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30 março 2012

Como e porque sou anistiado político "insepulto"...Ou: ninguém liga para a minha 'verdade'...

Aos 18 anos, iniciei minha vida profissional com CTPS assinada como office-boy da loja Credilar Centro -loja da senhora e esposa (a "madame") do Sr. Nathan -, onde ganhava a enorme cifra de 1 salário mínimo.
Após 5 meses que me renderam uma enorme experiência nessa "profissão" - misto de xereta e "sabe tudo", pois o antigo office-boy se metia em tudo, porque para tudo era usado (menos, é claro, para aquilo...) -, na qual aprendia-se como "se virar" na vida. Eu ia e voltava a pé do trabalho para casa e vice-versa, pela manhã e pela tarde, sob o esplêndido e escaldante sol manauara. Cheirava como um bode. Não por acaso havia um colega lá que apelidavam de "Bodinho".
Bem, deixei esse honroso cargo para estagiar na Secretaria de Obras da Prefeitura Municipal de Manaus, em 1972, sob a batuta do prefeito Franklin Abrahim Lima, como aluno de Estradas da Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam). Como estagiário da PMM, passei a ganhar 2 salários mínimos. Findo o estágio, fui contratado como Auxiliar de Engenharia I-7-A, com CTPS assinada e tudo, ganhando 6 salários mínimos. Não poderia ter sido um desfecho melhor de tão rápida "carreira"!...
Foi - como estão vendo - uma "carreira" meteórica para quem havia chegado em Manaus vindo do Careiro da Várzea (ainda não era município) em 1967, analfabeto aos 13 anos. Minha tia Alice Pinheiro pagou para eu estudar 2 anos na Escola Industrial Salesiana Domingos Sávio da Rua Visconde de Porto Alegre, na paróquia de São José, onde alem de estudar e fazer 'arte na madeira' assistia a todos os filmes clássicos de capa-e-espada, aventuras, comédias, e lia de tudo na sala de leitura dominical. Nunca esquecerei ambas: minha tia e minha escola. Ali aprendi a viver, amar e sofrer. Minha vida se circunscrevia à praça 14 de Janeiro, com expedições ao Parque Dez, ao Japiim, ao Igarapé do 40....
Quando tinha 21 anos, em 1975, fui recrutado e selecionado dentre todos os alunos do terceiro e do quarto ano do curso de Estradas da antiga Escola Técnica Federal do Amazonas (Etfam), passei no quarto lugar das 5 vagas, e fui trabalhar no INCRA (Projeto Fundiário Manaus) como Topógrafo (que minha namoradinha chamava "fotógrafo", coitadinha). Passei a ganhar então, além dos mesmos 6 salários mínimos, cerca de mais 25 diárias de campo ao mês (como topógrafo de campo). Não me limitei ao campo e nem à profissão de topógrafo. Passei no primeiro vestibular de que participei, em 1976, para o curso de Matemática da Universidade do Amazonas (UA, hoje Ufam).
A vida ia de vento em popa, fruto de muito estudo e dedicação, pois minha tia Alice me advertira de que não deveria nunca ser reprovado em nenhum curso, pois estava muito atrasado nos estudos.
Contudo, uma surpresa a vida me reservara: em 1977, após a morte de meu pai ceifado pelo câncer aos 55 anos, meus chefes do Incra, o superintendente José Carioca (um "coronel") e seu chefe do ASI (Assessoria de Informações do SNI - um "tenente"), Castelo Branco, me trancaram na sala do primeiro e sob ameaças de demissão me transferiram para Tabatinga...
Dessa forma, em um só golpe, me cortaram do curso de matemática, da minha vida familiar e da esperança por dias melhores em Manaus.
Sem entender as razões da transferência "manu militari" - pois estas nunca me foram dadas, a não ser aos berros naquela única ocasião: "...não tem 'que' nem 'por que'..., ou vai, ou te demitimos, seu merda! -, fui deportado... Minhas CTPS assim rezam: "demitido" em 31.07.1977 no PF-Manaus e "readmitido" em 01.08.1977 no Projeto Integrado de Colonização (PIC) Tabatinga.
Fiquei me perguntando: 'será que foi porque demarcava as terras dos colonos que não constavam dos Projetos?' 'Mas se eles viviam nas terras centrais e os técnicos do Incra nunca os encontravam, como poderiam constar dos Projetos?'. 'Será que foi por que eu era colega daquele 'comunista' do João Pedro?'  (ex-senador suplente do Alfredo Nascimento). Nenhuma razão me foi dada. E nem mais perguntei. Segui a regra daquele velho agrônomo: "anula-te e vive..."
Após 2 longuíssimos anos em Tabatinga, onde li a Bíblia umas 4 vezes todinha (uma delas em espanhol - chique, não?), quando já achava que finalmente encontrara a razão da minha vida, ou seja, meu encontro com o Deus da Bíblia (que não tem nada a ver com o Deus dos padres nem dos pastores) e ter tempo para estudar tudo quanto me chegava às mãos, dos clássicos aos modernos... Estava numa felicidade de dar dó...
Foi quando novamente fui reencontrado por um outro meganha do Incra de Manaus, o qual, vendo o meu "estado de felicidade geral", novamente me transferiu na marra para Manaus... Ele me perguntou: o que você está fazendo aqui? Eu respondi: - bem, vocês é que me mandaram, para cá.... "Não tem 'que' nem 'por que'. Esteja transferido!
Novamente fui demitido e readmitido com requintes de crueldade: demissão: 31.07.1979 e readmissão: 01.08.1979, respectivamente (mudando apenas os anos nas datas). Chegando em Manaus, tive de fazer outro vestibular. Desta vez para Administração Noturno, uma vez que assim me diziam que seria possível estudar... Na verdade, não acreditavam que após o degredo de 2 anos em Tabatinga ainda seria capaz de emitir qualquer raciocínio lógico que demonstrasse algum parentesco como qualquer símio...
Quebraram - aliás, quebrei - a cara novamente. 'Quebraram a cara' por que logrei êxito...'Quebrei a cara' porque não me deixaram estudar coisa nenhuma. O lema daqueles tempos era o seguinte: "ou estuda ou trabalha...".
Bem, diante disso não me restou outra saída: passei a evitar as viagens e a estudar à noite sem que eles soubessem. Mas naqueles tempos todos sabiam de tudo... Me demitiram do Incra em maio de 1980... Fui trabalhar no Instituto de Terras do Amazonas (Iteram), órgão estadual onde pude estudar em paz... Lá cheguei a Diretor Técnico em exercício. Fiz o curso de Administração ente os anos de 1980 e 1984. Em 1985 prestei novo vestibular para Direito. Bingo! Terceira aprovação. 100% de aproveitamento. Êita Tabatinga boa, sô! Depois disso relaxei um pouco... Terminei Direito apenas em 1992. Nesse ano terminei também a Especialização em Docência Superior. Desde 1990 fui professor de administração do Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa), a primeira faculdade particular do Amazonas.
Fui então, depois de formado em Administração, delegado federal do Ministério da Agricultura do Amazonas, entre 1988 e 1990, por indicação do Senador Carlos Alberto De Carli.
Por indicação do Ministro da Justiça Bernardo Cabral, voltei triunfalmente ao Incra como seu Superintendente em agosto de 1990, mas fiquei pouco tempo, o suficiente para fazer uma devassa administrativa e jurídica naquele órgão - não por vingança ou coisa parecida, mas por solicitação do então Presidente Collor e do próprio Incra em Brasília, Sr. José Reinaldo Vieira da Silva. Isso rendeu a minha exoneração, pois as verdades que revelei feriu muitas susceptibilidades políticas. As patifarias reveladas eram muitas e de muitos milhões... muita gente grande estava envolvida.
Em 1994 ingressei com pedido de anistia política e logrei êxito, sendo reintegrado ao Incra, mas tendo de novamente bater em retirada por força de ter de escolher entre esse órgão e a Universidade Federal do Amazonas - Ufam, onde fui aprovado em concurso para docente do curso de Administração, minha grande paixão acadêmica. Entre 1991 e 1992 fui delegado federal dos ministérios dos Transportes e das Comunicações no Amazonas por indicação do senador Carlos Alberto De Carli. 
Entre 1995 até hoje me dedico à faina diária de estudar e ensinar na Ufam. Fiz mestrado em 1999. Fui chefe do departamento acadêmico de Administração da Ufam em duas oportunidades: de 1998 a 2001 e entre 2008 e 2010. Fui representante da Ufam em Brasília entre julho de 2001 e julho de 2002.
Hoje luto pela indenização como anistiado político, mas não está fácil... Me pergunto: será por que não fui esquerdista suficiente lá em 1975-85? Ou será que me consideram hoje um direitista extremado? Por qual das ditaduras devo ser mais execrado? Por aqueloutra ou por esta?
Julguem os senhores que leem estas mal traçadas...




24 março 2012

Encenação no Planalto

Leia editorial do Estadãoi:
A presidente Dilma Rousseff chamou ao Palácio do Planalto 28 dos maiores empresários do País para pedir-lhes mais investimentos - como se algum deles precisasse de um apelo presidencial para investir na ampliação de seus negócios e para ganhar mais dinheiro e mais espaço em seus respectivos mercados. Quanto a esse ponto, pelo menos, dificilmente haverá diferença entre esses líderes da indústria, do comércio e do setor financeiro e a maioria dos dirigentes de empresas pequenas e médias. Os chamados espíritos animais estão bem vivos no empresariado brasileiro, apesar de todas as dificuldades para investir, produzir e vender, especialmente para o mercado externo. A presidente não deveria preocupar-se com isso. Mas os dirigentes de companhias de todos os tamanhos têm motivos para se preocupar com a pouca disposição do governo de adotar as políticas necessárias ao fortalecimento do setor produtivo e ao crescimento seguro da economia brasileira.
 Como era previsível, a reunião serviu para a presidente encenar alguma iniciativa, num momento de muita dificuldade com a base governamental e de vexaminosas derrotas no Congresso. Além disso, converteu-se, como era também previsível, em mais uma oportunidade para os empresários desfiarem o novelo de suas queixas e reivindicações, todas bem conhecidas e diariamente citadas pela imprensa.
Os convidados falaram de câmbio, carga tributária, encargos trabalhistas, custo do dinheiro, problemas de infraestrutura e escassez de mão de obra qualificada. Trataram também, é claro, de uma aberração inventada por alguns governadores, a guerra dos portos, gravemente prejudicial à indústria brasileira: produtos importados com incentivos fiscais, por meio de um protecionismo às avessas, são vendidos com grande vantagem de preço em outros Estados, impondo uma concorrência absurdamente desleal ao produtor nacional.
As falas da presidente e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, foram igualmente sem novidades, apesar da abundância de palavras. As autoridades prometeram, mais uma vez, um grande plano de redução de custos fiscais e financeiros. O corte de encargos trabalhistas, iniciado em 2011, será estendido a novos setores, haverá diminuição de impostos federais e crédito mais barato será oferecido aos empresários. Além disso, o governo investirá em obras de infraestrutura e tentará baixar o custo da energia. Todas essas promessas eram conhecidas.
Não valeria a pena os empresários irem a Brasília para repetir suas queixas e para ouvir de novo as declarações de bons propósitos do governo, exceto, talvez, por um detalhe: pelo interesse de participar, ao lado de figuras muito importantes do setor privado, de um encontro com a chefe do governo. No caso da presidente Dilma Rousseff, muito menos propensa do que seu antecessor a reuniões desse tipo, a raridade do evento também pode ter sido um atrativo.
Mas a presidente foi além das promessas e da cobrança de mais investimentos. Ela pediu uma atuação mais forte dos empresários a favor da Resolução 72/2011 do Senado, sujeita a forte resistência de várias bancadas estaduais. Se essa Resolução for aprovada, a redução das alíquotas interestaduais tornará muito mais difícil a guerra dos portos.
Mas vários empresários importantes e sindicalistas já estiveram no Congresso, nos últimos dias, participando de sessões especiais sobre o assunto e já deram seu recado. A presidente deve saber disso. Muito mais que um esforço de argumentação e de esclarecimento, ela pediu, portanto, um trabalho para a conquista de votos. Recorreu aos empresários, em suma, na esperança de terem êxito onde ela fracassou. Nesse, como em vários outros casos importantes, o Executivo tem sido incapaz de unir a base governamental em torno de um projeto considerado de alto interesse para o País.
A maior parte do encontro foi mera encenação de uma reunião produtiva entre a presidente e um grande grupo de pesos pesados da economia. O resto foi uma demonstração explícita dos problemas de um governo forçado a comprar e a recomprar, num comércio sem fim, a fidelidade de sua base no Congresso.

Governo não faz crescer o PIB sem aumentar a inflação

COISA DE FICÇÃO
É irreal a presunção dos governos de possuir superpoderes para inflar o crescimento do PIB com incentivos públicos, sem aumentar a inflação

super-dilma
O governo decidiu tolerar uma inflação mais elevada para, assim, permitir um crescimento mais acelerado.
As intenções da presidente Dilma Rousseff e de sua equipe foram escancaradas quando o IBGE divulgou o desempenho do PIB (o produto interno bruto, soma de tudo aquilo que é produzido pelo país) e confirmou a forte desaceleração da economia brasileira em 2011.
O crescimento foi de apenas 2,7%, um tombo expressivo em relação ao forte avanço de 7,5% em 2010. Tão logo os números foram divulgados, ministros e assessores de Dilma diziam que havia chegado a hora de o Banco Central (BC) apressar a queda nos juros.
No dia seguinte, o BC decidiu reduzir sua taxa básica, a Selic, de 10,5% para 9,75% ao ano. Os juros mais baixos, além de estimular a economia, teriam o efeito de combater a valorização do real.
Nem uma palavra sobre os riscos de alimentar a inflação
O governo promete ainda oferecer novos incentivos, entre eles a redução de tributos para alguns setores da indústria e também a ampliação das linhas de financiamento do BNDES. O objetivo declarado é alcançar um crescimento de pelo menos 4% em 2012.
Quanto aos riscos de essa política jogar lenha na fornalha da inflação, nenhuma palavra. O governo se julga assim dotado de superpoderes. Se fosse fácil assim, por que não fazer a economia crescer 100% ao ano, com inflação zero?
O exemplo é caricato, mas ajuda a explicitar a impossibilidade de os governantes sujeitarem uma economia a seus caprichos. A ideia de ter “um pouquinho mais de inflação para crescer um pouquinho mais” não é nova. Tem mais de cinquenta anos e foi aplicada nos Estados Unidos nos anos 1960.
Funcionou, mas por pouco tempo. A inflação foi se retroalimentando gradativamente. O erro dessa política foi explicitado pela revolução monetarista da Universidade de Chicago, liderada por Milton Friedman (Nobel de 1976).
Quando o governo tolera uma inflação mais elevada, as empresas e as pessoas incorporam às suas expectativas um aumento maior nos preços e nos salários. No fim, para evitar a propagação dessa bola de neve, foi necessário subir os juros e derrubar a atividade.
O passado mostra que, com juros menores, houve mais inflação
Mas o governo brasileiro parece não temer os riscos envolvidos. Segundo cálculos do economista José Júlio Senna, especialista em política monetária, a taxa real de juros (a Selic menos a inflação) foi de 9,4%, em média, entre 2005 e 2008. Nesse período, a inflação anual foi de 4,8%. No biênio 2010 e 2011, no entanto, a taxa real de juros caiu para menos da metade (foi de 4,2%).
Em contrapartida, a inflação média subiu para 6,2%. Conclusão: o governo aceitou um reajuste mais acelerado nos preços, optando por derrubar os juros.
“Apesar da queda expressiva nos juros, a inflação subiu, mas não explodiu”, afirma Senna. “Existem condições favoráveis, no momento, para que os preços não fujam do controle. Mas a história ensina que há riscos de essa política provocar pressões inflacionárias mais à frente.”
O caminho é aumentar a produtividade
Em outras palavras, de nada adiantará o governo incentivar o consumo se a oferta não crescer no mesmo ritmo. O resultado será apenas o aumento da inflação e das importações. A única maneira de acelerar o ritmo sem inflar os preços é ampliar a produtividade, indicador que mede a eficiência de um país em gerar riquezas a partir de seus recursos físicos e humanos.
O Brasil tem se saído mal nesse aspecto. Estudos do economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, revelam que a produtividade da economia brasileira não avançou nas duas últimas décadas. Nesse período, o indicador aumentou 10% nos Estados Unidos, 50% na China e 60% na Coreia do Sul.
“O Brasil passou por reformas importantes nestes últimos vinte anos, mas esse processo de ajustes perdeu velocidade recentemente. Ainda existem problemas sérios”, diz Scheinkman. “Na agropecuária, houve um crescimento significativo da produtividade, mas a indústria tem ficado para trás. Na média, a produtividade permaneceu estagnada.”
A “armadilha da renda média”
Em resumo, o Brasil avançou, mas numa velocidade inferior à de seus competidores, sobretudo pelas suas deficiências em educação, pesquisa tecnológica e infraestrutura. Para Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, o país terá de se esforçar mais se quiser deixar o bloco das nações em desenvolvimento e se aproximar das desenvolvidas.
“Os países bem-sucedidos mantiveram um ritmo elevado de crescimento graças ao forte investimento em educação e infraestrutura, num patamar superior ao que o Brasil tem apresentado”, afirma Eichengreen. Para o economista, apenas assim será possível escapar da chamada “armadilha da renda média”.
Nos estágios iniciais de desenvolvimento, uma economia tira proveito da tecnologia e do conhecimento acumulado pelas nações ricas. Mas quando um país atinge padrões de renda média, como é o caso do Brasil, o crescimento passa a depender também das reformas internas e do investimento em tecnologia.
Japão e Coreia do Sul são exemplos de que se pode escapar dessa armadilha. Conclui José Alexandre Scheinkman: “Entendo a queixa da indústria com relação à perda de competitividade por causa do câmbio. Mas não será assim que resolveremos nossos problemas com a baixa produtividade”.
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José Júlio Senna, sócio da MCM Consultores e ex-diretor do BC (Foto: Mauro Nascimento / AE)
José Júlio Senna: “O governo e o BC aceitaram o aumento da inflação em troca de uma queda acentuada na taxa de juros e de um crescimento maior a curto prazo. Temo que pressões inflacionárias latentes sejam sentidas mais adiante, porém não prevejo uma explosão dos preços a curto prazo.”
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Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) (Foto: Guenter Schiffmann / Bloomberg News / Landow)
Barry Eichengreen:“As perspectivas são favoráveis, mas o Brasil precisa se esforçar mais. Os países que mantiveram taxas elevadas de crescimento por um período prolongado investiram pesado em educação (mais do que o Brasil tem feito) e na infraestrutura (bem acima dos níveis brasileiros).”
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José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Princeton (EUA) (Foto: Gilberto Taday)
José Alexandre Scheinkman: “O Brasil passou por reformas importantes. Mas existem problemas sérios, como a falta de pesquisa tecnológica e a infraestrutura ruim, que se manifestam na baixa produtividade. Desde 1990, a produtividade cresceu 60% na Coreia do Sul e 50% na China. No Brasil, ela ficou estagnada.”
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Otaviano Canuto, vice-presidente do Banco Mundial ((Foto: Sérgio Lima / FolhaPress)
Otaviano Canuto: “A questão da instabilidade econômica foi resolvida. É hora de retomar as reformas estruturais e atacar os gargalos que impedem o aumento da produtividade. Quanto antes retomarmos essa agenda, melhor.”
(Reportagem de Giuliano Guandalini publicada na edição impressa de VEJA)

15 março 2012

Finalmente descobri o ladrão da borracha amazônica

Em post de Ricardo Setti (Veja.com):

Vejam a foto, leiam o texto: este bigodudo foi quem roubou a borracha brasileira — e acabou com a fabulosa prosperidade da Amazônia no século XIX

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VILÃO E HERÓI -- O aventureiro ingles Wickham, o Cavaleiro britânico que levou a Amazônia à falência (Foto: Dedoc)

O PIRATA AMAZÔNICO
Um jornalista americano narra as aventuras e desventuras do inglês que traficou para seu país sementes de seringueira e pôs fim ao ciclo da borracha no Brasil.
Capa: O ladrão no fim do mundo
Capa de "O Ladrão no Fim do Mundo"
Era início da estação seca de 1876. O chamado verão amazônico, quando o transatlântico SS Amazonas fundeou em uma enseada de águas turquesa no Rio Tapajós, em frente à Vila de Boim, no Pará.
O vapor da companhia inglesa Inman Line ancorou em uma área remota da selva. Sem porto, para receber uma carga secreta. Foram embarcadas em centenas de cestos de palha 70.000 sementes deHevea brasiliensis, a seringueira.
A operação em um vilarejo escondido na floresta foi coordenada pelo inglês Henry Wickham (1846-1928) – um aventureiro que, depois de mais de uma década de desditas pela Amazônia, foi contratado pela Coroa para traficar as sementes do Brasil.
Essa história é contada em O Ladrão no Fim do Mundo (tradução de Saulo Adriano; Objetiva; 458 páginas; 49,90 reais), do jornalista americano Joe Jackson. O livro descreve como o sonho de Wickham de imitar os grandes exploradores foi usado para perpetrar a mais bem-sucedida e a mais danosa ação de biopirataria já registrada em solo brasileiro.
O roubo de Wickham viria a encerrar uma fase próspera da economia do Norte brasileiro, o chamado ciclo da borracha. No momento em que ele surripiou as sementes, o Brasil respondia por 95% da produção global de látex, matéria-prima da borracha, e as metrópoles amazônicas do fim do século XIX, Belém e Manaus, viviam sua belle époque.
Desenho de Wickham, de uma folha de seringueira
Uma folha de seringueira, conforme desenho de Wickham (Imagem: Dedoc / Editora Abril)
Da riqueza à decadência
Em 1896, a capital do Amazonas se tornou a segunda cidade brasileira a possuir uma rede pública de iluminação elétrica. No mesmo ano,  começaram a circular pelas ruas os primeiros bondes elétricos.
Em 1878, os belenenses inauguravam o Teatro da Paz. Dezoito anos depois, Manaus ganhava o Teatro Amazonas. As duas casas se transformaram nos símbolos do fausto em que viviam os amazônidas. Companhias europeias de ópera desconhecidas dos cariocas e paulistas se apresentavam nos palcos da floresta.
Mas as sementes roubadas por Wickham e levadas para o Jardim Botânico de Londres germinaram. Transportadas para as paragens tropicais abrangidas pelo império britânico – o Ceilão (atual Sri Lanka) e a Malásia -, as plantas vingaram, e 2.000 mudas deram origem ao primeiro seringal fora dos limites da inóspita Floresta Amazônica.
Silenciosamente, dava-se início ao fim da riqueza do vale amazônico.

Wickham recebeu 700 libras pelo trabalho (em valores atualizados, cerca de 158.000 reais).
Restariam ao Brasil mais trinta anos de domínio do mercado da borracha: foi esse o tempo necessário para que as árvores atingissem a maturidade no Extremo Oriente. Ultrapassado esse período de maturação. O látex produzido de forma intensiva nos seringais ingleses invadiu o mercado.
Mais barata que a borracha “selvagem” produzida à base da seiva extraída de árvores nativas espalhadas pela floresta, a produção intensiva dos ingleses arruinou a economia gomífera brasileira. A debacle da Amazônia foi rápida. Em 1928, a região atendia a apenas 2,3% do consumo mundial. Os investimentos e as empresas seringalistas se mudaram para a Ásia, e o desemprego tomou conta das cidades antes prósperas.
Responsável pela ascensão da indústria da borracha, Wickham chegou à velhice no esquecimento. Tentou encontrar a riqueza na Inglaterra e na Papua-Nova Guiné, mas se afundou em dívidas ao apostar em empreendimentos fracassados.
Viveu amargurado pela falta de reconhecimento por seu feito. Somente em 1911, aos 65 anos, ganhou da Associação Inglesa dos Plantadores de Borracha 1.000 libras como prêmio. Também naquele ano, viajou para o Ceilão, onde viu a plantação de seringueiras resultante de seu roubo.
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Wickham e uma das seringueiras resultante de seu roubo das sementes brasileiras (Foto: Dedoc / Editora Abril)
Morreu pobre, e, então, a Amazônia já estava mergulhada na miséria
Na fotografia acima, Wickham aparece apoiado em uma das árvores que brotaram de “suas sementes”.
O gigante de quase 30 metros de altura produziu 168 quilos de borracha entre 1909 e 1913. 

O reconhecimento oficial só veio aos 74 anos, quando Wickham recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico.
No ano de sua morte, em 1928, ele era um homem pobre, e a Amazônia já se encontrava mergulhada na miséria.
Hoje. Um século depois de a Inglaterra quebrar o monopólio brasileiro da borracha, a região ainda se debate na tentativa de se reerguer. Wickham não poderia tê-lo calculado, mas seu ato condenaria ao atraso uma das mais exuberantes regiões do planeta.
(Resenha de Leonardo Coutinho publicada na edição impressa deVEJA)