenho da indústria.
Em sua pitoresca entrevista, o ministro da Fazenda atribuiu o baixo
investimento à situação dos estoques e ao leve recuo - queda de 0,1% -
do consumo das famílias, causado em grande parte pela alta do custo da
alimentação. A explicação pode ser instigante, mas deixa em total
escuridão o fiasco econômico dos últimos anos, quando o consumo, tanto
das famílias quanto do governo, cresceu rapidamente.
O investimento em máquinas, equipamentos, construções civis e
obras públicas - a chamada formação bruta de capital fixo - caiu, como
proporção do produto interno bruto (PIB), durante toda a gestão da
presidente Dilma Rousseff.
No primeiro trimestre de 2011, quando o governo estava
recém-instalado, essa proporção chegou a 19,5%. Caiu seguidamente a
partir daí, até 17,7% nos primeiros três meses de 2014. Durante esse
período o consumo das famílias aumentou velozmente, sustentado pela
expansão da renda e do crédito, mas nem por isso os empresários
investiram muito mais.
Além disso, o governo foi incapaz de ir muito além da retórica e
das bravatas quando se tratou de executar as obras do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC). Nem as obras da Copa avançaram no ritmo
necessário, apesar do risco de um papelão internacional.
A estagnação da indústria reflete o baixo nível de
investimentos, tanto privados quanto públicos, e a consequente perda de
poder de competição. Por três trimestres consecutivos a produção
industrial tem sido menor que nos três meses anteriores. Encolheu 0,1%
no período julho-setembro, diminuiu 0,2% no trimestre final de 2013 e
0,8% no primeiro deste ano. Não há como culpar as potências estrangeiras
ou celestiais por esse desempenho.
O conjunto da economia brasileira é cada vez menos produtivo,
embora alguns segmentos, como o agronegócio, e algumas empresas
importantes, como a Embraer, continuem sendo exemplos internacionais de
competitividade.
O baixo crescimento do PIB, apenas 0,2% no trimestre e 2,5% em
12 meses, reflete essa perda de vigor, associada tanto à insuficiência
do investimento em capital fixo quanto à escassez crescente de pessoal
qualificado. Não por acaso, o País apareceu em 54.º lugar, numa lista de
60 países, na última classificação de competitividade elaborada pelo
International Institute for Management Development (IMD), da Suíça.
O baixo desempenho da economia, especialmente da indústria, tem
tudo a ver com a piora das contas externas. O efeito mais evidente é a
erosão do saldo comercial. No primeiro trimestre, período de referência
das contas nacionais atualizadas, o País acumulou um déficit de US$ 6,1
bilhões no comércio de mercadorias. O resultado melhorou um pouco desde
abril, mas na penúltima semana de maio o buraco ainda era de US$ 5,9
bilhões. O Banco Central (BC) continua projetando um saldo de US$ 8
bilhões para o ano, muito pequeno para as necessidades brasileiras. No
mercado, a mediana das projeções coletadas em 23 de maio na pesquisa
semanal do BC indicava um superávit de apenas US$ 3 bilhões.
Estranhamente, os deuses parecem ter poupado outros países dos
males atribuídos pelo ministro da Fazenda ao quadro externo. Outras
economias continuaram crescendo mais que a brasileira e com inflação
menor, apesar de sujeitas à instabilidade dos mercados financeiros e a
outros problemas internacionais. A inflação no Brasil tem permanecido
muito acima da meta oficial, 4,5%, e a maior parte das projeções ainda
aponta um resultado final em torno de 6% para 2o14. Até agora, o recuo
de alguns preços no atacado pouco afetou o varejo e os consumidores
continuam sujeitos a taxas mensais de inflação superiores a 0,5%. O
ritmo poderá diminuir nos próximos meses, mas, por enquanto, as
estimativas indicam um repique nos quatro ou cinco meses finais de 2014.
O aperto monetário, interrompido pelo BC na quarta-feira, pode
ter produzido algum efeito, mas o desajuste das contas do governo ainda
alimenta um excesso de demanda. Na quinta-feira o Tesouro anunciou um
superávit primário de R$ 26,7 bilhões nos primeiros quatro meses. Quase
um terço desse total, R$ 9,2 bilhões, ou 31%, correspondeu a receita de
concessões e dividendos. As concessões renderam 207,4% mais que no
período de janeiro a abril do ano passado. Os dividendos foram 716,4%
maiores que os do primeiro quadrimestre de 2013. Chamar isso de
arrecadação normal e recorrente sem ficar corado vale pelo menos um
Oscar de ator coadjuvante. A economia vai mal, mas a arte cênica
brasileira ainda será reconhecida. Há mais valores entre o céu e a terra
do (que) sonham os críticos da política econômica.