Os vereadores de Manaus tomaram uma decisão perfeitamente consentânea com as práticas atuais e antigas: decretaram um recesso branco para cada um cuidar de suas campanhas a deputados estaduais. Aliás, com eleição a cada dois anos “nestepaiz”, não se pode esperar nada diferente. Os políticos profissionais estão sempre pensando na próxima eleição, pois, afinal de contas não sabem fazer outra coisa. Ou melhor, não há nenhuma atividade que seja mais lucrativa do que a política.
Estamos “carecas” de saber que nossos políticos em geral – salvo raras exceções de alguns espíritos altruístas – e nossos vereadores em particular são caras-de-pau. E não adianta irmos para a imprensa falar mal deles porque eles sabem muito bem que a população votante não lê jornal. E se lê não entende. E, se entende se cala. Ou seja, isso vai se repetir sem limitações e nada de mal lhes acontecerá, a não ser que percam as eleições. O mal lhes baterá na porta como conseqüência de perder os ganhos que poderá significar perder as eleições. Nesse sentido Lula lhes mostra que esse é o caminho.
Assim se comporta o presidente da República – que é quem deveria dar o exemplo maior pela moralidade e faz exatamente o inverso -, tornando a política uma atividade ética relativista, pela qual os fins eleitorais justificam todos os meios empregados, lícitos e ilícitos, éticos ou aéticos, uma vez que a sociedade parece não se importar com esses valores porque lhe dá índices de popularidade “nunca vistos na este país”.
Os vereadores de Manaus sabem muito bem que a sociedade está anestesiada pelo sistema político perverso em que suas lideranças tratam o povo como bovinos, inconscientes de sua própria existência, pois não pensam suas realidades a partir da massa encefálica, mas sim das entranhas saciadas pelo pão advindo das “bolsas” que o governo entrega em troca de votos. Lula antes achava a “bolsa” como eleiçoeira e hoje a considera uma moeda extremamente interessante para se manter no poder pelo poder.
Como Lula, os vereadores sabem que a moeda de troca é o voto e que, portanto, se os tiverem depositados bovinamente na urna tudo lhes será perdoado em termos das piores transgressões possíveis.
Está bastante claro que a reforma do judiciário, com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), trouxe imensos benefícios para a administração da Justiça – aqui com sentido de “gestão” e não da entrega do “direito” pelo juiz propriamente dita - e por conseguinte vemos a necessidade da aplicação dos mesmos princípios na área política: é necessário que se crie um órgão de controle social da classe política que atue permanentemente para coibir seus abusos e não apenas antes e durante o processo eleitoral ou não veremos essa atividade reprimida em suas imensas possibilidades de produzir cretinices.
Não basta dizer que a classe política sofre o controle social a cada período eleitoral porque essa não é a realidade dos fatos. Com base na utilização patrimonialista da coisa pública pela classe política, grande parte dos políticos termina por se “eternizar” nos cargos eletivos quando se utiliza dos recursos públicos para se manter no poder. Nesse sentido não existem políticos honestos. A desonestidade está no coração do sistema.
Exemplarmente, veja-se o caso da atuação do CNJ no Amazonas. Somente a partir de sua atuação pudemos perceber o quanto as práticas administrativas dos juízes em nada diferem da dos políticos em geral. E o pior é que, ao contrário da classe política, nem foram “eleitos” para isso. E mesmo que o fossem não poderiam fazê-lo pelo princípio da moralidade que rege a administração pública. Neste sentido é exemplar a atitude do atual presidente do TJAM, João Simões, que não está omitindo as mazelas daquele Poder e nem sendo corporativista digno dos encômios da sociedade amazonense. Não podemos deixá-lo sozinho nesse esforço.
Se ficarmos apenas com este princípio – que afinal é um princípio da vida social – do qual todos os demais são corolários, ou seja, a legalidade, a publicidade, a impessoalidade são todos decorrentes da moralidade. Esta é, portanto, superior àquelas. Aqui a classe política está flagrantemente em desvantagem quanto a isso.
No caso da gazeta institucionalizada na Câmara Municipal de Manaus e na Assembléia Legislativa do Amazonas – que deve ser o reflexo do que ocorre país afora – que põe em completa nudez a falta de compromisso moral e ético da classe política, que faz uso descarado dos recursos públicos, no mais crasso patrimonialismo – e que torna disputa desigual em relação aos que – ainda – não contam com mandato eletivo, e assim tendem a se “perpetuar” nos cargos políticos eletivos.
Ao mesmo tempo em que os políticos com mandato partem para o uso descarado dos recursos públicos põem em desequilíbrio qualquer disputa eleitoral. O incrível de tudo isso é que a possibilidade de mudança passa pela vontade dos mesmos que hoje estão se aproveitando dessa realidade, ou seja, a classe política. Dessa forma, a única possibilidade de mudança é a atuação direta da população, por meio das Instituições sociais, elaborando e negociando no âmbito do Poder Legislativo a mudança desse estado de coisas, como foi o caso de diversas leis no âmbito político, partidário e eleitoral, das inelegibilidades, do abuso do poder econômico e da “ficha limpa”.
A classe política vive chafurdando entre a legalidade e a imoralidade a justificar seus atos injustificáveis e, quando alguém tenta se diferençar dessa realidade, é tida como ‘demagogo’ e ‘traidor’ da classe, como mo caso da vereadora Vilma Queiroz, que optou por não receber salários quando ausente da Câmara nessa quadra eleitoral mesmo que institucionalmente tenham sido permitidas essas faltas, contrariamente ao que manda a lei e a moral.