O PT adora assacar mentiras contra seus adversários e detesta quando
lhe são ditas verdades incômodas. É isso o que explica a reação
coordenada entre a presidente Dilma Rousseff e seu tutor às mazelas do
governo petista expostas por Fernando Henrique Cardoso no último
domingo. Ao rol de realidades desnudadas, os petistas responderam com as
mistificações de sempre. O líder tucano está coberto de razão.
Em artigo publicado em O Globo e n’O Estado de S.Paulo,
o presidente lista diversos componentes da “herança pesada” recebida
por Dilma de seu antecessor. São muitos: a crise moral, o mensalão, a
falta de reformas institucionais, o aumento da carga tributária, as
iniquidades na Previdência, a ineficiência dos investimentos públicos,
os descaminhos da política energética. Examinada a lista, é de se
perguntar: há alguma mentira nela? Nenhuma.
Fernando Henrique lamenta a corrosão moral que marcou o primeiro ano
da gestão Dilma. Fato: dos 37 ministros que assumiram com a presidente,
sete foram defenestrados por suspeitas de corrupção e irregularidades de
toda natureza. Não custa lembrá-los: Antonio Palocci (Casa Civil),
Carlos Lupi (Trabalho), Alfredo Nascimento (Transportes), Pedro Novais
(Turismo), Orlando Silva (Esporte), Wagner Rossi (Agricultura) e Mario
Negromonte (Cidades).
Em seguida, o presidente trata do mensalão. Dos 37 réus, dez são do
PT. São eles: os já condenados João Paulo Cunha e Henrique Pizzolato;
José Genoino e Delúbio Soares, os próximos da lista; o único absolvido
Luiz Gushiken; José Dirceu, Silvio Pereira, Paulo Rocha, Professor
Luizinho e João Magno de Moura. Mente Fernando Henrique ao denunciar a
“busca de hegemonia a peso de ouro alheio” por esta gente? Por tudo o
que se viu ao longo das 17 sessões de julgamento realizadas no STF até
agora, nem um pouco.
Segundo alguns jornais, Dilma teria ficado especialmente brava com a
menção à desastrada política energética que vigora no governo petista.
Mas quem, senão a própria atual presidente da Petrobras, ressaltou
noutro dia que, desde 2003, a estatal não cumpre suas metas de produção?
Quem, senão a própria empresa, deve apresentar nova queda na produção
neste ano e registrou, após 13 anos, bilionário prejuízo? Quem vale hoje
menos do que valia dois anos atrás, antes de um processo de
capitalização embalado em clima de fanfarra eleitoral?
No artigo, Fernando Henrique também aponta os equívocos que
transformaram o Brasil de potência na geração de etanol em importador do
produto. Os fatos: neste ano-safra, a produção de álcool no país caiu
15% e compramos dos Estados Unidos nada menos que 1,8 bilhão de litros
do biocombustível. Em consequência deste desarranjo, as importações de
gasolina deverão mais que quadruplicar até o fim da década.
O líder tucano trata, ainda, dos atrasos na Transnordestina e na
transposição do rio São Francisco. Quem há de negá-los? A ferrovia só
tem um terço das obras prontas, liga nada a lugar algum e já encareceu
50%, bancada por financiamento do BNDES. A transposição tem seis dos 14
lotes com obras suspensas, muitas por suspeitas de irregularidades. Seu
término, antes previsto para 2010, já foi estendido para, no mínimo,
2015.
A presidente tentou rebater as sóbrias palavras de Fernando Henrique
com uma nota oficial combinada com Lula, segundo revelou o Estadão.
Disse, por exemplo, que seu antecessor legou-lhe “uma economia sólida,
com crescimento robusto, inflação sob controle, investimentos
consistentes em infraestrutura”. Em que país ela está vivendo? Ou, pior:
qual país ela pensa que está governando?
“Economia sólida” será a que cresce menos que todos os países
latino-americanos e é a quarta mais desigual e injusta do continente?
“Crescimento robusto” será aquele que, neste ano, ficará em cerca de
metade do que foi o pibinho de 2011? “Investimentos consistentes em
infraestrutura” são a paralisia que se vê em estradas, ferrovias,
aeroportos, portos e conjuntos habitacionais, e que, na última década,
deixou de aplicar quase R$ 50 bilhões em recursos orçamentários?
Francamente…
Dilma chama atenção para “os avanços que o país obteve nos últimos
dez anos”. Se não fosse tão sectária, mais correto seria dizer dos
avanços que vêm sendo construídos por toda a nação desde a transição
democrática ─ da qual, aliás, o PT recusou-se a participar no colégio
eleitoral. Mais adequado ainda seria falar da completa ausência de
avanços institucionais na última década, em que o arcabouço arduamente
construído na gestão tucana foi sendo, dia após dia, dilapidado até o
osso, até não sobrar nada que permita ao país lançar-se a novos saltos
rumo ao futuro.
Para terminar, a presidente da República diz que seu tutor é “um
exemplo de estadista”. Sobre isso, não é preciso dizer muito. Basta
lembrar que, neste instante, Luiz Inácio Lula da Silva está mergulhado
até a alma em disputas eleitorais pelo Brasil “mordendo a canela” de
adversários e exalando ódio a quem não lhe diz amém. Enquanto isso,
Fernando Henrique dedica-se a apontar erros e elogiar eventuais acertos,
buscando colaborar para a melhoria do país. A verdade muitas vezes é
incômoda, mas nunca foi tão necessária quanto agora.