São Paulo, 31 de março de 2010
Queria dar o meu boa tarde a todos e a todas. Em primeiro lugar saudar minha mulher Monica. Meus filhos Verônica e Luciano. Minhas tias, meus netos. Queria saudar o vice governador Alberto Goldman, deputado Barros Munhoz, presidente da Assembléia Legislativa, os ex governadores Geraldo Alckmin, Orestes Quércia, o ex governador Mendonça Filho, de Pernambuco, que também nos honra com sua presença, o prefeito da capital, Gilberto Kassab, a vice prefeita Alda Marco Antônio. O ex ministro do Governo Fernando Henrique Cardoso e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, Celso Lafer.
Queria saudar os Senadores, nossos amigos Kátia Abreu, Alvaro Dias, Marisa Serrano, Sérgio Guerra, Flávio Arns, Cícero Lucena, Flexa Ribeiro e Tasso Jereissati. Olha aí Tasso como você é popular aqui. O meu amigo constituinte, meu amigo no Senado Roberto Freire. Os deputados Federais Mendes Thame, Valter Ioshi, Dimas Ramalho, Julio Semeghini, Ricardo Tripoli, Jorginho Maluly, Arnaldo Madeira, Lobby Neto, Edson Aparecido, José Carlos Stangarlini, Silvio Torres, Eleuseus Paiva, Duarte Nogueira, William Woo, Vanderlei Macris, José Anibal, Bispo Ge, Otávio Leite, Paulo Bornhausen e líder do DEM na Câmara Federal Albano Franco. Presidente Nacional do DEM e Deputado Federal Rodrigo Maia, deputados Estaduais Pedro Tobias, Luciano Batista, Haifa Maidi José Augusto, Maria Lúcia Amary, Orlando Morando, João Caramez, Rogério Nogueira, Samuel Moreira, Davi Zaia, Milton Flávio, Analice Fernandes, Fernando Capez, Bruno Covas, Eli Côrrea Filho, Vanessa Damo, Milton Leite Filho, Rodrigo Garcia, Jonas Donizette, Estevão Galvão, Edmir Chedid, Roberto Engler, Uebe Rezeck, Gilmaci Santos, Celso Giglio, Vaz de Lima.
Como você vê Munhoz, poderia deliberar aqui. Podíamos aprovar aqui as coisas mais urgentes.
Queria também saudar os deputados estaduais também aqui presentes: Lelis Trajano, Cássio Navarro e Celino Cardozo, Salim Curiati, cadê o Curiati? Nosso amigo,
ex colega deputado e meu amigo.
Secretários de Estado aqui presentes, todos. Da Casa Civil, Aloysio Nunes. Da Justiça, secretário da Justiça e, posso dizer aqui, futuro chefe da Casa Civil, Luiz Antônio Marrey. Nosso secretário de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin. Eu vou pedir um pouco de palmas emprestadas para o Aloysio e para o Alckmin.
Secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa. De Economia e Planejamento, Francisco Luna. Saneamento e Energia, Dilma Pena. Dos Transportes, Mauro Arce. Da Educação, Paulo Renato de Souza. Secretário da Saúde, o hoje popular Luiz Roberto Barradas. Da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto. Da Habitação, Lair Krähenbühl. Da Gestão Pública, Sidney Beraldo. Do Emprego e Trabalho, Guilherme Afif Domingos. Dos Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella. Da Agricultura, João Sampaio. Da Assistência e Desenvolvimento Social, a Rita Passos. Da Administração Penitenciária, como vocês sabem é o cargo menos estressante do Estado, o Lourival Gomes.
Nosso secretário da Cultura e o mais vivo de todos os secretários, porque conseguiu triplicar o orçamento em quatro anos, João Sayad. Nosso secretário do Meio Ambiente, Xico Graziano. Nosso secretário de Esportes, Lazer e Turismo, Claury Alves da Silva. O chefe da Casa Militar, coronel Luiz Massao Kita. Secretário de Ensino Superior, Carlos Vogt. Secretário de Relações Institucionais, José Henrique Reis Lobo. Secretário de Comunicação, Bruno Caetano. Secretária das Pessoas com Deficiência, Linamara Battistella.
Queria também saudar os deputados estaduais Said Murad, Edson Ferrarini, Vinícius Camarinha, Roberto Massafera, Aldo Demarchi e Roberto Moraes. Saudar também meu amigo ministro grande líder durante os anos da redemocratização, Pimenta da Veiga, que nos acompanha hoje. Saudar os representantes do corpo diplomático, do corpo consular. Saudar os prefeitos e prefeitas de todo o Estado de São Paulo.
Os secretários municipais e subprefeitos representantes de associações, entidades de classes, lideranças, autoridades civis, militares, religiosas, representantes dos partidos políticos, dos meios de comunicação, líderes comunitários.
Nesta prestação de contas hoje aqui eu não vou fazer um balanço abrangente, pelo menos na minha expectativa, um balanço abrangente e detalhado. Seria demasiado longo e também porque o nosso Governo ainda não terminou. Temos ainda nove meses com muitas ações, inaugurações e cumprimento de metas firmadas com a população de São Paulo. Nós vamos ter, logo mais, um novo governador. Um homem que me acompanhou muito de perto nestes anos. Ele conhece tudo do Governo. As prioridades. É um homem que conhece a vida, um homem íntegro, um engenheiro, um democrata, para usar um termo que saiu da moda, mas que para mim tem muito significado: um patriota. Um homem que tem história e que tem preparo, que todos conhecem, nosso Alberto Goldman.
Eu vou aqui falar também de valores, de princípios. Dos critérios que orientaram estes 39 meses e que continuarão, vão continuar, a ser o norte dos próximos nove meses. Mas vou mencionar também várias das nossas ações, mais como exemplos e também porque, com toda a sinceridade, eu me orgulho do que fizemos, do que estamos fazendo e do que ainda faremos.
Eu acho que os governos, como as pessoas, têm que ter caráter. Caráter e índole. E este caráter se expressa na maneira de ser e na maneira de agir. Este é um governo de caráter, que manteve a sua coerência, não cedeu à demagogia, a soluções fáceis e erradas para problemas difíceis. Nem se deixou pautar por particularismos e mesquinharias.
Eu venho de longe. E se tive, ao longo da vida, uma obsessão, sou considerado um grande obsessivo. Mas a minha maior obsessão sempre foi servir aos interesses gerais do Estado de São Paulo e do meu país, o Brasil.
Eu estou convencido que o governo, como as pessoas, tem que ter honra. E assim falo não apenas porque aqui não se cultiva escândalos, malfeitos, roubalheira, mas também porque nunca incentivamos o silêncio da cumplicidade e da conivência com o mal feito.
Agora, nós fizemos um governo honrado também porque não fraudamos a vontade popular. Nós honramos os votos dos paulistas, seu espírito empreendedor. Este povo que é amante da justiça, que tem disposição de enfrentar desafios e de vencê los com trabalho sério e consequente. Os paulistas, hoje, são gente de todo o Brasil. Aqui estão todos os brasileiros trabalhando pela riqueza de São Paulo e do nosso país.
Nós repudiamos sempre a espetacularização, a busca da notícia fácil, o protagonismo sem substância que alimenta mitologias. Este governo sabe que não tem nenhuma contradição entre minorar as dificuldades dos que mais sofrem e planejar o futuro.
Muitos, ao longo da vida, ao longo da minha vida pública, me aconselharam, digamos assim, a ser mais atirado, a buscar mais os holofotes, a ser notícia. Dizem alguns que o estilo é o homem. E o meu estilo, se me permite, é este. Eu procuro ser sério, mas não sou sisudo. Quem me conhece sabe disso. Realista, mas não sou pessimista. Calmo, mas, não omisso. Otimista, mas não leviano. Monitor, não centralizador. Aqui está todo o meu secretariado para dar o testemunho de que eu não sou centralizador.
O pessoal, o pessoal de Brasília, sorri ironicamente. Mas o pessoal de São Paulo acredita nisso. Os que convivem comigo acreditam que eu não sou centralizador. Eu sei que é difícil passar essa ideia, mas é a verdadeira.
Eu acho que os governos, como as pessoas, têm que ter personalidade, têm que ter brio profissional. E eu sempre me empenhei em formar boas equipes de trabalho. Desde quando fui líder estudantil, pesquisador fora, no exterior, professor universitário,
secretário de Economia e Planejamento do (Franco) Montoro, no Congresso Nacional, nos Ministérios do Planejamento e da Saúde do governo Fernando Henrique, na Prefeitura da capital e agora no Governo do Estado.
Além das qualidades de cada um dos seus integrantes, que são imensas, a boa equipe necessita de um norte claro, sempre claro de quem está no comando. Necessita do acompanhamento próximo das formulações e da execução das ações. Necessita do incentivo para inovar, do apoio nos momentos mais difíceis e do desestímulo aos possíveis e previsíveis conflitos entre os seus integrantes, o que é natural. Eu sempre tive aversão àquelas teses de dividir para governar. Trazer, convidar fulano para se contrapor a sicrano. Em vez de ter uma resultante positiva perde se e já se perdeu muito na vida pública brasileira em razão dessa verdadeira anomalia do dividir para governar. (Isso) prejudicou muito a política e a administração no nosso país.
Aqui na nossa equipe de governo, sem exceção, pouco importa o papel de cada um. Todos têm liberdade para trabalhar, para aparecer. Agora, todos repudiamos o conformismo, conformismo imobilista. Procuramos sempre alargar os limites daquilo que é percebido como possível, que é o lema do meu governo. Brio profissional significa preparo, coragem, inconformismo, inovação, luta permanente para construir um presente e um futuro melhor para o nosso povo.
Mas eu acho também que o governo, como as pessoas, tem que ter alma, minha gente. Aquela força imaterial que os impulsiona e diz a forma, alma. A nossa alma, a alma deste governo que inspira todas as nossas ações, essa vontade de melhorar a vida das pessoas que querem uma chance, que dependem de um trabalho honesto para viver, que estão desamparadas, é essa vontade de criar condições para que todos possam se realizar na plenitude das suas possibilidades, que tenham oportunidade de estudar, de ter acesso à cultura, de trabalhar com saúde física e espiritual. Essa é a vontade, esta é a nossa alma, é a alma do nosso governo.
Os governos, como as pessoas, têm que ter sensibilidade para agir e compensar as desigualdades. O nosso governo é um governo popular, que se orgulha de ampliar o bem estar e as oportunidades dos mais pobres com seus programas sociais como o Viva Leite, Renda Cidadã, o Quero Vida, dos idosos, o Ação Jovem, o Bom Prato, as Escolas Técnicas, o Programa de Qualificação do trabalhador, o Emprega São Paulo, o piso salarial - que é bem maior do que o mínimo nacional.
Na crise nós agimos com rapidez e geramos, apenas em São Paulo, quase um milhão de empregos diretos e indiretos com os nossos investimentos. Com isso, estamos alavancando o desenvolvimento e oferecendo trabalho, ocupação para as pessoas. Este governo, que é um governo popular, se orgulha de retribuir renda também por intermédio da ampliação qualitativa, que é muito importante e quantitativa, do atendimento à saúde, da educação, do transporte coletivo, das novas moradias, da cultura, do esporte, do meio ambiente mais saudável.
Os governos, como as pessoas, têm de ser solidários e prestar atenção às grandes questões que dizem respeito ao futuro do país e do mundo. Mas também adotar as medidas que respondem aos problemas aparentemente pequenos das pessoas. Para elas, como eu disse sempre, aqueles pequenos problemas são sempre muito grandes. Olha, um dos momentos mais emocionantes do meu governo foi quando eu visitei um projeto habitacional que nós criamos, as Vilas Dignidade. Moradias decentes para idosos abandonados tomarem conta da suas vidas com assistência das prefeituras locais.
Lembro me também, e este foi insuperável, das plataformas nas praias, das cadeiras especiais que permitem às pessoas com deficiência tomar um banho de mar. Até isso nós fizemos. Vão dizer: É uma coisa pequena… Pois, para essas pessoas, é uma coisa imensa! Quem dera a vida fosse para todos nós o primeiro banho de mar.
Governos, como as pessoas, têm que ter compromisso com a responsabilidade e com a felicidade. Este é o fio condutor da nossa ação. Sabem qual foi o outro grande momento do nosso governo?
Foi ontem, na inauguração do Rodoanel, do trecho sul. Não foi apenas um grande momento devido a obra que, aliás, expressa o que a nossa engenharia tem de melhor. Ver para crer. Mas, quando eu visitei o canteiro, tempos atrás, eu sugeri, nem lembro para quem, falei para o Mauro Arce, falei para o pessoal que estava lá, que fosse feito e exibido um painel ao lado do memorial que eles fizeram com o nome dos milhares de trabalhadores que fizeram a obra. O nome deles.
E quando eu fui lá ontem, francamente, eu nem sabia que esse painel, este muro, já tinha ficado pronto. Mas a emoção me dominou quando, no fim da solenidade de inauguração, aquela onda, a movimentação, o operário me pegou e me mostrou, orgulhoso, onde estava o nome dele. “Olha, meu nome está aqui”.
Eu não pude deixar de me lembrar de uma poesia do Vinícius de Morais, que eu, espero que acreditem, eu também fiz teatro, não é? Fui diretor de teatro na Escola Politécnica. E lá nós tínhamos os jograis, jograis nacionais de São Paulo e os da Politécnica.
Aprendi muita poesia. Eu me lembrei de uma poesia do Vinícius que eu sabia de memória, até hoje eu sei quase toda de memória. Chamada “O Operário em Construção”. Ele dizia: “Pareceu me, então, que até aquele momento ele, o operário, desconhecia esse fato extraordinário, que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Casa, cidade, nação… Tudo o que existia era ele quem o fazia, ele, um humilde operário, um operário que sabia exercer a sua profissão. Eu me senti muito realizado, muito emocionado e pensei comigo: “Olha…Valeu à pena”.
Mas voltando à questão do governo, eu quero dizer que eu acredito piamente no planejamento. Nós organizamos as finanças do Estado. Praticamos uma rigorosa austeridade fiscal. Herdamos nesse aspecto e renovamos os padrões do nosso querido e saudoso Mário Covas e do Geraldo Alckmin.
Recebemos deles a herança bendita de um estado financeiramente arrumado. Eu quero expressar o meu reconhecimento público à memória de um e ao outro que está aqui presente.
A austeridade…
Austeridade para nós não é mesquinharia econômica não, austeridade é cortar desperdícios, reduzir custos precisamente para se fazer mais com aquilo que se dispõe. Não é para guardar o dinheiro numa burra e deixar longe das necessidades. Pelo contrário: é para extrair mais de cada unidade de dinheiro, de cada real. Mais ainda, a nossa área econômica dedicada e criativa conseguiu ampliar os recursos sem aumentar impostos, apesar de todas as reclamações contra o secretário da Fazenda Mauro Ricardo. O que ele fez foi combater a sonegação, não aumentar imposto. Pelo contrário, diminuímos a carga tributária individual e desoneramos setores chaves da nossa economia, como a indústria têxtil ainda no começo desta semana.
Foi por isso mesmo que nós conseguimos, em valores nominais, triplicar os investimentos do governo de São Paulo nesses quatro anos. Multiplicar por três.
Fizemos investimentos. Vejam bem, não gastança. O maior investimento da nossa história, aproximadamente 64 bilhões de reais até o final deste ano. E com prioridades. Há uma constatação que é terrível aqui no Brasil, segundo a qual os governos investem pouco em saneamento porque se trata de dinheiro enterrado. Pois este é um governo que não hesitou em enterrar e vai enterrar até o final deste ano perto de sete bilhões de reais em saneamento. E ao fazê lo, está semeando saúde e renovando o seu compromisso com o avanço do Estado e do País.
Nenhum compromisso com a sociedade espetáculo, compromisso com a saúde do nosso povo, o nosso Meio Ambiente. Aliás, a prioridade à saúde se traduziu em dez novos hospitais na rede pública. Dez novos hospitais estaduais, novas fábricas de remédio e de vacina, ampliação do programa do remédio de graça, que é o Dose Certa. Ampliação da distribuição de medicamentos de alto custo. A montagem desta rede de Ambulatórios Médicos de Especialidades, uma inovação na saúde brasileira. Nós pensamos e agimos sempre voltado a coisas da saúde, do emprego, da educação, da segurança. Fizemos um enorme esforço para ampliar a infraestrutura do desenvolvimento: o Rodoanel, estradas vicinais, metrô, trens, porque tudo isso é importante para a expansão da produção, do emprego e do conforto daqueles que dependem de transporte coletivo. Não só infraestrutura para hoje, mas infraestrutura também para o futuro pelo que traz de condição para o Estado e o Brasil progredirem. Eu, na gestão pública, acredito no mérito, na gestão por resultados e na educação. Pela primeira vez no Brasil foram fixadas metas de avanço escola por escola. Cada escola do Estado foi objeto de uma meta pré fixada a cada ano.
E os professores e servidores estão ganhando mais, ganharão mais e progredirão na carreira, segundo o seu próprio esforço e o seu desempenho. Nós demos prioridade à melhoria da qualidade do ensino, que exige reforçar o aprendizado na sala de aula. Sala de aula esta onde eu estive presente, sempre, na Prefeitura e no Estado dando aula para a quarta série do ensino fundamental. Cada vez numa escola. Foi lá que, fora a teoria, a leitura e as observações, eu me convenci de que o problema número um do ensino é o aprendizado na sala de aula: prédios, merenda, transporte escolar, uniformes, material escolar. Tudo isso é muito importante, mas nada substitui a qualidade da sala de aula. Isso eu aprendi dando aula para a garotada. Inclusive os materiais de estudo e os guias para professores que nós preparamos vieram desta minha observação direta. Porque os alunos não tinham por onde estudar e os professores não tinham um guia que pudesse orientá los. Este fez parte do grande Programa Ler e Escrever, da Maria Helena Guimarães de Castro e tão bem consolidado e ampliado pelo Paulo Renato.
Mas nós demos também uma imensa prioridade ao ensino técnico, mais do que dobrando as vagas nas Escolas Técnicas e as unidades das Faculdades de Tecnologia. Implantamos novos cursos. Só nas Escolas Técnicas são 84 variedades de cursos adaptados às realidades regionais. Nós encontramos setenta e tantos mil alunos e vamos deixar mais de cento e setenta mil vagas. Nas Faculdades de Tecnologia, encontramos 26. O Alckmin passou de nove para 26. E nós levamos de vinte e seis para mais de 52 neste período de governo. Não é à toa que aqui em São Paulo se diz: este é o ensino que vira emprego.
E nós fizemos isto tudo porque acreditamos em prioridades. Washington Luiz foi, antes de ser presidente, governador de São Paulo. Presidente da província. Tem os quadros dele aqui no Palácio, seus retratos. E ele dizia que governar era abrir estradas. Mas, para nós, hoje, o lema não é governar é abrir estradas, o lema é outro: governar é saber quais estradas nós vamos abrir. Governar é saber quais estradas vamos abrir de asfalto, terra, cimento e para onde. E metaforicamente, quais estradas nós vamos abrir na saúde, na educação, na segurança ou no saneamento. Eu, todos que me conhecem, me acompanham sabem disso, acredito muito em inovação. E foi imensa a ênfase que temos dado às pesquisas que servem não apenas para São Paulo, mas, ao Brasil. Um instituto como o agronômico de Campinas era o único instituto de pesquisa agropecuárias que havia no Brasil até a criação da EMBRAPA, nos anos 70. O João Sampaio e o Xico Graziano, provavelmente exagerando, me diziam que 60 a 70% das variedades agrícolas produzidas hoje no Brasil tiveram a marca do Instituto de Agronomia de Campinas, que foi criado por D. Pedro II. São Paulo sempre teve atividades de pesquisa que serviram ao Estado e ao nosso País.
Nós turbinamos as pesquisas na saúde, na agropecuária e no IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), num trabalho iniciado pelo Goldman, quando foi Secretário de Desenvolvimento. O IPT que é um instituto de excelência nacional e internacional e que tem, por exemplo, como seu principal cliente hoje a Petrobras, está recebendo os maiores investimentos de toda a sua história. São 150 bilhões de reais quando este ciclo ficar completo. Vão ter efeitos que vão se estender por décadas no nosso Estado e no Brasil.
Na nanotecnologia, em pesquisas sobre materiais leves, na Bioenergia e tantas outras coisas. Mas, no governo, nós praticamos também e intensamente as inovações. Inovações que vão da Nota Fiscal Paulista aos avanços do Governo Eletrônico, da ambiciosa Lei de Mudanças Climáticas de São Paulo que é a mais avançada do hemisfério Sul, ao moderno Instituto do Câncer, onde se faz pesquisa também. E a solução criativa e inovadora, eu insisto, dos Ambulatórios Médicos de Especialidades.
Da inovação do ensino técnico feito em salas de aula ociosas nas escolas estaduais e municipais ao novo centro de reabilitação, a nova rede de reabilitação Lucy Montoro, criada pela nossa secretária Linamara. Reabilitação para o deficiente físico: são quatro milhões no Estado de São Paulo. Inovações que vão da Universidade Virtual, cujos cursos já começaram, aos dois professores por sala de aula na primeira série do Ensino Fundamental. Inovações que vão do acesso à escola ao protocolo agroambiental que está terminando com as queimadas na lavoura da cana de açúcar e chega à linha de financiamento inovadora, nova, diferente: a Economia Verde, que foi aberta há poucas semanas. Inovações que vão da expansão e da melhora da qualidade da defesa do consumidor e ao novo e bem sucedido modelo da Fundação CASA, antiga Febem. Que vão da Virada Cultural aos museus do Futebol, ao Catavento que é tecnologia para crianças e adolescentes e ao Museu da História de São Paulo, que está sendo feito.
Do programa de recuperação da Serra do Mar, em Cubatão, às novas escolas de dança e teatro e a essa extraordinária Biblioteca São Paulo. Lá onde era o Carandiru, o lugar que vale à pena visitar para ver o que é que se fez em matéria de acessibilidade de biblioteca às pessoas com deficiência física.Inovação que vai das novas modalidades da CDHU às câmaras de monitoramento da segurança e a proibição do fumo em ambientes públicos fechados.
O Goldman, depois dessa, não pôde mais fumar nem no banheiro do seu gabinete. Pelo menos, as câmeras postas secretas lá mostraram que ele interrompeu isso, ele não sabe, agora ficou sabendo que tinha câmeras secretas olhando. Mas, os filmes todos são destruídos a cada dia, não se preocupe. Inovações que vão de um novo modelo de diagnóstico por imagens, né? Aquele modelo em que numa sala ficam concentrados grandes especialistas em análise de imagem da saúde fazendo o diagnóstico para o Estado inteiro em coisa de minutos. Uma economia imensa de recursos e um aumento imenso da eficiência. Que vão desta inovação ao que nós fizemos na verdadeira remodelação de toda a rede de estradas vicinais do Estado de São Paulo que os prefeitos conhecem tanto e sabem da importância que têm.
Governos têm que fazer isso mesmo. Botar o Estado para funcionar. Nós trabalhamos pesado nisso. E digo mais, com a ajuda dos servidores, dos verdadeiros servidores. Nós ganhamos produtividade em todas as áreas, na educação estão aí os resultados do Idesp - Índice de Desenvolvimento da Educação em São Paulo.
Na saúde, pesquisa recente feita diretamente com os usuários a respeito dos hospitais do SUS em São Paulo mostrou que a nota média dada é de 8,65 de índice de satisfação. Nos transportes, pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes mostrou que as dez melhores estradas do País estão em São Paulo e que 75% das nossas estradas são consideradas ótimas ou boas pelos usuários.
Mas, nada disso aconteceu por acaso. Aconteceu porque o governo planejou. Aconteceu porque o governo contou com o esforço e competência dos seus funcionários Funcionários que são servidores públicos de verdade, na melhor acepção da palavra e que dão o melhor de si quando recebem o incentivo de trabalho e dedicação dos dirigentes governamentais. Esta é a verdade.
Não há funcionário, servidor público que consiga trabalhar direito, se o exemplo não vem de cima. E, este exemplo, nós demos no cotidiano do nosso trabalho.
Eu acredito que a essência do Governo… Qual é a essência do Governo? É garantir a vida. É garantir os bens. Garantir a liberdade. Estes são direitos fundamentais do cidadão e da cidadã nos marcos do Estado de Direito. Agora, o direito à vida envolve muitas coisas, várias dimensões. Uma delas é a da preservação e a promoção da segurança pública. Nesta dimensão eu quero reafirmar que São Paulo inverteu, desde o final da década passada, dos anos 90, o aumento da criminalidade que é uma tendência nacional. Em dez anos, a redução da taxa de homicídios foi de 63%. Ou, segundo outros cálculos, até mais do que isso. Nos últimos três, foi de 27% o declínio. O esforço financeiro que nós fizemos nessa área tem sido enorme. O orçamento da Secretaria da Segurança Pública aumentou em mais de 40% do começo do nosso governo para cá.
Nós aceleramos a marcha do reaparelhamento tecnológico, reaparelhamento intelectual e moral das Polícias. Fortalecemos a sua reputação moral e profissional. Em primeiro lugar, mediante o reconhecimento do valor precioso de quem se dedica a proporcionar segurança ao povo correndo cotidianamente risco de vida. Quando foi o caso, nós promovemos sistemática investigação, apuração e, se necessário, afastamento dos maus elementos. Nós envolvemos a ação policial na recuperação de vizinhanças com forte presença do crime, organizando a Virada Social, em parceria com entidades não governamentais tão respeitadas quanto o Sou da Paz, que é nosso parceiro no trabalho da boa segurança em São Paulo. Do mesmo modo, contivemos os riscos da condução de veículos sob o efeito de bebidas alcoólicas, com resultados expressivos. Quero dizer, falando em Estado de Direito, que eu confio muito na democracia e o ingrediente dela é a relação entre os poderes. Aqui, a nossa relação com o Legislativo é transparente, em favor da população. No lugar de nomeações e cabides de emprego, a corresponsabilidade pelo investimento em todas as cidades do Estado. No nosso governo, deputados não nomeiam, nem nomearam, diretores de empresa ou secretários. No nosso governo, deputados ajudaram a estabelecer as prioridades para o desenvolvimento de São Paulo e o bem estar das pessoas.
Ficará registrada na história da Assembléia Legislativa e na biografia do nosso Chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes, com louvor, a grande produção Legislativa desse período. Por seu vulto e a sua relevância na vida dos paulistas. As principais iniciativas do governo foram, além de acolhidas, aprimoradas mediante emendas, sugestões, críticas e uma atitude positiva do conjunto dos nossos deputados.
Orgulho-me também da relação de respeito, cooperação e diálogo com o Tribunal de Justiça, com o Ministério Público de São Paulo e com o nosso Tribunal de Contas. Devo dizer, inclusive, que esta relação envolveu a substancial e possível expansão de obras e recursos orçamentários visando a modernização das suas práticas e serviços, tão essenciais à vida das pessoas e à nossa democracia. Mas quero, acima de tudo, hoje aqui dizer obrigado São Paulo. Pela chance que me foi dada… De governar um Estado como esse… Obrigado aos brasileiros que aqui nasceram ou que aqui residem por terem me dado a chance de tornar melhor a vida de milhões de pessoas. E de ter me tornado, por isso, eu acredito, um homem melhor do que eu era. Eu aprendi muito nesses 39 meses.
Aliás, a minha linha do tempo, desde criança até hoje, sempre foi preenchida por aprendizado. Eu não canso nunca de aprender. Eu sou um curioso insaciável pelas coisas da vida, pelo que acontece na sociedade. E quero dizer que eu aprendi muito com essa minha equipe do Governo de São Paulo. Por quê?
Porque eu sempre apreciei o valor da humildade intelectual. Humildade que foi muito bem sugerida por Guimarães Rosa. Nosso grande escritor mineiro disse: “Mestre não é quem ensina, mestre é quem, de repente, aprende”. Eu exerci o poder neste Estado sem discriminar ninguém. Os prefeitos sabem que sempre encontraram neste governador um interlocutor cujo norte era a defesa de políticas de Estado, independentemente da coloração partidária. No meu governo, nunca se olhou a cor da camisa partidária de prefeitos ou de parlamentares. Nunca. A cor da camisa do time de futebol até que se olhou, mas sem conseqüências, como demonstra o fato de que nesse secretariado há apenas dois palmeirenses. Dois. Três. Mas, voltando, nossos parlamentares, nossos opositores sabem desta nossa postura. Nossos administradores municipais não deixaram de testemunhar nossa atitude voltada a servir o interesse público. No Governo, a gente serve ao interesse público, nosso às máquinas partidárias, não à máquina do partido. Nós governamos para o povo e não para partidos.
Na minha vida pública, eu já fui Governo e já fui oposição. Quando nós criamos o PSDB, éramos oposição por todos os lados. Mas, de um lado ou do outro, nunca me dei à frivolidade das bravatas. Nunca investi no “quanto pior melhor”. Os meus colegas de partido sabem disso. Nunca exerci a política do ódio. Sempre desejei o êxito administrativo dos adversários quando no poder, pois isso significa querer o bem dos cidadãos, dos indivíduos. Uma postura que nunca me impediu de apresentar sugestões, até aos adversários quando no poder, e estimular que os nossos aliados fizessem, nos fóruns adequados, o embate político e o exercício democrático das diferenças.
Estes mesmos adversários, além dos aliados, podem atestar, jamais incentivei o confronto gratuito. Jamais mobilizei falanges de ódio. Jamais dei meu apoio a uma proposta, a uma ação política, porque elas seriam prejudiciais aos meus oponentes. Não sou assim. Não ajo assim. Não entendo assim o debate político.
E nisso não vou mudar. Ainda que venha ser alvo dessas mesmas falanges. Ao eventual ódio, eu reajo com serenidade de quem tem São Paulo e o Brasil no coração.
E que ninguém confunda esse amor com fraqueza. Que ninguém confunda esse amor com fraqueza. Ao contrário, esse amor é a base da minha firmeza, é a base da minha luta, ele orienta as minhas convicções. Outro dia me perguntaram se eu estaria triste de deixar este Governo e esta equipe também. Como é que eu poderia não estar triste? Gostaria até de prorrogar uns dias mais, mas estão aí os tribunais eleitorais devidamente rigorosos. Mas, dessa maneira eu não poderia deixar de estar triste pela saída. Mas, olhem, considerando o que a gente tem pela frente, considerando a tranquilidade que eu tenho na condução do Governo de São Paulo pelo(Alberto) Goldman e a nossa equipe, considerando os desafios que vamos encontrar, aí eu também me sinto alegre. Quando olho para trás e vejo que foi minha vida até agora repleta de muitas incertezas, riscos, desafios, meu espírito, francamente, se fortalece.
Lembro da minha infância, adolescência, num bairro operário, quando fui presidente da União Estadual dos Estudantes, aos 20, 21 anos, do exílio aos 22 anos de idade - só voltei ao Brasil com 36. Da UNICAMP, do Governo (Franco) Montoro, quando nós reconstruímos o Estado e demos a grande luta das Diretas (Já), lembro do auxílio que dei ao plano de Governo do Tancredo. O nosso querido Tancredo Neves. A Constituinte, a Câmara Federal. O Plano Real. O Senado. O Ministério do Planejamento e o Ministério da Saúde. Graças à confiança do Fernando Henrique(Cardoso). A Prefeitura da capital. A honra de ter sido o primeiro Governador eleito no primeiro turno na história de São Paulo.
Olhando para trás e vendo tudo o que participei, tudo o que tivemos, que fizemos, sinto ganhar bastante força para esta etapa seguinte, a etapa que nos espera. Vou ingressar nela, vou ingressar nessa etapa com muita disposição, com muita força, com muita confiança, muita fé, muita sinceridade e muito trabalho. Quero agradecer ao povo de São Paulo por essa confiança.
Até 1932, nosso Estado, em seu brasão, ostentava aquela frase em latim “não sou conduzido, conduz”. Esse era o lema de São Paulo, até a Revolução Constitucionalista de 32. Mas, desde então, a divisa mudou. A divisa passou a ser: “Pelo Brasil, façam se as grandes coisas”. É o papel, é o destino de São Paulo, construído por brasileiros de todas as partes do Brasil. E esta é também a nossa missão. Vamos juntos, o Brasil pode mais!
Olha, evidentemente alguma coisa tinha que ter ficado fora e eu vou corrigir a injustiça agora. Uma coisa que viabilizou o nosso Governo foi a nossa Advocacia, hoje chamada Procuradoria do Estado. Modernamente se chama assim, mas é a Advocacia do Estado que defende os interesses de São Paulo. Eu deixei de mencionar o grande condutor dessa Procuradoria, que é o Marcos Nusdeo, que conquistou para nós vitórias memoráveis no plano jurídico.
(no mezanino falando com o público)
Meus amigos, minhas amigas, nem sei o que dizer. Estou inteiramente dominado pela emoção. Muito difícil de articular frases para um discurso. Estou dizendo isto aqui com muita sinceridade. Quero agradecer imensamente a cada um de vocês, cujo valor da presença, inclusive, aumentou pelo fato de que não havia mais lugar no nosso auditório Ulysses Guimarães. Isto torna o entusiasmo, a alegria, a presença muito mais valiosos para mim.
Eu disse já e vou repetir aqui, eu não estou na vida pública, não persegui posições de poder por causa do prestígio, por causa da notoriedade, por causa da badalação, para ser o centro das atenções que caracterizam o exercício do poder, eu não estou na vida pública, por causa disso, sinceramente. Eu estou na vida pública por outro motivo. Eu estou na vida pública desde os 20 anos de idade para contribuir para que o nosso País mude para melhor! Para contribuir para que a desigualdade no Brasil seja reduzida. Para que nós ofereçamos oportunidades a quem precisa estudar, que quer estudar, quem precisa de um emprego ou às pessoas que estão desamparadas. A minha batalha é por essa abertura de oportunidades, ao nosso povo, que é um povo que não pede muito, é um povo trabalhador, honesto, que o que pede é oportunidade. E é esta igualdade de oportunidades que é o norte da minha atuação na vida pública.
E eu me sinto, depois de ter estado 39 meses à frente do Governo de São Paulo, revigorado, fortalecido porque nós fizemos as coisas acontecerem em São Paulo. Isso é o maior prêmio que eu poderia receber na minha vida. Fazer as coisas boas acontecerem. E elas não concluíram. Nós temos ainda nove meses de inaugurações. Temos nove meses de obras. Temos nove meses de inovações. Agora sob a condução de um homem preparado, que tem uma história digna de vida e tem uma militância de homem patriota, de homem que lutou pela democracia nos momentos quando lutar pela democracia significava prisão, senão, morte, o que aconteceu com muitos. Um homem que me acompanhou sempre no Governo e que, nos últimos quinze meses, esteve diretamente ao meu lado lidando com todas as questões do futuro e do dia a dia de São Paulo. De maneira que o nosso governo vai até 31 de dezembro. Agora, eu deixo, em função de uma nova etapa da minha vida, mas, quero dizer a vocês que se a minha terminasse hoje, eu me sentir ria recompensado por tudo aquilo que pude fazer.
Meus amigos, minhas amigas, nem sei o que dizer. Estou inteiramente dominado pela emoção. Muito difícil de articular frases para um discurso. Estou dizendo isto aqui com muita sinceridade. Quero agradecer imensamente a cada um de vocês, cujo valor da presença inclusive aumentou pelo fato de que não havia mais lugar no nosso auditório Ulysses Guimarães. Isto torna o entusiasmo, a alegria e a presença muito mais valiosos para mim.
Eu disse já e vou repetir aqui. Eu não estou na vida pública, não persegui posições de poder por causa do prestígio, por causa da notoriedade, por causa da badalação, para ser o centro das atenções que caracterizam o exercício do poder. Eu não estou na vida pública por causa disso, sinceramente. Eu estou na vida pública por outro motivo. Eu estou na vida pública desde 20 anos de idade para contribuir para que o nosso país mude para melhor!
Para contribuir para que a desigualdade no Brasil seja reduzida. Para que nós ofereçamos oportunidades a quem precisa estudar, quem quer estudar, quem precisa de um emprego ou às pessoas que estão desamparadas. A minha batalha é por essa abertura de oportunidades ao nosso povo, que é um povo que não pede muito, é um povo trabalhador, honesto, que o que pede é oportunidade. E é esta igualdade de oportunidades que é o norte da minha atuação na vida pública.
E eu me sinto, depois de ter estado 39 meses à frente do governo de São Paulo, revigorado, fortalecido, porque nós fizemos as coisas acontecerem em São Paulo.
Isso é o maior prêmio que eu poderia receber na minha vida. Fazer as coisas boas acontecerem. E elas não concluíram. Nós temos ainda nove meses de inaugurações. Temos nove meses de obras. Temos nove meses de inovações. Agora sob a condução de um homem preparado, que tem uma história digna de vida e tem uma militância de homem patriota, de homem que lutou pela democracia nos momentos quando lutar pela democracia significava prisão, senão, morte, o que aconteceu com muitos. Um homem que me acompanhou sempre no governo e que, nos últimos quinze meses, esteve diretamente ao meu lado lidando com todas as questões do futuro e do dia-a-dia de São Paulo. De maneira que o nosso governo vai até 31 de dezembro. Agora, eu o deixo, em função de uma nova etapa da minha vida. Mas quero dizer a vocês que se a minha vida terminasse hoje, eu me sentiria recompensado por tudo aquilo que pude fazer, me sentiria gratificado. Por tudo o que aprendi, por tudo o que fiz, por tudo o que eu contribui.
E, olha, se conseguimos fazer isto tudo, fazer todas essas coisas que eu citei no meu discurso, ou coisas que vocês sabem que não deu tempo nem de citar, se eu consegui fazer tudo isso foi porque nós contamos com o povo de São Paulo, do qual vocês que aqui estão são, neste momento, os representantes. Vocês, com esta alegria, esse entusiasmo.
E olhem, vocês, as pessoas comuns, as pessoas que vivem no seu trabalho, vocês, os vereadores de São Paulo, que eu deixei de mencionar no meu discurso, não porque não pensasse neles, porque estou tão acostumado a tê los do lado que, às vezes, a gente pensa que eles estão integrados à nossa personalidade e às minhas palavras. Mas, todos aqueles que militam no Legislativo, na administração pública municipal, na administração estadual, no setor privado, todos os paulistas nascidos ou não em São Paulo que ajudaram a viabilizar esta nossa obra, que é uma obra do povo de São Paulo.
Quando ontem eu fui ao Rodoanel, eu tinha dado a idéia, como disse no discurso, de se fazer um painel com o nome de todos os trabalhadores do Rodoanel. Aí eu percebi como aquele operário, a partir do momento em que o seu nome foi fixado lá e que ele me levou para mostrar, ele teve a consciência de que quem constrói São Paulo, quem constrói o seu desenvolvimento, quem ajuda o Brasil são aqueles que trabalham no dia-a-dia, de maneira honesta, de maneira sacrificada.
E que são os verdadeiros artesãos. Cada um deles é um verdadeiro artesão da construção do nosso Estado, do nosso país. E da construção, da elaboração daquelas coisas capazes de melhorar a vida das pessoas. De melhorar, de aumentar a felicidade das pessoas. E a minha vida está dedicada a isso. Eu só estou feliz quando estou contribuindo para a felicidade alheia. Estejam certos de que hoje eu saio muito gratificado neste encontro comigo mesmo. Muito obrigado!
No Brasil, onde faltam a cólera e a ira santas, quem, senão elas, hão de expulsar do Templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? Ou exterminarão da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? Ou banirão da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, senão elas, a varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão públicos? Quem, senão elas, a precipitar do governo o negocismo, a prostituição política e a tirania? (Rui Barbosa)
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31 março 2010
Adolph Hitler, um homem de esquerda
Hitler dedica todo um capítulo à deliberada exploração que os nazistas fizeram das idéias, da retórica e das imagens socialistas e comunistas e relata como esse marketing confundiu tanto liberais quanto comunistas. O exemplo mais básico é o uso nazista da cor vermelha, que estava firmemente associada a bolchevismo e socialismo. “Escolhemos o vermelho para nossos cartazes após uma especial e cuidadosa deliberação… de modo a chamar a atenção deles e tentá-los a vir aos nossos encontros… para que tivéssemos uma oportunidade de conversar.” A bandeira nazista - uma suástica negra dentro de um disco branco num fundo vermelho - era explicitamente destinada a atrair comunistas. “No vermelho nós vemos a idéia social do movimento, no branco a idéia nacionalista e na suástica a missão de lutar pela vitória do homem ariano.”
Os nazistas tomaram emprestadas seções inteiras do manual de estratégia dos comunistas. Membros do partido - homens e mulheres - eram chamados de “camaradas”. Hitler recorda como seus apelos aos “proletários com consciência de classe” que queriam se lançar contra a “agitação monarquista, reacionária, com a força dos punhos do proletariado” tiveram sucesso em atrair inúmeros comunistas para as reuniões nazistas. Às vezes, os comunistas chegavam com ordens de arrasar o lugar. Mas os vermelhos com freqüência se recusavam a obedecer ao comando porque haviam sido ganhos pela causa dos nacional-socialistas. Em suma, a batalha entre os nazistas e os comunistas era um caso de dois cães lutando pelo mesmo osso.
A política nazista de uma nação única apelava, por sua própria definição, a pessoas de todos os tipos. Professores, estudantes e funcionários públicos davam um apoio desproporcional à causa nazista. Mas é importante se ter uma idéia do tipo de gente que constituía os seguidores do nazismo, os jovens, freqüentemente agressivos e violentos, que verdadeiramente acreditavam no que faziam, lutando nas ruas e se dedicando à revolução. Patrick Leigh Fermor, um jovem britânico que viajava pela Alemanha logo depois do Hitler subir ao poder, encontrou alguns desses homens num bar de trabalhadores do Reno, ainda usando seus macacões do turno da noite. Um de seus novos companheiro de bar o convidou a passar a noite em sua casa. Quando subia a escada do sótão para dormir numa cama de hóspedes, ele deu com “um santuário dedicado ao culto hitleriano”:
As paredes estavam cobertas com bandeiras, fotos, pôsteres, slogans e emblemas. O uniforme da SA, muito bem passado, estava pendurado num cabide… Quando eu disse que ali devia ser muito claustrofóbico, com todas aquelas coisas nas paredes, ele riu, sentou-se na cama e disse: “Homem! Você devia ter visto isso no ano passado! Teria morrido de rir! Estava coberto de bandeiras vermelhas, estrelas, martelos, foices, fotos de Lênin e Stálin e ‘Trabalhadores do mundo, uni-vos!…’ Então, de repente, quando Hitler chegou ao poder, compreendi que tudo não passava de disparates e mentiras. Entendi que Adolf era meu homem. Tudo assim, de repente!” Estalou os dedos no ar. “E aqui estou eu”… E muita gente fez o mesmo naquela época? “Milhões! Eu lhe digo, fiquei espantado com a facilidade com que todos mudaram de lado!”
Mesmo depois de Hitler tomar o poder e tornar-se mais receptivo aos apelos dos homens de negócio - as demandas de sua máquina de guerra exigiam não menos que isso -, a propaganda do partido ainda era contínua e sistematicamente voltada para os trabalhadores. Hitler sempre enfatizava (e flagrantemente exagerava) sua condição de “ex-operário”. Com freqüência, aparecia em mangas de camisa e conversava informalmente com operários alemães: “Na juventude, fui um trabalhador como vocês, lentamente abrindo caminho com o esforço, com o estudo e, acho que posso dizer também, com a fome.” Como pretenso Volkskanzler, ou “chanceler do povo”, ele sabia tocar todas as notas da escala populista.
Um de seus primeiros atos oficiais foi a recusa de um doutorado honorário. Um catecismo nazista perguntava: “Que profissões teve Adolf Hitler?” A resposta esperada era: “Adolf Hitler era um trabalhador da construção civil, um artista e um estudante.” Em 1939, quando a nova Chancelaria foi construída, Hitler saudou primeiro os operários da construção e deu aos pedreiros retratos seus e cestas de frutas. Prometeu “carros do povo” para todos os trabalhadores. Não conseguiu entregá-los a tempo, mas acabaram se tornando os Volkswagens que todos conhecemos hoje. Os nazistas eram brilhantes quando argumentavam a favor da política de uma nação única na qual um camponês e um homem de negócios tinham o mesmo valor. Nos ralis nazistas, os organizadores nunca permitiam que um aristocrata falasse a menos que estivesse acompanhado de um camponês humilde vindo do mato.
Os nazistas tomaram emprestadas seções inteiras do manual de estratégia dos comunistas. Membros do partido - homens e mulheres - eram chamados de “camaradas”. Hitler recorda como seus apelos aos “proletários com consciência de classe” que queriam se lançar contra a “agitação monarquista, reacionária, com a força dos punhos do proletariado” tiveram sucesso em atrair inúmeros comunistas para as reuniões nazistas. Às vezes, os comunistas chegavam com ordens de arrasar o lugar. Mas os vermelhos com freqüência se recusavam a obedecer ao comando porque haviam sido ganhos pela causa dos nacional-socialistas. Em suma, a batalha entre os nazistas e os comunistas era um caso de dois cães lutando pelo mesmo osso.
A política nazista de uma nação única apelava, por sua própria definição, a pessoas de todos os tipos. Professores, estudantes e funcionários públicos davam um apoio desproporcional à causa nazista. Mas é importante se ter uma idéia do tipo de gente que constituía os seguidores do nazismo, os jovens, freqüentemente agressivos e violentos, que verdadeiramente acreditavam no que faziam, lutando nas ruas e se dedicando à revolução. Patrick Leigh Fermor, um jovem britânico que viajava pela Alemanha logo depois do Hitler subir ao poder, encontrou alguns desses homens num bar de trabalhadores do Reno, ainda usando seus macacões do turno da noite. Um de seus novos companheiro de bar o convidou a passar a noite em sua casa. Quando subia a escada do sótão para dormir numa cama de hóspedes, ele deu com “um santuário dedicado ao culto hitleriano”:
As paredes estavam cobertas com bandeiras, fotos, pôsteres, slogans e emblemas. O uniforme da SA, muito bem passado, estava pendurado num cabide… Quando eu disse que ali devia ser muito claustrofóbico, com todas aquelas coisas nas paredes, ele riu, sentou-se na cama e disse: “Homem! Você devia ter visto isso no ano passado! Teria morrido de rir! Estava coberto de bandeiras vermelhas, estrelas, martelos, foices, fotos de Lênin e Stálin e ‘Trabalhadores do mundo, uni-vos!…’ Então, de repente, quando Hitler chegou ao poder, compreendi que tudo não passava de disparates e mentiras. Entendi que Adolf era meu homem. Tudo assim, de repente!” Estalou os dedos no ar. “E aqui estou eu”… E muita gente fez o mesmo naquela época? “Milhões! Eu lhe digo, fiquei espantado com a facilidade com que todos mudaram de lado!”
Mesmo depois de Hitler tomar o poder e tornar-se mais receptivo aos apelos dos homens de negócio - as demandas de sua máquina de guerra exigiam não menos que isso -, a propaganda do partido ainda era contínua e sistematicamente voltada para os trabalhadores. Hitler sempre enfatizava (e flagrantemente exagerava) sua condição de “ex-operário”. Com freqüência, aparecia em mangas de camisa e conversava informalmente com operários alemães: “Na juventude, fui um trabalhador como vocês, lentamente abrindo caminho com o esforço, com o estudo e, acho que posso dizer também, com a fome.” Como pretenso Volkskanzler, ou “chanceler do povo”, ele sabia tocar todas as notas da escala populista.
Um de seus primeiros atos oficiais foi a recusa de um doutorado honorário. Um catecismo nazista perguntava: “Que profissões teve Adolf Hitler?” A resposta esperada era: “Adolf Hitler era um trabalhador da construção civil, um artista e um estudante.” Em 1939, quando a nova Chancelaria foi construída, Hitler saudou primeiro os operários da construção e deu aos pedreiros retratos seus e cestas de frutas. Prometeu “carros do povo” para todos os trabalhadores. Não conseguiu entregá-los a tempo, mas acabaram se tornando os Volkswagens que todos conhecemos hoje. Os nazistas eram brilhantes quando argumentavam a favor da política de uma nação única na qual um camponês e um homem de negócios tinham o mesmo valor. Nos ralis nazistas, os organizadores nunca permitiam que um aristocrata falasse a menos que estivesse acompanhado de um camponês humilde vindo do mato.
25 março 2010
Dilmão no forum da urbanização não é solução
Por Celso Arnaldo:
Dilma Rousseff, a mulher que comanda a maior revolução urbanística do mundo ─ na qual 65 mil casas mal e mal concluídas viram 1 milhão e já caminham para 2 milhões ─, fez bonito. Demonstrou com grande clareza aos especialistas estrangeiros presentes as soluções brasileiras para o crescimento desordenado das grandes cidades. Ela inicia seu discurso de maneira triunfal:
“Para nós, do governo do presidente Lula, nós só concebemos…”
Há nós demais nessa proposta, mas ela vai desatá-los em seguida.
“Por isso, quando nós fizemos os nossos programas de investimento, dirigimos uma importância muito expressiva à questão da infraestrutura urbana e social”
Levou algum tempo para o tradutor perceber que a palavra “importância”, que Dilma repete pelo menos 20 vezes em cada discurso, nesse contexto significa soma em dinheiro.
“Nosso país, e eu acredito que todos esses países conviveram no século 20, foi o século da exclusão urbana, o século da segregação territorial”
Dilma apenas acredita, mas pode ter certeza: todos os países representados no Fórum conviveram no século 20 ─ porque nenhum deles foi extinto no século 20 ou nasceu no 21.
“Investimos algo em torno a 144 bilhões de dólares”
Esse “em torno a” deve ser a máquina onde o Lula perdeu o mindinho.
“Concordamos também com a senhora Ana de Baiúca de que nas cidades está uma parte expressiva da emissão de gases de efeito estufa e tamém (sic) de resíduos tóxicos”
Precisou a senhora Ana de Baiúca dizer isso para Dilma se convencer de que cidades produzem gases e resíduos tóxicos. Mas fica a dúvida: quem é Ana de Baiúca? No Google não tem.
“No que se refere aos gases de efeito estufa, nosso compromisso sistemático com o uso dos combustíveis renováveis, como forma de manutenção do nossos, dos nossos veículos leves no Brasil, basicamente do etanol, do uso preferencial nas nossas frotas tanto de… do uso do gás natural como também dos projetos que são aqueles que combinam eletricidade, o uso dos veículos elétricos com outras fontes de energia”
Ouvindo Dilma falar de energia, a gente compreende por que nossa matriz energética é tão límpida e clara.
“Acabou a ficção de que o mercado podia dar conta da construção de habitação pra população”
Se ela se chamasse Dilmão, seria uma rima mas nunca uma solução.
Dilma Rousseff, a mulher que comanda a maior revolução urbanística do mundo ─ na qual 65 mil casas mal e mal concluídas viram 1 milhão e já caminham para 2 milhões ─, fez bonito. Demonstrou com grande clareza aos especialistas estrangeiros presentes as soluções brasileiras para o crescimento desordenado das grandes cidades. Ela inicia seu discurso de maneira triunfal:
“Para nós, do governo do presidente Lula, nós só concebemos…”
Há nós demais nessa proposta, mas ela vai desatá-los em seguida.
“Por isso, quando nós fizemos os nossos programas de investimento, dirigimos uma importância muito expressiva à questão da infraestrutura urbana e social”
Levou algum tempo para o tradutor perceber que a palavra “importância”, que Dilma repete pelo menos 20 vezes em cada discurso, nesse contexto significa soma em dinheiro.
“Nosso país, e eu acredito que todos esses países conviveram no século 20, foi o século da exclusão urbana, o século da segregação territorial”
Dilma apenas acredita, mas pode ter certeza: todos os países representados no Fórum conviveram no século 20 ─ porque nenhum deles foi extinto no século 20 ou nasceu no 21.
“Investimos algo em torno a 144 bilhões de dólares”
Esse “em torno a” deve ser a máquina onde o Lula perdeu o mindinho.
“Concordamos também com a senhora Ana de Baiúca de que nas cidades está uma parte expressiva da emissão de gases de efeito estufa e tamém (sic) de resíduos tóxicos”
Precisou a senhora Ana de Baiúca dizer isso para Dilma se convencer de que cidades produzem gases e resíduos tóxicos. Mas fica a dúvida: quem é Ana de Baiúca? No Google não tem.
“No que se refere aos gases de efeito estufa, nosso compromisso sistemático com o uso dos combustíveis renováveis, como forma de manutenção do nossos, dos nossos veículos leves no Brasil, basicamente do etanol, do uso preferencial nas nossas frotas tanto de… do uso do gás natural como também dos projetos que são aqueles que combinam eletricidade, o uso dos veículos elétricos com outras fontes de energia”
Ouvindo Dilma falar de energia, a gente compreende por que nossa matriz energética é tão límpida e clara.
“Acabou a ficção de que o mercado podia dar conta da construção de habitação pra população”
Se ela se chamasse Dilmão, seria uma rima mas nunca uma solução.
19 março 2010
Cuba: Direitos humanos, Lula e Oscar Arias
Reproduzo aqui o que foi publicado no blog de Augusto Nunes, de Veja, extraído do Jornal El País (Espanha):
"Traídos pela indiferença ultrajante do Itamaraty, afrontados pela infame hostilidade do presidente da República, presos políticos cubanos e dissidentes em liberdade vigiada endereçaram ao presidente da Costa Rica o mesmo pedido de socorro que Lula rechaçou. Fiel à biografia admirável, Oscar Arias nem esperara pela chegada do apelo (que o colega brasileiro ainda não leu) para colocar-se ao lado das vítimas do arbítrio. Já estava em ação ─ e em ação continua." (Augusto Nunes). 19.03.10.
Neste sábado, Arias escreveu sobre o tema no jornal espanhol El País. O confronto entre o falatório de Lula e trechos do artigo permite uma pedagógica comparação entre os dois chefes de governo:
"LULA: “Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por fazer uma greve de fome. Vocês sabem que sou contra greve de fome porque já fiz greve de fome”.
ARIAS: “Uma greve de fome de 85 dias não foi suficiente para convencer o governo cubano de que era necessário preservar a vida de uma pessoa, acima de qualquer diferença ideológica. Não foi suficiente para induzir à compaixão um regime que se vangloria da solidariedade que, na prática, só aplica a seus simpatizantes. Nada podemos fazer agora para salvar Orlando Zapata, mas podemos erguer a voz em nome de Guillermo Fariñas Hernández, que há 17 dias está em greve de fome em Santa Clara, reivindicando a libertação de outros presos políticos, especialmente aqueles em precário estado de saúde”.
LULA: “Eu acho que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto para libertar pessoas em nome dos direitos humanos. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.
ARIAS: “Seria perigoso se um Estado de Direito se visse obrigado a libertar todos os presos que decidirem deixar de alimentar-se. Mas esses presos cubanos não são como os outros, nem há em Cuba um Estado de Direiro. São presos políticos ou de consciência, que não cometeram nenhum delito além de opor-se a um regime”.
LULA: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos”.
ARIAS: “Não existem presos políticos nas democracias. Em nenhum país verdadeiramente livre alguém vai para a prisão por pensar de modo diferente. Cuba pode fazer todos os esforços retóricos para vender a ideia de que é uma “democracia especial”. Cada preso político nega essa afirmação. Cada preso político é uma prova irrefutável de autoritarismo. Todos foram julgados por um sistema de independência questionável e sofreram punições excessivas sem terem causado danos a qualquer pessoa”.
LULA: “Cada país tem o direito de decidir o que é melhor para ele”.
ARIAS: “Sempre lutei para que Cuba faça a transição para a democracia. (…) O governo de Raúl Castro tem outra oportunidade para mostrar que pode aprender a respeitar os direitos humanos, sobretudo os direitos dos opositores. Se o governo cubano libertasse os presos políticos, teria mais autoridade para reclamar respeito a seu sistema político e à sua forma de fazer as coisas”.
LULA: “Não vou dar palpites nos assuntos de outros países, principalmente um país amigo”.
ARIAS: “Estou consciente de que, ao fazer estas afirmações, eu me exponho a todo tipo de acusação. O regime cubano me acusará de imiscuir-me em assuntos internos, de violar sua soberania e, quase com certeza, de ser um lacaio do império. Sem dúvida, sou um lacaio do império: do império da razão, da compaixão e da liberdade. Não me calo quando os direitos humanos são desrespeitados. Não posso calar-me se a simples existência de um regime como o de Cuba é uma afronta à democracia. Não me calo quando seres humanos estão com a vida em jogo só por terem contestado uma causa ideológica que prescreveu há anos. Vivi o suficiente para saber que não há nada pior que ter medo de dizer a verdade”.
"Oscar Arias é um chefe de Estado. Lula é chefe de uma seita com cara de bando. Arias é um pensador, conhece a História e tenta moldar um futuro mais luminoso. Lula nunca leu um livro, não sabe o que aconteceu e só pensa na próxima eleição. Arias é justo e generoso. Lula é mesquinho e oportunista. Arias se guia por princípios e valores. Lula menospreza irrelevâncias como direitos humanos, liberdade ou democracia.
O artigo do presidente da Costa Rica, um homem digno, honra o Nobel da Paz que recebeu. A discurseira do presidente brasileiro, um falastrão sem compromisso com valores morais, tornou-o tão candidato ao prêmio quanto Fidel, Chávez ou Ahmadinejad. A colisão frontal entre o que Lula disse e o que Arias escreveu escancarou a distância abissal que separa um político sem grandeza de um estadista." (Augusto Nunes)
"Traídos pela indiferença ultrajante do Itamaraty, afrontados pela infame hostilidade do presidente da República, presos políticos cubanos e dissidentes em liberdade vigiada endereçaram ao presidente da Costa Rica o mesmo pedido de socorro que Lula rechaçou. Fiel à biografia admirável, Oscar Arias nem esperara pela chegada do apelo (que o colega brasileiro ainda não leu) para colocar-se ao lado das vítimas do arbítrio. Já estava em ação ─ e em ação continua." (Augusto Nunes). 19.03.10.
Neste sábado, Arias escreveu sobre o tema no jornal espanhol El País. O confronto entre o falatório de Lula e trechos do artigo permite uma pedagógica comparação entre os dois chefes de governo:
"LULA: “Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por fazer uma greve de fome. Vocês sabem que sou contra greve de fome porque já fiz greve de fome”.
ARIAS: “Uma greve de fome de 85 dias não foi suficiente para convencer o governo cubano de que era necessário preservar a vida de uma pessoa, acima de qualquer diferença ideológica. Não foi suficiente para induzir à compaixão um regime que se vangloria da solidariedade que, na prática, só aplica a seus simpatizantes. Nada podemos fazer agora para salvar Orlando Zapata, mas podemos erguer a voz em nome de Guillermo Fariñas Hernández, que há 17 dias está em greve de fome em Santa Clara, reivindicando a libertação de outros presos políticos, especialmente aqueles em precário estado de saúde”.
LULA: “Eu acho que a greve de fome não pode ser utilizada como pretexto para libertar pessoas em nome dos direitos humanos. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade”.
ARIAS: “Seria perigoso se um Estado de Direito se visse obrigado a libertar todos os presos que decidirem deixar de alimentar-se. Mas esses presos cubanos não são como os outros, nem há em Cuba um Estado de Direiro. São presos políticos ou de consciência, que não cometeram nenhum delito além de opor-se a um regime”.
LULA: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos”.
ARIAS: “Não existem presos políticos nas democracias. Em nenhum país verdadeiramente livre alguém vai para a prisão por pensar de modo diferente. Cuba pode fazer todos os esforços retóricos para vender a ideia de que é uma “democracia especial”. Cada preso político nega essa afirmação. Cada preso político é uma prova irrefutável de autoritarismo. Todos foram julgados por um sistema de independência questionável e sofreram punições excessivas sem terem causado danos a qualquer pessoa”.
LULA: “Cada país tem o direito de decidir o que é melhor para ele”.
ARIAS: “Sempre lutei para que Cuba faça a transição para a democracia. (…) O governo de Raúl Castro tem outra oportunidade para mostrar que pode aprender a respeitar os direitos humanos, sobretudo os direitos dos opositores. Se o governo cubano libertasse os presos políticos, teria mais autoridade para reclamar respeito a seu sistema político e à sua forma de fazer as coisas”.
LULA: “Não vou dar palpites nos assuntos de outros países, principalmente um país amigo”.
ARIAS: “Estou consciente de que, ao fazer estas afirmações, eu me exponho a todo tipo de acusação. O regime cubano me acusará de imiscuir-me em assuntos internos, de violar sua soberania e, quase com certeza, de ser um lacaio do império. Sem dúvida, sou um lacaio do império: do império da razão, da compaixão e da liberdade. Não me calo quando os direitos humanos são desrespeitados. Não posso calar-me se a simples existência de um regime como o de Cuba é uma afronta à democracia. Não me calo quando seres humanos estão com a vida em jogo só por terem contestado uma causa ideológica que prescreveu há anos. Vivi o suficiente para saber que não há nada pior que ter medo de dizer a verdade”.
"Oscar Arias é um chefe de Estado. Lula é chefe de uma seita com cara de bando. Arias é um pensador, conhece a História e tenta moldar um futuro mais luminoso. Lula nunca leu um livro, não sabe o que aconteceu e só pensa na próxima eleição. Arias é justo e generoso. Lula é mesquinho e oportunista. Arias se guia por princípios e valores. Lula menospreza irrelevâncias como direitos humanos, liberdade ou democracia.
O artigo do presidente da Costa Rica, um homem digno, honra o Nobel da Paz que recebeu. A discurseira do presidente brasileiro, um falastrão sem compromisso com valores morais, tornou-o tão candidato ao prêmio quanto Fidel, Chávez ou Ahmadinejad. A colisão frontal entre o que Lula disse e o que Arias escreveu escancarou a distância abissal que separa um político sem grandeza de um estadista." (Augusto Nunes)
Mensalão: Lula mentiu durante 5 anos
A Folha de S. Paulo antecipou há uma semana o que Lula dirá à Justiça no depoimento sobre o escândalo do mensalão: ouviu o palavrão pela primeira vez em março de 2005, numa conversa com Roberto Jefferson. O presidente da República mentiu durante quase cinco anos, deveria ter acrescentado o jornal, que divulgou no início de junho de 2005 o encontro que Lula sempre negou ter existido.
E continua mentindo, informa a releitura da entrevista concedida à Folha por Jefferson, então deputado federal e presidente do PTB, que começou a escancarar o maior escândalo político-policial do Brasil republicano. A conversa no Palácio do Planalto não ocorreu em março, mas em janeiro. No gabinete presidencial, Lula ouviu a narrativa ─ testemunhada, segundo Jefferson, pelos ministros José Dirceu, Aldo Rebelo e Walfrido dos Mares Guia ─ em silêncio e aparentando perplexidade, declarou-se grato ao informante e prometeu providências imediatas.
Dez dias mais tarde, no depoimento à CPI que nasceu para investigar a roubalheira nos Correios mas acabou devassando o pai de todos os escândalos, Jefferson enriqueceu com detalhes hiperbólicos o encontro no Planalto. ”A reação do presidente foi a de quem levara uma facada nas costas”, comparou. “As lágrimas desceram dos olhos dele. Ele levantou e me deu um abraço”.
Em seguida, decidido a poupar Lula do tiroteio, o depoente concentrou-se no alvo preferencial. “Vi um homem de bem se sentir traído por um cordão de isolamento que havia em torno dele”, mirou no chefe da Casa Civil. “Aí descobri por que a gente era sempre barrado no Zé Dirceu. No Rasputin”. O discurso foi subindo de tom até desembocar na exortação famosa: “Saí daí, Zé! Rápido, sai daí rápido, Zé”.
Zé não demorou a ser despejado, mas as providências imediatas ficaram na promessa, confirma a reportagem da Folha que revelou as linhas gerais do depoimento ensaiado por Lula. ele dirá à Justiça que, depois de ouvir as denúncias feitas por Jefferson, escalou para investigá-las o ministro Aldo Rebelo e o deputado Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara. A dupla de sherloques apresentou em poucos dias as conclusões do inquérito: não haviam localizado nenhuma evidência, nenhum indício, nenhuma pista.
Não enxergaram sequer vestígios da montanha de provas acumuladas nos meses seguintes. Em vez de dois detetives governistas, trataram do caso a imprensa, a polícia, o Ministério Público, a CPI dos Correios, a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal. Passados quase cinco anos, o que se sabe é mais que suficiente para que os integrantes da organização criminosa sofisticada sofram o castigo merecidíssimo.
Mas Lula repete desde junho de 2005 que todos os bandidos de estimação são inocentes. Entre as inumeráveis mentiras que contou, só vai revogar a que ocultou o encontro com Jefferson. E decerto dirá, mais uma vez, que o mensalão não existiu. Se o Brasil fosse menos primitivo, o depoente seria preso por perjúrio, ocultação de provas e obstrução da Justiça.
E continua mentindo, informa a releitura da entrevista concedida à Folha por Jefferson, então deputado federal e presidente do PTB, que começou a escancarar o maior escândalo político-policial do Brasil republicano. A conversa no Palácio do Planalto não ocorreu em março, mas em janeiro. No gabinete presidencial, Lula ouviu a narrativa ─ testemunhada, segundo Jefferson, pelos ministros José Dirceu, Aldo Rebelo e Walfrido dos Mares Guia ─ em silêncio e aparentando perplexidade, declarou-se grato ao informante e prometeu providências imediatas.
Dez dias mais tarde, no depoimento à CPI que nasceu para investigar a roubalheira nos Correios mas acabou devassando o pai de todos os escândalos, Jefferson enriqueceu com detalhes hiperbólicos o encontro no Planalto. ”A reação do presidente foi a de quem levara uma facada nas costas”, comparou. “As lágrimas desceram dos olhos dele. Ele levantou e me deu um abraço”.
Em seguida, decidido a poupar Lula do tiroteio, o depoente concentrou-se no alvo preferencial. “Vi um homem de bem se sentir traído por um cordão de isolamento que havia em torno dele”, mirou no chefe da Casa Civil. “Aí descobri por que a gente era sempre barrado no Zé Dirceu. No Rasputin”. O discurso foi subindo de tom até desembocar na exortação famosa: “Saí daí, Zé! Rápido, sai daí rápido, Zé”.
Zé não demorou a ser despejado, mas as providências imediatas ficaram na promessa, confirma a reportagem da Folha que revelou as linhas gerais do depoimento ensaiado por Lula. ele dirá à Justiça que, depois de ouvir as denúncias feitas por Jefferson, escalou para investigá-las o ministro Aldo Rebelo e o deputado Arlindo Chinaglia, líder do governo na Câmara. A dupla de sherloques apresentou em poucos dias as conclusões do inquérito: não haviam localizado nenhuma evidência, nenhum indício, nenhuma pista.
Não enxergaram sequer vestígios da montanha de provas acumuladas nos meses seguintes. Em vez de dois detetives governistas, trataram do caso a imprensa, a polícia, o Ministério Público, a CPI dos Correios, a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal. Passados quase cinco anos, o que se sabe é mais que suficiente para que os integrantes da organização criminosa sofisticada sofram o castigo merecidíssimo.
Mas Lula repete desde junho de 2005 que todos os bandidos de estimação são inocentes. Entre as inumeráveis mentiras que contou, só vai revogar a que ocultou o encontro com Jefferson. E decerto dirá, mais uma vez, que o mensalão não existiu. Se o Brasil fosse menos primitivo, o depoente seria preso por perjúrio, ocultação de provas e obstrução da Justiça.
17 março 2010
O 'virus' da paz de Lula_Editorial do Estadão de 16.03.10
Desta vez, a proverbial sorte do presidente Lula parece tê-lo deserdado. Ele desembarcou domingo em Tel-Aviv em meio a uma rara crise entre Israel e os Estados Unidos e a mais um bloqueio da Cisjordânia em represália a um novo surto de manifestações palestinas contra a política israelense de anexações em Jerusalém Oriental. Nesse ambiente, a pretensão de Lula de ser o “profeta do diálogo”, como foi chamado dias antes pelo jornal israelense Haaretz, se revelou, no mínimo, fútil. Enquanto o brasileiro fazia as malas para a viagem de 5 dias que o levará também aos territórios ocupados sob o controle nominal da Autoridade Palestina (AP) e, por fim, à Jordânia, um ministro israelense ainda mais à direita do que o premiê Benjamin Netanyahu fez o que em outras circunstâncias seria impensável.
Em plena visita do vice-presidente americano, Joe Biden, ele anunciou a construção de 1.600 moradias em Jerusalém Oriental, onde os palestinos querem instalar a capital do seu futuro país. Foi um golpe deliberado nos esforços do governo Obama para ressuscitar as negociações de paz na região, congeladas desde dezembro de 2008. Biden saiu humilhado de Israel. Em Washington, a secretária de Estado Hillary Clinton se disse “insultada” e o principal assessor do presidente, David Axelrod, falou em “afronta”. Se Israel se permite ofender a tal ponto o seu maior e mais poderoso protetor, para não dar aos palestinos o Estado contínuo e viável reclamado pela comunidade internacional, incluídos os EUA, que diferença Lula imagina que poderá fazer?
Ontem, ele disse ser portador, “desde que estava no útero da minha mãe”, do “vírus da paz”. O metafórico micróbio não contaminou os israelenses. O presidente Shimon Peres foi absolutamente protocolar quando disse em discurso saber que o brasileiro trazia uma mensagem de paz, e que “sua contribuição será bem-vinda”. Do lado israelense é que não será. Primeiro, porque a ideia lulista de “ouvir mais gente”, como já não bastassem a ONU, a União Europeia, os Estados Unidos e a Rússia, é anátema para um governo que acha que a maioria dos países tende a ser pró-palestinos e quer forçar Israel a concessões “inaceitáveis” (como coibir os assentamentos na Cisjordânia e dividir Jerusalém em duas). Segundo, porque a “gente” em que Lula pensa inclui ninguém menos do que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que prega a erradicação de Israel (perto disso, a negação do Holocausto é detalhe).
Segundo o assessor Marco Aurélio Garcia, o Irã não pode ser ignorado porque tem “influência de peso” na questão. É o contrário. A República Islâmica é que não poderá ignorar o eventual acordo de paz a que se opõe porque legitimaria o Estado judeu. Influência de peso na questão, isso sim, tem a Liga Árabe, a começar da Arábia Saudita. Em 2002, os sauditas conseguiram que a entidade aprovasse um plano de paz pelo qual, em troca da devolução dos territórios tomados na Guerra dos Seis Dias as relações entre Israel e o mundo árabe seriam “normalizadas”. Deu em nada. Há pouco, a Liga defendeu a retomada de negociações, indiretas, entre Israel e a Autoridade Palestina. (Dezessete anos depois do aperto de mãos de Yitzhak Rabin e Yasser Arafat na Casa Branca, fala-se em conversações indiretas como se fosse um progresso.)
Lula e o Itamaraty parecem ignorar ainda que a aproximação do Brasil com o Irã, valha o que valer, não é malvista só em Israel, na região. A Arábia Saudita e o Egito, os dois principais países árabes, tampouco se rejubilam com isso. Enfim, a soberba da diplomacia lulista chega ao disparate de supor que a atual posição “cética e dura” dos EUA em relação a Israel, nas palavras de Garcia, facilitará o ingresso de outros atores, um deles o Brasil, no processo de paz no Oriente Médio. É, de novo, o mundo de ponta-cabeça. Se Netanyahu não ceder a Obama, cederá a quem? A Lula? O sonho faraônico de se transformar no estadista global que entrará para a história por ter tido êxito ali onde todos fracassaram nos últimos 60 anos conduz Lula da futilidade à ridicularia. E isso porque a diplomacia lulista, partidária e eleitoreira, só visa a promover a imagem de seu guia perante o público interno.
Propondo-se a mediar não apenas o conflito histórico entre judeus e palestinos, mas também o conflito interno entre palestinos do Hamas e do Fatah, Lula exibe o grau de exacerbação da sua megalomania.
Em plena visita do vice-presidente americano, Joe Biden, ele anunciou a construção de 1.600 moradias em Jerusalém Oriental, onde os palestinos querem instalar a capital do seu futuro país. Foi um golpe deliberado nos esforços do governo Obama para ressuscitar as negociações de paz na região, congeladas desde dezembro de 2008. Biden saiu humilhado de Israel. Em Washington, a secretária de Estado Hillary Clinton se disse “insultada” e o principal assessor do presidente, David Axelrod, falou em “afronta”. Se Israel se permite ofender a tal ponto o seu maior e mais poderoso protetor, para não dar aos palestinos o Estado contínuo e viável reclamado pela comunidade internacional, incluídos os EUA, que diferença Lula imagina que poderá fazer?
Ontem, ele disse ser portador, “desde que estava no útero da minha mãe”, do “vírus da paz”. O metafórico micróbio não contaminou os israelenses. O presidente Shimon Peres foi absolutamente protocolar quando disse em discurso saber que o brasileiro trazia uma mensagem de paz, e que “sua contribuição será bem-vinda”. Do lado israelense é que não será. Primeiro, porque a ideia lulista de “ouvir mais gente”, como já não bastassem a ONU, a União Europeia, os Estados Unidos e a Rússia, é anátema para um governo que acha que a maioria dos países tende a ser pró-palestinos e quer forçar Israel a concessões “inaceitáveis” (como coibir os assentamentos na Cisjordânia e dividir Jerusalém em duas). Segundo, porque a “gente” em que Lula pensa inclui ninguém menos do que o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, que prega a erradicação de Israel (perto disso, a negação do Holocausto é detalhe).
Segundo o assessor Marco Aurélio Garcia, o Irã não pode ser ignorado porque tem “influência de peso” na questão. É o contrário. A República Islâmica é que não poderá ignorar o eventual acordo de paz a que se opõe porque legitimaria o Estado judeu. Influência de peso na questão, isso sim, tem a Liga Árabe, a começar da Arábia Saudita. Em 2002, os sauditas conseguiram que a entidade aprovasse um plano de paz pelo qual, em troca da devolução dos territórios tomados na Guerra dos Seis Dias as relações entre Israel e o mundo árabe seriam “normalizadas”. Deu em nada. Há pouco, a Liga defendeu a retomada de negociações, indiretas, entre Israel e a Autoridade Palestina. (Dezessete anos depois do aperto de mãos de Yitzhak Rabin e Yasser Arafat na Casa Branca, fala-se em conversações indiretas como se fosse um progresso.)
Lula e o Itamaraty parecem ignorar ainda que a aproximação do Brasil com o Irã, valha o que valer, não é malvista só em Israel, na região. A Arábia Saudita e o Egito, os dois principais países árabes, tampouco se rejubilam com isso. Enfim, a soberba da diplomacia lulista chega ao disparate de supor que a atual posição “cética e dura” dos EUA em relação a Israel, nas palavras de Garcia, facilitará o ingresso de outros atores, um deles o Brasil, no processo de paz no Oriente Médio. É, de novo, o mundo de ponta-cabeça. Se Netanyahu não ceder a Obama, cederá a quem? A Lula? O sonho faraônico de se transformar no estadista global que entrará para a história por ter tido êxito ali onde todos fracassaram nos últimos 60 anos conduz Lula da futilidade à ridicularia. E isso porque a diplomacia lulista, partidária e eleitoreira, só visa a promover a imagem de seu guia perante o público interno.
Propondo-se a mediar não apenas o conflito histórico entre judeus e palestinos, mas também o conflito interno entre palestinos do Hamas e do Fatah, Lula exibe o grau de exacerbação da sua megalomania.
Política externa brasileira_Otávio Frias Filho (FSP)
Durante muito tempo, a política externa brasileira foi negligenciada no debate público. Como ocorre em toda nação continental, a agenda interna sempre esmagou a externa, efeito acentuado, em nosso caso, pelo discreto relevo internacional do país. Aos poucos, esse quadro começa a mudar.
Talvez seja nossa inexperiência no palco do mundo, combinada à afoiteza do governo Lula em projetar a todo custo o peso geopolítico que o país já alcançou, o que nos leva a cometer equívocos em cascata e enveredar por um caminho temerário.
Veja-se, por exemplo, o caso do Irã. Ao que tudo indica, a elite dirigente daquele país (incluída a facção oposicionista) acredita que possuir armas nucleares seja um imperativo de segurança nacional. Não é absurdo que pense assim. Os americanos promovem atualmente duas guerras de invasão nos países que fazem fronteira com o Irã a oeste (Iraque) e a leste (Afeganistão). A menos de mil quilômetros de seus limites territoriais, a distância entre São Paulo e Brasília, o Irã tem cinco vizinhos inamistosos e dotados de capacidade militar nuclear: Paquistão, Índia, China, Rússia e Israel.
Se essa premissa for aceita, nada deterá o Irã (exceto, talvez, um desesperado ataque preventivo de Israel). O mais provável é que Israel e Irã convivam no futuro sob o “equilíbrio do terror nuclear”, o mesmo mecanismo que deteve Estados Unidos e União Soviética no passado e detém os arqui-inimigos Índia e Paquistão hoje. O que o Brasil tem a ganhar ao se imiscuir em problema que não é diretamente seu, numa conjuntura geograficamente remota e comercialmente pouco importante para nós?
Os Estados Unidos influem e se intrometem nos conflitos do Oriente Médio não para pavonear seu peso mundial, como parecem supor nosso simplório presidente e seu trêfego chanceler. Os EUA estão atolados até o pescoço na região porque sua economia é dependente do petróleo local (não é o caso da nossa) e sua comunidade judaica exerce peso desproporcional nas eleições americanas (diferente de novo do Brasil, onde comunidades de origem judaica e árabe têm expressão equilibrada e convivem de fato).
Não existe razão de política externa para que nossa atitude perante a complexa, quase insolúvel, contenda entre israelenses e palestinos seja outra que não uma equidistância comedida, sempre favorável à não violência e à negociação direta entre as partes. Retomar esse contato direto, aliás, é hoje o ponto crucial naquele conturbado trecho do globo. Nossa “diplomacia do futebol” tem pouco a fazer ali, exceto passar ridículo.
Numa entrevista recente, o novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, disse algo significativo, o que é inusitado entre diplomatas. Referindo-se às relações entre nossos dois países, constatou que “vamos começar a nos esbarrar por aí”. Shannon aludia ao fato de que o aumento do peso econômico e comercial do Brasil aumenta sua influência externa, irradia seus interesses e o expõe a crescentes áreas de atrito com outros países relevantes, desde logo os próprios Estados Unidos.
Em outras palavras, não precisamos buscar sarnas para nos coçar, elas virão natural e infelizmente como decorrência de nossa projeção maior na geopolítica mundial. Logo teremos de enfrentar decisões realmente difíceis.
É provável, por exemplo, que o Brasil venha a ser um dos cinco entes soberanos a predominar no planeta antes de meados do século, junto com a China, os Estados Unidos, a Índia e a Europa. Continuaremos a ser o único a prescindir de armas nucleares como recurso dissuasivo? O ex-ministro Rubens Ricupero tem uma bela argumentação em defesa dessa originalidade, talvez até como contribuição da cultura brasileira ao futuro dos povos.
Mesmo no âmbito de uma perspectiva pacifista, porém, que é da nossa tradição, abdicar de arma atômica implica como contrapartida a obrigação de dotar o país de recursos militares convencionais muito mais onerosos e destrutivos do que o aparato atual. São questões graves como essa que merecem debate profundo, mais que nossa ingênua, felizmente inócua, aparição no Oriente Médio ou nossa desastrada e igualmente inócua ingerência nos assuntos internos de Honduras.
Toda política externa deve combinar o interesse egoísta do próprio país com um elenco de valores universais (essencialmente, respeito aos direitos humanos e à autodeterminação dos povos). Ela será tanto mais sólida e respeitável quanto mais os dois aspectos se harmonizarem sem grande contradição. O que estamos fazendo é uma política errática, cheia de distorções seletivas, de modo que a questão dos direitos humanos, por exemplo, deixa de ter qualquer valor no trato com inimigos de Washington, os quais adulamos para sermos vistos como “independentes”.
Vamos confrontar os Estados Unidos, sim, e cada vez mais. Mas vamos fazê-lo quando for relevante para o Brasil, não para realizar as fantasias ideológicas da militância que aplaude o presidente Lula e seu chanceler Celso Amorim, o qual errou mais uma vez quando se filiou no ano passado ao PT. Chanceler não deveria ter partido. Parodiando Clemenceau (1841-1929), a diplomacia é assunto sério demais para ser relegado a diplomatas e a ideólogos partidários.
Talvez seja nossa inexperiência no palco do mundo, combinada à afoiteza do governo Lula em projetar a todo custo o peso geopolítico que o país já alcançou, o que nos leva a cometer equívocos em cascata e enveredar por um caminho temerário.
Veja-se, por exemplo, o caso do Irã. Ao que tudo indica, a elite dirigente daquele país (incluída a facção oposicionista) acredita que possuir armas nucleares seja um imperativo de segurança nacional. Não é absurdo que pense assim. Os americanos promovem atualmente duas guerras de invasão nos países que fazem fronteira com o Irã a oeste (Iraque) e a leste (Afeganistão). A menos de mil quilômetros de seus limites territoriais, a distância entre São Paulo e Brasília, o Irã tem cinco vizinhos inamistosos e dotados de capacidade militar nuclear: Paquistão, Índia, China, Rússia e Israel.
Se essa premissa for aceita, nada deterá o Irã (exceto, talvez, um desesperado ataque preventivo de Israel). O mais provável é que Israel e Irã convivam no futuro sob o “equilíbrio do terror nuclear”, o mesmo mecanismo que deteve Estados Unidos e União Soviética no passado e detém os arqui-inimigos Índia e Paquistão hoje. O que o Brasil tem a ganhar ao se imiscuir em problema que não é diretamente seu, numa conjuntura geograficamente remota e comercialmente pouco importante para nós?
Os Estados Unidos influem e se intrometem nos conflitos do Oriente Médio não para pavonear seu peso mundial, como parecem supor nosso simplório presidente e seu trêfego chanceler. Os EUA estão atolados até o pescoço na região porque sua economia é dependente do petróleo local (não é o caso da nossa) e sua comunidade judaica exerce peso desproporcional nas eleições americanas (diferente de novo do Brasil, onde comunidades de origem judaica e árabe têm expressão equilibrada e convivem de fato).
Não existe razão de política externa para que nossa atitude perante a complexa, quase insolúvel, contenda entre israelenses e palestinos seja outra que não uma equidistância comedida, sempre favorável à não violência e à negociação direta entre as partes. Retomar esse contato direto, aliás, é hoje o ponto crucial naquele conturbado trecho do globo. Nossa “diplomacia do futebol” tem pouco a fazer ali, exceto passar ridículo.
Numa entrevista recente, o novo embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, disse algo significativo, o que é inusitado entre diplomatas. Referindo-se às relações entre nossos dois países, constatou que “vamos começar a nos esbarrar por aí”. Shannon aludia ao fato de que o aumento do peso econômico e comercial do Brasil aumenta sua influência externa, irradia seus interesses e o expõe a crescentes áreas de atrito com outros países relevantes, desde logo os próprios Estados Unidos.
Em outras palavras, não precisamos buscar sarnas para nos coçar, elas virão natural e infelizmente como decorrência de nossa projeção maior na geopolítica mundial. Logo teremos de enfrentar decisões realmente difíceis.
É provável, por exemplo, que o Brasil venha a ser um dos cinco entes soberanos a predominar no planeta antes de meados do século, junto com a China, os Estados Unidos, a Índia e a Europa. Continuaremos a ser o único a prescindir de armas nucleares como recurso dissuasivo? O ex-ministro Rubens Ricupero tem uma bela argumentação em defesa dessa originalidade, talvez até como contribuição da cultura brasileira ao futuro dos povos.
Mesmo no âmbito de uma perspectiva pacifista, porém, que é da nossa tradição, abdicar de arma atômica implica como contrapartida a obrigação de dotar o país de recursos militares convencionais muito mais onerosos e destrutivos do que o aparato atual. São questões graves como essa que merecem debate profundo, mais que nossa ingênua, felizmente inócua, aparição no Oriente Médio ou nossa desastrada e igualmente inócua ingerência nos assuntos internos de Honduras.
Toda política externa deve combinar o interesse egoísta do próprio país com um elenco de valores universais (essencialmente, respeito aos direitos humanos e à autodeterminação dos povos). Ela será tanto mais sólida e respeitável quanto mais os dois aspectos se harmonizarem sem grande contradição. O que estamos fazendo é uma política errática, cheia de distorções seletivas, de modo que a questão dos direitos humanos, por exemplo, deixa de ter qualquer valor no trato com inimigos de Washington, os quais adulamos para sermos vistos como “independentes”.
Vamos confrontar os Estados Unidos, sim, e cada vez mais. Mas vamos fazê-lo quando for relevante para o Brasil, não para realizar as fantasias ideológicas da militância que aplaude o presidente Lula e seu chanceler Celso Amorim, o qual errou mais uma vez quando se filiou no ano passado ao PT. Chanceler não deveria ter partido. Parodiando Clemenceau (1841-1929), a diplomacia é assunto sério demais para ser relegado a diplomatas e a ideólogos partidários.
12 março 2010
Defesa de Magnoli_Nelson Ascher
Os ataques infames ao Demétrio Magnoli são uma afronta ao espírito democrático do debate, ao livre mercado de idéias no qual elas se impõem (provisoriamente) por seu conteúdo de verdade e coerência interna, e não na base do grito, da claque ou da torcida organizada; eles constituem, ademais, outra frente de batalha, aquela cujo objetivo é o de calar os dissidentes e quem discorde. Através de Demétrio, nós todos estamos sendo agredidos e/ou ameaçados.
É notório que Demétrio e eu temos discordâncias claras acerca do conflito no Oriente Médio, sobre suas causas e possíveis soluções; trocamos já palavras duras nas páginas da Folha quando éramos seus articulistas, e eu garanto que nunca nenhum de nós teve de consultar previamente qualquer instância do jornal ou de sua direção, submeter-se a qualquer censura antecipada ou cumprir determinações “superiores”: ambos expressamos abertamente e sem mediações nossas mútuas diferenças - e é assim que deve ser, pois ambos pensamos independentemente de ordens ou determinações de patrões, chefes, líderes, partidos, governos, grupos de pressão etc.
Não posso, ademais, deixar de observar que os próprios termos usados no ataque infame do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e da Federação Nacional dos Jornalistas ao Demétrio seguem de muito perto aqueles usados contra mim num abaixo-assinado de 2003 que, capitaneado pela intelectualha esquerdofrênica USP-Unicampiana, pretendia tolher minha liberdade de expressão. Como aconteceu então comigo, estou certo de que os ataques ao Demétrio provam que ele está de fato fazendo seu trabalho honesto e competente de pensador independente e, com isso, tornando-se um empecilho para os que querem nos aprisionar num pensamento único, monocórdio, o dos atuais donos de um poder que toma características menos democráticas e legítimas a cada dia que passa, bem como dos asseclas, apaniguados e bajuladores (pagos ou não) desses.
Pilares da ordem democrática
O fato é que Demétrio está totalmente correto no debate a respeito das cotas raciais e da atual tentativa de racializar a cidadania brasileira, uma investida que carrega em si os germes da guerra civil e mesmo do genocídio, como vimos recentemente nos Bálcãs e em Ruanda. Esta é, hoje em dia e não só no Brasil, a nova frente de batalha daqueles que nunca desistiram de tentar derrubar pilares centrais da ordem democrática e moderna, como os direitos e responsabilidades individuais. Trata-se de uma loucura, mas, como se diz, de uma loucura com método. Sua proposta delirantemente utópica é a de fazer algum tipo de justiça histórica, só que uma justiça informada por uma historiografia enviesada e deturpada, bem como por recortes inviáveis e inaceitáveis da cidadania.
Nas mãos desses delinqüentes, a história, que é sempre uma hipótese em construção e ininterruptamente debatida a respeito do passado, converte-se em desculpa para dividir cidadãos constitucionalmente iguais em grupos artificiais aos quais, paralelamente, atribui-se uma vitimização ou uma culpabilidade ancestral. X% de melanina a mais na pele, e a pessoa deixa de ser um indivíduo igual aos demais em seus direitos e obrigações, um cidadão como qualquer outro, passando a se tornar sobretudo o representante de um grupo que, oficialmente tido como vitimizado, merece reparações; Y% a mais de melanina torna outro indivíduo o membro de um grupo marcado por culpas e crimes que ele pessoalmente jamais perpetrou, obrigando-o a pagar de alguma forma por isso.
Vale a pena lembrar que um dos objetivos centrais da democracia sempre foi o de acabar com a hierarquização social fundamentada em privilégios ou obrigações de nascença. Cria-se, assim, uma nova aristocracia de vítimas hereditárias e uma nova servidão cujas vítimas são indivíduos que, reduzidos apenas a membros de um grupo, carregam uma culpa igualmente hereditária, tudo isso fundamentado numa leitura parcial, mal-informada e delinqüente, de uma leitura altamente seletiva e anacrônica das hipóteses de alguns historiadores. Assim como, séculos a fio, os judeus foram considerados coletivamente culpados pela morte de Jesus Cristo, todos os doravante classificados como brancos serão eternamente culpados pela escravização de todos aqueles doravante classificados como negros em nosso país. Não haverá mais cidadãos nem haverá mais brasileiros, só os novos privilegiados e os novos responsáveis.
As escravidões
É preciso apontar a primeira falha, a falha central desse uso pseudojurídico da história: a escravidão foi, durante milênios e até há cerca de dois séculos, a regra, não a exceção, no mundo inteiro. Populações de todo o tipo foram escravizadas pelos mais variados agentes. A própria palavra “escravo” se refere originalmente aos eslavos cativos (ancestrais dos atuais russos, poloneses, iugoslavos etc.) que eram vendidos, na Idade Média, nos mercados de Bizâncio e do Oriente Médio muçulmano. Todas as civilizações antigas ou medievais se valeram do trabalho escravo, incluindo as pré-colombianas da Meso-América, que, antes da chegada dos europeus, faziam prisioneiros de guerra entre as demais tribos ou civilizações locais não apenas para submetê-los ao trabalho forçado, mas também para sacrificá-los no alto de suas pirâmides e, em seguida, consumir canibalisticamente sua carne.
Europeus escravizaram europeus, asiáticos escravizaram asiáticos, americanos pré-colombianos escravizaram americanos pré-colombianos e africanos escravizaram africanos. Ainda nos séculos 18 e 19, piratas do norte da África capturavam regularmente navios europeus ou americanos e vendiam suas tripulações e passageiros nos seus mercados de escravos. O tráfico transatlântico, do qual participaram membros das mais diversas etnias, línguas e confissões, foi, sem dúvida, uma das maiores empreitadas escravistas, mas o tráfico negreiro rumo às terras islâmicas não foi menor e perdurou por mais tempo. Hoje mesmo, em muitos pontos do planeta, ainda há milhões de escravos, inclusive na África, em países como o Sudão e a Mauritânia.
Nazismo e comunismo
E, se estamos falando de escravidão, não podemos deixar de mencionar os dois movimentos totalitários que a recriaram em partes do mundo que já haviam se livrado dessa instituição: o nazismo e o comunismo. Ambos escravizaram parcelas imensas das populações sobre as quais reinaram ou, em alguns casos, ainda reinam, como na Coréia do Norte e Cuba, país caribenho cuja população pertence ao estado ditatorial marxista e à família de capitães-de-mato que o chefia. É curioso, portanto, ver aqueles que ou fazem a apologia ou simplesmente fecham os olhos à escravização de toda a população cubana culparem pessoas inocentes pela escravização de gente morta há mais de um século. Acontece que não foi a esquerda que iniciou a campanha contra o trabalho escravo, mas sim europeus e americanos, em primeira lugar cristãos ingleses como William Wilbeforce.
De resto, é um anacronismo óbvio aplicar categorias normativas atuais (e, como podemos ver a respeito de Cuba, categorias nem sempre implementadas ou respeitadas mesmo hoje) a uma outra era histórica. Qualquer pessoa minimamente alfabetizada em história sabe disso, vale dizer, sabe que os homens e mulheres do passado pensavam, agiam e viviam de maneira diferente. Legislar retroativamente com vistas a compensar ações que não eram, nem tinham como ser consideradas criminosas no passado equivale, entre outras coisas, a um sentimento totalitário de prepotência, à idéia de que, de alguma maneira, o passado pode ser alterado, corrigido, punido ou compensado. Os escravos que existiram e morreram, bem como os senhores ou traficantes, fossem eles africanos, brasileiros, árabes, otomanos, bizantinos, chineses, mongóis, persas, aztecas etc., que também viveram e já morreram estão além e a salvo da justiça ou injustiça dos viventes.
Quem conheça a história e ame seu estudo sabe que ela é, em boa parte, uma procissão de horrores. Como queria Stephen Dedalus, o herói de James Joyce, ela é um pesadelo do qual nos cabe acordar. Ao contrário do que querem os que tentam nos entorpecer com estórias mal-contadas acerca do passado, a ação dos homens e mulheres vivos deve se dirigir a melhorar o presente e o futuro. A única - insatisfatória, mas nem por isso menos difícil ou urgente - forma de que dispomos de fazer não a inalcançável justiça histórica, mas, sim, uma espécie de justiça poética às inumeráveis vítimas do passado é garantindo a erradicação de qualquer forma de escravidão no nosso mundo atual e lutando para assegurar a plena igualdade de direitos (acompanhados de suas respectivas responsabilidades) a todos os indivíduos vivos ou por nascer.
A liberdade de expressão que os candidatos a censor fazem de tudo para tolher é uma das principais ferramentas desse esforço. Sem ela, que permitiu, por exemplo, todas as campanhas abolicionistas na Europa, Estados Unidos e Brasil, é bem provável que a escravidão teria perdurado por mais tempo. A bem dizer, uma das liberdades confiscadas ao escravo é a de se expressar.
Quem quer que tente impedir a livre expressão das opiniões alheias não está, de modo algum, compensando ou remediando a escravidão passada, mas, sim, instaurando a futura. A escravidão mais perigosa e perniciosa não é aquela abolida há um século ou mais, mas, antes, aquela que já existe e aquela que segue nos ameaçando com seu retorno iminente em cada ato ou ação que corrói e enfraquece a democracia. Por sorte, e ao contrário do que sucede com a escravidão do passado, esta é uma contra a qual todos os homens de bem podem -e devem-lutar.
É notório que Demétrio e eu temos discordâncias claras acerca do conflito no Oriente Médio, sobre suas causas e possíveis soluções; trocamos já palavras duras nas páginas da Folha quando éramos seus articulistas, e eu garanto que nunca nenhum de nós teve de consultar previamente qualquer instância do jornal ou de sua direção, submeter-se a qualquer censura antecipada ou cumprir determinações “superiores”: ambos expressamos abertamente e sem mediações nossas mútuas diferenças - e é assim que deve ser, pois ambos pensamos independentemente de ordens ou determinações de patrões, chefes, líderes, partidos, governos, grupos de pressão etc.
Não posso, ademais, deixar de observar que os próprios termos usados no ataque infame do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e da Federação Nacional dos Jornalistas ao Demétrio seguem de muito perto aqueles usados contra mim num abaixo-assinado de 2003 que, capitaneado pela intelectualha esquerdofrênica USP-Unicampiana, pretendia tolher minha liberdade de expressão. Como aconteceu então comigo, estou certo de que os ataques ao Demétrio provam que ele está de fato fazendo seu trabalho honesto e competente de pensador independente e, com isso, tornando-se um empecilho para os que querem nos aprisionar num pensamento único, monocórdio, o dos atuais donos de um poder que toma características menos democráticas e legítimas a cada dia que passa, bem como dos asseclas, apaniguados e bajuladores (pagos ou não) desses.
Pilares da ordem democrática
O fato é que Demétrio está totalmente correto no debate a respeito das cotas raciais e da atual tentativa de racializar a cidadania brasileira, uma investida que carrega em si os germes da guerra civil e mesmo do genocídio, como vimos recentemente nos Bálcãs e em Ruanda. Esta é, hoje em dia e não só no Brasil, a nova frente de batalha daqueles que nunca desistiram de tentar derrubar pilares centrais da ordem democrática e moderna, como os direitos e responsabilidades individuais. Trata-se de uma loucura, mas, como se diz, de uma loucura com método. Sua proposta delirantemente utópica é a de fazer algum tipo de justiça histórica, só que uma justiça informada por uma historiografia enviesada e deturpada, bem como por recortes inviáveis e inaceitáveis da cidadania.
Nas mãos desses delinqüentes, a história, que é sempre uma hipótese em construção e ininterruptamente debatida a respeito do passado, converte-se em desculpa para dividir cidadãos constitucionalmente iguais em grupos artificiais aos quais, paralelamente, atribui-se uma vitimização ou uma culpabilidade ancestral. X% de melanina a mais na pele, e a pessoa deixa de ser um indivíduo igual aos demais em seus direitos e obrigações, um cidadão como qualquer outro, passando a se tornar sobretudo o representante de um grupo que, oficialmente tido como vitimizado, merece reparações; Y% a mais de melanina torna outro indivíduo o membro de um grupo marcado por culpas e crimes que ele pessoalmente jamais perpetrou, obrigando-o a pagar de alguma forma por isso.
Vale a pena lembrar que um dos objetivos centrais da democracia sempre foi o de acabar com a hierarquização social fundamentada em privilégios ou obrigações de nascença. Cria-se, assim, uma nova aristocracia de vítimas hereditárias e uma nova servidão cujas vítimas são indivíduos que, reduzidos apenas a membros de um grupo, carregam uma culpa igualmente hereditária, tudo isso fundamentado numa leitura parcial, mal-informada e delinqüente, de uma leitura altamente seletiva e anacrônica das hipóteses de alguns historiadores. Assim como, séculos a fio, os judeus foram considerados coletivamente culpados pela morte de Jesus Cristo, todos os doravante classificados como brancos serão eternamente culpados pela escravização de todos aqueles doravante classificados como negros em nosso país. Não haverá mais cidadãos nem haverá mais brasileiros, só os novos privilegiados e os novos responsáveis.
As escravidões
É preciso apontar a primeira falha, a falha central desse uso pseudojurídico da história: a escravidão foi, durante milênios e até há cerca de dois séculos, a regra, não a exceção, no mundo inteiro. Populações de todo o tipo foram escravizadas pelos mais variados agentes. A própria palavra “escravo” se refere originalmente aos eslavos cativos (ancestrais dos atuais russos, poloneses, iugoslavos etc.) que eram vendidos, na Idade Média, nos mercados de Bizâncio e do Oriente Médio muçulmano. Todas as civilizações antigas ou medievais se valeram do trabalho escravo, incluindo as pré-colombianas da Meso-América, que, antes da chegada dos europeus, faziam prisioneiros de guerra entre as demais tribos ou civilizações locais não apenas para submetê-los ao trabalho forçado, mas também para sacrificá-los no alto de suas pirâmides e, em seguida, consumir canibalisticamente sua carne.
Europeus escravizaram europeus, asiáticos escravizaram asiáticos, americanos pré-colombianos escravizaram americanos pré-colombianos e africanos escravizaram africanos. Ainda nos séculos 18 e 19, piratas do norte da África capturavam regularmente navios europeus ou americanos e vendiam suas tripulações e passageiros nos seus mercados de escravos. O tráfico transatlântico, do qual participaram membros das mais diversas etnias, línguas e confissões, foi, sem dúvida, uma das maiores empreitadas escravistas, mas o tráfico negreiro rumo às terras islâmicas não foi menor e perdurou por mais tempo. Hoje mesmo, em muitos pontos do planeta, ainda há milhões de escravos, inclusive na África, em países como o Sudão e a Mauritânia.
Nazismo e comunismo
E, se estamos falando de escravidão, não podemos deixar de mencionar os dois movimentos totalitários que a recriaram em partes do mundo que já haviam se livrado dessa instituição: o nazismo e o comunismo. Ambos escravizaram parcelas imensas das populações sobre as quais reinaram ou, em alguns casos, ainda reinam, como na Coréia do Norte e Cuba, país caribenho cuja população pertence ao estado ditatorial marxista e à família de capitães-de-mato que o chefia. É curioso, portanto, ver aqueles que ou fazem a apologia ou simplesmente fecham os olhos à escravização de toda a população cubana culparem pessoas inocentes pela escravização de gente morta há mais de um século. Acontece que não foi a esquerda que iniciou a campanha contra o trabalho escravo, mas sim europeus e americanos, em primeira lugar cristãos ingleses como William Wilbeforce.
De resto, é um anacronismo óbvio aplicar categorias normativas atuais (e, como podemos ver a respeito de Cuba, categorias nem sempre implementadas ou respeitadas mesmo hoje) a uma outra era histórica. Qualquer pessoa minimamente alfabetizada em história sabe disso, vale dizer, sabe que os homens e mulheres do passado pensavam, agiam e viviam de maneira diferente. Legislar retroativamente com vistas a compensar ações que não eram, nem tinham como ser consideradas criminosas no passado equivale, entre outras coisas, a um sentimento totalitário de prepotência, à idéia de que, de alguma maneira, o passado pode ser alterado, corrigido, punido ou compensado. Os escravos que existiram e morreram, bem como os senhores ou traficantes, fossem eles africanos, brasileiros, árabes, otomanos, bizantinos, chineses, mongóis, persas, aztecas etc., que também viveram e já morreram estão além e a salvo da justiça ou injustiça dos viventes.
Quem conheça a história e ame seu estudo sabe que ela é, em boa parte, uma procissão de horrores. Como queria Stephen Dedalus, o herói de James Joyce, ela é um pesadelo do qual nos cabe acordar. Ao contrário do que querem os que tentam nos entorpecer com estórias mal-contadas acerca do passado, a ação dos homens e mulheres vivos deve se dirigir a melhorar o presente e o futuro. A única - insatisfatória, mas nem por isso menos difícil ou urgente - forma de que dispomos de fazer não a inalcançável justiça histórica, mas, sim, uma espécie de justiça poética às inumeráveis vítimas do passado é garantindo a erradicação de qualquer forma de escravidão no nosso mundo atual e lutando para assegurar a plena igualdade de direitos (acompanhados de suas respectivas responsabilidades) a todos os indivíduos vivos ou por nascer.
A liberdade de expressão que os candidatos a censor fazem de tudo para tolher é uma das principais ferramentas desse esforço. Sem ela, que permitiu, por exemplo, todas as campanhas abolicionistas na Europa, Estados Unidos e Brasil, é bem provável que a escravidão teria perdurado por mais tempo. A bem dizer, uma das liberdades confiscadas ao escravo é a de se expressar.
Quem quer que tente impedir a livre expressão das opiniões alheias não está, de modo algum, compensando ou remediando a escravidão passada, mas, sim, instaurando a futura. A escravidão mais perigosa e perniciosa não é aquela abolida há um século ou mais, mas, antes, aquela que já existe e aquela que segue nos ameaçando com seu retorno iminente em cada ato ou ação que corrói e enfraquece a democracia. Por sorte, e ao contrário do que sucede com a escravidão do passado, esta é uma contra a qual todos os homens de bem podem -e devem-lutar.
Bancoop_O partido da bandidagem (O Estado de São Paulo)
O recém-escolhido tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, está tecnicamente certo quando diz que nunca tinha sido acusado de nada nem responde a processo algum, civil ou criminal, por sua atuação na Cooperativa Habitacional do Sindicato dos Bancários de São Paulo (Bancoop), de que foi diretor financeiro (entre 2003 e 2004) e presidente (de 2005 até fevereiro passado). Mas os seus protestos de inocência só se sustêm graças à letárgica andadura da Justiça brasileira. Datam de setembro de 2006, há 3 anos e meio portanto, as primeiras denúncias de irregularidades na cooperativa, levantadas pelo Ministério Público (MP) do Estado. Em 2007, foi aberto inquérito criminal para apurar delitos da entidade, como superfaturamento de obras, apropriação indébita, desvio de verba e formação de quadrilha. No ano seguinte, uma testemunha disse ao MP que recursos desviados da Bancoop ajudaram a financiar clandestinamente a vitoriosa campanha presidencial de Lula em 2002.
A testemunha, Hélio Malheiro, era irmão de um ex-presidente da cooperativa, Luiz Eduardo, falecido em um acidente de carro em 2004, juntamente com dois outros dirigentes da instituição. Dizendo-se ameaçado de morte, Hélio foi acolhido no Programa de Proteção a Testemunhas do governo paulista. O seu depoimento foi crucial para o MP caracterizar a Bancoop como uma “organização criminosa” e solicitar a quebra do seu sigilo bancário, como foi noticiado em junho de 2008. Só na semana passada, porém, o promotor responsável pelas investigações, José Carlos Blat, recebeu o papelório — mais de 8 mil páginas de registros de transações entre 2001 e 2008. E foi com base nessa documentação que ele pediu, na última sexta-feira, o bloqueio das contas da Bancoop e a abertura dos dados bancários e fiscais de João Vaccari Neto, acusando-o de “gestão fraudulenta”.
A apropriação para fins pessoais e políticos dos recursos dos cooperados, fundos de pensão e empréstimos captados pelo sindicato dos bancários transformou 400 famílias em vítimas do conto da casa própria: os imóveis que compraram na planta não foram construídos, mas os lesados continuaram a pagar as respectivas prestações. Segundo a revista Veja, que teve acesso aos autos do inquérito, a Bancoop sacou em dinheiro vivo de suas contas pelo menos R$ 31 milhões. Outros cheques, somando R$ 10 milhões, favoreceram uma empreiteira formada por diretores da entidade, que, por sinal, era sua única cliente conhecida. O responsável pelas obras da cooperativa disse que os pagamentos eram superfaturados em 20%. “Os dirigentes da Bancoop”, apurou Blat, “sangraram os cofres da cooperativa em benefício próprio e também para fomentar campanhas políticas do PT.”
A prova mais gritante foi o R$ 1,5 milhão pago entre 2005 e 2006 — quando a instituição estava praticamente quebrada — a uma firma espectral de serviços de segurança, então de propriedade de Freud Godoy, na época segurança de Lula. Cada qual a seu modo, Godoy e Vaccari se envolveram no escândalo do dossiê, a compra abortada pela Polícia Federal de material supostamente incriminador para candidatos tucanos na campanha de 2006. Quando a operação fez água, Lula chamou os seus autores de “aloprados”. Pelo dossiê, os petistas pagariam R$ 1,7 milhão. Nunca se descobriu de onde veio a dinheirama. À luz do que já se sabe das falcatruas da Bancoop, ela pode ter sido a fonte pagadora da baixaria. Tão logo entregou parte da bolada aos encarregados de comprar o dossiê, foi para Vaccari que ligou um dos cabeças da operação, Hamilton Lacerda, então assessor do senador Aloizio Mercadante.
Mas Vaccari não é o primeiro elo da cadeia. Ele deve a sua carreira ao companheiraço Ricardo Berzoini, que presidia o PT até poucas semanas — e, como tal, foi acusado de autorizar a compra do dossiê. Berzoini alçou o bancário Vaccari à presidência do sindicato da categoria, em 1998. Em 2004, Berzoini salvou a Bancoop da falência, ajudando-a a levantar no mercado R$ 43 milhões — via fundos de pensão de estatais comandados por petistas do grupo dele e de Vaccari. A Polícia Federal chegou a abrir inquérito sobre o prejuízo imposto aos fundos para favorecer a Bancoop. A rigor, nenhuma surpresa, considerando a folha corrida do PT. Mas, a cada escândalo, mais se aprende sobre a destreza com que a bandidagem petista se apossa do dinheiro alheio para chegar lá — e ali se manter.
A testemunha, Hélio Malheiro, era irmão de um ex-presidente da cooperativa, Luiz Eduardo, falecido em um acidente de carro em 2004, juntamente com dois outros dirigentes da instituição. Dizendo-se ameaçado de morte, Hélio foi acolhido no Programa de Proteção a Testemunhas do governo paulista. O seu depoimento foi crucial para o MP caracterizar a Bancoop como uma “organização criminosa” e solicitar a quebra do seu sigilo bancário, como foi noticiado em junho de 2008. Só na semana passada, porém, o promotor responsável pelas investigações, José Carlos Blat, recebeu o papelório — mais de 8 mil páginas de registros de transações entre 2001 e 2008. E foi com base nessa documentação que ele pediu, na última sexta-feira, o bloqueio das contas da Bancoop e a abertura dos dados bancários e fiscais de João Vaccari Neto, acusando-o de “gestão fraudulenta”.
A apropriação para fins pessoais e políticos dos recursos dos cooperados, fundos de pensão e empréstimos captados pelo sindicato dos bancários transformou 400 famílias em vítimas do conto da casa própria: os imóveis que compraram na planta não foram construídos, mas os lesados continuaram a pagar as respectivas prestações. Segundo a revista Veja, que teve acesso aos autos do inquérito, a Bancoop sacou em dinheiro vivo de suas contas pelo menos R$ 31 milhões. Outros cheques, somando R$ 10 milhões, favoreceram uma empreiteira formada por diretores da entidade, que, por sinal, era sua única cliente conhecida. O responsável pelas obras da cooperativa disse que os pagamentos eram superfaturados em 20%. “Os dirigentes da Bancoop”, apurou Blat, “sangraram os cofres da cooperativa em benefício próprio e também para fomentar campanhas políticas do PT.”
A prova mais gritante foi o R$ 1,5 milhão pago entre 2005 e 2006 — quando a instituição estava praticamente quebrada — a uma firma espectral de serviços de segurança, então de propriedade de Freud Godoy, na época segurança de Lula. Cada qual a seu modo, Godoy e Vaccari se envolveram no escândalo do dossiê, a compra abortada pela Polícia Federal de material supostamente incriminador para candidatos tucanos na campanha de 2006. Quando a operação fez água, Lula chamou os seus autores de “aloprados”. Pelo dossiê, os petistas pagariam R$ 1,7 milhão. Nunca se descobriu de onde veio a dinheirama. À luz do que já se sabe das falcatruas da Bancoop, ela pode ter sido a fonte pagadora da baixaria. Tão logo entregou parte da bolada aos encarregados de comprar o dossiê, foi para Vaccari que ligou um dos cabeças da operação, Hamilton Lacerda, então assessor do senador Aloizio Mercadante.
Mas Vaccari não é o primeiro elo da cadeia. Ele deve a sua carreira ao companheiraço Ricardo Berzoini, que presidia o PT até poucas semanas — e, como tal, foi acusado de autorizar a compra do dossiê. Berzoini alçou o bancário Vaccari à presidência do sindicato da categoria, em 1998. Em 2004, Berzoini salvou a Bancoop da falência, ajudando-a a levantar no mercado R$ 43 milhões — via fundos de pensão de estatais comandados por petistas do grupo dele e de Vaccari. A Polícia Federal chegou a abrir inquérito sobre o prejuízo imposto aos fundos para favorecer a Bancoop. A rigor, nenhuma surpresa, considerando a folha corrida do PT. Mas, a cada escândalo, mais se aprende sobre a destreza com que a bandidagem petista se apossa do dinheiro alheio para chegar lá — e ali se manter.
Dispensa de Licitação_Nova 'Modalidade'
A prática de se dispensar a licitação se tornou tão perniciosa e se presta a tão inconfessáveis interesses que tornou essa exceção em verdadeira regra, uma ‘modalidade’ mesmo, para não dizer uma imoralidade.
Em nome de fatos naturais perfeitamente previsíveis como as nossas enchentes e vazantes, cíclicas como o fluir e refluir das ondas nas praias, todavia os nossos governantes, prefeitos e governador, teimam em se utilizar de artifícios para ‘dispensar’ a licitação.
A licitação é um procedimento legal pelo qual o Poder Público torna lícitos os contratos que faz com os particulares para compra de bens, serviços e obras, dando a todos iguais condições dentro de parâmetros técnicos e financeiros aceitáveis, com a finalidade de contratar o melhor para a administração.
Ao mesmo tempo em que dá iguais condições de participação, consegue o que há de melhor em termos de qualidade e preço para aquisição de bens, serviços e obras.
A própria lei 8666/93- a lei das licitações -, prevê os casos de ‘dispensas’ da mesma, que vão do pequeno valor à ocorrência de calamidades, mas sempre por um prazo certo que gira em torno de seis meses.
Contudo, o que se vê são a utilização dessa exceção sendo aplicada como regra.
A utilização da dispensa tendo como justificativa a ocorrência de desastres naturais – como se fosse o caso das enchentes e secas em nosso Estado, o que não é -, traz uma forte dose de oportunismo e má fé quando os contratados são geralmente pessoas e empresas próximas ao círculo pessoal do dirigente e quando se sabe dos vícios de nosso sistema político em que as campanhas eleitorais são custeadas por recursos privados que na primeira oportunidade são pagos com recursos públicos por conta desses artifícios ardilosos como é o caso da ‘dispensa’ de licitação para beneficiar justamente essas pessoas e empresas. Todos sabemos disso. Ninguém faz nada...
Em nome de fatos naturais perfeitamente previsíveis como as nossas enchentes e vazantes, cíclicas como o fluir e refluir das ondas nas praias, todavia os nossos governantes, prefeitos e governador, teimam em se utilizar de artifícios para ‘dispensar’ a licitação.
A licitação é um procedimento legal pelo qual o Poder Público torna lícitos os contratos que faz com os particulares para compra de bens, serviços e obras, dando a todos iguais condições dentro de parâmetros técnicos e financeiros aceitáveis, com a finalidade de contratar o melhor para a administração.
Ao mesmo tempo em que dá iguais condições de participação, consegue o que há de melhor em termos de qualidade e preço para aquisição de bens, serviços e obras.
A própria lei 8666/93- a lei das licitações -, prevê os casos de ‘dispensas’ da mesma, que vão do pequeno valor à ocorrência de calamidades, mas sempre por um prazo certo que gira em torno de seis meses.
Contudo, o que se vê são a utilização dessa exceção sendo aplicada como regra.
A utilização da dispensa tendo como justificativa a ocorrência de desastres naturais – como se fosse o caso das enchentes e secas em nosso Estado, o que não é -, traz uma forte dose de oportunismo e má fé quando os contratados são geralmente pessoas e empresas próximas ao círculo pessoal do dirigente e quando se sabe dos vícios de nosso sistema político em que as campanhas eleitorais são custeadas por recursos privados que na primeira oportunidade são pagos com recursos públicos por conta desses artifícios ardilosos como é o caso da ‘dispensa’ de licitação para beneficiar justamente essas pessoas e empresas. Todos sabemos disso. Ninguém faz nada...
11 março 2010
Jornalismo delinquente e cotas_Demétrio Magnoli
As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto disfarçado de reportagem publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz (”DEM corresponsabiliza negros pela escravidão”, Cotidiano, 4/3).
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a “raça negra” carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à “raça branca” a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (”África não organizou tráfico, diz historiador”), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que “toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais”.
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: “Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor”. Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: “Negros corresponsabilizam negros pela escravidão”.
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º. Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. “Não discutimos a escravidão”, afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.
A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.
O senador referiu-se aos reinos africanos, mas os militantes fantasiados de repórteres substituíram “africanos” por “negros”, convertendo uma explanação factual sobre história política numa leitura racializada da história.
Não: ninguém disse que a “raça negra” carrega responsabilidades pela escravidão. Mas se entende o impulso que fabrica a mentira: os arautos mais inescrupulosos das políticas de raça atribuem à “raça branca” a responsabilidade pela escravidão.
Num passado recente, ainda se narrava essa história sem embrulhá-la na imaginação racial. Dizia-se o seguinte: o tráfico atlântico articulou os interesses de traficantes europeus e americanos aos dos reinos negreiros africanos. Isso não era segredo ou novidade antes da deflagração do empreendimento de uma revisão racial da história humana com a finalidade bem atual de sustentar leis de divisão das pessoas em grupos raciais oficiais.
Demóstenes Torres disse o que está nos registros históricos. Os repórteres a serviço de uma doutrina tentam fazer da história um escândalo.
O jornalismo que abomina os fatos precisa de ajuda. O instituto da escravidão existia na África (como em tantos outros lugares) bem antes do início do tráfico atlântico. Inimigos derrotados, pessoas endividadas e condenados por crimes diversos eram escravizados. A inexistência de um interdito moral à escravidão propiciou a aliança entre reinos africanos e os traficantes que faziam a rota do Atlântico. Os empórios do tráfico, implantados no litoral da África, eram fortalezas de propriedade dos reinos africanos, alugadas aos traficantes.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, convocado para envernizar a delinquência histórica dos repórteres (”África não organizou tráfico, diz historiador”), conhece a participação logística crucial dos reinos africanos no negócio do tráfico. Mas sofreu de uma forma aguda e providencial de amnésia ideológica ao afirmar, referindo-se ao tráfico, que “toda a logística e o mercado eram uma operação dos ocidentais”.
Os grandes reinos negreiros africanos controlavam redes escravistas extensas, capilarizadas, que se ramificavam para o interior do continente e abrangiam parceiros comerciais estatais e mercadores autônomos. No mais das vezes, a captura e a escravização dos infelizes que passaram pelas fortalezas litorâneas eram realizadas por africanos.
Num livro publicado em Londres, que está entre os documentos essenciais da história do tráfico, o antigo escravo Quobna Cugoano relatou sua experiência na fortaleza de Cape Coast: “Devo admitir que, para a vergonha dos homens de meu próprio país, fui raptado e traído por alguém de minha própria cor”. Laura e Lucas, na linha da delinquência, já têm o título para uma nova reportagem: “Negros corresponsabilizam negros pela escravidão”.
O tráfico e a escravidão interna articulavam-se estreitamente. No reino do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século 16, o poder do rei e da aristocracia apoiava-se no domínio sobre uma ampla classe de escravos.
No Congo, a população escrava chegou a representar cerca de metade do total. O reino Ashanti, que dominou a Costa do Ouro por três séculos, tinha na exportação de escravos sua maior fonte de renda. Os chefes do Daomé tentaram incorporar seu reino ao império do Brasil para vender escravos sob a proteção de d. Pedro 1º. Em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.
Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.O providencial esquecimento de Alencastro é um fenômeno disseminado na África. “Não discutimos a escravidão”, afirma Barima Nkye 12, chefe supremo do povoado ganês de Assin Mauso, cuja elite descende da aristocracia escravista ashanti. Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.
Amnésia lá, falsificação, manipulação e mentira aqui. Sempre em nome de poderosos interesses atuais.
08 março 2010
O ‘sistema’ de cacarecos de Manaus
Essa expressão gaiata está na boca da população dada a inexistência de uma política séria para esse setor desde o início do século dezenove, ao final da era de um governador também chamado Eduardo - o Ribeiro, quando os bondes ‘cortavam’ as ruas do antigo centro histórico de Manaus e se estendiam até onde é hoje o estádio Vivaldo Lima.
Manaus, mesmo contando entre a sua população com o governador do Estado, por ser a capital, nem por isso desfruta de uma posição privilegiada no setor de transporte urbano de massa.
Priorizou-se o transporte individual como maneira de auto-afirmação das classes sociais em ascensão, do que se aproveitaram os políticos para simplesmente deixarem ao acaso o transporte público, ou, o que é pior, entregue aos interesses meramente privados, nas mãos de empresários de ônibus, que realmente é quem estão ‘dando as cartas’ no setor, a ponto de se insurgirem contra quem tentar pôr alguma ordem no caos que ora predomina.
Todo prefeito que entra é ‘tragado’ pela ‘máquina’ infernal que se montou há décadas com o objetivo de explorar ao máximo a população dócil composta por caboclinhos – tidos por natureza como afeitos ao sofrimento -, os quais, por sua humildade de origem, não têm quem lhes defendam os interesses e assim apenas servem de massa de manobra nas mãos de gente inescrupulosa.
Ações diversionistas e eleiçoeiras são montadas como ‘circos’ a divertirem uns e outros em debate cínico em que os culpados são sempre ‘os outros’ e nunca a autoridade pública assume qualquer compromisso com a solução do problema. Aliás, nem veem isso como problema. Apontam como solução obras de engenharia e nenhuma atenção se dá para a gestão daquilo que cinicamente chamam de ‘sistema’.
Pobre gente pobre! Até quando vão abusar da nossa paciência?
Manaus, mesmo contando entre a sua população com o governador do Estado, por ser a capital, nem por isso desfruta de uma posição privilegiada no setor de transporte urbano de massa.
Priorizou-se o transporte individual como maneira de auto-afirmação das classes sociais em ascensão, do que se aproveitaram os políticos para simplesmente deixarem ao acaso o transporte público, ou, o que é pior, entregue aos interesses meramente privados, nas mãos de empresários de ônibus, que realmente é quem estão ‘dando as cartas’ no setor, a ponto de se insurgirem contra quem tentar pôr alguma ordem no caos que ora predomina.
Todo prefeito que entra é ‘tragado’ pela ‘máquina’ infernal que se montou há décadas com o objetivo de explorar ao máximo a população dócil composta por caboclinhos – tidos por natureza como afeitos ao sofrimento -, os quais, por sua humildade de origem, não têm quem lhes defendam os interesses e assim apenas servem de massa de manobra nas mãos de gente inescrupulosa.
Ações diversionistas e eleiçoeiras são montadas como ‘circos’ a divertirem uns e outros em debate cínico em que os culpados são sempre ‘os outros’ e nunca a autoridade pública assume qualquer compromisso com a solução do problema. Aliás, nem veem isso como problema. Apontam como solução obras de engenharia e nenhuma atenção se dá para a gestão daquilo que cinicamente chamam de ‘sistema’.
Pobre gente pobre! Até quando vão abusar da nossa paciência?
06 março 2010
O modus operandi do PT
Vejam a matéria de Veja desta semana:
Exclusivo: revelado o esquema petista na Bancoop
6 de março de 2010
Depois de quase três anos de investigação, o Ministério Público de São Paulo finalmente conseguiu pôr as mãos na caixa-preta que promete desvendar um dos mais espantosos esquemas de desvio de dinheiro perpetrados pelo núcleo duro do Partido dos Trabalhadores: o esquema Bancoop. Desde 2005, a sigla para Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou, no lugar dos apartamentos, um rastro de escombros. Pelo menos 400 famílias movem processos contra a cooperativa, alegando que, mesmo tendo quitado o valor integral dos imóveis, não só deixaram de recebê-los como passaram a ver as prestações se multiplicar a ponto de levá-las à ruína. Agora, começa-se a entender por quê.
Na semana passada, chegaram às mãos do promotor José Carlos Blat mais de 8.000 páginas de registros de transações bancárias realizadas pela Bancoop entre 2001 e 2008. O que elas revelam é que, nas mãos de dirigentes petistas, a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do partido. "A Bancoop é hoje uma organização criminosa cuja função principal é captar recursos para o caixa dois do PT e que ajudou a financiar inclusive a campanha de Lula à Presidência em 2002." Na sexta-feira, o promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da Bancoop e a quebra de sigilo bancário daquele que ele considera ser o principal responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, seu ex-diretor financeiro e ex-presidente João Vaccari Neto. Vaccari acaba de ser nomeado o novo tesoureiro do PT e, como tal, deve cuidar das finanças da campanha eleitoral de Dilma Rousseff à Presidência.
Um dos dados mais estarrecedores que emergem dos extratos bancários analisados pelo MP é o milionário volume de saques em dinheiro feitos por meio de cheques emitidos pela Bancoop para ela mesma ou para seu banco: 31 milhões de reais só na pequena amostragem analisada. O uso de cheques como esses é uma estratégia comum nos casos em que não se quer revelar o destino do dinheiro. Até agora, o MP conseguiu esquadrinhar um terço das ordens de pagamento do lote de trinta volumes recebidos. Metade desses documentos obedecia ao padrão destinado a permitir saques anônimos. Já outros cheques encontrados, totalizando 10 milhões de reais e compreendidos no período de 2003 a 2005, tiveram destino bem explícito: o bolso de quatro dirigentes da cooperativa, o ex-presidente Luiz Eduardo Malheiro e os ex-diretores Alessandro Robson Bernardino, Marcelo Rinaldo e Tomas Edson Botelho Fraga – os três primeiros mortos em um acidente de carro em 2004 em Petrolina (PE).
Eles eram donos da Germany Empreiteira, cujo único cliente conhecido era a própria Bancoop. Segundo o engenheiro Ricardo Luiz do Carmo, que foi responsável por todas as construções da cooperativa, as notas emitidas pela Germany para a Bancoop eram superfaturadas em 20%. A favor da empreiteira, no entanto, pode-se dizer que ela ao menos existia de fato. De acordo com a mesma testemunha, não era o caso da empresa de "consultoria contábil" Mizu, por exemplo, pertencente aos mesmos dirigentes da Bancoop e em cuja contabilidade o MP encontrou, até o momento, seis saídas de dinheiro referentes ao ano de 2002 com a rubrica "doação PT", no valor total de 43 200 reais. Até setembro do ano passado, a lei não autorizava cooperativas a fazer doações eleitorais. Os depoimentos colhidos pelo MP indicam que o esquema de desvio de dinheiro da Bancoop obedeceu a uma trajetória que já se tornou um clássico petista. Começou para abastecer campanhas eleitorais do partido e acabou servindo para atender a interesses particulares de petistas.
'Cozinha' - Outro frequente agraciado com cheques da Bancoop tornou-se nacionalmente conhecido na esteira de um dos últimos escândalos que envolveram o partido. Freud "Aloprado" Godoy – ex-segurança das campanhas do presidente Lula, homem "da cozinha" do PT e um dos pivôs do caso da compra do falso dossiê contra tucanos na campanha de 2006 – recebeu, por meio da empresa que dirigia até o ano passado, onze cheques totalizando 1,5 milhão de reais, datados entre 2005 e 2006. Nesse período, a Caso Sistemas de Segurança, nome da sua empresa, funcionava no número 89 da Rua Alberto Frediani, em Santana do Parnaíba, segundo registro da Junta Comercial. Vizinhos dizem que, além da placa com o nome da firma, nada indicava que houvesse qualquer atividade por lá. O único funcionário visível da Caso era um rapaz que vinha semanalmente recolher as correspondências num carro popular azul. Hoje, a Caso se transferiu para uma casa no município de Santo André, na região do ABC.
Depoimentos colhidos pelo MP ao longo dos últimos dois anos já atestavam que o dinheiro da Bancoop havia servido para abastecer a campanha petista de 2002 que levou Lula à Presidência da República. VEJA ouviu uma das testemunhas, Andy Roberto, que trabalhou como segurança da Bancoop e de Luiz Malheiro entre 2001 e 2005. Em depoimento ao MP, Roberto afirmou que Malheiro, o ex-presidente morto da Bancoop, entregava envelopes de dinheiro diretamente a Vaccari, então presidente do Sindicato dos Bancários e indicado como o responsável pelo recolhimento da caixinha de campanha de Lula. Em entrevista a VEJA, Roberto não repetiu a afirmação categoricamente, mas disse estar convicto de que isso ocorria e relatou como, mesmo depois da eleição de Lula, entre 2003 e 2004, quantias semanais de dinheiro continuaram saindo de uma agência Bradesco do Viaduto do Chá, centro de São Paulo, supostamente para o Sindicato dos Bancários, então presidido por Vaccari. "A gente ia no banco e buscava pacotes, duas pessoas escoltando uma terceira." Os pacotes, afirmou, eram entregues à secretária de Luiz Malheiro, que os entregava ao chefe. "Quando essas operações aconteciam, com certeza, em algum horário daquele dia, o Malheiro ia até o Sindicato dos Bancários. Ou, então, se encontrava com o Vaccari em algum lugar."
Que tal? E agora, seu Lula? Vai deizer que isso é coisa 'velha'? Que é coisa eleitoreira? E quanto a José Roberto Arruda, não? é 'mutreta'? Só porque ele ERA do DEM? Se for do PT, é 'armação'?
Exclusivo: revelado o esquema petista na Bancoop
6 de março de 2010
Depois de quase três anos de investigação, o Ministério Público de São Paulo finalmente conseguiu pôr as mãos na caixa-preta que promete desvendar um dos mais espantosos esquemas de desvio de dinheiro perpetrados pelo núcleo duro do Partido dos Trabalhadores: o esquema Bancoop. Desde 2005, a sigla para Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo virou um pesadelo para milhares de associados. Criada com a promessa de entregar imóveis 40% mais baratos que os de mercado, ela deixou, no lugar dos apartamentos, um rastro de escombros. Pelo menos 400 famílias movem processos contra a cooperativa, alegando que, mesmo tendo quitado o valor integral dos imóveis, não só deixaram de recebê-los como passaram a ver as prestações se multiplicar a ponto de levá-las à ruína. Agora, começa-se a entender por quê.
Na semana passada, chegaram às mãos do promotor José Carlos Blat mais de 8.000 páginas de registros de transações bancárias realizadas pela Bancoop entre 2001 e 2008. O que elas revelam é que, nas mãos de dirigentes petistas, a cooperativa se transformou num manancial de dinheiro destinado a encher os bolsos de seus diretores e a abastecer campanhas eleitorais do partido. "A Bancoop é hoje uma organização criminosa cuja função principal é captar recursos para o caixa dois do PT e que ajudou a financiar inclusive a campanha de Lula à Presidência em 2002." Na sexta-feira, o promotor pediu à Justiça o bloqueio das contas da Bancoop e a quebra de sigilo bancário daquele que ele considera ser o principal responsável pelo esquema de desvio de dinheiro da cooperativa, seu ex-diretor financeiro e ex-presidente João Vaccari Neto. Vaccari acaba de ser nomeado o novo tesoureiro do PT e, como tal, deve cuidar das finanças da campanha eleitoral de Dilma Rousseff à Presidência.
Um dos dados mais estarrecedores que emergem dos extratos bancários analisados pelo MP é o milionário volume de saques em dinheiro feitos por meio de cheques emitidos pela Bancoop para ela mesma ou para seu banco: 31 milhões de reais só na pequena amostragem analisada. O uso de cheques como esses é uma estratégia comum nos casos em que não se quer revelar o destino do dinheiro. Até agora, o MP conseguiu esquadrinhar um terço das ordens de pagamento do lote de trinta volumes recebidos. Metade desses documentos obedecia ao padrão destinado a permitir saques anônimos. Já outros cheques encontrados, totalizando 10 milhões de reais e compreendidos no período de 2003 a 2005, tiveram destino bem explícito: o bolso de quatro dirigentes da cooperativa, o ex-presidente Luiz Eduardo Malheiro e os ex-diretores Alessandro Robson Bernardino, Marcelo Rinaldo e Tomas Edson Botelho Fraga – os três primeiros mortos em um acidente de carro em 2004 em Petrolina (PE).
Eles eram donos da Germany Empreiteira, cujo único cliente conhecido era a própria Bancoop. Segundo o engenheiro Ricardo Luiz do Carmo, que foi responsável por todas as construções da cooperativa, as notas emitidas pela Germany para a Bancoop eram superfaturadas em 20%. A favor da empreiteira, no entanto, pode-se dizer que ela ao menos existia de fato. De acordo com a mesma testemunha, não era o caso da empresa de "consultoria contábil" Mizu, por exemplo, pertencente aos mesmos dirigentes da Bancoop e em cuja contabilidade o MP encontrou, até o momento, seis saídas de dinheiro referentes ao ano de 2002 com a rubrica "doação PT", no valor total de 43 200 reais. Até setembro do ano passado, a lei não autorizava cooperativas a fazer doações eleitorais. Os depoimentos colhidos pelo MP indicam que o esquema de desvio de dinheiro da Bancoop obedeceu a uma trajetória que já se tornou um clássico petista. Começou para abastecer campanhas eleitorais do partido e acabou servindo para atender a interesses particulares de petistas.
'Cozinha' - Outro frequente agraciado com cheques da Bancoop tornou-se nacionalmente conhecido na esteira de um dos últimos escândalos que envolveram o partido. Freud "Aloprado" Godoy – ex-segurança das campanhas do presidente Lula, homem "da cozinha" do PT e um dos pivôs do caso da compra do falso dossiê contra tucanos na campanha de 2006 – recebeu, por meio da empresa que dirigia até o ano passado, onze cheques totalizando 1,5 milhão de reais, datados entre 2005 e 2006. Nesse período, a Caso Sistemas de Segurança, nome da sua empresa, funcionava no número 89 da Rua Alberto Frediani, em Santana do Parnaíba, segundo registro da Junta Comercial. Vizinhos dizem que, além da placa com o nome da firma, nada indicava que houvesse qualquer atividade por lá. O único funcionário visível da Caso era um rapaz que vinha semanalmente recolher as correspondências num carro popular azul. Hoje, a Caso se transferiu para uma casa no município de Santo André, na região do ABC.
Depoimentos colhidos pelo MP ao longo dos últimos dois anos já atestavam que o dinheiro da Bancoop havia servido para abastecer a campanha petista de 2002 que levou Lula à Presidência da República. VEJA ouviu uma das testemunhas, Andy Roberto, que trabalhou como segurança da Bancoop e de Luiz Malheiro entre 2001 e 2005. Em depoimento ao MP, Roberto afirmou que Malheiro, o ex-presidente morto da Bancoop, entregava envelopes de dinheiro diretamente a Vaccari, então presidente do Sindicato dos Bancários e indicado como o responsável pelo recolhimento da caixinha de campanha de Lula. Em entrevista a VEJA, Roberto não repetiu a afirmação categoricamente, mas disse estar convicto de que isso ocorria e relatou como, mesmo depois da eleição de Lula, entre 2003 e 2004, quantias semanais de dinheiro continuaram saindo de uma agência Bradesco do Viaduto do Chá, centro de São Paulo, supostamente para o Sindicato dos Bancários, então presidido por Vaccari. "A gente ia no banco e buscava pacotes, duas pessoas escoltando uma terceira." Os pacotes, afirmou, eram entregues à secretária de Luiz Malheiro, que os entregava ao chefe. "Quando essas operações aconteciam, com certeza, em algum horário daquele dia, o Malheiro ia até o Sindicato dos Bancários. Ou, então, se encontrava com o Vaccari em algum lugar."
Que tal? E agora, seu Lula? Vai deizer que isso é coisa 'velha'? Que é coisa eleitoreira? E quanto a José Roberto Arruda, não? é 'mutreta'? Só porque ele ERA do DEM? Se for do PT, é 'armação'?
05 março 2010
Miscigenação entre o colonizador branco e a escrava negra_Gilberto Freyre
"Introduzidas as mulheres africanas no Brasil dentro dessas condições irregulares de vida sexual, a seu favor não se levantou nunca, como a favor das mulheres índias, a voz poderosa dos padres da Companhia. De modo que por muito tempo as relações entre colonos e mulheres africanas foram as de franca lubricidade animal. Pura descarga de sentidos. Mas não que fossem as negras que trouxessem da África nos instintos, no sangue, na carne, maior violência sensual que as portuguesas ou as índias.
"Dampier, que esteve na Bahia, no século XVII, soube de vários colonos amasiados com negras: “Plusieurs dês portugais, qui ne sont pás marrez, entreiennent de cês femmes noires pour leurs maitresses.” Já não eram as relações dos portugueses com as pretas, as de pura animalidade dos primeiros tempos. Muita africana conseguira impor-se ao respeito dos brancos; umas, pelo temor inspirado por suas mandingas; outras, como as Minas, pelos seus quindins e pela sua finura de mulher. Daí ter uma minoria delas conquistado para si uma situação quase idêntica à que o moralismo parcial dos jesuítas só soubera assegurar para as índias. Situação de “caseiras” e “concubinas” dos brancos; e não exclusivamente de animais engordados nas senzalas para gozo físico dos senhores e aumento do seu capital-homem."
Trecho do livro Casa grande & Senzala, de Gilberto Freyre
"Dampier, que esteve na Bahia, no século XVII, soube de vários colonos amasiados com negras: “Plusieurs dês portugais, qui ne sont pás marrez, entreiennent de cês femmes noires pour leurs maitresses.” Já não eram as relações dos portugueses com as pretas, as de pura animalidade dos primeiros tempos. Muita africana conseguira impor-se ao respeito dos brancos; umas, pelo temor inspirado por suas mandingas; outras, como as Minas, pelos seus quindins e pela sua finura de mulher. Daí ter uma minoria delas conquistado para si uma situação quase idêntica à que o moralismo parcial dos jesuítas só soubera assegurar para as índias. Situação de “caseiras” e “concubinas” dos brancos; e não exclusivamente de animais engordados nas senzalas para gozo físico dos senhores e aumento do seu capital-homem."
Trecho do livro Casa grande & Senzala, de Gilberto Freyre
Negros donos de escravos negros_Demétrio Magnoli
"Se a escravidão tradicional africana funcionou como alicerce para a venda de escravos aos traficantes europeus e árabes, também é verdade que o tráfico negreiro ampliou o escravismo na África. A população cativa do Congo chegou a representar 50% do total. No reino vassalo do Ndongo, estabelecido na atual Angola no século XVI, a classe dos escravos era a fonte do poder do rei e da aristocracia.
O reino Ashanti dominou a Costa do Ouro por três séculos e a venda de escravos para os traficantes representou a mais importante fonte de suas rendas, que eram trocadas por bens comercializados pelos europeus. Os lugares onde foram erguidos os empórios de escravos não eram posses dos traficantes, mas da chefia ashanti, que os cedia mediante um aluguel mensal. Os ingleses pagavam pelo uso do Castelo de Cape Coast. No golfo da Guiné, antes do reino Ashanti, cujo apogeu se deu no século XVIII o negócio do tráfico tinha como foco o estado de Oyo, na atual Nigéria, e depois transferiu-se para o Daomé, no atual Benin. Os chefes do Daomé mantinham estreitas relações com os traficantes luso-brasileiros do Rio de Janeiro e, quando o Brasil declarou sua independência, chegaram a explorar a hi-pótese de se juntar ao Império de D. Pedro I na condição de província ultramarina.
As guerras entre Estados africanos tornaram-se mais comuns nas áreas sob a influência dos empórios negreiros, pois a captura e escravização passaram a figurar como fontes essenciais de riqueza para as chefias. As guerras crônicas entre os ashantis e os acans forneceram, para as chefias de ambos os lados, muitos dos cativos que foram vendidos como escravos nos empórios da Costa do Ouro. Entre 1814 e 1816, os ashantis conduziram uma sangrenta guerra contra uma coalizão
dos akins e akwapis para recuperar acesso a portos marítimos e, desse modo, aoí traficantes europeus. Pouco antes do fim do tráfico transatlântico, em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido o princípio norteador de meu povo” e, ainda, que “ele tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.’1 Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O nexo africano do sistema internacional de comércio de escravos pesa como uma rocha em certos países da África. “Não discutimos a escravidão”, assegura Barima Kwame Nkye XII, um chefe supremo do povoado ganes de Assin Mauso, enquanto Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.5 A “amnésia” concerne, especialmente, ao papel desempenhada pelos chefes ashantis, cujos descendentes continuam a ocupar lugares destacados na sociedade ganesa. Uma história oficial procura estabelecer uma distinção absoluta entre a escravidão tradicional, descrita como mais ou menos benevolente, e o tráfico internacional, que é atribuído exclusivamente aos europeus. Contudo, em algumas regiões africanas, descendentes de escravos não têm, até hoje, o direito de herança.
O trecho acima é do livro Uma Gota de Sangue, de Demétrio Magnoli.
O reino Ashanti dominou a Costa do Ouro por três séculos e a venda de escravos para os traficantes representou a mais importante fonte de suas rendas, que eram trocadas por bens comercializados pelos europeus. Os lugares onde foram erguidos os empórios de escravos não eram posses dos traficantes, mas da chefia ashanti, que os cedia mediante um aluguel mensal. Os ingleses pagavam pelo uso do Castelo de Cape Coast. No golfo da Guiné, antes do reino Ashanti, cujo apogeu se deu no século XVIII o negócio do tráfico tinha como foco o estado de Oyo, na atual Nigéria, e depois transferiu-se para o Daomé, no atual Benin. Os chefes do Daomé mantinham estreitas relações com os traficantes luso-brasileiros do Rio de Janeiro e, quando o Brasil declarou sua independência, chegaram a explorar a hi-pótese de se juntar ao Império de D. Pedro I na condição de província ultramarina.
As guerras entre Estados africanos tornaram-se mais comuns nas áreas sob a influência dos empórios negreiros, pois a captura e escravização passaram a figurar como fontes essenciais de riqueza para as chefias. As guerras crônicas entre os ashantis e os acans forneceram, para as chefias de ambos os lados, muitos dos cativos que foram vendidos como escravos nos empórios da Costa do Ouro. Entre 1814 e 1816, os ashantis conduziram uma sangrenta guerra contra uma coalizão
dos akins e akwapis para recuperar acesso a portos marítimos e, desse modo, aoí traficantes europeus. Pouco antes do fim do tráfico transatlântico, em 1840, o rei Gezo, do Daomé, declarou que “o tráfico de escravos tem sido o princípio norteador de meu povo” e, ainda, que “ele tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.’1 Em 1872, bem depois da abolição do tráfico, o rei ashanti dirigiu uma carta ao monarca britânico solicitando a retomada do comércio de gente.
O nexo africano do sistema internacional de comércio de escravos pesa como uma rocha em certos países da África. “Não discutimos a escravidão”, assegura Barima Kwame Nkye XII, um chefe supremo do povoado ganes de Assin Mauso, enquanto Yaw Bedwa, da Universidade de Gana, diagnostica uma “amnésia geral sobre a escravidão”.5 A “amnésia” concerne, especialmente, ao papel desempenhada pelos chefes ashantis, cujos descendentes continuam a ocupar lugares destacados na sociedade ganesa. Uma história oficial procura estabelecer uma distinção absoluta entre a escravidão tradicional, descrita como mais ou menos benevolente, e o tráfico internacional, que é atribuído exclusivamente aos europeus. Contudo, em algumas regiões africanas, descendentes de escravos não têm, até hoje, o direito de herança.
O trecho acima é do livro Uma Gota de Sangue, de Demétrio Magnoli.
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