Duas das principais molas que impulsionaram a economia brasileira nos
últimos anos têm perdido sua elasticidade: a demanda internacional por
matérias-primas agrominerais e o crédito ao consumo. A primeira sofre os
efeitos da contração do crescimento mundial, que se prolongará por
alguns anos. Não necessariamente haverá um colapso dos preços das
commodities brasileiras, mas as receitas de exportações e os
investimentos nessa área perderão velocidade. Quanto ao crédito ao
consumo, basta mencionar que 90% das famílias brasileiras revelaram não
ter disposição para endividamento adicional. Elas gastam, atualmente,
30% de sua renda em juros e amortizações da dívida já assumida,
proporção superior à das famílias norte-americanas. Assim, as tentativas
de estímulo ao consumo via crédito não terão impacto forte nem
duradouro.
Nesse contexto, não é de estranhar que a economia esteja se
retraindo. De novo, nenhum colapso, mas um declínio da taxa de
crescimento a cerca da metade do nível obtido no governo passado. De
fato, é o modelo - chamemos assim - lulista de crescimento que perdeu o vigor.
Quais foram as principais peças desse modelo? Em resumo:
1) crescimento médio razoável, puxado pelo consumo, com baixos
investimentos, aumento rápido das importações e preço ascendente das
commodities exportadas;
2) diminuição da taxa de desemprego em razão do crescimento das
ocupações menos qualificadas. Entre 2009 e 2011, o aumento dos empregos
com carteira assinada foi de 5,9 milhões na faixa de até dois salários
mínimos; acima dessa faixa, a queda foi de 1,2 milhão;
3) juros elevadíssimos, de um lado, exigindo despesas fiscais em
torno de 6% do PIB; e, do outro, atração abundante de aplicações
financeiras do exterior;
4) forte sobrevalorização cambial, tornando as importações mais
baratas e as nossas exportações menos competitivas, o que acelerou a
desindustrialização do país;
5) reduzida taxa de investimento público – das menores do mundo – com reflexos nas deficiências da infraestrutura;
6) ampliação das distorções tributárias, que, ao lado dos altos
encargos financeiros, das carências na infraestrutura e da
sobrevalorização cambial, elevaram o custo Brasil às nuvens;
7) sistemática substituição das ações para melhorar a eficiência das
redes de saúde e educação pela contínua criação de ações midiáticas.
Em face disso tudo, não espanta o reduzido crescimento da
produtividade da nossa economia: 1,2% nas últimas duas décadas,
equivalente a dois terços da taxa da economia norte-americana.
Esse modelo não é mais sustentável — e não por causa de alguma
conspiração da imprensa, mas em razão dos fatos, da lógica econômica e
de dois círculos viciosos à frente: desaceleração das receitas fiscais
por causa da retração da atividade econômica e queda do emprego caso os
empresários desconfiem de que a retomada do dinamismo da economia pode
demorar.
O Banco Central acertou quando adotou a trajetória de redução da taxa
Selic, evitando o erro espetacular do governo Lula na crise de
2008-2009. Mas essa mudança está longe de ser suficiente. Há obstáculos
que precisariam ser removidos com urgência nas áreas de investimentos e
de tributação. É preciso, por exemplo, desonerar os investimentos
privados de forma radical, acelerar a depreciação de equipamentos e
corrigir os abusos nos setores de insumos básicos, como é o caso do gás e
da energia elétrica, em que, de cada R$ 1 gasto, R$ 0,52 vai para
tributos e recolhimentos.
Já a área de saneamento básico paga mais de R$ 2 bilhões anuais de
PIS-Cofins, que poderiam estar sendo investidos de forma rápida pelas
empresas estaduais e municipais. Isso reduziria o superávit primário?
Ora, hoje essas empresas têm de recorrer ao financiamento do FGTS e da
Caixa Econômica Federal – além de demorado, também é considerado vetor
de déficit público.
E aqui tratamos da outra peça do modelo esgotado: o baixo
investimento governamental, cuja taxa tem até declinado no governo
Dilma. A retomada desses investimentos beneficiaria a atividade
econômica no curto prazo; e, no médio e no longo prazos, reduziria o
custo Brasil. Para isso – embora dolorosas para o partido do governo e a
coalizão do poder prevalecente -, são essenciais mudanças no aparato
governamental com a introdução de técnicas de planejamento, hoje
ausentes, e melhora de sua capacidade executiva, hoje tão baixa.
Além disso, há possibilidades imensas nas parcerias com o setor
privado na área, por exemplo, de hidrovias e de estradas. Bastaria que o
governo federal substituísse o seu modelo inepto de concessões pelo
modelo paulista. Quanto ao saneamento, além da eliminação do PIS-Cofins,
é preciso que o endividamento junto ao FGTS não seja mais entendido
como dívida bancária do setor público. O governo federal promoveu a
retirada da Petrobrás e da Eletrobrás da contabilização do resultado
primário. Há como dizer que Sabesp, Copasa e Sanepar, por exemplo,
tenham gestão pior do que a daquelas empresas?
Volto a um tópico que há muito tenho abordado: Rio de Janeiro, São
Paulo e outras grandes cidades têm uma demanda infinita por metrô e
trens urbanos. O governo federal nunca entrou de verdade nesse setor, e
os estados e municípios não têm condições fiscais de dar conta das obras
necessárias. Isso tem de mudar, e a possibilidade é dada,
paradoxalmente, por um erro monumental: o trem-bala SP-RJ — uma
verdadeira alucinação, que custará pelos menos R$ 65 bilhões. Esse
projeto deveria ser suspenso e substituído por um programa federal que
mobilizaria aquele montante para investimentos massivos nos trilhos
urbanos.
Finalmente, fica aqui a esperança de que educação e saúde fortaleçam
sua rede de prestação de serviços mediante a retomada do ímpeto
reformista dos anos noventa, combinando melhora da qualidade com
eficiência na utilização de recursos. No âmbito federal, ficamos tão
distantes disso nos últimos anos que qualquer sinal nessa direção poderá
reacender as expectativas de um Brasil que realmente cuide dos
brasileiros.