
EQUAÇÃO
NEGATIVA -- Plataforma da Petrobrás na Bacia de Campos: a eficiência
operacional caiu, equipamentos foram entregues com atraso, impedindo a
prospecção de novos poços, e a meritocracia entre funcionários cedeu
lugar a exigências sindicais (Foto: Bruno
Domingos / Reuters)
Matéria de Helena Borges, com reportagem de Marcelo Sakate, publicada em edição impressa de VEJA
O ENROSCO DO SUBSÍDIO
Dilma manda a Petrobras segurar o preço dos combustíveis
para conter a inflação, mas isso debilita a empresa e mata a
autossuficiência
Foi bom enquanto durou. No próximo ano, o Brasil voltará a ser
dependente da importação de petróleo. Adeus, autossuficiência, celebrada
com fervor nacionalista em 2006, quando o país passou a produzir mais
petróleo do que consumia.
O
então presidente Lula deu contornos épicos ao feito, que comparou à
“segunda independência do Brasil”. A propaganda escondia que a conquista
da autossuficiência ainda deixava um déficit na conta externa de
energia, pois o Brasil continuaria a vender petróleo cru e a importar
gasolina e diesel.
Porém, apesar do saldo externo negativo, produzir tanto petróleo
internamente ajudou a diminuir a vulnerabilidade da economia a choques
externos, como os catastróficos eventos das décadas de 70 e 80, quando a
produção brasileira de petróleo totalizava menos de um décimo da atual.
Voltar a ser dependente da importação é, portanto, uma má notícia.
Um estudo inédito do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE),
obtido com exclusividade por VEJA, mostra que, já em 2013, o Brasil
estará consumindo mais óleo do que será capaz de produzir. Se teve seus
méritos na conquista da autossuficiência, o governo também é culpado
pela perda desse privilégio.
Feitiçarias heterodoxas
Por duas razões: a primeira foi forçar a Petrobras a subsidiar o
preço ao consumidor da gasolina e do diesel, mantendo-o estável mesmo
com o aumento do custo internacional do petróleo; a segunda foi
incentivar a venda de carros novos com crédito farto e corte de
impostos, o que aumentou a frota nacional e, claro, o consumo.
Essas feitiçarias heterodoxas têm efeitos imprevisíveis. Ao proibir a
Petrobras de repassar os aumentos ao preço do petróleo, o governo
conseguiu impedir um acréscimo médio de cerca de 0,4 ponto porcentual no
índice de inflação, que já está bem acima da meta de 4,5% estipulada
para 2012.
Mas, ao bancar o subsídio, que só neste ano já provocou um prejuízo
de 12,8 bilhões de reais, a Petrobras perdeu sua capacidade de
investimento, não modernizou os poços já produtivos, interrompeu a
prospecção de novas jazidas e atrasou a extração da riqueza do óleo de
grande profundidade, o pré-sal.
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Dilema que não tem solução fácil nem indolor
Como despiu um santo para vestir outro, a presidente Dilma Rousseff
se encontra agora em um dilema severo. Se desafogar o caixa da Petrobras
autorizando o repasse dos preços externos, a inflação subirá mais
rapidamente.
Se mantiver a política de subsídio pela companhia, vai se arriscar
não apenas a perder a autossuficiência como a entrevar irreparavelmente a
empresa que é orgulho nacional, o retrato a óleo do Brasil emoldurado
pelos sonhos de grandeza de tantas gerações. Esse dilema não tem solução
fácil nem indolor. É uma daquelas situações em que as opções são perder
ou perder.

