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14 abril 2011

Negócio da China_Por José Serra



Ao analisar a economia mundial no imediato pós-guerra, o grande economista Raúl Prebisch cunhou a expressão centro-periferia. Apontava para uma divisão internacional do trabalho entre países produtores de matérias-primas e alimentos - a periferia - e países produtores e exportadores de manufaturas - o centro.
Tal divisão desfavorecia os países da periferia, pois a concorrência entre as exportações de produtos primários era maior, refletindo-se em preços mais desfavoráveis. Previa-se, também, que sua demanda cresceria abaixo da renda mundial. Por último, carentes de indústrias, esses países permaneceriam também carentes de bons empregos e dos frutos do progresso técnico.
Essa teoria simplificava muito a realidade, mas valeu como reparo ao teorema de que os ganhos do livre-comércio internacional seriam repartidos de forma equânime entre todas as nações. E deu certo substrato ideológico às políticas de desenvolvimento industrial.
Na “periferia”, o Brasil foi o país que levou a industrialização mais longe, embaralhando a dicotomia prebischiana. A partir dos anos 1980, porém, em razão de fatalidades da política macroeconômica e da transição mal feita para uma economia mais aberta, ingressamos numa fase de lento crescimento que já dura 30 anos.
Na última década, ganharam corpo mudanças impressionantes na economia internacional, com a ascensão da Índia e principalmente da China, países com 37% da população mundial, baixa renda por habitante, com projetos nacionais de desenvolvimento e pouco afeitos a bravatas. Um quarto do crescimento da economia mundial nesse período se deveu à China. A demanda por commodities saltou de patamar, empinando quantidades e preços, num movimento que parece contínuo: mais indústrias e mais infraestrutura exigindo matérias-primas, mais empregos e mais gente consumindo alimentos.
O centro chinês é muito peculiar. A economia é monitorada pelo Estado. O grau de discricionariedade da política econômica é altíssimo. O regime autoritário é eficiente para seus propósitos, e fortemente repressivo quando necessário. Para os de fora fica difícil explorar suas contradições internas. É um regime encarado com complacência por seus parceiros comerciais, incluindo o Brasil.
A caminhada chinesa em direção ao centro da economia mundial chegou a ser saudada como janela de independência da economia brasileira, que passaria a ser menos atrelada às economias desenvolvidas clássicas. A troco de nada, o deslumbramento do governo Lula com a China levou-o a reconhecê-la como “economia de mercado”, dando mais proteção às suas práticas desleais de comércio.
Mais independência? Ledo engano. Como disse Sérgio Amaral, a China é uma oportunidade e uma ameaça. Infelizmente, o Brasil escolheu a ameaça. A incapacidade de aproveitarmos boas condições de comércio para fortalecer a economia nacional está conduzindo o País, rapidamente, à condição de neoperiferia no concerto econômico mundial. “Neo” porque a nação está se desindustrializando, na volta à sua condição de economia primário-exportadora. A China, rumo ao centro, o Brasil, rumo à periferia. Num país continental como o nosso, isso envolve a renúncia a um futuro de suficientes e bons empregos.
As diferenças econômicas Brasil-China são marcantes. O yuan é das moedas mais desvalorizadas do mundo, o que aumenta muito a competitividade de sua economia. Nossa moeda vai exatamente no sentido contrário. Temos ainda a maior taxa real de juros do planeta e a maior carga tributária entre os países emergentes, o dobro da chinesa! A taxa de investimento da China é 2,5 vezes maior do que a brasileira: faltam poupança pública e capacidade para investir os recursos disponíveis e fazer parcerias público-privadas. Sobram tributos e falta uma taxa de câmbio decente para atrair mais investimentos privados.
As exportações chinesas estão varrendo boa parte da nossa indústria. Apenas 7% do que vendemos à China são produtos manufaturados, que representam 97% do que importamos de lá. Importações que vêm em boa medida substituir produção existente, menos competitiva por causa das políticas macroeconômicas, da fragilidade da defesa comercial e da situação calamitosa da nossa infraestrutura. Produzir no Brasil é tão caro que exportamos celulose para a China e começamos a importar o papel que ela produz. Exportamos minério de ferro, compramos aço. Cadê o famoso valor agregado?
A China também nos está deslocando de outros mercados. Dois terços das empresas exportadoras brasileiras perderam clientes para as chinesas no mercado externo, quase metade da indústria brasileira que concorre com a chinesa perdeu participação no mercado interno!
Além das vantagens apontadas, a China protege sua produção doméstica, faz escaladas tarifárias (soja), administra os investimentos estrangeiros no seu território, costuma subfaturar suas vendas ou utilizar países barriga de aluguel para reexportar seus produtos e escapar das esporádicas medidas de defesa comercial que o Brasil adota.
Outra dimensão da dependência brasileira é a rápida expansão dos investimentos diretos chineses voltados para as commodities de que a China precisa. São investimentos que obedecem à orientação do Estado chinês, que, por espantoso que possa parecer no Brasil, tem visão de longo prazo. Incorporaram até mesmo terras e riquezas naturais inexploradas, sob os olhares complacentes do extasiado governo Lula. Como os chineses são espertos, não lhes custará fazer uma concessão aqui ou ali em matéria de investimentos que envolvam maior valor agregado e alguma tecnologia nova. Mas só um pouquinho.
“Negócio da China”, antigamente expressava a possibilidade de alguma pechincha, um ganho extraordinário em cima dos chineses. Hoje, ao contrário, é negócio bom para eles. Nada contra, pois pensam no futuro e sabem defender seus interesses no presente. Nessa peleja, perdemos feio

13 abril 2011

O papel da oposição_Por Fernando Henrique Cardoso


O papel da oposição
Por Fernando Henrique Cardoso
Há muitos anos, na década de 1970, escrevi um artigo com o título acima no jornal Opinião, que pertencia à chamada imprensa “nanica”, mas era influente. Referia-me ao papel do MDB e das oposições não institucionais. Na época, me parecia ser necessário reforçar a frente única antiautoritária e eu conclamava as esquerdas não armadas, sobretudo as universitárias, a se unirem com um objetivo claro: apoiar a luta do MDB no Congresso e mobilizar a sociedade pela democracia.
Só dez anos depois a sociedade passou a atuar mais diretamente em favor dos objetivos pregados pela oposição, aos quais se somaram também palavras de ordem econômicas, como o fim do “arrocho” salarial.
No entretempo, vivia-se no embalo do crescimento econômico e da aceitação popular dos generais presidentes, sendo que o mais criticado pelas oposições, em função do aumento de práticas repressivas, o general Médici, foi o mais popular: 75% de aprovação.
Não obstante, não desanimávamos. Graças à persistência de algumas vozes, como a de Ulisses Guimarães, às inquietações sociais manifestadas pelas greves do final da década e ao aproveitamento pelos opositores de toda brecha que os atropelos do exercício do governo, ou as dificuldades da economia proporcionaram (como as crises do petróleo, o aumento da dívida externa e a inflação), as oposições não calavam. Em 1974, o MDB até alcançou expressiva vitória eleitoral em pleno regime autoritário.
Por que escrevo isso novamente, 35 anos depois?
Para recordar que cabe às oposições, como é óbvio e quase ridículo de escrever, se oporem ao governo. Mas para tal precisam afirmar posições, pois, se não falam em nome de alguma causa, alguma política e alguns valores, as vozes se perdem no burburinho das maledicências diárias sem chegar aos ouvidos do povo. Todas as vozes se confundem e não faltará quem diga - pois dizem mesmo sem ser certo - que todos, governo e oposição, são farinhas do mesmo saco, no fundo “políticos”. E o que se pode esperar dos políticos, pensa o povo, senão a busca de vantagens pessoais, quando não clientelismo e corrupção?
Diante do autoritarismo era mais fácil fincar estacas em um terreno político e alvejar o outro lado. Na situação presente, as dificuldades são maiores. Isso graças à convergência entre dois processos não totalmente independentes: o “triunfo do capitalismo” entre nós (sob sua forma global, diga-se) e a adesão progressiva - no começo envergonhada e por fim mais deslavada - do petismo lulista à nova ordem e a suas ideologias.
Se a estes processos somarmos o efeito dissolvente que o carisma de Lula produziu nas instituições, as oposições têm de se situar politicamente em um quadro complexo.
Complexidade crescente a partir dos primeiros passos do governo Dilma que, com estilo até agora contrastante com o do antecessor, pode envolver parte das classes médias. Estas, a despeito dos êxitos econômicos e da publicidade desbragada do governo anterior, mantiveram certa reserva diante de Lula. Esta reserva pode diminuir com relação ao governo atual se ele, seja por que razão for, comportar-se de maneira distinta do governo anterior.
É cedo para avaliar a consistência de mudanças no estilo de governar da presidente Dilma. Estamos no início do mandato e os sinais de novos rumos dados até agora são insuficientes para avaliar o percurso futuro.
É preciso refazer caminhosAntes de especificar estes argumentos, esclareço que a maior complexidade para as oposições se firmarem no quadro atual - comparando com o que ocorreu no regime autoritário, e mesmo com o petismo durante meu governo, pois o PT mantinha uma retórica semianticapitalista - não diminui a importância de fincar a oposição no terreno político e dos valores, para que não se perca no oportunismo nem perca eficácia e sentido, aumentando o desânimo que leva à inação.
É preciso, portanto, refazer caminhos, a começar pelo reconhecimento da derrota: uma oposição que perde três disputas presidenciais não pode se acomodar com a falta de autocrítica e insistir em escusas que jogam a responsabilidade pelos fracassos no terreno “do outro”. Não estou, portanto, utilizando o que disse acima para justificar certa perplexidade das oposições, mas para situar melhor o campo no qual se devem mover.
Se as forças governistas foram capazes de mudar camaleonicamente a ponto de reivindicarem o terem construído a estabilidade financeira e a abertura da economia, formando os “campeões nacionais” - as empresas que se globalizam - isso se deu porque as oposições minimizaram a capacidade de contorcionismo do PT, que começou com a Carta aos Brasileiros de junho de 1994 e se desnudou quando Lula foi simultaneamente ao Fórum Social de Porto Alegre e a Davos.
Era o sinal de “adeus às armas”: socialismo só para enganar trouxas, nacional–desenvolvimentismo só como “etapa”. Uma tendência, contudo, não mudou, a do hegemonismo, ainda assim, aceitando aliados de cabresto.
Segmentos numerosos das oposições de hoje, mesmo no PSDB, aceitaram a modernização representada pelo governo FHC com dor de consciência, pois sentiam bater no coração as mensagens atrasadas do esquerdismo petista ou de sua leniência com o empreguismo estatal.
Não reivindicaram com força, por isso mesmo, os feitos da modernização econômica e do fortalecimento das instituições, fato muito bem exemplificado pela displicência em defender os êxitos da privatização ou as políticas saneadoras, ou de recusar com vigor a mentira repetida de que houve compra de votos pelo governo para a aprovação da emenda da reeleição, ou de denunciar atrasos institucionais, como a perda de autonomia e importância das agências reguladoras.
Da mesma maneira, só para dar mais alguns exemplos, o Proer e o Proes, graças aos quais o sistema financeiro se tornou mais sólido, foram solenemente ignorados, quando não estigmatizados. Os efeitos positivos da quebra dos monopólios, o do petróleo mais que qualquer outro, levando a Petrobras a competir e a atuar como empresa global e não como repartição pública, não foram reivindicados como êxitos do PSDB.
O estupendo sucesso da Vale, da Embraer ou das teles e da Rede Ferroviária sucumbiu no murmúrio maledicente de “privatarias” que não existiram. A política de valorização do salário mínimo, que se iniciou no governo Itamar Franco e se firmou no do PSDB, virou glória do petismo.
As políticas compensatórias iniciadas no governo do PSDB - as bolsas - que o próprio Lula acusava de serem esmolas e quase naufragaram no natimorto Fome Zero - voltaram a brilhar na boca de Lula, pai dos pobres, diante do silêncio da oposição e deslumbramento do país e… do mundo!
Não escrevo isso como lamúria, nem com a vã pretensão de imaginar que é hora de reivindicar feitos do governo peessedebista. Inês é morta, o passado… passou. Nem seria justo dizer que não houve nas oposições quem mencionasse com coragem muito do que fizemos e criticasse o lulismo.
As vozes dos setores mais vigorosos da oposição se estiolaram, entretanto, nos muros do Congresso e este perdeu força política e capacidade de ressonância. Os partidos se transformaram em clubes congressuais, abandonando as ruas; muitos parlamentares trocaram o exercício do poder no Congresso por um prato de lentilhas: a cada nova negociação para assegurar a “governabilidade”, mais vantagens recebem os congressistas e menos força político-transformadora tem o Congresso.
Na medida em que a maioria dos partidos e dos parlamentares foi entrando no jogo de fazer emendas ao orçamento (para beneficiar suas regiões, interesses - legítimos ou não - de entidades e, por fim, sua reeleição), o Congresso foi perdendo relevância e poder.
Consequentemente, as vozes parlamentares, em especial as de oposição, que são as que mais precisam da instituição parlamentar para que seu brado seja escutado, perderam ressonância na sociedade.
Com a aceitação sem protesto do “modo lulista de governar” por meio de medidas provisórias, para que serve o Congresso senão para chancelar decisões do Executivo e receber benesses? Principalmente, quando muitos congressistas estão dispostos a fazer o papel de maioria obediente a troco da liberação pelo Executivo das verbas de suas emendas, sem esquecer que alguns oposicionistas embarcam na mesma canoa.
Ironicamente, uma importante modificação institucional, a descentralização da ação executiva federal, estabelecida na Constituição de 1988 e consubstanciada desde os governos Itamar Franco e FHC, diluiu sua efetividade técnico–administrativa em uma pletora de recursos orçamentários “carimbados”, isto é, de orientação político-clientelista definida, acarretando sujeição ao Poder Central, ou, melhor, a quem o simboliza pessoalmente e ao partido hegemônico.
Neste sentido, diminuiu o papel político dos governadores, bastião do oposicionismo em estados importantes, pois a relação entre prefeituras e governo federal saltou os governos estaduais e passou a se dar mais diretamente com a presidência da República, por meio de uma secretaria especial colada ao gabinete presidencial.
Como, por outra parte, existe - ou existiu até a pouco - certa folga fiscal e a sociedade passa por período de intensa mobilidade social movida pelo dinamismo da economia internacional e pelas políticas de expansão do mercado interno que geram emprego, o desfazimento institucional produzido pelo lulismo e a difusão de práticas clientelísticas e corruptoras foram sendo absorvidos, diante da indiferença da sociedade.
Na época do mensalão, houve um início de desvendamento do novo Sistema (com S maiúsculo, como se escrevia para descrever o modelo político criado pelos governos militares).
Então, ainda havia indignação diante das denúncias que a mídia fazia e os partidos ecoavam no Parlamento. Pouco a pouco, embora a mídia continue a fazer denúncias, a própria opinião pública, isto é, os setores da opinião nacional que recebem informações, como que se anestesiou. Os cidadãos cansaram de ouvir tanto horror perante os céus sem que nada mude. Diante deste quadro, o que podem fazer as oposições?
Definir o público a ser alcançado
Em primeiro lugar, não manter ilusões: é pouco o que os partidos podem fazer para que a voz de seus parlamentares alcance a sociedade.
É preciso que as oposições se deem conta de que existe um público distinto do que se prende ao jogo político tradicional e ao que é mais atingido pelos mecanismos governamentais de difusão televisiva e midiática em geral.
As oposições se baseiam em partidos não propriamente mobilizadores de massas. A definição de qual é o outro público a ser alcançado pelas oposições e como fazer para chegar até ele e ampliar a audiência crítica é fundamental.
Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias

07 abril 2011

45 anos de magistério do Prof. Michiles da UFAM (DECON/FES)

SAUDAÇÃO AO PROFESSOR JOSÉ HUMBERTO MICHILES
Prezados amigos:

Poucas são as oportunidades que se nos oferecem para homenagearmos amigos vivos, em virtude da propriedade necessária e justa de reconhecimento incontestável de seus elevados méritos por sua trajetória laboral imaculada.
Poucas são as oportunidades que se nos oferecem para homenagearmos amigos vivos, com íntima formalidade afetiva moldada neste ato cerimonial fraterno de união entre homens justos e de bons costumes.
Inicio minhas palavras elogiando a iniciativa do Professor Milanez Silva de Souza de congregar professores e servidores vinculados ao Departamento de Contabilidade e alunos do Curso de Graduação em Ciências Contábeis, para, espontaneamente, tendo em vista apenas a justeza do ato de reverenciarmos o nobre Professor José Humberto Michiles pelos seus 45 anos de bom trabalho nesta Universidade Federal do Amazonas dedicado à formação de contadores.
Atrevo-me a asseverar muito poucos, e não vislumbro ninguém, nesta instituição seriam dignos de tão elevara honraria. Alías, poucos professores no Brasil deram tanto de si; mantiveram-se dedicados, fiéis e íntegros. Poucos se fizeram constantes, mesmo diante dos desestimulantes enfrentamentos do cotidiano, por vezes oriundos de quem deveria, no mínimo, respeitar-lhes os cabelos enluarados... A tudo isso Michiles sorri...
À soberba Michilies responde com sua humildade, própria de quem é nobre; à prepotência, sempre ridícula, Michiles mantém-se sereno e condescendente, uma característica dos que são mansos de coração; à pseudo-intelectualidade científica, obscura e ambiciosa, a lição de Michiles nos chega através de sua incontroversa dedicação e produtividade, o trabalho com amor eleva o espírito. Afinal de que valem os doutorados custeados com recursos de contribuintes, se a ciência acumulada não for transferida à massa de graduandos e se espraiar em benefício da sociedade?
Para superar as intempéries dos banzeiros adversos, provocadas por correntes transitórias superiores, o Professor José Humberto Michiles “trabalha”, dedicando-se, de corpo e alma, àqueles que têm sido e serão sempre a razão maior da sua e da nossa missão: “os alunos da graduação”. Para tanto, ele se mantém atualizado, aprimorando-se nos avanços da moderna gestão do Poder Público; seja no campo da Contabilidade, do Planejamento e/ou da Auditoria Pública.
Enfim, esta é uma singela síntese do perfil do Professor José Humberto Michiles e um esboço do seu caráter como profissional e de missionário do ensino superior; o que faz dele um ícone singular desta Universidade, do Departamento de Contabilidade e do Curso de Graduação em Ciências Contábeis e Faculdade de Estudos Sociais. De todos nós, ele é um muito querido e exemplar colega de trabalho.
Para mim, em particular, Michiles é um AMIGO muito amado, com quem tenho compartilhado ideais e embates institucionais, aliados pelo bem e pelo crescimento de nossa Universidade. Tenho no amigo Michiles um parceiro leal e destemido de quase tudo. Porque acredito que, como eu, ele também pode fazer suas, palavras do ex-vice-presidente José Alencar: “Não tenho medo da morte, tenho medo da desonra”.   
Em síntese, de sua vida no magistério desta Universidade, dois atributos lhe são conferidos: “Competência e Presteza”.
Mas, como posso eu ter autoridade e proficiência para lhe identificar na vida tais atributos? Que procedimento eu adotei, para escrever tudo isto? Simples: Retrocedi no tempo, explorando, no meu arquivo de memórias, as boas coisas que mantenho...
Ontem, estava preocupado por não tê-lo visto há dias; encontramo-nos e encostamos o lado esquerdo do peito, para que nossos corações se reabastecessem de amizade... 
Ontem, compusemos algumas bancas de monografias de que faço parte, aludindo aos novos horizontes a serem explorados...
Ontem, participamos de embates eleitorais pelo bem desta Universidade... 
Ontem, dialogamos sobre estratégias eficazes para incentivar potencialidades de alunos talentosos, e torná-los professores. Hoje, assistimos alguns em sobrevôos científicos elevados como seres alados nas ciências. Não é próprio compará-los a águias e condores; afinal, ambos são aves de rapina, as fêmeas são ligeiramente maiores e agressivas que os machos...
Ontem, ele colaborou comigo na estratégia e cuidados na condução do Departamento de Contabilidade e na Coordenação do Curso de Ciências Contábeis, recomendando-me zelo com os alunos e suas demandas, e trabalhar para elevar o nível do ensino e aprendizagem...
Ontem, ele me recepcionou como Professor do Departamento de Contabilidade, ali nas dependências da Faculdade de Estudos Sociais, na Rua Monsenhor Coutinho...
Ontem, estávamos recebendo ensinamentos de Wilson Alves Lopes, Osvaldo Alves da Silva, Orlando Lemos Falcone, Danilo Benayon do Amaral, Raimundo Nogueira, José Lopes da Silva, Jefferson Carpinteiro Peres... E assimilando exemplos morais de conduta pessoal do nosso amigo saudoso e inesquecível Desembargador Mário Verçosa...    
Ontem, participamos dos debates político-ideológicos na UESA - União dos Estudantes Secundarista do Amazonas, abeberando-nos do nacionalismo de líderes como Almino Affonso, Arthur Virgílio Filho, Plínio Ramos Coelho; e pelo rádio, ouvimos os roncos dos tanques e urros dos gorilas implantando a ditadura. Gostávamos mais do barulho das lambretas... Choramos amigos torturados e amigos desaparecidos, como Thomaz Antônio Meireles, o Thomazinho...
Ontem, ao nosso modo, pelejamos contra a ditadura, em nome de nosso superior dever cívico, sem jamais declinarmos dos ideais de liberdade, à sombra de “Ajuricaba”, bravo e indômito, herói libertário nativo do Amazonas, de sangue genuinamente brasileiro...  
Ontem, acalentamos nossos jovens corações sobressaltados, hora cantando “Prá Não Dizer que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré; hora, dançando o som inovador e moderno de Bill Halley e seus Cometas, de Elvis Presley, dos Beatles e dos Rolling Stones. Abafamos nossos ouvidos agredidos pelos sons das metralhadoras dos militares ditadores, com baladas da Jovem Guarda. E sem perder nosso lirismo romântico, cantamos para nossas namoradas serenatas de amor em ritmo de bossa nova...
Ontem, estivemos nas amplas salas de aula do majestoso Colégio Dom Bosco, onde uma grande dádiva nos foi concedida por Deus: Fomos formados por preceptores como Padre Agostín Caballero Martin, Padre Stéllio Dálison, Padre José Pereira Neto, Padre Pascoal Filipelli, Padre Hermano Schilp, Padre Leonardo Donno, Padre Waldir Gaspar, Padre Felinto Santiago e outros, que nos aprimoraram o caráter e nos ensinaram a manter a Honra.
Ontem, o Padre Catequista, nos ensinou dez das sabedorias de São Thomaz de Aquino e fez com que eles povoassem nossos pensamentos para sempre:
1.    Um indivíduo, vivendo em sociedade, é uma parte ou um membro dessa sociedade. Por isso, aquele que faz algo para o bem ou para o mal de um de seus membros atinge, com isso, a toda a sociedade;
2.    Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar. Dê-me, Senhor, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir;
3.    Uma boa intenção não justifica fazer algo mal;
4.    Os professores devem ser elevados em suas vidas, de modo que iluminem aos fiéis com sua pregação, ilustrem estudantes com seus ensinamentos, e defendam a Fé mediante suas disputas contra o erro;
5.    Qualquer amigo verdadeiro quer para seu amigo: 1) que exista e viva; 2) fazer-lhe o bem; 4) deleitar-se com sua convivência; e, 5) compartilhar com ele suas alegrias e tristezas, vivendo com ele um só coração;
6.    Ubi amor ibi oculus - Onde está o amor, aí está o olhar;  
7.    A humildade faz o homem digno de Deus;
8.    Três coisas são necessárias para a salvação do homem: saber o que deve crer, saber o que deve desejar, saber o que deve fazer;
9.    Sustinere est difficilius quam aggredi - Suportar é mais difícil que atacar;
10.    Quem diz verdades perde amizades.
Ontem, aprendemos que o sol sempre brilha iluminando nossos caminhos, apesar das tristezas que nos acometem inevitavelmente. Aprendemos, tomando banho de chuva na Avenida Getúlio Vargas, que a água caída do céu, não apenas lava nosso corpo, mas, se olharmos para o alto, refletindo, ela limpa nossa alma, o que nos dá paz de espírito... 
Ontem, aprendemos com salesianos a aprimorar a inteligência para ver a luz do sol, o brilho da lua e das estrelas, e através deles, reconhecer a perfeição harmoniosa dos astros celestes que compõem e integram a sinfonia deste complexo e imenso universo em que vivemos, obra sublime da criação de Deus...
Ontem, aprendemos a respeitar os nossos semelhantes, em permeio a fundamentos das ciências e das artes, permitindo que nos tornássemos o que somos hoje...
Ontem, vivemos os “anos dourados”, “anos rebeldes” e “anos de chumbo” de nossas vidas e namoramos ao pôr-do-sol, à sombra de flores de bouganvilles, nos bancos de uma praça chamada Saudade...
Ontem, acalentamos transformar sonhos juvenis em realidade, namoradas em esposas, sem jamais esquecer que ainda somos, todos, discípulos de Dom Bosco...
Ontem, estávamos guardando os lugares de nossas namoradas nos Cinemas Avenida e Odeon; depois de trocarmos gibis, nas filas dos Cines Guarani e Politeama...
Ontem, fomos coroinhas e batemos os sinos da torre da na Igreja de São Sebastião...
Ontem... Ontem... Crianças, nós não pensávamos que o tempo iria passar tão depressa...
Que Deus te abençoe amigo muito querido e a tua família.
Abraços do
                  CARDOZINHO, EM NOME DOS TEUS AMIGOS DA UFAM. (1º/04/2011).