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26 dezembro 2012

Minha vida - Parte V (vida acadêmica - 1980 a 1990)

Quando terminou meu "exílio" involuntário no Incra de Tabatinga, onde fui obrigado a trabalhar de julho de 1977 a julho de 1979, retornei a Manaus. Minha mulher Suderly veio na frente gestante de nosso primeiro filho Adriel, que nasceu em Manaus no dia 2 de janeiro de 1980, justamente quando prestava meu segundo vestibular, desta vez para administração noturno. Graças a Deus fui novamente aprovado, mesmo correndo da maternidade para a sala de provas.
Com os parcos recursos que consegui guardar, comprei uma casinha de madeira no beco São João, na da Rua de Dr. Machado, entre as ruas Visconde de Porto Alegre e Duque de Caxias
Minha opção por administração decorreu, de um lado, da necessidade, pois como chefe da topografia em Tabatinga tive grandes dificuldades em lidar com as questões burocráticas típicas da Administração Pública e, de outro lado, em razão da alentada possibilidade que o Incra me dava de finalmente poder estudar caso o curso fosse noturno. Ledo engano! Isso era dito apenas para que eu aceitasse suas imposições porque imaginavam que não passaria. Se enganaram duplamente.
Como percebi que a perseguição apenas ficara mais sutil e que não cessaria, me insurgi contra as viagens que duravam no mínimo 15 dias (que me rendiam boas diárias, diga-se) e me inviabilizavam os estudo mesmo que fosse noturno, e fui demitido do Incra em maio de 1980. Foi a segunda vez que isso acontecia comigo no Incra de Manaus. Mas havia uma esperança. Meus amigos de Incra que não aguentaram a pressão e se mudaram para o recém criado Instituto de Terras do Amazonas pelo governador José Lindoso, que funcionava dentro do Palácio Rio Negro, me incentivaram a ir trabalhar com eles. O governo Lindoso - em que pese fosse preposto do governo militar, cujo presidente era o general João Batista Figueiredo -, foi um dos maiores governadores do Amazonas, reconhecidamente um homem honesto como poucos, professor de direito constitucional da Unb.
Não sei de onde tirei forças para IMPOR CONDIÇÃO (?!) para ir trabalhar no Iteram, pois exigi que não tivesse de viajar em razão de minhas aulas. Para minha surpresa, o diretor técnico Isaías e o presidente Bernardes Lindoso aceitaram "minhas imposições", santo Deus! Isso foi para mim inacreditável... Se o Incra jamais deixaria de fazer parte de minhas recordações como de um amor não correspondido, o Iteram jamais sairá de minhas recordações como de uma companheira leal. Pelo menos até o momento de mudança de guarda quando do início do governo mestrinho em março de 1983.
Um ano após essa minha transferência para o Iteram nasceu meu segundo filho, o André. As coisas para mim iam ficando difíceis financeiramente, pois, sem as viagens e com o processo inflacionário galopante, os preços não paravam de subir e o salário não acompanhava nem de longe esse descompasso.
O processo político a partir de 1980 ia se desenrolando para a redemocratização do país entre ameaças de retrocesso. Antigos políticos caçados pelo regime iam retornando à cena, para o bem ou para o mal.
No plano nacional ia se formando uma aliança em torno de Tancredo Neves, tendo como coadjuvantes Ulisses Guimarães, Antonio Carlos Magalhães, Leonel Brizola, e outros. No plano local a figura carismática de Gilberto Mestrinho retornou com a antiga força e conquistou o governo nas eleições de 1982. Isso para mim foi particularmente complicado uma vez que fora obrigado a apoiar (com desempenho técnico, é bom que se diga, na função de Chefe da Cartografia do Iteram, introduzindo a informática no cálculo e no desenho topográficos, tornando possível multiplicar por 100 os processos de titulação) ao perdedor Josué Filho, que se demonstrou depois um político extremamente pragmático, se é que me entendem, capaz de sujeitar qualquer ambição pessoal na política local por cargos menos importantes mas capaz de lhe garantir e à sua prole um futuro material tranquilo, como radialista, dono de emissora de rádio, deputado estadual, secretário de estado e conselheiro do TCE. Uma carreira, digamos, bem sucedida...
Quando os paus mandados de Mestrinho adentraram o Iteram, com sangue na boca e faro aguçado pelo queijo, comandados por João Mendonça - ex-advogado criminalista de Carlos Alberto De Carli, vindo do Banco de Rondônia, que já tinha sido diretor do Incra em Brasília -, e partiram para o butim, me vi obrigado a enfrentá-los com as únicas armas de que dispunha: competência e honestidade. Com essas armas a gente até perde as batalhas, mas, creio, a guerra final entre o bem e o mal será ganha. Afinal de contas a norma do Juízo será a maneira como empregamos em nossa vida o conhecimento que temos das leis morais de Deus. Tentaram provar, debalde, minhas incompetência e desonestidade. Tiveram que me demitir em maio de 1984 sob a "acusação" de ser "do PDS", o partido do governo federal originário da Arena (Aliança Renovadora Nacional). Não era. Quem acusava são esses mesmos que hoje fazem parte da Quadrilha Federal desde 2003, com Lula et caterva.
Foram momentos extremamente difíceis ao ponto de ter de vender meu carro, um "Corcel 76" - que conseguira comprar em 1982 a duras penas, trabalhando aos finais de semana - para pagar dívidas e conseguir atravessar o próximo ano de desemprego. Contudo meu objetivo maior estava conseguido. Me formei em administração em agosto de 1984, que cursei sem ter sido reprovado em nenhuma disciplina. Fui o orador da turma. E me filiei ao PDS para militar na oposição. Gosto de remar contra a corrente, não?!
No entanto, essa demissão permitiu que rompesse com os cargos de nível médio e que eu fosse contratado como administrador em maio de 1985 na Fundação Centro de Apoio ao Distrito Agropecuário (Fucada), da Suframa, que era comandada por Johnny De Carli, de quem ficara amigo no Iteram, onde o mesmo fora diretor técnico no período de 1983 a 1984, e que passou a onhecer de perto minha competência como chefe da cartografia. O mesmo se dirigiu à minha velha casa de madeira - onde curtia um misto de alegria pela formatura e desespero pelo desemprego - e me fez até hoje uma das melhores surpresas da minha vida: me anunciou que assumira a Diretoria da Fucada e me perguntou se eu queria ser "diretor administrativo". Caí de joelhos agradecido a Deus e chorando o abracei.
Esse emprego na Fucada representou para mim um "laboratório" de administração, pois tive de estruturar a Fundação, aprovar seu PCCS, estruturar seus centros de custo, acompanhar e fiscalizar a eletrificação da fazenda, etc. Não era fácil ir e vir todo dia embora fossem 38 km de rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista), que pr esse tempo não estava asfaltada, demorando uma hora de viagem em pleno chão batido e muita, muita lama. Escapei de morrer duas vezes no mesmo dia quando o carro em que viajava rodou na pista, e quando uma caçamba rodou em minha frente em outro trecho. Frear não adiantava.
Em junho de 1985, nasceu meu terceiro filho, o Alexandre, mas infelizmente meu casamento com Suderly já não estava tão bem assim. Nada resiste a tantas provas pelas quais passei, pelas humilhações em família, e pela fofoca (que termina por se materializar como se fosse uma autoprofecia - depois trato do assunto)... Meu casamento acabou em 1989, quando me separei para morar sozinho (embora muitos acreditem que deixei a Suderly por outra mulher, mas essa "profecia" acabou se materializando, para minha desgraça, pois me envolvi com uma mulher que vivia se dizendo minha amante...
Quando o Johnny deixou a Fucada e foi para a Delegacia Federal do Ministério da Agricultura em 1986, também deixei a fazenda modelo da Fucada (que na verdade pertencia, como de direito pertence, à Ufam) e fui trabalhar na sede da Suframa como vice-presidente da Associação dos Servdores da Suframa (Asframa). Boa experiência de direção de uma associação.
Em 1988, o Johnny foi eleito vereador de Manaus pelo PTB, partido ao qual me filiara em 1986 a convite do ex-governador Plínio Coelho, na Faculdade de Direito desde janeiro de 1985, quando passei em meu terceiro vestibular. Fui fazer o curso sem pensar em ser advogado, mas para me preparar melhor como administrador, minha verdadeira paixão acadêmica.
Trabalhamos juntos, Johnny e eu, até 1990, quando o mesmo abandonou a vereança e se mudou para Minas Gerais, ou Rio de Janeiro, não sei ao certo. Me reencontrei uma única vez com ele e depois nunca mais. Mantenho por ele uma enorme gratidão. Que Deus o guarde.
Todavia, ocupei o mesmo cargo que o Johnny ocupou, eu o sucedi mesmo, como Delegado Federal da Agricultura, entre 1988 e 1990, o mesmo período no qual o Johnny foi vereador.
Nos próximos posts falarei de minhas experiências docentes e acadêmicas no Ciesa e na Ufam. E de meus descaminhos familiares e religiosos.