Vocês sabem que não brigo com números de pesquisa. No máximo, contesto métodos. Já fiz aqui restrições a procedimentos do Sensus e do Vox Populi e faria de novo se eles repetissem as mesmas práticas. Independentemente do resultado. E não há nada de errado com, até onde se sabe, a atuação do Ibope. Os números da pesquisa são estes que estão aí. Não há nada que determine que os números não vão mudar. Hoje, a fotografia é ruim para o tucano José Serra, como já foi para a petista Dilma Rousseff um dia. “É, mas ela está em ascensão, tem o presidente Lula, a economia a favor etc”. Tudo isso é verdade e já era um dado da equação quando ele decidiu se lançar na disputa. Antever que a petista seria competitiva ou pudesse ultrapassar o tucano na pesquisa nunca chegou a ser uma previsão ousada, não é mesmo? Havia quem apostasse nisso para fevereiro. A ultrapassagem só aconteceu no fim de junho.
O resultado é especialmente preocupante para os tucanos porque vem na seqüência do bom programa do PSDB no horário político. Não há muitos reparos a fazer no que foi levado ao ar. Em relação ao Ibope de 6 de junho, em pesquisa encomendada pela TV Globo, ele oscilou dois pontos para baixo, dentro da margem de erro — de 37% para 35% —, e ela cresceu 3, dos mesmos 37% para 40%. No segundo turno, a movimentação foi mais significativa: havia um empate rigoroso em 42%, e agora ela lidera com 45% a 38%.
O candidato tucano anda tendo algumas dificuldades, como a demora em definir o candidato a vice-presidente, por exemplo. Não creio, no entanto, que isso possa ter tido alguma influência. A rigor, ninguém vota em vice. A questão pode gerar, no máximo, notícia negativa na imprensa, mas nada relevante. Caso se tente procurar o “erro” fundamental de Serra e do PSDB, ninguém vai achar. É que a tarefa sempre foi e continuará a ser hercúlea. Nunca antes nestepaiz se viu máquina eleitoral tão azeitada: faz os seus gols com os pés — tem números a exibir —, mas também faz os gols com as mãos, como estamos cansados de ver.
A disputa se dá em condições de absoluto desequilíbrio. A grande campanha em favor de Dilma — além da mobilização pessoal de Lula — está na propaganda oficial e das estais, que já não se distingue da campanha eleitoral. A Petrobras, o Banco do Brasil e a CEF, para citar três casos, não vendem produtos, mas um “novo Brasil”, o mesmo de que fala Dilma. É campanha eleitoral. Pode-se argumentar que também o estado de São Paulo é um grande anunciante. É verdade! Em São Paulo!!! A propaganda das estatais e do governo federal é nacional. Essa propaganda não busca falar apenas com o “povão”. Veja-se, por exemplo, o dito “plano de investimentos” da Petrobras. O Estadão fez hoje um excelente editorial a respeito. A estatal está em plena campanha eleitoral — em favor de Dilma, obviamente.
O horário eleitoral e os eventuais debates — se é que Dilma vai comparecer — tendem não a igualar as condições das disputas (isso é impossível!), mas, ao menos, a minorar os efeitos da desproporção entre a máquina governista e a oposição. O PT sabe que ainda não liquidou a fatura, e o PSDB sabe que algo vai ter de mudar.
Numa campanha, as coisas não caminham sempre num mesmo sentido. Alguns números das pesquisas Datafolha, de 2006, demonstram isso. Em maio daquele ano, Lula aparecia com 45%, e Alckmin, com 22%. Um mês depois, o tucano tinha 29%, e o petista, 46%. Em 8 de agosto, 24% a 47%. Em 5 de setembro, 27% a 51%. A verdade das urnas de outubro foi outra: sete pontos apenas de diferença nos votos válidos.
No Brasil, onde faltam a cólera e a ira santas, quem, senão elas, hão de expulsar do Templo o renegado, o blasfemo, o profanador, o simoníaco? Ou exterminarão da ciência o apedeuta, o plagiário, o charlatão? Ou banirão da sociedade o imoral, o corruptor, o libertino? Quem, senão elas, a varrer dos serviços do Estado o prevaricador, o concussionário e o ladrão públicos? Quem, senão elas, a precipitar do governo o negocismo, a prostituição política e a tirania? (Rui Barbosa)