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29 novembro 2012

Minha vida - Parte I (Careiro, 1954-1960)

Nasci em Manaus em 30.07.1954, na rua de Ramos Ferreira, entre as ruas de Jônthas Pedrosa e de Visconde de Porto Alegre.
Na verdade, a família de minha mãe era do Careiro (da várzea, pois o do "Castanho" ainda não existia). Essa família se constituía de dois troncos da família Pinheiro, uma oriunda de Crato, no Ceará (dos meus avós maternos, Guilherme e Maria), e outra oriunda de Granito (de meu pai e avós paternos). Meu pai se chamava Waldetário Pinheiro de Almeida e minha mãe Alzira Pinheiro de Almeida. Aliás, meu pai se apresentava com dois nomes: um quando estava sóbrio, e outro, Walter Dário, quando estava "trêbado". Em razão de ter provalvemente abandonado a servidão dos seringais como "soldado" da borracha, aí por volta de 1942-45.
Meu pai, portanto, tenha o nome que tiver, veio para o Amazonas em 1941 como "soldado da borracha" e foi direto para os seringais do Purús, Acre, Boca do Acre, saindo de lá possivelmente em fuga do sistema servil a que fora submetido, ou seja, como desertor do exército. Ao chegar no Careiro da Várzea, conheceu minha mãe e com ela se casou. Ambos tinham 33 anos de idade.
Meu nascimento em Manaus foi fruto da enchente de 1953, uma das maiores de todos os tempos. Minha mãe foi a Manaus para ficar em casa de minha tia Alice Pinheiro Bastos, onde nasci. Portanto, sou manauara graças a um evento cíclico da natureza. Tanto é que logo após as águas baixarem minha mãe retornou comigo para o Careiro, onde vivia no sítio herdado de meus avós - uma estreita faixa de terra de cerca de 150m de frente que se estendia até ao lago dos Reis, ao fundo. Portanto, a minha memória mais antiga é referente à vida de criança que levava nesse paraíso da várzea, juntamente com meu irmão Renato, nascido em 1956.
A fertilidade de suas terras de várzea e de seus lagos, proporcionavam momentos indizíveis na minha vida e do meu irmão, na verdade de qualquer ser humano que tenha o privilégio de viver imerso em um ambiente pródigo em fauna e flora de rara belezas, ao mesmo tempo um ambiente desafiador pela completa ausência de elementos do Estado, onde o caboclo vivia sua vida como que "esquecido de Deus e dos homens". Ali não se conhecia dinheiro, pois as trocas de produtos por produtos era rotina natural, o velho escambo, com valores nem sempre justos.
A caça e a pesca eram atividades "obrigatórias", assim como a criação de animais como bois, porcos, galinhas, ovelhas, cabras e outros. Também se plantava de tudo o que da terra se podia colher - e a terra ali dava de tudo!
Meu pai, oriundo do Nordeste, do sertão onde Pernambuco e Ceará se encontram, na serra do Araripe, entre Crato-CE e Granito-PE, onde a água desaparece como que por encanto, que meu pai tinha de ir em sua busca por léguas em lombo de jumento, se maravilhava com tanta água e terra fértil aqui no Amazonas. Ele era violeiro, ourives, carpinteiro, dentre outras artes que dominava, e também sabia cultivar a terra com esmero, da qual extraía de tudo: tomate, pimentão, cebolinha, couve, pepino, limão, batata, macacheira (aipim), mandioca, farinha, feijão de metro, além de frutas como manga, abacate, melancia, melão, etc., produtos esses que "vendia" por quase nada ao atravessador que passava de madrugada de porto em porto recoclhendo os produtos para revender em Manaus por preço absurdamente alto, como até hoje acontece.
Portanto, meu pai, que fugira do seringal em razão da servidão a que fora submetido, via que outra servidão lhe reservara a falta de apoio a atividades como a agricultura, por parte do governo amazonense, como até hoje se verifica, como se fosse uma determinação atávica e insuperável. Mesmo  após  a criação pelo governador Plínio Coelho, nos anos de 1955-59, das empresas amazonenses "Trasnportamazon", "Alimentamazon", "Celetramazon", dentre outras, para dar suporte às atividades do interior, tirando o Amazonas do estado de "porto-de-lenha" em que se encontrava. Assim, meu pai preferia ganhar a vida como "cantador" nas noites das fazendas, e como ourives, de dia, ao longo dos paranás e rios do Careiro e arredores como Autazes, Varre Vento, Terra Nova, Anveres, Janauacá, Manaquiri, etc., em longas jornadas de 3 meses, voltando ao final para casa, por poucos dias, e retornando a suas "turnês artísticas", tornando a sua viola em instrumento inseparável, com o qual acompanhava o canto dos cordéis, dos "desafios", dos "martelos" e dos "galopes". Infelizmente, bebia muito. Cachaça. Por isso não me dediquei, infelizmente, a aprender a tocar viola e cantar, cujo dom me era dadivosamente também estendido por Deus. Meu filho André hoje faz as honras da casa levando sua arte aos salões sacros da Igreja Adventista, para honra e glória de Deus.
Infelizmente, minha mãe acabou por aceitar a sugestão de meu pai e vender o sítio do Careiro e se transferir para Manaus, ficando apenas com um sexto do valor, o que se deu em 1960, quando a família já contava com 5 membros: eu, pai, mãe e dois irmãos - Renato, que nasceu em 1956, e minha irmã Jânia (em homenagem ao presidente Jânio Quadros), nascida justamente em 1960.
No próximo post tratarei de minha vida, dos 6 aos 10 anos, em Manaus.