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Comunista
não, torneiro-mecânico. Da esquerda para a direita: Jair Meneguelli,
Marcelo Déda, Olívio Dutra, Paulo Delgado, Lula, Vladimir Palmeira e
José Dirceu, em encontro do PT realizado em 1987, ano em que o partido
começou a discutir possíveis alianças com outras agremiações (Foto: AE)
Artigo publicado hoje na seção País do jornal O Globo
IRONIA DA HISTÓRIA
Vamos falar francamente: os jovens da esquerda revolucionária dos
anos 60 e 70 nunca lutaram pela democracia. Não, pelo menos, por esta
que temos hoje e que vem sendo aperfeiçoada desde 1985.
Todos que participaram dos partidos, movimentos, vanguardas e alas
daquela época sabem perfeitamente que se lutava pela derrubada do
capitalismo e pela implantação aqui de um regime tipo cubano. E se não
quiserem ou não acreditarem em depoimentos pessoais, basta consultar os
documentos produzidos por aqueles grupos.
Poderão, então, verificar, que a única grande divergência entre eles
estava no processo. Para alguns, a revolução comunista viria pela
guerrilha a partir do campo, no modelo cubano. Para outros, o
capitalismo seria derrubado pela classe operária urbana que se formava
no Brasil em consequência do próprio desenvolvimento capitalista.
Derrubar o regime dos militares brasileiros não era uma finalidade em
si. Aliás, alguns grupos achavam que a instauração de uma “democracia
burguesa” seria contraproducente, pois criaria uma ilusão nas classes
oprimidas. Estas poderiam se conformar com a busca “apenas” de salários,
benefícios, casa própria, carro, etc., em vez de lutarem pelo
socialismo.
Pois foi exatamente o que aconteceu. E, por dessas ironias da
história, sob a condução e a liderança de Lula! Uma vez perguntaram a
Lula, preso no Dops de São Paulo: você é comunista? E ele: sou
torneiro-mecânico.
Uma frase que diz muito. De fato, o ex-presidente jamais pertenceu à
esquerda revolucionária. Juntou-se com parte dela, deixou correr o
discurso, mas seu comportamento dominante sempre foi o de líder sindical
em busca de melhores condições para os trabalhadores da indústria.
Líder político nacional, ampliou seu objetivo para melhorar a vida de
todas as camadas mais pobres, não com revolução, mas com crédito
consignado, salário mínimo e bolsa família, bens de consumo e moradia,
churrasco e viagens. Tudo pelas classes médias.

José
Dirceu e José Genoino: notas contraditórias, em que criticam a
democracia pela qual juram que lutaram no passado. No fundo, é o velho
discurso: a democracia é burguesa, uma farsa que só favorece os ricos
Mas por que estamos falando disso? Certamente, não é para uma
cobrança tardia. É por causa do julgamento do mensalão, mais exatamente
por causa das reações de José Dirceu, José Genoíno e tantos outros
membros do PT.
Os dois ex-dirigentes condenados deram notas escritas, cujo conteúdo
tem dois pontos contraditórios. De um lado, tentam passar uma ilusão, a
de que lutavam pela democracia desde os anos 60.
De outro, desqualificam essa democracia ao dizer que a decisão do
Supremo Tribunal Federal, poder central no regime democrático, foi um
julgamento de exceção e de ódio ao PT, promovido por elites reacionárias
que dominam a imprensa e a justiça. Eis o velho discurso: a democracia é
burguesa, uma farsa que só favorece os ricos.
Ao mesmo tempo, dizem que a vida do povo, dos mais pobres, melhorou e
muito sob o governo do PT. Ora, em qual ambiente o PT cresceu, o
presidente Lula ganhou e governou? Nesta nossa democracia que, entre
outras coisas, levou a este extraordinário momento: Lula e Dilma
indicaram os juízes do STF que condenaram Genuíno e Dirceu.
O movimento estudantil dos anos 60 e 70 foi uma tragédia. Foram para a
política os melhores rapazes e moças. E a política, por causa da
ditadura local e da guerra fria global, e mais a ideologia esquerdista
então dominante na intelectualidade e na academia, levou à luta armada.
Tratava-se de um tremendo engano político. Como acreditar que uma
guerrilha dentro da floresta amazônica poderia terminar com a tomada do
poder em Brasília? Estava claro que a nova classe operária, como os
trabalhadores da indústria automobilística, com seu líder Lula, sequer
pensavam em Cuba, mas sonhavam com o padrão de vida dos colegas de
Detroit. E os sindicalistas, com posições no governo.
E assim, jovens idealistas e com o sentimento de dever, perderam a
vida, foram massacrados em torturas, banidos pelo mundo, famílias
arrasadas. É um milagre que tantos deles tenham conseguido recolocar de
pé a vida e estejam aí prestando serviços ao país.
Mas não serve para nada tentar esconder essa história. Em vez de
tentar mudar o passado, melhor seria uma revisão, uma crítica serena,
favorecida pelo tempo passado. Mesmo porque, sem essa crítica, ocorrem
as recaídas que, estas sim, podem perturbar o ambiente político.
Felizmente, a democracia, modelo clássico, de Ulysses, Tancredo, Montoro, venceu, não sem uma ajuda dos jovens dos anos 60 e 70.