
Raghuran
Rajan, professor da Universidade de Chicago e ex-economista-chefe do
FMI: "Os políticos trabalham de olhos nas eleições. Pouco fazem para
consertar as deficiências estruturais da economia" (Foto: Roberto
Setton)
Raghuram Rajan
AS RAÍZES PROFUNDAS DA CRISE
Para o professor da Universidade de Chicago, que anteviu o
estouro da bolha, os estímulos de curto prazo são insuficientes para
eliminar as fragilidades na economia mundial
O indiano Raghuram Rajan, 49 anos, é um dos economistas mais
respeitados de sua geração, pelos seus diagnósticos precisos sobre o
sistema financeiro e a economia global.
Um exemplo: em agosto de 2005, numa conferência para debater o legado
de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve, o banco central
americano, Rajan fez um discurso destoante dos elogios consensuais.
Advertiu que a criação de aplicações financeiras complexas havia sido
acompanhada de um aumento excessivo da exposição dos bancos a operações
de risco, pondo em perigo o sistema financeiro global.
Na ocasião, ele era o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, cargo que ocupou por três anos.
Há dois anos, Rajan lançou o livro Fault Lines, uma
referência às “falhas geológicas” que, em sua opinião, representam as
causas profundas da crise financeira. A obra, escolhida como a melhor de
economia de 2010 pelo jornal Financial Times, foi lançada em maio no Brasil pela Editora BEI, sob o título Linhas de Falha – Como Rachaduras Ocultas Ainda Ameaçam a Economia Mundial.
Que “falhas geológicas”, como o senhor define, ameaçam a economia mundial?
Existem falhas profundas que são responsáveis pela crise nos últimos anos.
Nos Estados Unidos e na Europa há uma combinação de baixo crescimento
com distribuição desigual de renda. As políticas usadas para
restabelecer o crescimento se mostraram insuficientes e, em alguns
casos, criaram mais problemas.
Nos Estados Unidos, os incentivos para a ampliação do endividamento
das pessoas, especialmente utilizando a casa como garantia, foram uma
das causas da crise imobiliária. Da mesma forma, na Europa, a disposição
de governos para tomar dinheiro emprestado e gastar sem limite é em
parte responsável pelas dificuldades da Grécia, apenas para dar o
exemplo mais extremo.
Outra falha advém do fato de muitos países possuírem políticas
orientadas para o aumento do consumo, como é o caso dos Estados Unidos,
enquanto outros estão voltados para produzir mais e poupar mais, como a
Alemanha e a China.
Essas divergências resultaram num desequilíbrio global, no qual
alguns países bancam o excesso de gastos de economias ricas. É um
movimento insustentável. A retração nas economias mais desenvolvidas
resulta desse endividamento excessivo, tanto das famílias como do
governo.
As autoridades mundiais estão combatendo essas falhas?
Os políticos, em geral, olham apenas o curto prazo.
Eles costumam trabalhar preocupados com as próximas eleições. Pouco
agem no sentido de consertar os fundamentos vitais para o longo prazo,
como o aprimoramento da educação, o treinamento dos trabalhadores e o
aumento da produtividade.
A tendência é escolherem a solução mais fácil, gastando um pouco mais e deixando o tempo sanar os desequilíbrios.
Nem sempre essa estratégia funciona.
Devemos ficar pessimistas, portanto, com as perspectivas para a economia mundial?
Um dia os políticos podem reconhecer a necessidade de fazer reformas, ao menos em parte.
É semelhante ao que aconteceu no Japão na década de 90. Os japoneses
passaram oito anos fingindo que não havia problemas. Só então começaram a
agir.
Da mesma forma, se na Europa alguns países não fizerem as reformas
estruturais necessárias, a região terá sérias dificuldades para crescer.
É preciso assegurar que os salários sejam compatíveis com o valor
agregado pelos trabalhadores. Em alguns países, os salários subiram
muito acima da produtividade.
Há duas maneiras de realizar esse ajuste agora. A primeira, cortando
drasticamente os salários. É o que os programas de austeridade tentam
fazer.

Se na Europa alguns países não fizerem suas reformas, a região terá dificuldades em crescer. (Foto: Cathal McNaughton / Reuters)
A segunda, elevando a produtividade. É o que buscam as reformas estruturais.
São medidas como o estímulo à competição, a redução dos custos
operacionais e a diminuição do excesso de burocracia. Até agora, as
autoridades tentam implantar só as medidas de austeridade, mas deveriam
mudar o foco para as reformas.
A analogia que se fazia com o Japão é a do sapo dentro de uma panela
com água fria, colocada sobre a chama. Se a água for aquecida
lentamente, o sapo não saltará e será cozido. Se a desaceleração na
atividade econômica for lenta, não existe o impulso para mobilizar os
políticos no sentido de executar as reformas.
É possível evitar uma nova crise?
Podemos fazer todo o possível para consertar, ao menos parcialmente,
as falhas que originaram a última crise, mas isso não nos livrará
necessariamente da próxima. Em geral, é difícil identificar as causas a
tempo. Na minha avaliação, os maiores desafios da atualidade estão na
desaceleração da produtividade, na queda do crescimento e na necessidade
de reduzir a desigualdade de renda.
O senhor aponta a desigualdade social como uma das causas
para a crise financeira americana. O incentivo para o aumento do
endividamento, e a partir daí o estímulo ao consumo e à aquisição de
imóveis, teria sido, segundo o seu argumento, uma maneira de amenizar o
contraste social. A situação melhorou desde o estouro da bolha
imobiliária?
Está piorando. As pessoas reconhecem que existe o problema, estão
mais participativas – veja o movimento “Ocupe Wall Street” -, e o
presidente Barack Obama começou a usar a desigualdade e a polarização
como argumento para algumas políticas.
Mas os democratas tentam apresentar os republicanos como o partido
dos ricos. É um jogo de soma zero. Quando as pessoas dizem “vamos tirar
dos ricos e dar aos pobres e assim reduzir a desigualdade”, está-se
criando um conflito de classes. O melhor para todos seria dizer: “Ouçam,
existem muitas pessoas que não estão se beneficiando do crescimento. Se
não encontrarmos meios para trazê-las para participar desse processo,
haverá uma polarização ainda maior e políticas piores”.
Precisamos encontrar meios para que essas pessoas tenham acesso à
educação de qualidade e aos serviços de saúde. Talvez, para isso, seja
necessário mais dinheiro, que pode ser obtido taxando os ricos. Mas o
governo poderia cobrar um pouco mais de impostos de todo mundo para
ajudar os verdadeiramente pobres.

As
pessoas reconhecem que existe o problema, estão mais participativas -
veja o movimento "Ocupe Wall Street" (Foto: Emanuel Dunand / AFP)
O senhor critica o Federal Reserve por manter a estratégia de juros baixos para reanimar a economia. Por quê?
A grande questão é o que virá depois. É imprevisível. Algumas regiões
dos Estados Unidos experimentaram um boom imobiliário. Depois a bolha
estourou. Agora as pessoas estão muito endividadas e não podem mais
gastar. Mas são pessoas concentradas em poucos estados, como Flórida,
Nevada, Arizona. As baixas taxas de juros não aumentam a demanda nesses
estados, porque as famílias já vivem atoladas em dívidas. Se os
habitantes de Nova York gastarem mais, eles não comprarão
obrigatoriamente produtos fabricados em Nevada ou no Arizona.
O senhor vê indícios de que a política do Fed esteja alimentando novas bolhas?
Acredito que haja riscos, mas ainda não são bolhas propriamente
ditas. Países como o Brasil recebem fluxo enorme de recursos porque, em
parte, as suas taxas de juros são elevadas, enquanto nos Estados Unidos
são muito baixas. Com o otimismo sobre a economia brasileira, o dinheiro
continuará a entrar. Há outros indícios. Nos Estados Unidos, o preço da
terra está subindo muito fortemente. É um problema potencial. Mas
bolhas são algo sobre o que você nunca tem certeza até que ocorra o
colapso.
Como evitar que o enorme fluxo de recursos que ingressam no Brasil possa ameaçar a economia?
Não existem instrumentos diretos que sejam sustentáveis no longo
prazo para tentar conter a entrada de capital financeiro internacional.
Mas há meios indiretos. As taxas de juros no Brasil são elevadas por uma
série de razões. Seria útil corrigir os fatores estruturais que as
pressionam. Ainda mais importante seria assegurar que, mesmo que o
dinheiro ingresse no país para financiar a economia, ele não seja
imediatamente utilizado e que se tente cortar os gastos em outras áreas.
Será necessário pressionar o governo para obter superávits fiscais
maiores, em vez de aumentar os gastos para absorver os recursos. Existe
também a possibilidade de controlar a entrada de capital para prolongar o
prazo de permanência do dinheiro. Por fim, pode-se facilitar a saída de
capital do país, diminuindo, por exemplo, as restrições aos gastos no
exterior das pessoas e também das empresas.
Por que o senhor não acredita na eficácia da política de estímulos ao consumo?
É preciso encontrar maneiras de obter um crescimento sustentável.
Essa é a grande questão para todo o mundo. Em última instância, será o
desafio que muitas economias emergentes já reconheceram para si. É
preciso capacitar as pessoas, ampliar o acesso à educação e aos serviços
de saúde e criar a estrutura para que possam trabalhar. Flexibilizar as
regras para que possam sair do emprego se quiserem fazer coisas mais
interessantes. Ou seja, retomar as medidas para o crescimento. São
questões fundamentais para esses países.
A crise deu margem a que economias emergentes, como o Brasil,
reforçassem o chamado capitalismo de Estado, em que os governos são
mais atuantes. Qual a eficácia dessa estratégia?
O capitalismo de Estado pode funcionar em economias emergentes onde
inexistam instituições privadas fortes, como uma alavanca temporária
para reduzir a distância que as separa de países desenvolvidos. Se o
Estado é grande, pode cumprir as tarefas facilmente. É muito óbvio o que
precisa ser feito, como pontes, estradas e fábricas.
O problema é quando a missão não é tão clara, como avançar em
inovação, algo essencial à medida que um país amadurece. Nesse ponto,
são necessárias empresas privadas e independentes do governo, que possam
fornecer incentivos para os seus trabalhadores progredirem e inovarem.
Isso significa desistir de monopólios estatais, encorajar a
competição, incentivar empresas privadas e privatizar. Há uma agenda
extensa de ações, e muitos países não conseguem cumpri-la.
Sou cético quanto à capacidade do capitalismo de Estado de preservar o
crescimento econômico, de maneira duradoura, à medida que um país
enriquece.
No Brasil, o governo adotou medidas para defender alguns
setores da concorrência externa, considerada desleal, principalmente
vinda da China. É uma decisão acertada?
A pergunta certa a ser feita é: em que momento eles devem se tornar
mais abertos e liberalizar a economia para que se beneficiem da
competição, da inovação e do crescimento? A coisa errada a fazer quando
um país passa a ser emergente é reduzir a competição, porque ele pode se
tornar cada vez mais protecionista e se afastar da fronteira que o
separa das nações desenvolvidas, em vez de se aproximar.
A consequência é uma queda na produtividade. Uma vez que um país
tenha crescido razoavelmente e atingido uma renda per capita média, como
é o caso brasileiro, tentativas para reduzir a competição e para
celebrar campeões nacionais tendem a afetar a eficiência no longo prazo.
Recentemente, o senhor disse que a Índia precisa acelerar as reformas. É uma lição de casa aos emergentes?
O que eu argumentei para as autoridades indianas é que os países em
desenvolvimento, em geral, precisam de uma segunda rodada de reformas. A
primeira onda foi bem-sucedida e resultou em um crescimento acelerado.
Mas, se você não retomar as reformas e não aplicar de maneira
transparente os recursos, a economia perderá o ritmo.

A primeira rodada de reformas na Índia bem-sucedida e resultou em um crescimento acelerado (Foto: AP)
O que o Brasil pode aprender com a Índia?
O forte crescimento da economia global fez o preço de muitos recursos
produzidos pela Índia subir tremendamente, de matérias-primas a
equipamentos de telecomunicação. No início, não houve muita preocupação
dos indianos com a forma como seriam aplicados os recursos nem com a
transparência. Uma quantia enorme foi desperdiçada, e as pessoas
perderam a confiança no governo.
No Brasil, será muito importante avaliar se o dinheiro gerado pelo
petróleo será utilizado em benefício da população. Se o governo quiser
agir com transparência, os recursos devem ser destinados a uma conta
separada, em vez de acabar como despesa pública.
Parte da riqueza pode formar fundos que revertam em benefícios a
gerações futuras. Outra parte pode virar investimento físico e em
capital humano. Será crucial saber utilizar os recursos. Muitos países
enfrentaram o desafio e não conseguiram ampliar os benefícios para a
economia. Ao contrário, gastaram mal e tornaram-se menos competitivos.