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21 dezembro 2010

Uma crônica sobre os inquilinos do Planalto

Por Augusto Nunes (o título é meu).
De volta ao Brasil de sempre, resignaram-se há oito anos as paredes do gabinete presidencial depois de uma ligeira contemplação do novo inquilino. Desde Jânio Quadros, a grande sala no terceiro andar do Palácio do Planalto já abrigou napoleões de hospício, generais de exército da salvação, perfeitas cavalgaduras, messias de gafieira, gatunos patológicos, vigaristas provincianos e outros exotismos da fauna brasileira. Por que não um Luiz Inácio Lula da Silva?
Quem conhece a saga republicana sabe que a ascensão ao poder de um ex-operário metalúrgico só restabeleceu a rotina da anormalidade que vigora, com curtíssimos intervalos, desde o fim do governo Juscelino Kubitschek. Na galeria dos retratos dos presidentes, Lula está à vontade ao lado dos vizinhos de parede. Sente-se em casa. A discurseira  delirante e ininterrupta está em perfeita afinação com a ópera do absurdo. O acorde dissonante é Fernando Henrique Cardoso. Um confirma a regra. O outro é a exceção.
O migrante nordestino que chegou à Presidência sem escalas em bancos escolares tem tudo a ver com o país dos 14 milhões de analfabetos, dos 50 milhões que não compreendem o que acabaram de ler nem conseguem somar dois mais dois, da imensidão de miseráveis embrutecidos pela ignorância endêmica e condenados a uma vida não vivida. Esse mundo é indulgente com intuitivos que falam sem parar sobre assuntos que ignoram. E é hostil a homens que pensam e agem com sensatez. É um mundo que demora a alcançar em sua exata dimensão a lucidez do sociólogo nascido no Rio que tinha escrito muitos livros quando se instalou no Planalto.
O Brasil de Lula tem a cara primitiva de sempre. O Brasil  de FHC provou que a erradicação do atraso não é impossível. Pareceu até civilizado no primeiro dia de 2003, quando se completou um processo sucessório exemplarmente democrático. Durante a campanha eleitoral, o presidente fez o contrário do que faria o sucessor oito anos mais tarde. Embora apoiasse José Serra, não mobilizou a máquina administrativa em favor do candidato, não abandonou o emprego para animar palanques e consultou os principais concorrentes antes de tomar decisões cujos efeitos ultrapassariam os limites do mandato prestes a terminar. Consumada a vitória do adversário, FHC pilotou o período de transição e ajudou a conter a fuga de investidores inquietos com a folha corrida do PT.
NEM RUTH CARDOSO FOI POUPADA
O Brasil de janeiro de 2003 tinha poucas semelhanças com o que Itamar Franco encontrou depois do despejo de Fernando Collor. Em 1994, o ministro da Fazenda de Itamar comandou a montagem do Plano Real. Nos oito anos seguintes, fez o suficiente para entregar a Lula um Brasil alforriado da inflação e da irresponsabilidade fiscal, modernizado pela privatização de mamutes estatais deficitários e livre de tentações autoritárias.
“Aqui você deixa um amigo”, disse o sucessor com a faixa verde e amarela já enfeitando o peito. Foi a primeira das mentiras, vigarices, trapaças e traições que alvejariam a assombração que está para o SuperLula como a kriptonita para o Super-Homem. Criminosamente solidário com José Sarney, a quem chamava de ladrão, obscenamente amável com Fernando Collor, a quem chamava de corrupto, o ressentido incurável, incapaz de absorver as duas derrotas no primeiro turno e conformar-se com a inferioridade intelectual, guardou o estoque inteiro de truculências e patifarias para tentar destruir um antigo aliado, um adversário leal e um homem honrado.
Lula nunca pronuncia o nome do antecessor. Evita até identificá-lo pelas iniciais. Delega as agressões frontais a grandes e pequenos canalhas, que explicitam o que o chefe insinua. Há sempre os sarneys, dirceus, jucás, berzoinis, collors, dutras, renans, mercadantes, tarsos, gilbertinhos, dilmas e erenices prontos para a execução do trabalho sujo que não poupou sequer Ruth Cardoso, vítima do papelório infame forjado em 2008 na fábrica de dossiês da Casa Civil. A cada avanço dos farsantes correspondeu uma rendição sem luta do PSDB, do PPS e do DEM. FHC não é atacado pelos defeitos que tem ou pelos erros que cometeu, mas pelas qualidades que exibe e pelas façanhas que protagonizou.
Ele merecia adversários menos boçais e aliados mais corajosos. Há algo de muito errado com a oposição oficial quando um grande presidente, para ressuscitar verdades reiteradamente assassinadas desde 2003, tem de defender sozinho um patrimônio político-administrativo que deveria ser festejado pelos partidos que o apoiaram. Há algo de muito estranho com um PSDB que não ouve o que diz seu presidente de honra. Nem lê o que escreve, como atestam dois artigos antológicos publicados no Estadão.
O PONTO FORA DA CURVA
No primeiro artigo, em outubro de 2008, FHC avisou que a democracia brasileira estava ameaçada pelo “autoritarismo popular” do chefe de governo, que poderia descambar numa espécie de subperonismo amparado nas centrais sindicais, em movimentos ditos sociais e nas massas robotizadas.  “Para onde vamos?”, perguntava o título. A Argentina de Juan Domingo Perón foi para os braços de Isabelita e acabou no colo de militares hidrófobos. O Brasil de Lula foi para Dilma Rousseff. É cedo para saber  onde acabará.
Em fevereiro, com 968 palavras, FHC enterrou no jazigo das malandragens eleitoreiras a fantasia costurada durante sete anos. “Para ganhar sua guerra imaginária, o presidente distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação, nega o que de bom foi feito e apossa-se de tudo que dele herdou como se dele sempre tivesse sido”, resumiu no segundo artigo. Depois de ensinar que o Brasil existia antes de Lula e existirá depois dele, recomendou que se apanhasse a luva atirada pelo sucessor: “Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer”.
Em vez de seguir o conselho e sugerir a Lula que topasse um debate com Fernando Henrique, José Serra reincidiu no crime praticado em 2002 — com agravantes. Além de esconder o líder que aumentou a distância entre o país e a era das cavernas, apareceu no horário eleitoral ao lado de Lula, convertido num Zé decidido a prosseguir a obra do Silva. Aloysio Nunes Ferreira fez o contrário. Tinha 3% das intenções de voto quando transformou FHC em principal avalista da candidatura. Elegeu-se senador com a maior votação da História. Saudado por sorrisos, cumprimentos e aplausos quando caminha nas ruas de São Paulo, FHC nunca foi hostilizado em público. Depois da vaia no Maracanã, Lula não voltou a dar as caras fora do circuito das plateias amestradas.
Desde o dia da eleição, FHC tem exortado o PSDB a transformar-se num partido de verdade, com um programa que adapte à realidade brasileira a essência da social-democracia, combata sem hesitações a corrupção institucionalizada e, sobretudo, aprenda que o papel da oposição é opor-se, como ele próprio tem feito há oito anos. “Por enquanto, o único partido que temos é o PT”, repetiu há dias. “Sem uma linha política clara a seguir, o PSDB continuará a agir segundo as circunstâncias e a perder tempo com questões pontuais”. Pode perder de vez também o respeito e a confiança do eleitorado oposicionista, adverte a reação provocada pela Carta de Maceió. O teor vergonhoso do documento comprova que os governadores tucanos não captaram o recado do patriarca.
Na trajetória desenhada pelos presidentes da República, FHC é o ponto fora da curva. Pode ser esse o seu destino, sugere a paisagem deste fim de 2010. Assegurada a vaga na História, poupado da obsessão pelo poder, ainda assim não recusa o combate, não faz acordos, não capitula. Em respeito à própria biografia, e por entender que a nação merece algo melhor, continua a apontar a nudez do pequeno monarca. Oito anos mais velho, ficou oito anos mais novo: nenhum líder político é tão parecido com a oposição real, rejuvenescida e revigorada neste outubro por 44 milhões de votos, quanto Fernando Henrique Cardoso.

12 dezembro 2010

Faltou só um...

José Sarney, Romero Jucá e Gim Argello combinam alguma coisa no Senado
O artigo 288 do Código Penal avisa: “associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes”, pode custar de um a três anos de reclusão.
Se Renan Calheiros tivesse chegado minutos antes, a conversa juntaria mais de três pessoas. E a foto não seria só uma foto. Seria uma prova.

FHC responde a Gilberto Carvalho

CARTA PUBLICADA NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA

Calúnias

Li com espanto a entrevista do sr. Gilberto Carvalho publicada neste jornal na edição de domingo passado (“Ninguém engana a Dilma nem põe faca no pescoço dela”, 5/12, A10). Espanto porque imaginei que o entrevistado devesse estar mais preocupado em se defender de insinuações que podem manchar a sua biografia ─ a de haver sido receptador de propinas extorquidas por um bando de seus companheiros de partido que teriam usado a administração petista de Santo André para obter recursos para uso político, como afirmam procuradores estaduais ─ do que em dar curso a calúnias contra mim.
Lula, segundo o entrevistado, recusa o termo “mensalão” para caracterizar os desatinos praticados nas relações entre seu governo e a Câmara dos Deputados, quando da alegada compra de apoios políticos. Na verdade, trata-se de mero jogo de palavras para negar a periodicidade da propina, e não sua existência. Artifício semelhante a outro ─ este com consequências jurídicas maiores ─ quando afirmou que o dinheiro utilizado naquelas práticas teria sido obtido de “sobras de campanha”, esquecendo-se de que houve transações entre poder público e agentes privados como no caso da Visanet.
Para melhorar a imagem presidencial, Gilberto Carvalho diz que Lula, ao negar que seu governo tenha comprado votos, me acusa nominalmente de tê-lo feito para aprovar a emenda da reeleição. Ora, jamais houve qualquer indício nem qualquer afirmação direta de que eu assim procedera. Mais ainda, os rumores sobre uma escuta telefônica feita entre deputados de um Estado que estariam envolvidos em tais práticas aberrantes surgiram num jornal meses depois de aprovada a referida emenda, com votação avassaladora ─ 80% no Senado e margem de mais de 20 votos acima dos 308 requeridos na Câmara.
No caso, a referida escuta teria feito alusão ao primeiro nome de um de meus ministros. Para evitar dúvidas o ministro eventualmente aludido foi, por decisão própria, à Comissão de Justiça da Câmara, prestou todos os esclarecimentos e desafiou quem dissesse o contrário da verdade, que era sua inocência. Posteriormente, três ou quatro deputados ─ mais tarde ligados à base do governo Lula ─ renunciaram a seus mandatos para evitar cassações, confessando culpa, mas sem qualquer envolvimento do PSDB e muito menos do governo ou meu.
Se não fosse o suficiente ser um procedimento contrário à ética, mesmo em termos pragmáticos, seria de todo descabido comprar o que era, explicitamente, oferecido: a opinião pública, os editoriais de toda a mídia e a maioria avassaladora do Congresso Nacional eram favoráveis à emenda da reeleição, contra a qual se batiam isoladamente o PT e os “malufistas”, pela razão de haver nessas correntes quem quisesse disputar as eleições presidenciais e temesse minha força eleitoral, comprovada na reeleição em primeiro turno em 1998. Estes são os fatos.
Custa-me a crer que Lula, para se defender do indefensável no caso do mensalão, ataque a honra de um ex-presidente que foi seu amigo nas horas difíceis e que não usa de artimanhas para desacreditar adversários. Dói mais ainda que pessoas como Gilberto Carvalho ecoem o sabidamente falso para endeusar o chefe. Sinal dos tempos, que arrastam mesmo os que parecem ser melhores a cair na calúnia, na mesquinharia e na mediocridade.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

10 dezembro 2010

Projeto Biomas é revelação em conferência internacional_Site do CNA

O Projeto Biomas, desenvolvido pela Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), foi citado pelo site BBC Mundo como uma das dez boas notícias surgidas durante a 16ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP16), em Cancún, no México.
“Uma organização que representa mais de 1 milhão de agricultores no Brasil lançou um projeto para dobrar a produção de alimentos até 2020 sem derrubar uma só árvore. Eles afirmam ainda que vão plantar mais espécies nativas”, diz o analista de meio ambiente James Painter, no blog “Reflexões Sob o Sol de Cancún”, do site em espanhol da britânica BBC (…).
Já a revista semanal britânica New Scientist afirma que os agricultores brasileiros estão “virando a página e são os heróis inesperados do combate às mudanças climáticas”. A reportagem menciona o Projeto ABC, lançado por entidades do setor público e privado para adotar práticas de produção que buscam reduzir as emissões de carbono pela agropecuária brasileira até 2020.

Comentário de Reinaldo Azevedo
Se os agricultores brasileiros estivessem apanhando na tal conferência, sendo tratados como contumazes desmatadores, haveria um grande assanhamento por aqui. Como é o contrário, então não se diz quase nada. A conferência de Cancún foi um tanto esvaziada, diga-se. As evidências de fraude e o catastrofismo da Igreja dos Santos do Aquecimento Global dos Últimos Dias contribuíram para isso. Já faz algum tempo, o “aquecimento” deu lugar às “mudanças climáticas”. A turma que vende o novo apocalipse resolveu contar também com o auxílio de chuvas, secas e frios atípicos determinados por El Niño, La Niña e afins para manter ativa sua escatologia.
Mas isso importa menos agora. O “Projeto Biomas”, iniciativa da senadora Kátia Abreu (DEM-TGO), desenvolvido em parceria com a respeitadíssima Embrapa, tira a questão ambiental do que chamaria de impasse com solução mágica em que a jogaram os ditos ambientalistas, que decidiram transformar a agropecuária em inimiga do Brasil. Em vez de perder tempo e dinheiro com o delirante reflorestamento de áreas que estão dedicadas à agricultura — em muitos casos, há um século já—, a preservação das ainda gigantescas  matas nativas existentes no Brasil.
Kátia foi lá, entre ambientalistas, defender a sua proposta. Só os tolos tratam os produtores rurais como criminosos. A preservação ambiental não precisa de santos ou mártires. Precisa de ciência: essa que a CNA e a Embrapa estão oferecendo. E precisa também de quem tenha coragem e clareza para chamar as coisas pelo nome.
Assino em baixo, Reinaldo!

PAC = farsa eleitoreira_Por Reinaldo Azevedo (Veja.com)

Tenho cobrado tanto a presença na oposição no debate que, quando um representante do grupo de manifesta, faz-se necessário destacar e comentar. As críticas do líder tucano, João Almeida (BA) ao andamento do PAC estão corretas. O programa, com efeito, é “fantasia” e “mentira”, além de ser uma enorme cratera lógica.
A mentira e a fantasia ficam por conta do fato de que se chama PAC ao que é uma lista de obras — incluindo as das estatais e da iniciativa privada. Aí fica fácil. Como brinco aqui: se você resolver fazer um puxadinho na sua casa, Lula vai lá e estatiza o mérito. Empresa que pegar uma nesga de financiamento do BNDES para tocar algum empreendimento que diga respeito, ainda que remotamente, a infra-estrutura entra no PAC… Fica até parecendo que, não houvesse a marca-fantasia PAC, e as obras não estariam em curso…
Almeida também diz a verdade quando afirma que a média de investimentos federais no governo FHC foi superior à havida no governo Lula. ATENÇÃO! ESTES SÃO DADOS OFICIAIS: ao longo dos oito anos da gestão petista, essa média foi de 0,71%, contra 0,83% da gestão tucana. É claro que, em números absolutos, parece que o governo Lula leva vantagem, mas esse dado só faz sentido se a referência for o PIB. Sob FHC, o governo investiu, proporcionalmente, 14,1% a mais do que sob Lula.
A farsa
Quando se diz que o PAC é uma farsa,  não se está negando a existência de obras. Isso é besteira. Alguma existem mesmo. E estariam ali ainda que o marketing fosse outro ou que o programa chamasse PEC, PIC, POC ou PUC. Finalmente, cumpre destacar: se, com a aceleração, 40% das obras não foram realizadas, e se Lula conseguiu investir menos do que o antecessor — apesar das sucessivas crises que o outro enfrentou —, pergunta-se: como teria sido sem a aceleração?
Lula é um prodígio: acelerou para entregar 60% do que prometeu — e olhem que esses são dados oficiais.

Líder do PSDB "mete a lenha" no PAC e no Lulismo

Por Eduardo Bresciani, no G1.
Na manhã desta quinta (9), a coordenadora do PAC, Miriam Belchior, futura ministra do Planejamento, fez um balanço do andamento do programa nos últimos quatro anos. Almeida afirmou que foi lançado o PAC 2 sem que tenha sido concluída a primeira versão do programa e afirmou que o objetivo dessas ações é “eleitoreiro”. O balanço do governo divulgado nesta quinta informa que 38% das obras do PAC ainda não estão concluídas.
“No PAC, o que questionamos é o caráter eleitoreiro que ele teve. É uma fantasia, uma mentira. O PAC foi uma montagem de programas existentes que eles botaram uma roupagem. Não são programas articulando ações de governo. É tão frágil que antes de concluir as obras do PAC 1, aí lança o PAC 2″, afirmou Almeida. O líder tucano destacou que obras têm sido incluídas no programa para atender a interesses e não dentro de uma estratégia de desenvolvimento. “Foi se empacotando as obras e projetos por interferência eleitoral. A gente vê várias vezes que o governador vem reivindicar incluir tal projeto no PAC. O que importa é se a bancada tal ou governador tal fez barganha política, não a qualidade da obra”.
Trem-bala
Ele questionou também a obra do trem-bala, que teve o leilão adiado para o próximo ano. Para Almeida, seria mais importante investir no metrô. Ele atribuiu a insistência na construção do trem-bala à tentativa de se criar uma fantasia de grandeza do Brasil. “Trem-bala é uma fantasia que o governo cria e bota na cabeça das pessoas de que é um grande país, de que vai ter trem bala. Nós precisamos mesmo é de metro em quase todas as grandes capitais”, afirmou o tucano.
Almeida afirmou ainda que se for feito um estudo levando em conta investimentos diretos do Orçamento será possível observar que o governo Fernando Henrique Cardoso investiu mais do que a administração Lula levando em conta o percentual de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB).
Ministério
O líder do PSDB  ironizou a montagem do ministério da administração de Dilma Rousseff. Referindo-se à influência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no processo, o tucano brincou que só está faltando indicar o próprio Lula. “A sensação que eu tenho é de que qualquer hora a dona Dilma vai confirmar o Lula”, afirmou o tucano. Ele comparou o momento atual à posse de José Sarney (PMDB) na Presidência da República após o falecimento de Tancredo Neves. Naquela ocasião, Sarney manteve o ministério que tinha sido escolhido por Tancredo antes de sua morte.
“Esse ministério tem característica do primeiro ministério de Sarney, que foi herdado. Tancredo tinha montado, morreu e o Sarney achou que tinha que manter. Mas a regência de Tancredo era uma e de Sarney era outra. Tem que fazer ministério que você vai reger. Daquela vez foi um desastre”, afirmou Almeida.

09 dezembro 2010

Gim Argelo corre antes que a polícia chegue

Por Augusto Nunes (Veja.com). O título é meu:

Os senadores Gim Argello e Renan Calheiros (Foto: Dida Sampaio)

Enfiado até o pescoço em bandalheiras de grosso calibre, em qualquer país menos complacente com meliantes o cidadão Jorge Afonso Argello estaria no banco dos réus, na cadeia ou foragido. Num Brasil cada vez mais parecido com lugarejos fora-da-lei de faroeste americano, Gim Argello é senador, dirigente do PTB e conselheiro de Dilma Rousseff. Como não há limites para o absurdo, foi até a tarde desta terça-feira o relator do Orçamento da União. Acaba de renunciar ao cargo para continuar exercendo o direito de ir e vir entre o Congresso e o Planalto.
Nesta segunda-feira, uma reportagem do Estadão comprovou que, mais que uma raposa escalada para tomar conta do galinheiro, Argello era a raposa que, dentro do galinheiro, mantinha a entrada escancarada ao resto da espécie. Se já vigorasse o “controle social da mídia”, o espetáculo da roubalheira federal, reprisado a cada edição do Orçamento, seria reapresentado sem que o diretor Gim Argello sequer se desse ao trabalho de retocar o enredo.
Contratos superfaturados, instituições fantasmas, entidades com endereços inexistentes, larápios conhecidos representados por laranjas, boladas remetidas sem escalas ao bolso dos amigos ou à conta bancária dos parentes ─ nenhuma prática fraudulenta ficou fora do script que orientou a movimentação dos canastrões de sempre. Tudo somado, a farra não sairia por menos de R$ 16 milhões.
Confrontado com o vistoso buquê de emendas criminosas que subscreveu, o relator alegou que cabe ao governo apurar irregularidades. Homem de boa-fé, ele se apoiara na premissa de que todos os fantasmas são reais, incluídos os que inventou. Uma das emendas assinadas por Argello, por exemplo, repassava R$ 250 mil a uma ONG pertencente a uma amiga condenada pela Justiça.
“Acatei o pedido com boa intenção, mas agora não atendo mais ninguém”, fingiu magoar-se antes de constatar que chegara a hora de sair de cena antes da aparição de mais obscenidades. “Solicitei formalmente ao Ministério Público Federal, à Controladoria Geral da União e ao Tribunal de Contas da União que façam um pente fino nestas emendas”, diz um trecho da carta-renúncia. “Levo comigo a serenidade e a tranquilidade”. Vai perdê-las se a solicitação anterior for imediatamente atendida pelas entidades mencionadas.
Suplente do senador Joaquim Roriz, Gim Argello assumiu a vaga aberta pela renúncia do titular em 17 de julho de 2007. Para evitar que fosse despejado do gabinete novo pelo prontuário antigo, aproximou-se do grupo liderado por José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá.  Para garantir a impunidade, aproximou-se de Dilma Rousseff pelo caminho mais curto: virou amigo de Erenice Guerra. Negociante de fino faro, ele sempre sabe com quem está falando.
O reincidente incorrigível não será castigado pelos parceiros de Senado. A Casa do Espanto não pune suas atrações. Pena que o Brasil seja tão compassivo com os bandidos que operam de terno, protegidos por imunidades parlamentares e longe do Morro do Alemão. Se a Justiça valesse para todos, o homem que entrou no Congresso pela porta dos fundos já teria saído na traseira de um camburão.

08 dezembro 2010

PT-SP se dedica ao "controle da mídia"

Por Fernando Gallo, na Folha:}
O PT-SP faz audiência pública na Assembleia Legislativa hoje para discutir projeto de resolução de Antonio Mentor, líder do partido na Casa, que cria o Conselho Estadual de Comunicação. De acordo com o texto, o órgão seria deliberativo e ficaria responsável, entre outras coisas, por “fiscalizar”, “avaliar” e “propor” políticas estaduais de comunicação. O projeto prevê a “denúncia” de rádios e TVs ao Ministério das Comunicações e à Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) “quando alguma emissora [...] desrespeitar a legislação, tudo nos conformes da Constituição”.
O conselho segue várias das propostas aprovadas pela Confecom (Conferência Nacional de Comunicação), organizada pelo governo federal no ano passado.
Como o governo de São Paulo não organizou a rodada estadual da Confecom -na contramão de outros Estados-, a Assembleia se encarregou de fazê-lo. Integrantes da oposição contam que entidades participantes pressionaram deputados pela elaboração de projetos. Como Mentor, Edmir Chedid (DEM) apresentou proposta com teor similar. “O projeto não estabelece censura, mas a democratização do acesso da sociedade aos meios de comunicação”, afirma Mentor.
Comento:
Sei! As coisas começam assim. O inferno está cheio de gente com boa intenção. Na verdade, o PT de Dilmula não gosta de informções circulando na mídia sem a aquiescência do "partido". Principalmente sem pedir permissão para criticá-los ou denunciá-los. Ora vejam!

PT volta a propor "controle" (censura) da mídia

Por João Domingos e Lucas de Abreu Maia, no Estadão:
Entidades que representam empresas de comunicação e radiodifusão criticaram ontem a ideia de se criar uma agência para regular o conteúdo levado ao ar por rádios e TVs. A proposta faz parte das medidas em debate no governo para elaboração do anteprojeto do marco regulatório do setor, sob responsabilidade do ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Franklin Martins.
O diretor-geral da Associação Brasileira de Radiodifusão (Abert), Luís Roberto Antonik, discorda da criação de uma Agência Nacional de Comunicação (ANC) em substituição à Agência Nacional de Cinema (Ancine), proposta que constaria da primeira versão do projeto de lei, segundo publicou ontem o jornal Folha de S. Paulo.
Para Antonik, o setor já está submetido a um “excesso” de normas. “Existe uma miríade de hiper-regulação a nosso respeito. Tem a lei de 1962, a Lei Geral das Telecomunicações, o Estatuto da Criança e do Adolescente, as regras da Anvisa e do Conar, a Anatel e o Ministério das Comunicações.” Para Antonik, regular conteúdo é um retrocesso, pois dá margem a tentativas de controle da liberdade de expressão.
“Inconstitucional”. Opinião semelhante tem o presidente da Associação Nacional dos Editores de Revista (Aner), Roberto Muylaert, que classificou a ideia como “chover no molhado”. “Já vimos a mesma proposta com outros nomes”, disse, acrescentando que o projeto “parece inconstitucional”. “A liberdade de expressão está garantida no artigo 5.º da Constituição - e é tão importante que depois é repetida no 220.”
Comento:
Não tem jeito, mesmo! Essa gente não suporta informação, mas sim propaganda favorável ao governo. O discesnso não é com para ocorrer com relação a eles, mas sim deles em relação aos não-amigos do Poder.
E a oposição?? Onde está?
Acorda, oposição!!

Diferença entre a escola pública e a escola particular no PISA

Por Simone Iwasso, no Estadão:
O fosso que separa as escolas públicas das privadas no País aumentou nos últimos três anos. A distância entre as pontuações obtidas pelos estudantes das duas redes, que chegava a 109 pontos em 2006, cresceu e atingiu até 121 no Pisa 2009. Mais do que pontuações diferentes, os números indicam níveis de conhecimento distintos em leitura, matemática e ciência.
Isso quer dizer que enquanto o aluno que estuda numa escola particular alcança 519 pontos em média - o nível 3 na escala de proficiência (patamar considerado razoável pelos organizadores da avaliação) -, o da pública (federal, estadual e municipal) faz 398 pontos e não sai do primeiro nível de desempenho.
Em outras palavras, com 15 anos, os alunos das escolas particulares conseguem ao menos ler um texto e extrair sua ideia principal, identificando argumentos contraditórios e pouco explícitos. Também são capazes de relacionar informações com situações do cotidiano. Estudantes da rede pública só entendem informações explícitas e não são capazes de perceber trechos mais importantes numa leitura.
A exceção nessa comparação fica por conta da rede pública federal, um conjunto pequeno de ilhas de excelência mantidas pelo governo federal que organizam todos os anos processos seletivos bastante disputados entre estudantes - e acabam ficando com os melhores alunos. A pontuação deles está próxima da média dos países desenvolvidos.
Em matemática e ciências, a discrepância continua - e também registra aumento. Em 2003, a diferença de pontuação em matemática era de 109 pontos. Em 2006, saltou para 117 - com os estudantes de toda rede pública incapazes de realizar operações com algoritmos básicos, fórmulas ou números primos.
Em ciências, foi de 107 para 115 a diferença de pontuação entre as redes. Nos dois casos, a distância representa mais de um nível de proficiência na escala de conhecimentos. No nível 1, alunos da rede pública não conseguem explicar como ocorrem fenômenos cotidianos, como ciclo da água na natureza.
Discrepância. Na opinião da ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) Maria Helena Guimarães de Castro, responsável por incluir o Brasil no Pisa, a novidade dos resultados de 2009 está justamente nesse aprofundamento da discrepância entre os níveis dos alunos de escolas particulares, públicas federais e públicas estaduais e municipais.
“A média dos estudantes de públicas federais e das particulares é mais alta, são índices comparáveis aos alunos dos melhores países do ranking”, explica Maria Helena. O problema, segundo ela, é que as escolas federais selecionam estudantes e só as que fazem isso estão conseguindo evoluir, analisa.
“Não adianta que só os bons alunos melhorem. O importante é ter uma média de desempenho que mostre uma qualificação do estudante brasileiro para a sociedade do conhecimento”, diz a ex-presidente do Inep.
O coordenador de educação da Unesco no Brasil, Paolo Fontani, ressalta que os países com melhor desempenho são aqueles cujos sistemas educacionais oferecem boas oportunidades de desenvolvimento para todos os alunos, independentemente da classe social. “Criar uma escola somente para os bons alunos não funciona do ponto de vista da equidade.

Educação do Brasil visto pelo PISA


Por Lisandra Paraguassú, no Estadão:
Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) trouxeram uma boa e uma má notícia para o Brasil. As notas mostram que a média do País subiu 33 pontos entre 2000 e 2009. O problema é que a qualidade do ensino é tão ruim que, entre os 20 mil alunos brasileiros que fizeram as provas de leitura, ciências e matemática, mais da metade deles fica sempre com a nota mais baixa, o nível 1.
É esse desempenho abaixo da média nas provas que mantém o Brasil, apesar da melhora ao longo da década, nos últimos lugares do teste internacional - 53.º de 65 países. Em ciências, nenhum aluno brasileiro atingiu o nível 6 do Pisa. E só 20 deles (0,1%) chegaram ao nível 6 em leitura e matemática.
O Pisa, realizado a cada três anos, avalia o nível educacional dos jovens de 15 anos em todos os países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), considerados de Primeiro Mundo, além de convidados, como o Brasil, que participa desde 2000. Nesse período, o País nunca conseguiu ir além das últimas posições - chegou a ficar nos últimos lugares nas primeiras edições. Neste ano, conseguiu passar, na América Latina, Argentina e Colômbia, mas ainda está atrás de México, Chile e Uruguai. Aqui. Abaixo, ranking publicado na Folha.
os-paises-e-a-educacao

04 dezembro 2010

O fatos desmentem Lula_Editorial do Estadão

Fiel a seu costume de contar a história à sua maneira, sem o mínimo compromisso com os fatos e a verdade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais uma vez falou sobre a “herança maldita” recebida em 2003, ao iniciar seu primeiro mandato. Desta vez, o rosário de inverdades foi desfiado perante o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. O evento foi uma das várias despedidas programadas pelo presidente para este mês. De novo ele falou sobre o País quebrado e sobre o mau estado da economia no momento da transição do governo. De novo ele se entregou a uma de suas atividades prediletas, a autolouvação despudorada, atribuindo a si e a seu governo a inauguração de uma economia com fundamentos sólidos, estabilidade e previsibilidade. As pessoas informadas e capazes de discernimento conhecem os fatos, mas talvez valha a pena recordá-los mais uma vez, para benefício dos mais jovens e dos vitimados pela propaganda petista.
A primeira informação escamoteada pelo presidente Lula e pela companheirada é a origem da crise inflacionária e cambial de 2002. Os problemas surgiram quando as pesquisas mostraram o crescimento da candidatura petista. Não surgiram do nada e muito menos de uma perversa maquinação dos adversários. Os mercados simplesmente reagiram às insistentes ameaças, costumeiras no discurso petista, de calote na dívida pública e de outras lambanças na política econômica. Figuras importantes do partido haviam apoiado um irresponsável plebiscito sobre a dívida e mais de uma vez haviam proposto uma “renegociação” dos compromissos do Tesouro.
Tinha sólidos motivos quem decidiu fugir do risco proclamado pelos próprios petistas. A especulação cambial e a instabilidade de preços foram o resultado natural desses temores. A Carta ao Povo Brasileiro, com promessas de seriedade, foi o reconhecimento do vínculo entre a insegurança dos mercados e as bandeiras petistas.
Essas bandeiras não foram inventadas pelas fantasmagóricas elites citadas pelo presidente nas perorações mais furiosas. São componentes de uma longa história. Petistas apoiaram algumas das piores decisões econômicas dos últimos 30 anos. Uma de suas figuras mais notórias aplaudiu entre lágrimas uma das mais desastradas experiências dos anos 80, o congelamento de preços do Plano Cruzado. Nenhum petista ensaiou uma discussão séria quando os erros se tornaram mais que evidentes e o plano começou a esboroar-se.
Naquele período, como nos anos seguintes, petistas continuaram pregando o calote da dívida externa. Ao mesmo tempo, torpedearam todas as tentativas importantes de reordenação política e econômica e resistiram a assinar a Constituição.
O PT combateu as inovações do Plano Real. Foi contra a desindexação de preços e salários. Resistiu ao saneamento das finanças estaduais e municipais. Combateu - como já vinha combatendo - a privatização de velhas estatais, mesmo quando não havia a mínima razão estratégica para manter aquelas empresas sob o controle do Tesouro. Criticou a Lei de Responsabilidade Fiscal e atacou todas as iniciativas de ajuste das contas públicas.
A economia foi retirada do caos e seus fundamentos foram consertados, nos anos 90, contra a vontade do PT. O saneamento e a privatização de bancos estaduais permitiram o resgate da política monetária. Graças a isso foi possível, em 2003, conter o surto inflacionário em poucos meses. O Banco Central simplesmente manejou ferramentas forjadas na administração anterior.
Todos os princípios e instrumentos de política econômica essenciais à estabilidade nos últimos oito anos são componentes dessa herança mais que bendita. Se os tivesse abandonado há mais tempo, o governo Lula teria sido não só um fracasso, mas um desastre. Mas a fidelidade aos princípios do governo FHC nunca foi total. O inchaço da administração, o loteamento de cargos, a desmoralização das agências de regulação e o desperdício são partes da herança deixada à sucessora do presidente Lula, além de compromissos irresponsáveis, como o de um trem-bala mal concebido e contestado econômica e tecnicamente. Esse legado não será descoberto aos poucos. Já é bem conhecido.

02 dezembro 2010

Porque Serra perdeu a eleição_Por Augusto Nunes

A anedótica impontualidade, que desde sempre o faz chegar atrasado a todos os compromissos, acabou contaminando o calendário político e subvertendo o relógio eleitoral de José Serra. O candidato à Presidência da República demorou demais para entrar oficialmente na disputa, para concentrar-se na campanha, para costurar a coligação nacional, para montar as alianças regionais ou para decidir quem seria o vice. Nesta quinta-feira, ao aparecer no Senado depois de três semanas de sumiço (e depois da hora marcada), confirmou que vai terminar o ano como começou: chegando à estação quando o trem já partiu.
Em público, Serra assumiu (com 25 dias de atraso) a responsabilidade pela derrota. “A culpa sempre é do candidato”, reconheceu na primeira linha do mea culpa revogado pelo que disse em encontros reservados com senadores tucanos. A soma das conversas informa que Serra divide a culpa pelo fracasso entre o rolo compressor do governo federal e o desinteresse de companheiros de partido pela eleição presidencial. Ressentido com o que qualifica de “traições”, a maior das quais imagina ter sido protagonizada por Aécio Neves, quer ser compensado com a presidência nacional do PSDB.
Colecionador de bons desempenhos como deputado federal, senador, secretário de Estado, ministro, prefeito e governador, é compreensível que Serra recuse a aposentadoria. Também é aceitável que atribua à própria força eleitoral uma parcela considerável dos votos obtidos em 31 de outubro. É natural, enfim, que não se sinta forçado a abandonar a vida pública por uma derrota: a morte política nunca ocorre antes da morte física. O incompreensível, o inaceitável, o antinatural é perceber que a ficha ainda não caiu. Alguma alma caridosa precisa contar-lhe que nenhum candidato com chances de conquistar a presidência foi tão indiscutivelmente culpado pela própria derrota.
“Cada um tem um estilo e Serra foi fiel ao estilo dele: define uma linha e, aconteça o que acontecer, vai em frente”, resumiu com a habitual elegância o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na entrevista publicada pela Folha em 2 de novembro. Resumo da ópera: fora o marqueteiro Luiz Gonzalez, o candidato da oposição oficial não consultou ninguém, não pediu um só conselho a quem quer que seja. Fez questão de errar sozinho — e só não cometeu mais erros por falta de tempo.
Ao abortar a ideia das prévias partidárias, por exemplo, perdeu quaisquer chances de ter Aécio Neves como vice. Ao contemplar o legado de FHC com o olhar deliberadamente vesgo do inimigo, enxergou um problema onde sempre existiu, mais que uma solução, o maior trunfo eleitoral dos oposicionistas. Dilma Rousseff atravessou a campanha celebrando o Brasil de anúncio da Petrobras que Lula finge ter construído. O ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso fez de conta que nem participou do governo que mudou para muito melhor o país real.
Em vez de defender as privatizações que aumentaram a distância entre o Brasil e as cavernas, preferiu acusar Dilma de ser menos estatizante do que parece. Em vez do Serra decidido a encerrar a Era da Mediocridade, apresentou-se ao eleitorado um certo Zé pronto para ocupar o lugar do Silva e aperfeiçoar a obra do presidente que estava, segundo o suposto adversário, “acima do bem e do mal”. A adversária que todo candidato pede a Deus implorou pelo nocaute o tempo todo. O oponente fugiu ao combate e tentou ganhar encostado voluntariamente nas cordas.
Prisioneiro da falácia marqueteira segundo a qual eleitores preferem que participantes de um duelo troquem cobranças por arrulhos e interpelações por sonetos românticos, Serra desperdiçou incontáveis oportunidades de liquidar o duelo. As pesquisas de intenção de voto avisaram que questões vinculadas a valores morais e princípios éticos influenciariam a decisão do eleitor. Inibido pela paralisante estratégia do medo, inquieto com a possível exposição de pecados tucanos, Serra arriou a bandeira do combate à corrupção desfraldada no discurso em que se despediu do cargo de governador.
Açulada pela tibieza do oponente, a política aprendiz colocou na mesma categoria criminosa a confusa história protagonizada por Paulo Preto e o escândalo medonho da Casa Civil estrelado por Erenice Guerra — o andor mais vistoso da procissão infame engrossada por estupradores de sigilo fiscal, fabricantes de dossiês cafajestes e governantes fora-da-lei. Tecnicamente, Serra perdeu para a sucessora escolhida por um presidente sem compromisso com a verdade, a legislação eleitoral e o Código Penal. Vistas as coisas de perto, Serra foi o grande algoz de si próprio. Não existem traidores a condenar. Não há responsabilidades a apurar.
“Ele nunca vai admitir isso”, concordam 10 em cada 10 tucanos. “Se foi teimoso a vida inteira, não é agora que vai mudar. Ocorre que a paisagem brasileira mudou, e quem não se adaptar à guinada histórica não tem chances de salvação. As urnas de 2010 testemunharam o nascimento da oposição real. Difere da oposição oficial na cara, no ânimo, na alma. Tem um patrimônio superior a 40 milhões de votos e outros 20 milhões a conquistar. Tem as linhas gerais de um programa, como veremos em outro post. E tem um estadista, Fernando Henrique Cardoso, acumulando as funções de patriarca e ideológo.
Faltam líderes que efetivamente representem a oposição real, e não há vagas nesse grupo de elite para quem faz o que fez Serra na campanha de 2010. Falta um partido que se oponha ao governo antes e depois da eleição, livre-se dos delinquentes de estimação e não perca tempo com intrigas domésticas. O PSDB até pode transformar-se nesse porta-voz da resistência democrática. Por enquanto, não é.

01 dezembro 2010

Dilmula faz reforma ministerial

Leia editorial do Estadão: (O título parte meu, visto que o Estadão traz: "A 'reforma ministerial'"):
Nunca se deve subestimar o gosto do presidente Lula pelo som da própria voz. Ainda assim, é improvável que neste seu derradeiro mês no Planalto ele ainda tenha tempo de proferir uma falsidade comparável às suas reiteradas garantias de que não indica nomes para Dilma Rousseff porque o futuro Ministério tem de ter “a cara” dela. Teria se a sucessora tivesse barba e bigode. De fato, o que se desenrola em Brasília nas últimas semanas, à vista do País, é menos a constituição de um novo Gabinete, de acordo com as preferências pessoais e os compromissos políticos de um líder em vias de assumir a Presidência, do que outra reforma ministerial do governo Lula.
Foi ele, afinal, quem manteve nos seus lugares - por enquanto - o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o titular da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Dilma também fez a vontade de Lula trazendo o antecessor de Mantega, Antonio Palocci, para a Casa Civil, o coração do poder. Nesse caso, aliás, pode-se falar em indicações em sequência. Foi Lula quem instalou o ex-ministro na cúpula da campanha da sua apadrinhada, de onde ele desalojou o amigo mais próximo da candidata, Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte. Passada a eleição, nada mais natural que Palocci conduzisse a transição de governo.
A lista continua. Por escolha do presidente, ficará no Planalto, porém em outra sala, o seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, transferido para a Secretaria-Geral da Presidência. Ainda graças a Lula, sairá do Planalto, em direção à Esplanada, a assessora Miriam Belchior, promovida a ministra do Planejamento - cujo titular, Paulo Bernardo, deverá por sua vez migrar para as Comunicações. Lula ainda se movimenta para manter no governo, embora não mais no Banco Central, o atual presidente Henrique Meirelles. Na montagem da coligação dilmista, Lula tentou emplacar o seu nome como vice, mas o PMDB exigiu Michel Temer.
Agora, com o aval do patrono de Dilma, Meirelles ocuparia o futuro (e cobiçado) Ministério dos Portos e Aeroportos. Lula também aconselhou a sua pupila a conservar Nelson Jobim na Defesa e Marco Aurélio Garcia como assessor internacional. Teria feito o mesmo por Carlos Luppi no Trabalho e por Sérgio Gabrielli na Petrobrás. Em relação a todos eles, as preferências do presidente ou nem precisavam ser enunciadas ou foram transmitidas com relativa discrição. Caso excepcional é o do ministro da Educação, Fernando Haddad, cujo cargo, vorazmente disputado pela companheirada paulista, parecia fadado a mudar de mãos, depois dos sucessivos fiascos do Enem.
Os políticos petistas não gostam do acadêmico Haddad porque ele não lhes dá a atenção de que se julgam merecedores. Mas o presidente gosta de sua atuação - a ponto de transformar três eventos da área do ensino, anteontem, em comícios de campanha ministerial. Foi no primeiro deles que Lula deu o seu show de hipocrisia ao negar de pés juntos que interferira na montagem do Ministério. O que, aliás, vem repetindo todos os dias, desde que a formação do Ministério de Dilma passou a ocupar lugar predominante no noticiário político, recorrendo, como sempre, às metáforas futebolísticas tipo “o técnico tem de ter liberdade para mudar seu time”.
Já se escreveu que jamais um presidente brasileiro interferiu tanto na composição da equipe do sucessor. Mas a verdade é que a presente conjuntura é única na história da democracia brasileira. Antes de 1964, só um presidente (Vargas) viu eleger-se quem apoiava (Dutra). Depois da ditadura, Sarney herdou o governo que Tancredo montara, Itamar completou o mandato de Collor, com a glória do lançamento do Real, Fernando Henrique e Lula foram os seus próprios sucessores. Para completar o ineditismo, elege-se presidente uma figura que nunca disputou um mandato, carente de base política própria, escolhida, construída e conduzida à vitória por seu mentor.
Mesmo que Lula fosse honesto ao falar em “rei morto, rei posto”, seria apenas natural que Dilma Rousseff fosse bater à sua porta na hora de escalar o seu time. O Brasil terá quatro anos para saber até onde irá essa dependência

Base alugada PT-PMDB briga pelo butim e ameaça governo Dilmula

Por Denise Madueño, Eugênia Lopes e Christiane Samarco, no Estadão:
O PT e o PMDB na Câmara estão convencidos de que, por enquanto, só o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está satisfeito com a montagem do ministério de Dilma Rousseff. E já ameaçam criar problemas para a presidente eleita. Parlamentares dos dois partidos ficaram irritados com a indicação à revelia das bancadas do petista Paulo Bernardo para as Comunicações e do peemedebista Sérgio Côrtes, na pasta da Saúde.
Ignorados no processo de escolha, petistas e peemedebistas - incluído aí o vice-presidente eleito, deputado Michel Temer (PMDB-SP) - não conseguiram, até agora, emplacar seus indicados e sentem-se desprestigiados. Os mais nervosos advertem que está em jogo a governabilidade no mandato de Dilma, porque serão os deputados que vão votar os interesses do Palácio do Planalto no Congresso.
Os nomes do PT e do PMDB já divulgados não passaram pelas bancadas federais, nem tampouco são ministros com os quais os parlamentares que dão sustentação ao governo no Congresso se identificam. A exemplo do que fez Lula, os dois partidos apontam uma manobra para impingir mais uma vez aos deputados o apadrinhamento de ministros na cota da bancada.
Cota fluminense. O indicado para a Saúde, Sérgio Luiz Côrtes da Silveira, é apadrinhado do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB). Côrtes é secretário estadual de Saúde do Rio e médico ortopedista. Chega ao futuro governo Dilma na cota do PMDB fluminense. É o segundo nome que Cabral emplaca na Saúde. Em março de 2007, ele indicou o sanitarista José Gomes Temporão, até hoje no cargo.
Em conversas reservadas, integrantes do PMDB afirmam que Côrtes não representa o partido na equipe, pois entra na cota de Cabral. A indicação irritou os peemedebistas a tal ponto que Temer - que insiste em fazer Moreira Franco ministro de sua cota pessoal - recebeu manifestações de solidariedade na bancada. Sérgio Cabral, afirmam os deputados, nunca consultou o partido sobre a indicação.
Clã petista. No PT, a reclamação é semelhante. A indicação de Paulo Bernardo, hoje titular do Planejamento, para a pasta das Comunicações é vista como uma articulação de Dilma e Lula.
A pasta, que ganhará musculatura no novo governo, transformou-se no xodó de Dilma e poderá ganhar assento nas reuniões semanais da coordenação política de governo. Atualmente o Ministério das Comunicações abriga o Plano Nacional de Banda Larga - programa para universalizar a internet rápida - e é responsável pela regulamentação das concessões de rádio e TV. Cuidará, ainda, da nova lei de comunicação digital.
Os deputados do PT não se consideram representados pelo futuro primeiro escalão já escolhido: Guido Mantega (Fazenda), Miriam Belchior (Planejamento), Fernando Haddad (Educação), Antonio Palocci (Casa Civil), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral). Apesar de petistas, não são escolhas da bancada. No caso de Haddad, as críticas são maiores. Petistas afirmam que o ministro fez campanha só para o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), escanteando os 17 deputados de São Paulo.
Disciplinados, os petistas não ameaçam retaliação ou enfrentamento com o governo. O mesmo não ocorre com o PMDB. “Os deputados do PT vão votar tudo, mas a bancada do PMDB para votar tem de ter apoio do governo”, resumiu um peemedebista insatisfeito.

Sultão "Dilmula" quer comprar avião nababesco de R$ 500 milhões

Por Igor Gielow e Breno Costa, na Folha: (O título é meu!!)
O presidente Lula fez ontem uma defesa enfática da compra do Aerodilma, o novo avião que deverá substituir o Aerolula. “Não tem por que não comprar. Acabou aquela bobagem do Aerolula. Acho que o Brasil precisa de um avião com mais autonomia para o presidente.” A negociação do avião foi revelada pela Folha anteontem. Há duas opções na mesa, que podem custar até mais de R$ 500 milhões, cinco vezes o custo do atual avião do presidente.
Lula disse ontem no Maranhão que “o Brasil passa humilhação” porque a autonomia do Aerolula é limitada, impedindo voos sem escala a vários locais. As opções estudadas preveem ida até a Ásia sem as atuais duas paradas. O presidente confundiu o Aerolula, um moderno Airbus-319 executivo, com o antigo avião presidencial -o Boeing 707 conhecido como Sucatão, que ainda serve à FAB como avião-tanque. “Você deveria perguntar para a imprensa que viajou num Sucatão para saber o que é uma viagem presidencial. O Brasil não pode ser um país grande do jeito que é, e ter um comportamento humilhante muitas vezes lá fora”, disse. Lula quer fechar o negócio para evitar desgaste da presidente eleita, Dilma Rousseff, no episódio. Ela não se manifestou sobre a compra, mas sua equipe econômica adotou discurso da necessidade de corte de gastos.
Não há verba orçamentária, mas o financiamento é de longo prazo e depende da aprovação de um projeto pelo Congresso. O presidente indicou que a escolha pode recair na compra de dois novos aviões de transporte e reabastecimento aéreo. Um deles viria com uma área VIP, e seria usado em voos intercontinentais. O consórcio europeu EADS já ofertou à FAB o Airbus-A330MRTT, um avião pelo qual a Austrália pagou R$ 516 milhões em 2008.

Americanos não se enganavam com o Luladilma e os brazucas

Por Jamil Chade, no Estadão:Um governo permeado pela corrupção, defensor de posições polêmicas em relação ao Irã e com um profundo sentimento antiamericano. Essa era a percepção que a diplomacia americana mantinha sobre o governo Lula, de acordo com mensagens sigilosas trocada pelo embaixador no Brasil e o Departamento de Estado entre 2008 e 2009. As mensagens foram divulgadas ontem pela organização WikiLeaks.
Os documentos escancaram uma realidade de desconfiança mútua e uma acirrada disputa no interior do governo brasileiro sobre qual estratégia adotar em relação a Washington. Do lado americano, não se esconde a necessidade de contar com o Brasil como um estabilizador na América Latina, obrigando a Casa Branca a insistir em aprofundar a relação.
Isso não impediu, porém, que os diplomatas americanos fizessem avaliações duras sobre Lula, indicando uma gestão marcada pela corrupção entre seus “mais próximos aliados”, assolado pela “praga” da compra de votos e sem ter dado uma resposta ao crime no Brasil. A crítica é feita pelo ex-embaixador americano em Brasília, Clifford Sobel. “O governo Lula tem sido afetado por uma grave crise política”, afirma o documento, citando “escândalos e tráfico de influência”.
“A principal preocupação popular - crime e segurança pública - não diminuiu durante sua administração (de Lula)”, informa um telegrama enviado ao Departamento de Estado. O documento, de 2008, insinua que o Bolsa-Família o ajudou se reeleger em 2006. “Lula foi eleito em 2002 em grande parte pela promessa de promover um agenda social ambiciosa, incluindo generosos pagamentos aos pobres. Diante da popularidade dessas medidas, ele foi reeleito em 2006″, completou. Um outro documento deixa clara a percepção americana sobre o Brasil: “Cooperação amistosa. Mas não uma forte amizade.”
Para Washington, a resistência vem diretamente do Itamaraty que “mantém uma tendência antiamericana”. “O governo de centro-esquerda tem evitado uma cooperação mais estreita em temas políticos e militares e tem nos mantido a uma certa distância dos temas de segurança.”

Luladilma se diz a " encarnação do povo", ou: o povo é encarnação dele

Por Leonencio Nossa, no Estadão. O título é meu:
A um mês de deixar o Planalto, o presidente Lula revelou ontem que, na crise do mensalão, em 2005, ameaçou o Congresso dizendo-se “a encarnação do povo”. Ele aproveitou um discurso de improviso durante visita ao canteiro de obras da usina hidrelétrica de Estreito para relatar encontros privados com o senador José Sarney (PMDB).
“Uma vez o Sarney foi conversar comigo e eu disse: Sarney, eu só quero que o senhor diga lá dentro (Congresso Nacional) o seguinte: Se eles (oposição) tentarem dar um passo além da institucionalidade, eles não sabem o que vai acontecer neste País”, relatou. “Este País teve presidente que foi embora, presidente que se matou ou foi cassado. Eles vão saber que eu sou diferente. Que não é o Lula que está na Presidência, mas a classe trabalhadora”.
Lula confidenciou que tinha “muita dúvida” se teria condições de governar o País. “Este País já tinha criado as condições para o Getúlio Vargas se matar, não deixar o Juscelino assumir e cassou o João Goulart. Eu falei: o que eles vão aprontar comigo? E eles tentaram em 2005. Só que eles não sabiam que este País, pela primeira vez, tinha eleito um presidente que era a encarnação do povo, lá em Brasília.”
Comento:
A gente não vai se livrar assim tão facilmente do Lula, não!
Afinal, ele estará começando dia 1 de janeiro o seu terceiro mandato usando a alcunha de Dilma Roussef...E se preparando para voltar em 2014 - que Deus nos livre!

PMDB de Luladilma: um animal predador, de dentes afiados

Vejam o que diz Reinaldo Azevedo (Veja.com):
Mas o que é o PMDB? Uma federação que reúne os bichos mais estranhos e díspares. Só que há um comando. E os patriotas que estão no topo da cadeia alimentar são Michel Temer, o vice-presidente eleito; os senadores José Sarney (AP) e Renan Calheiros (AL), e os deputados Henrique Eduardo Alves (RN) e Eduardo Cunha (RJ). E essa gente está bastante descontente com a “reforma ministerial” promovida por Lula.
A presidente eleita, Dilma Rousseff, quer dar cinco ministérios para o partido, que acha pouco. Os predadores consideram que a Defesa, onde fica Nelson Jobim, e a Saúde — o provável indicado é Sérgio Cortês — são da cota pessoal da presidente eleita. Faz sentido? De certo modo, sim. Jobim não ocupa a vaga por indicação partidária, todo mundo sabe. Cortês, diz agora Sérgio Cabral, governador do Rio, não foi exatamente indicação sua, mas escolha de Dilma.
Assim, aquele grupo que exerce a hegemonia no partido até se contentaria com as cinco pastas, mas descontadas as duas — ou seja, sete. E quer uma compensação pela perda do Ministério das Comunicações, que vai para o petista Paulo Bernardo. Além do patriotismo que lhes é muito próprio, os peemedebistas precisam de cargos para acomodar a máquina partidária. A Defesa, apesar de um belo naco do Orçamento, não se presta muito a esse papel. Também não tem capilaridade para “fazer política pública”, entenderam? A Saúde é um latifúndio, sim, mas, hoje, mais desgasta do que rende dividendos. E é uma pasta bastante submetida à vigilância da imprensa. Mais: Dilma concentrou boa parte de suas promessas eleitorais nessa área: fará, para o bem e para o mal, o que achar melhor, independentemente do que queiram os peemedebistas.
Antonio Palocci, o futuro chefe da Casa Civil, já está em campo, tentando apaziguar os ânimos. Está lá para isso. A equação é delicada. O PMDB percebeu que o núcleo decisório do governo, o primeiríssimo escalão mesmo, aquele onde as coisas de fato se decidem, ficou com uma equipe de lulistas. Nem à presidente eleita coube escolher muito. Lula é uma espécie de Putin informal de sua Medvedev.
Alijado do centro do poder, o PMDB quer ministérios que tenham dinheiro e que lhe dê condições de manter satisfeita, com cargos e obras, a faminta máquina partidária. Ou ameaça fazer valer o seu “poder de fogo” no Congresso.

25 novembro 2010

Acorda, oposição!!!!

Veja este texto primoroso de Augusto nunes (Veja.com), que gostaria de ter escrito:
A iminente troca de gerente não afetou a produtividade da usina de escândalos, safadezas e espantos em geral instalada há oito anos no coração do poder. Ainda atônito com as bandalheiras da quadrilha de Erenice Guerra, dos estupradores de sigilo fiscal ou dos fabricantes de dossiês bandidos, que se juntaram para reduzir a campanha presidencial de 2010 a um evento político-policial, o país que presta foi abalroado desde o primeiro minuto do mês pelos assombros de novembro.
Não há perigo de melhorar, reiteraram, entre outras obscenidades, a tentativa de exumação da CPMF, o segundo naufrágio do Enem, a descoberta de uma advogada sanguessuga na equipe de transição, o balcão de barganhas cafajestes explorado pelo PT e pelo PMDB ou as recorrentes ofensivas federais contra a liberdade de imprensa. A turma parece cada vez mais cínica, ressalvou a discurseira triunfalista inspirada no Brasil Maravilha que Lula inventou sobre os escombros legados por Fernando Henrique. Mas o governo, em sua essência, continua o mesmo.
A oposição oficial também continua a mesma, berrou o silêncio indecoroso dos líderes do PSDB — alguns em férias, outros cuidando da montagem de equipes, os restantes imersos no recesso oficioso que começa depois de uma eleição e acaba quando vai chegando a seguinte. Posto em sossego, o maior partido oposicionista não captou ou não entendeu o recado das urnas. Nem alcançou as dimensões de uma oportuníssima advertência formulada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Sempre ele.
“Não estou disposto mais a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história”, perdeu a paciência FHC numa entrevista concedida à Folha na noite de 31 de outubro, quando Dilma Rousseff ainda ensaiava o discurso da vitória e José Serra tentava adiar a cerimônia do adeus com um improvável “até logo”. Caso fosse menos tolerante, FHC poderia ter dito a mesma frase já em 2002, quando Serra adotou a estratégia da covardia reprisada por Geraldo Alckmin em 2006 e levada às últimas consequências neste ano.
Os dois fracassos anteriores sedimentaram a suspeita de que o maior partido de oposição não sabe fazer oposição. A suspeita virou certeza depois do fiasco da campanha de 2010 — a mais errática, inepta, insossa e pusilânime campanha conduzida por um candidato do PSDB. A coleção de equívocos, cretinices e monumentos à insensatez não cabe num post só. Veja-se neste texto, portanto, apenas o ponto de partida para o debate que se desdobrará em mais artigos e em centenas de comentários enviados pelo timaço da coluna.
IMPOSTURA TEM LIMITE
Se Dilma Rousseff foi a adversária que todo candidato pede a Deus, Serra soube ser o candidato com que sonha a mais bisonha adversária. Se o PT seguiu protagonizando bandidagens e trapalhadas suficientes para ser enterrado sem honras por dois ou três discursos de um Carlos Lacerda ou de um Jânio Quadros, o PSDB reafirmou a vocação para desperdiçar em tiroteios domésticos a munição que não ousa usar contra o alvo verdadeiro. O candidato e o partido se mereceram. Quem merece coisa bem melhor é a imensidão de brasileiros insatisfeitos com o governo. Merece e, até que enfim, passou a exigir.
“Esses 44 milhões que votaram em José Serra não são do PSDB”, compreendeu FHC. “É uma parte da sociedade brasileira que pensa de outra maneira, e não se pode aceitar a ideia de que há uma separação entre pobres e ricos. Nunca vi uma elite tão grande”. O Brasil dos descontentes é infinitamente maior que Serra e muito mais combativo que o PSDB, registrei num post aqui publicado no mesmo dia da entrevista de FHC. No primeiro turno, incontáveis eleitores frustrados com a tibieza do candidato tucano optaram por Marina Silva. No segundo, digitaram o número de Serra para votar na democracia.
O PSDB continuará distante desse colosso eleitoral se não se der conta de que, depois deste 31 de outubro, não chances de sobrevivência para quem se declara adversário do governo mas não sabe, ou não quer, interpretar o pensamento e as aspirações da resistência democrática. Os líderes que não aprenderem a opor-se o tempo todo logo não terão ninguém a liderar, e serão substituídos por quem souber que a prudência não pode anular a bravura. Sobretudo, não haverá esperança de salvação para políticos que engolem sem engasgos a discurseira que, simultaneamente, amaldiçoa o grande governo de FHC e celebra o faz-de-conta da potência sul-americana, como se algo de grandioso pudesse vicejar na Era da Mediocridade.
A ausência de réplicas tucanas aos palavrórios de novembro atesta que, até agora, o recado de FHC não interrompeu a interminável siesta pós-eleitoral. “Eu recebi uma herança maldita”, Lula mentiu de novo em Seul, na reunião do G-20. Enquanto a oposição oficial fazia cara de paisagem, um editorial do Estadão recolocou as coisas no lugar. “Para que a memória do país não fique contaminada pela falta de memória do nosso ‘pato manco’”, rebateu o último parágrafo, “convém lembrar (…) a derrubada da inflação com o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal, a criação do Proer, a criação das agências reguladoras, as privatizações, especialmente da telefonia, da Vale, da Embraer (…). Lula e o PT foram contra tudo isso”.
Quem não teme revides da oposição diz o que lhe dá na telha ou o que chefe manda, mostrou há dias Dilma Rousseff em outro improviso desbeiçado. “O grande desafio é dar um salto e avançar em cima dessa herança bendita, que tem sempre um grande peso e que para honrá-la temos que ser inovadores”, decolou a oradora aprendiz, a bordo do “momento mágico vivido pela nação” e dos “indicadores sociais de países desenvolvidos” que Lula colheu sabe-se lá em qual das tantas hortas de sabujices. Ninguém no PSDB indignou-se com a novidade: depois de vender anos a fio a fraude da “herança maldita”, o camelô de si mesmo resolveu lançar na praça, pela voz da protegida, o embuste da “herança bendita”.
Nenhum deputado, senador, governador ou cartola partidário julgou necessário antecipar-se ao que escreveu José Roberto Guzzo na edição de VEJA desta semana. “O Brasil não tem um único indicador comparável aos do Primeiro Mundo em áreas fundamentais como educação, saúde, esgotos, transporte coletivo, criminalidade, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e por aí afora”, corrigiu o colunista. “Não tem competência, sequer, para montar um exame de escola como o Enem”.
Com ou sem o PSDB, a oposição real vem defendendo o legado de Fernando Henrique com a convicção obstinada que sempre faltou à oficial. Com ou sem o partido, a oposição de verdade está também decidida a matar no nascedouro a farsa concebida para substituir a realidade por um Brasil de cartão postal e anúncio da Petrobras. É preciso ensinar ao governo que impostura tem limite. E o PSDB precisa aprender que quem vive morto de medo acaba morrendo de inanição.