Quando cheguei em Manaus em dezembro de 1966, "minha mala era um saco e o cadeado era um nó". Minha mãe colocou em meu bolsa da camisa algum dinheiro que nunca soube precisar o valor, e um bilhete rascunhado o endereço de minha tia, que havia se mudado da casa onde havia nascido, na rua de Ramos Ferreira para a rua de Visconde de Porto Alegre. Chegando na escadaria da Igreja dos Remédios, saltei do barco e perguntei de um taxista se ele saberia me levar no endereço que constava do papel em meu bolso. Ele disse que sim e eu perguntei se o dinheiro que tinha daria para pagar a viagem. Ele também disse que sim e ficou com todo o dinhero.
Assim cheguei em casa da minha tia levando no saco algumas frutas.
Disse a ela que estava chegando para morar com ela e estudar. Ela e meus primos me receberam muio bem, mas minha tia me advertiu que teria de realmente estudar, caso contrário voltaria para o Careiro.
Tive todo o apoio de meus primos Maria Emília e José Brito, bem como dos filhos deste - também meus primos: Heriberto James, Herivelton Jansen, Lady Elaine, todos com nomes "artísticos" em homenagem a astros de Hollywood (nos anos subsequentes, de 1967 a 1972, período em que morei com eles, nasceriam ainda Hudson, Herberth, Lilybeth Audrey e Lislie Ellen), o que tornaria minha presença em 1972, digamos, um tanto quanto "demais".
Como cheguei muito matuto do Careiro/Cambixe, em pleno dezembro de 1966, lembro de ter perguntado aos meus primos como é que se comia ameixa, que nunca tinha visto, e José Brito (recém falecido aos 76 anos) as comeu todas para me ensinar... Chorei muito pela burla. E olha que estava com 12 anos de idade... Para matuto toda idade é válida para fazer bobagens.
Como estava ali para estudar, meus primos Heriberto e Lady, filhos de José Brito, passaram a me dar lições de português. Minhas primeiras tentativas de escrever algo em uma folha de papel esbarrava na dificuldade de segurar um lápis na mão, de posicioná-los entre os dedos. Eu sabia o que diziam as palavras, mas não conseguia copiá-las para outro papel. Sofri bastante para isso. Mesmo com a assessoria da professora Terezinha, amiga de minha prima Maria Emília. Da cópia, passei para o ditado. Claro que as dificuldades aumentaram, porque uma coisa é copiar algo que está vendo, outra é saber como grafar os fonemas ditados. Essa é a grande dificuldade por que passa todo alfabetizando. Das letras passei para os números. Não precisa dizer quanto mais difícil foi para mim compreender como funcionavam as 4 operações...Somar, dividir, multiplicar e dividir eram algo abstrato demais para mim, acostumado a fazer isso empíricamente na hora de separar o gado, categorizá-los como bezerros, novilhas, garrotes, vacas, touros e dizer quantos haviam, quantos faltavam, etc. Em meus aprendizados, sempre gosto de fazer essa redução sociológica entre o abstrato e o concreto, pois facilita em muito essa tarefa. Entender é melhor do que simplesmente decorar sem uma conexão com a realidade. Ajuda a memorizar. E minha memória, herdada de meum repentista da viola, sempre me foi uma grande vantagem competitiva. Aprendi rapidamente a tabuada, de trás pra frente e vice-versa. Passei a ganhar as rodadas de palmatória mesmo entre os meus primos, que nesse ponto não estavam assim lá muito melhor que eu... Fazia isso com lágrimas nos olhos, tanto na hora de apanhar quanto de bater.
Assim, após essas aulas básicas de alfabetização, minha tia Alice me matriculou no terceiro anos primáro da Escola Industrial Salesiana, uma escola da paróquia de São José, vinculada ao Dom Bosco, mas conhecida como Domingos Sávio, o santo menino italiano pupilo de Dom Bosco, da cidade de Turim... Contou para isso com a ajuda da professora Terezinha Hagge Cavalcante, professora dessa escola. Lembro o nome dela completo pela importância dela nesse início de minha vida estudantil, cuja memória não poderia falhar neste momento. Ela era a melhor amiga de minha prima Maria Emília.
Contra todas os meus prognósticos, fui muito bem nos estudos. Passei com notas altas, tanto no terceiro quanto no quarto ano primário, sendo considerado o melhor aluno das turmas nos anos de 1967-68, ganhando duas medlhas de honra ao mérito. Também ganhei duas outras medalhas por bom comportamento. Me senti inteiramente recompensado por meus esforços.
Nesse meio religioso também me tornei interessado pela história cristã, pela leitura da bíblia e pela condição da alma com suas culpas e seus pacados; também da salvação que há em Cristo Jesus.
Outra maneira magistral que os salesianos tem de manter unida a congregação é por meio dos esportes, da leitura, da arte. No oratório Domingos Sávio aprendi a praticar diversos esportes: futebol de campo e de salão, spireball, tênis de mesa, etc. Brincadeiras de salão como cabra sega e corrida de saco. Nas festas juninas tinha batata assada na fogueira, pau-de-sebo... Mas o que encantava mesmo eram as sessões de cinema às segundas-feiras, as quais assistia gratuitamente em razão da presença nos domingos nas missas pela manhã e catecismos pela tarde, com carimbos na carteirinha. Assisti a todos os filmes de capa-e-espada, westerns; seriados de Zorro, Búfalo Bill; os filmes de Elvis Presley, Jerry Lewis, Mazzaropi, Oscarito e Grande Hotelo, desenhos e filmes de Walt Disney, bem como a filmes de cunho religiosos: a vida e a paixão de Cristo, Marcelino pão-e-vinho, etc. Aproveitava para comprar, vender e trocar os gibis que adorava ler, tais como: Superman, Batman, Aquaman, Liga da Justiça, Walt Disney, etc.
Como se tratava de uma escola industrial, tínhamos oportunidade de aulas de artesanato em madeira, na oficina de marcenaria, onde fazíamos diversos objetos artísticos como veleiros, automóveis, barcos regionais, etc., que eram exposto e vendidos para a comunidade em dezembro, o que dava um orgulho danado na gente em ver nossas artes em exposição.
Mas isso não era tudo. Tinha de desempemhar em casa uma série de tarefas obrigatórias, tais como cuidar de galos de briga de meu primo, que era então "galista", os quais tinha de treinar, tratar e limpar os casulos individuais, vem como das galinhas soltas no quintal. Ainda tinha de ir buscar sobras de pão e sopa na casa dos sogros de meu primo José Brito, na rua Ipixuna com Emílio Moreira, sobras do boxe de café que eles possuíam no mercado Adolfo Lisboa. Eram tarefas árduas, que fazia como parte do meu acordo de permanência na casa de minha tia Alice, cuja vida dedicava a cuidar dos netos, cozinhando, lavando e passando roupa, além de tudo o mais. Fazia por mim e por ela, com denodo e dedicação. Todos os dias tinha de comprar pão ma padaria, milho e cigarro para meu primo José Brito. Era uma troca justa.
No entanto, ao final dos dois anos na EIS, minha tia me disse que "não podia mais pagar para mim aulas particulares e que eu tinha de prestar concurso na Escola Técnica Federal do Amazonas porque lá não se pagava nada". Foi muito triste para mim essa informação e repto para sair de minha querida escola EIS, onde já contava com a aprovação de todos e era honrado com prêmios de honra ao mérito. Mas a realidade se impunha e então passai os dois meses restantes de 1968 estudando para a prova de seleção da Etfam. Graças a Deus passei, mas meu primo Heriberto, infelizmente, não logrou êxito, o que foi para mim uma surpresa, poiser fora ele quem mais me ensinara ao chegar em Manaus. A vida é assim mesmo, paciência!
Na Etfam tudo para mim foi diferente, começando pela distância que tinha de percorrer a pé todos os dias. Ia pela Visconde e voltava pela Duque, para quebrar a rotina.
Uma coisa boa era que a Etfam fornecia o fardamento: tecido para a calça, de caqui, o brim, forte como uma lona, e camisa semelhante, com o bolso bordado. A mulher de meu primo, José, a Ruth, é quem costurava as peças. Não sabia costurar direito para homens e minhas calças saiam meio tortas, com fundão...
A Etfam era infestada de "bandidos", todos homens, grosseiros, violentos mesmo. Meu protetor era o seu Oswaldo, bedel que cuidava da (in)disciplina na entrada e saída do portão, e era rígido e inflexível com o horário. Quando não conseguia chegar a tempo a única saída era pular o alto muro daquela "penitenciária".
No ginásio industrial da Etfam, além das disciplinas normais (português, matemática, ciências, Ospb, etc.), tínhamos aulas obrigatórias de Artes Industriais em cada uma das oficinas: Eletricidade; Tipografia e encadernação; Carpintaria e marcenaria; Serralheria e solda; Mecânica de autos e de máquinas (Tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, etc.), além de desenhos (técnico, arquitetônico, mecânico, artístico - com Moacir Andrade).
Para mim, que era oriundo do campo, achava eu, seria melhor me dedicar à agricultura e pecuária. Tinha um verdadeiro pavor daquelas oficinas elétricas, mecânicas... Gostava de desenhar.
Os estudos eram extremamente exigentes em matemática, física, resistência dos materiais, etc.
Se praticavam ali também muito esporte, o que para mim se assemelhava à EIS, aonde somente teria tido mais um ano, o quinto, pois ali não havia o curso ginasial (a segunda metade do hoje fundamental).
O bom das práticas industriais era que podíamos vender as peças produzidas e assim conseguir alguns trocados. Fazia isso com piões feitos nos tornos de marcenaria, com troncos de goiabeira; com peças de alumínio e de ferro, como batedor de carne, martelos, etc. Comecei de forma tímida a lidar com essa realidade e acabei por gostar disso. Me adaptei rápido. Passei mesmo a me sentir gratificado com os progressos que fazia nesse tipo de estudo e comecei a vislumbrar ali um futuro promissor.
Aprendi Ciência dentro do laboratório! O professor apresentava o "case" no carderno de Ciência e nós, os alunos, fazíamos os experimentos e descrevendo os resultados ali, na hora, explicando o que acontecia, fosse de química, física ou biologia. Assim não há quem não aprenda, não é mesmo? Fui um privilegiado, não resta dúvida. Isso é que os governos deveriam fazer: colocar um pequeno laboratório de Ciência dentro de cada escola.
Assim, ao término dos qutro anos do ginásio industrial na Etfam - que foi acabando essa modalidade de ensino justamente no ano em que ingressei -, estava apto a exercer uma penca de profissões...
Na Etfam tudo para mim foi diferente, começando pela distância que tinha de percorrer a pé todos os dias. Ia pela Visconde e voltava pela Duque, para quebrar a rotina.
Uma coisa boa era que a Etfam fornecia o fardamento: tecido para a calça, de caqui, o brim, forte como uma lona, e camisa semelhante, com o bolso bordado. A mulher de meu primo, José, a Ruth, é quem costurava as peças. Não sabia costurar direito para homens e minhas calças saiam meio tortas, com fundão...
A Etfam era infestada de "bandidos", todos homens, grosseiros, violentos mesmo. Meu protetor era o seu Oswaldo, bedel que cuidava da (in)disciplina na entrada e saída do portão, e era rígido e inflexível com o horário. Quando não conseguia chegar a tempo a única saída era pular o alto muro daquela "penitenciária".
No ginásio industrial da Etfam, além das disciplinas normais (português, matemática, ciências, Ospb, etc.), tínhamos aulas obrigatórias de Artes Industriais em cada uma das oficinas: Eletricidade; Tipografia e encadernação; Carpintaria e marcenaria; Serralheria e solda; Mecânica de autos e de máquinas (Tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, etc.), além de desenhos (técnico, arquitetônico, mecânico, artístico - com Moacir Andrade).
Para mim, que era oriundo do campo, achava eu, seria melhor me dedicar à agricultura e pecuária. Tinha um verdadeiro pavor daquelas oficinas elétricas, mecânicas... Gostava de desenhar.
Os estudos eram extremamente exigentes em matemática, física, resistência dos materiais, etc.
Se praticavam ali também muito esporte, o que para mim se assemelhava à EIS, aonde somente teria tido mais um ano, o quinto, pois ali não havia o curso ginasial (a segunda metade do hoje fundamental).
O bom das práticas industriais era que podíamos vender as peças produzidas e assim conseguir alguns trocados. Fazia isso com piões feitos nos tornos de marcenaria, com troncos de goiabeira; com peças de alumínio e de ferro, como batedor de carne, martelos, etc. Comecei de forma tímida a lidar com essa realidade e acabei por gostar disso. Me adaptei rápido. Passei mesmo a me sentir gratificado com os progressos que fazia nesse tipo de estudo e comecei a vislumbrar ali um futuro promissor.
Aprendi Ciência dentro do laboratório! O professor apresentava o "case" no carderno de Ciência e nós, os alunos, fazíamos os experimentos e descrevendo os resultados ali, na hora, explicando o que acontecia, fosse de química, física ou biologia. Assim não há quem não aprenda, não é mesmo? Fui um privilegiado, não resta dúvida. Isso é que os governos deveriam fazer: colocar um pequeno laboratório de Ciência dentro de cada escola.
Assim, ao término dos qutro anos do ginásio industrial na Etfam - que foi acabando essa modalidade de ensino justamente no ano em que ingressei -, estava apto a exercer uma penca de profissões...
Tive também a felicidade de ter sido avaliado como o melhor aluno desses quatro anos e recebi uma caneta Cross dourada. O segundo colocado foi o Samuel Câmara, hoje pastor da Boas Novas Assembléia de Deus, com quem tive meus primeiros contatos com a Igreja Evangélica e cheguei a visitar a sua igreja.