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12 dezembro 2012

Minha vida - Parte IV (Exílio em Tabatinga, 1977-79)

Com a origem que tenho, de homem do interior, cheguei a Tabatinga e logo fui tratando de conhecer a realidade local. O contraste com Letícia era gritante - e ainda é até hoje! -, pois esta cidade colombiana "siamesa" de Tabatinga, separada por um marco geodésico na fronteira e por uma rua ao longo desta, tem uma infraestrutura em muito superior. Sendo capital da província do Departamento del Amazonas, suas ruas são limpas, retas e sem buracos. Seu comércio é pujante, especialmente em bens importados que vão desde artefatos de couro a perfumes, armas, munições e um variado comércio de roupas, calçados e eletroeletrônicos.
Com essas características de Letícia, eu fugia de Tabatinga todas as tardes e passava horas ali hablando con las thicas... Passei a ser um exilado voluntário na Colômbia... O câmbio era vantajoso, pois Cr$ 1,0 era trocado por 2,5 pesos, o que tornava meu salário de cerca de 10 salários mínimos extremamente bom.
Além de tudo, Letícia tinha um setor público bastante competente, um grande hospital e uma carretera (estrada) de uns 200 km adentro do seu território. Era dotada de rádio, onde cheguei a apresentar um programa de música de Roberto Carlos.
Em Tabatinga, fui elevado a chefe de mim mesmo, pois o único funcionário do setor de topografia não tinha a menor experiência, não tinha em 10 anos conseguido demarcar um único metro quadrado.
Como me deram "certeza" de que somente retornaria a Manaus se conseguisse demarcar o Projeto do Incra ali, pus mãos na massa. Cobrei equipamentos e pessoal para formar um setor de demarcação digno do nome e dei início aos preparativos para entrar na mata abrindo as picadas. As coisas começaram a dar certo. O único funcionário do setor que encontrei, José Maria Repolho, era um rapaz trabalhador, humilde, perspicaz, dedicado, que aprendeu rápido o serviço e em quem aprendi a confiar, inclusive trazendo-o para comungar da minha fé adventista. Tornou-se um adventista inclusive melhor que eu mesmo. Ajudamos a erguer a igreja adventista de Tabatinga. Isso me ajudava a superar a ausência de minha família, a frustração pelo abandono dos estudos.
Contudo, passei a estudar de forma autodidata e, além da Bíblia (que li umas 4 vezes todinha, uma delas em espanhol), passei a estudar história geral e do Brasil; geografia geral e do Brasil; espanhol (que aprendi a falar com razoável "perfeição") e biografias dos grandes homens da História.
Em junho de 1978, consegui permissão para ir casar em Manaus com minha primeira mulher, a dona Suderly, que viveu comigo ali um ano, chorando dia e noite, coitadinha. Não conseguia ficar tão longe da mãe. Resovemos ter nosso primeiro filho, o Adriel, a fim de afastar o tédio.
Essa foi minha vida ali por dois anos. Demarquei todo o Projeto nesse tempo e cobrei meu retorno para Manaus. Para minha surpresa - acho que fruto da distensão política já com o presidente Figueiredo e da própria lei de Anistia - fui atendido e transferido para Manaus. Por coincidência, minha demissão em Tabatinga e readimissão em Manaus se deram nos mesmos dias quando de meu exílio, ou seja, 31.07 e 01.08, de 1979. Minha mulher, gestante de Adriel, veio na frente. Reuni o dinheirinho que amealhara ali e comprei uma casinha de madeira na rua de Dr. Machado, entre as ruas Visconde de Porto Alegre e Duque de Caxias, na Praça 14, onde havia passdo minha adolescência de 13 aos 19 anos. Voltei pra casa. Voltei outra pessoa, mais sábio, mas com a mesma determinação de estudar.
Prestei o segundo vestibular. Desta vez para Administração Noturno, pois diziam no Incra que somente estudaria se meu curso fosse noturno. Em Tabatinga, como chefe da topografia, fui obrigado a aprender empíricamente as técnicas de administração. Senti então necessidade do conhecimento teórico sobre essa nobre arte. Passsei. Novamente.
No próximo post tratarei de minha nova vida em Manaus daí em diante e de meus estudos e minha transferência para o Instituto de Terras do Amazonas.