Em 1960, meu pai convenceu minha mãe em vender a herdade de seus país e se mudar para Manaus. Meus 5 tios - Maria (que vivia em Porto Velho), Edgar (Déga), Antonio, Alice e Waldemar - eram todos contra, mas afinal "cederam à pressão" e cada um recebeu sua parte. Morar em Manaus era e ainda é o sonho de todo interiorano desavisado. Na capital não se vive como no interior. Este é esquecido pelas autoridades, mas pelo menos lá não se passa fome e nem chegam os tributos (?), os aluguéis, as contas de água e luz. Tem ITR, mas "é pouquinho" (?!). Tem essa "vantagem", o que, na maioria dos casos, não é pouca. E ainda se pode comer da terra, que tudo dava.
Já em Manaus, onde chegamos sem a menor ideia do que iríamos encontrar e de como iríamos viver, meus tios encontraram perto de onde moravam, e de onde eu tinha nascido, uma casinha de dois pisos feita de madeira e coberta de palha - na época quase uma unanimidade. Eram os ricos que podiam ter suas casas cobertas de telha, ou zinco, ou alumínio. A casa ficava, na verdade, em um "buraco" da rua de Jônathas Pedrosa (onde hoje está chegando o Prosamin), entre a rua de Ramos Ferreia e a rua Ipixuna (na verdade um "buraco" nessas imediações). Como não havia lenha, usávamos carvão. Nessa época o carvão era vendido medido em latas de querosene, em quiosques exclusivos para isso. Nessa época estava chegando em Manaus uma grande novidade que era o fogão a querosene. Marca "Jacaré". Compramos um. Aos poucos o carvão foi sendo substituído pelo quersosene e pelo gás GLP, outra novidade. Naqueles tempos até o ferro de engomar (passar) roupa era a carvão. Somente "ricos" podiam ter fogão a gás e ferro elétrico, além de geladeira.
A nossa cama era de madeira com colchão de capim, que quando ficava velho soltava uma poeira infernal. Não sei se ácaro sobrevibia nesse ambiente. Mas com certeza minha rino-cinusite se estabeleceu definitivamente. Até hoje é minha companheira inseparável. Não tem cura, apenas controle. Portanto, há tempos sofro de uma doença incurável.
Com a constante ausência de nosso pai-artista-da-viola, mais conhecido como "Estrela-do-Norte", "vivíamos", eu e meu irmão, na casa de nossa tia Alice (onde eu nasci), onde brincávamos com nossos primos Heriberto James, Herivelton Jansen e Lady Elaine (todos com nomes artísticos de cinema, aos quais depois se somariam Lilibeth Audrey, Lislie Ellen, Herbert, Hudson e... ). De minha tia Alice - um misto de tia e segunda mãe, principalmente para mim -, era de onde levávamos todos os dias sopa e pão a fim de saciar a fome. Em Manaus tudo era comprado, aprendemos rapidinho. Próximo de casa havia muitas mangueiras e nos aventurávamos a colher algumas pelo chão, quase sempre tendo de correr com medo de tiros. Até hoje não sei se fictícios ou reais, pois quando os outros meninos gritavam "corre que o Adelino vem aí", não ficava ninguém para dizer quem e como era esse "Adelino". Acho que um dia vi sua sombra entre as árvores da encosta do "buraco", na subida da rua Jônathas Pedrosa para a rua Visconde de Porto Alegre.
A solidariedade entre os vizinhos também era coisa muito comum. Havia solidariedade entre os pobres de então. Acho que hoje não há mais. Os pobres dividiam o que tinham entre si, de forma que aprendi uma importante lição: a da gratidão para com aqueles que nos ajudam.
Com sete anos de idade, não sei como aprendi, mas já sabia "ler", pois amava os gibis que conseguia comprar e depois trocar nas sessões de cinema no Oratório Domingos Sávio, onde jogava futebol todos os dias, manhã, tarde e noite. Até aprender. E muito bem. Era tempos de Pelé, Garrincha, Didi, Vavá. Brasil Bi-campeão do mundo de futebol! Não sabia empinar pipa, pois me enrolava todo com linha, rabiola, falta de vento, "papagaio cangula" (pipa malfeita), goma, serol, essas coisas. Como vingança às vezes puía com os dentes, de leve, a linha dos "meninos malvados", para ver suas pipas "quedar". Me divertia com isso. Hoje me arrependo um pouquinho. Eu não fazia mal a quase ninguém.
Nesse tempo, "estudei" em vários colégios próximos, mas não tinha
progresso nenhum nos estudos, acostumado que estava ainda com a vida no
campo, cuja saudade era mais forte que tudo.
Nossa "casa" em Manaus foi sendo "destiorada" até ao ponto em que meu pai resolveu vendê-la com a família dentro - alcoolismo é uma desgraça! Recebeu metade do valor, que dilapidou com bebidas e mulheres, que lhe furtaram o restante - acho que já nesse tempo existia o golpe "boa noite cinderela", rupinol, essas coisas -, e a outra metade foi dividida em 12 parcelas. Terminadas essas parcelas, ficamos sem "casa", ou o que restou dela. Chovia mais dentro do que fora. Fomos morar de favor lá pelas bandas do Japiim, que nessa época não tinha nenhuma urbanização. Era apenas "mato". Tínhamos de andar a pé margeando igarapés ali por onde hoje fica a Nilton Lins e a Unisol, na rua Tefé. Ficava muito longe da casa de minha tia e assim "perdemos", ou quase perdemos a ajuda dela.
Minha mãe então apelou para um amigo comum de meu pai - o "Estrela-do-Norte", lembram? - o qual amigo tinha uma fazenda no paraná do Cambixe, no Careiro, que fica bem próximo à sede, a Vila Velha.
Assim, em 1964 voltamos ao Careiro. Agora como caseiros da fazenda do Sr. Adalto Leite, cuja família era grande e abastada, sendo um de seus membros meu padrinho de batismo, o Sr. Oscar Leite, de terna e grata memória para mim, pois era em sua fazenda, que ficava no baixo Cambixe, onde passava tempos, sob os cuidados maternais de minha madrinha Ana e de meu padrinho Oscar, que dispensavam a mim um carinho enorme e me davam muitos presentes, principalmente roupas. E onde me aventurei pela primeira vez a montar cavalos e tocar bois no campo. De madrugada ia ao curral para apreciar os vaqueiros tirar leite das vacas. Tentava aprender. Sempre fui muito curioso. Ia também pescar no lago dos Reis com os filhos do meu padrinho, que me tratavam como membro da família, mas me aprontavam medos terríveis, tal como alagar a canoa bem no meio daquele imesno lago, fazendo "guerra-de-peixe" (uns jogando peixes nos outros). A profundidade do lago, todavia, não passava de 1,5 metro, mas era para mim um oceano fundíssimo, abissal. Á noite ouvir Pedrito y su ritmo na vitrola. Sou muito grato a Deus por essas doces lembranças.
No comércio dos Canafés próximo, na verdade um flutuante (casa sobre troncos dentro d´água), uma das irmãs de meu padrinho Oscar, a Preta - cujo ditado popular "fala mais do que a Preta-doLeite" se tornou lendário em razão de sua prosa infindável, virando sinônimo de mulher faladeira, conhecido em muitos lugares do Estado do Amazonas. A Dona Preta também me dava tratamento carinhoso, e ali aprendi a fabricação de queijo, manteiga e vivia meu pai bebendo até... ficar bêbado, mas ele gostava de me apresentar como o seu filho predileto e inteligente. Gostava apenas desta parte, pois não me sentia honrado em ser filho predileto de um bêbado. Contudo, amava meu pai a ponto de ter morriddo um pouco com ele, cuja lembrança me leva às lágimas, como neste exato momentto em que escrevo... O câncer lhe comeu as entranhas entre 1972-77, Deus do céu!
Ia para o baixo Cambixe justamente em busca de meu pai, a quem encontrava invariavelmente bêbado, para minha vergonha. Mas menino tem uma capacidade de amar sem limite, como Jesus afirmou. Amava meu pai mais que tudo. Admirava seu canto, sua inteligência com as rimas, sua haibilidade com a viola. Mas não lhe dirigia nenhum admiração visível, pois associava a sua arte à sua bebida, que o afastava de nós. Pouco vivia com ele em "nossa" casa. Afinal, essa é a sina de todo filho de "artista", como ele gostava de se intular. Dizia mesmo que foi amigo de Gonzagão, do que nunca duvidei. Gonzagão teve mais sorte na vida no Rio de Janeiro.
De lá do baixo Cambixe voltava para a fazenda de Adalto Leite na "boca do Cambixe", levando algum dinheiro e "rancho" que meu pai mandava para minha mãe. Mas ele mesmo não voltava para casa. Ele morava no mundo e passeava em casa.
Na fazenda de Adalto Leite, eu, meus irmãos e minha mãe fazíamos de tudo para que ele não nos mandasse embora dali pela "falta do caseiro". Adalto mesmo gostava muito de meu pai e o tolerava muito pela admiração que tinha pela sua arte. Chegou e fazer cantoria na fazenda, como se fosse um "convidado" e não o seu caseiro - que na verdade nunca foi. Nós, seus filhos, é que servíamos como peões e zeladores da fazenda, de cuja casa, de tão grande, nos servíamos apenas de um de seus inúmeros quartos para morar.
Lembro das vaquejadas, dos transbordos de gado do barco para os campos e vice-versa, pois a fazenda servia apenas como "engorda" para o gado que seria vendido em Manaus, para abate. O gado "de leite" era apenas para manutenção da fazenda. Em volta da casa grande havia muitas fruteiras.
Contudo, aos 13 anos, em 1967, resolvi de minha própria vontade, sem considerar a opinião de meu pai ausente - que podia se tornar violento quando bêbado -, morar em Manaus com minha tia Alice. Assim fiz. Deixei minha mãe e meus irmãos no Cambixe e fui novamente aventurar a vida em Manaus, a fim de, quem sabe, estudar e "ser alguém na vida". Analfabeto, ou semi, cheguei na casa de minha tia, qua nessa época morava na rua de Visconde de Porto Alegre, sempre próximo de onde nasci. Desta vez, porém, minha tia Alice me instou a "estudar mesmo" ou então retornaria para o Careiro. Isso me fez pensar seriamente em estudar, porque, apesar de não considerar a "volta para o Careiro" uma penalidade em si, considerava que ali não teria nenhum futuro melhor do que tinha qualquer vaqueiro: deixar esgotar as forças em um trabalho árduo e morrer como indigente. Isso não queria.
Minha tia pagou então para eu estudar por dois anos, 1967 e 1968, na Escola Industrial Salesiana Domingos Sávio, próximo de onde morávamos, tendo a mesma professora da manhã, Terezinha Hage Cavalcante - amiga de minha prima Maria Emília -, como professora de "aula-de-reforço", à tarde. Pela primeira vez na vida compreendi o quanto os estudos podiam ser penosos e gratificantes ao mesmo tempo. Não desperdicei mais nenhuma chance de aprender. Até hoje aprendo. Jamais deixarei de aprender. O que mais me faz querer ser salvo por Cristo é ter uma vida eterna para aprender. Sou egoísta! Aliás, Adão, nosso primeiro pai, caiu por que queria aprender o que não devia...
Estes escritos são muito mais uma homenagem a essas pessoas do que simplesmente um desejo narcisista de deixar impressa minha vida para os pósteros.
No próximo post tratarei de minha vida acadêmica, como aluno da EIS, da Etfam e da UA (hoje Ufam).