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28 dezembro 2012

Minha vida - Parte VI - docência superior (1990 - 2000)




Durante o tempo em que ocupei (com o apoio do senador Carlos Alberto De Carli), o cargo de delegado federal da agricultura do Amazonas, de 1988 a 1990, sendo ministro Iris Resende, ocupei por diversas vezes o assento de conselheiro da Suframa, um dos postos mais honrosos de minha vida.
Desempenhei bem minha missão como delegado, dentro de minhas possibilidades, e da precária estrutura agrária do Estado em razão da quase total dedicação dos governadores, sem exceção, ao Distrito Industrial da Suframa, de onde o governo aufere suas maiores receitas com ICMS, deixando o interior do Estado em quase completo abandono. Para terem uma ideia do abandono do setor primário, eu era saudado pelo epíteto de "representante do setor primitivo", que sobrevivia de slogans do tipo “Terceiro ciclo” (com Amazonino distribuindo implementos agrícolas de forma eleitoreira, inclusive moto-serra, Santo Deus!, que acabavam sendo vendidas pelos caboclos por falta de peças de reposição e combustível), ou “Zona franca verde” (com Eduardo Braga mandando o Zé Melo fazer a mesma coisa, e com a Afeam distribuindo recursos a fundo perdido – via anistia - para os prefeitos assegurarem os votos do interior).
Os agro-pecuaristas do Estado viviam no campo por puro idealismo. Tirando as regiões de Boca do Acre, Apuí, Autazes, Manacapuru, Itacoatiara e Parintins, onde a pecuária é mais forte, apenas Coari, com opetróleo e gás, e Presidente Figueiredo, com minérios, o restante do interior é um grande vazio demográfico e econômico. Mais de 90% das atividades econômicas e da geração de receita tributária se encontram concentradas em Manaus. Isso um dia vai cobrar se preço - e já está cobrando em termos de superpopulação e deficiência em infraestrutura urbana, tais como transportes, habitação, fornecimento de água e de enrgia - como no passado do ciclo da borracha, quando Manaus terminou como de "porto de lenha" (em alusão ao combustível utilizado pelos barcos a vapor).
Como a Constituição Federal estava sendo elaborada desde 1986, ano em que foram eleitos os congressistas com Poder Constituinte - tendo o então deputado federal Bernardo Cabral como relator, um dos políticos amazonenses de rara habilidade, tendo preterido FHC e Pimenta da Veiga como relator -, dele tornei-me amigo e acompanhei de perto seu trabalho em Brasília, onde, como delegado federal da agricultura, estive constantemente participando de reuniões. Na época também era estudante de direito na "jaqueira" (denominação carinhosa da Faculdade de Direito da Ufam), curso que somente iria concluir em 1992 em razão das dificuldades de tempo e necessidade de ganhar dinheiro.
Com a eleição de Fernando Collor para presidente em 1989, o qual tinha uma grande admiração por Bernardo desde os tempos de relator, o escolheu em primeiro plano como ministro da Justiça e coordenador político. Nesta posição, me convidou para assumir o INCRA no Amazonas, o que me deixou perplexo e ao mesmo tempo honrado com o convite, e também preocupado com as resistências de que seria vítima, pois o INCRA sempre foi um órgão cobiçado pelos políticos locais em razão das possibilidades de ganhos - políticos e de outra ordem, se é que me entendem. Para terem uma ideia dessa "resistência", fui convidado por Bernardo em janeiro de 1990 e somente fui nomeado em agosto do mesmo ano.
As eleições de 1990 para governo do Estado, senador e deputados estaduais e federais foram decisivas para a saída de Bernardo do ministério e a minha saída do INCRA, pois o governo Collor “perdera” as eleições nacionais, pois as velhas raposas da política regional, ACM, Mestrinho, Sarney, Lobão, etc., voltaram à cena e cobraram a "conta" do "cabo-de-força" travado pelo governo federal contra suas pretensões, o que equivalia pedir a “cabeça” de Bernardo. O Brasil somente se livra dessas figuras nefastas pela solução biológica! O próprio Collor, como é sabido, viria a se demonstrar parte dessa corja.
Contudo, instado pelo presidente do Incra, José Reinaldo Tavares da Silva, elaborei um relatório devastador sobre as condições reinantes no INCRA e na Reforma Agrária no Amazonas, o qual rendeu de cara um Inquérito Administrativo no órgão e cerca de 18 Inquéritos na Polícia Federal, com gente sendo inclusive condenada. Como não tinha compromisso maior senão com a verdade e com minha consciência – sem ser santo e nem herói -, deixei esse Relatório de legado e o projeto de construção da estrada que ligaria Apuí a Novo Aripuanã – um velho sonho daquela gente do Madeira.
O fato pitoresco é que esse meu retorno ao INCRA como superintendente se deu após dez anos da minha demissão como topógrafo, e meus antigos companheiros instavam, na maior gozação, aos também meus antigos detratores e "perseguidores" a me “sacanearem” nessa nova e improvável situação, fazendo-os ver quão imponderáveis são os caminhos de Deus. Contudo, a vida nos ensina a não pagar com o mal o mal que nos fazem, ainda mais em posição de mando, quando se sabe que mais difícil que perseguir é perdoar e unir a todos em torno dos objetivos organizacionais. Sinceramente, nunca guardei mágoas contra quem quer que seja. Tratei a todos com lhaneza e profissionalismo.
Fora do Incra, fiquei desempregado novamente. Iniciei então minha vida acadêmica como docente de administração do Centro Integrado de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa), a primeira Instituição privada de ensino superior do Amazonas, que teve início no prédio da Djalma Batista, onde funcionava o CIEC (de níveis fundamental e médio, pertencente a Orígens Martins, de linha salesiana) . Como professor dessa Instituição, dei início ao curso de especialização em docência superior, que terminaria juntamente com o curso de direito em 1992.
Também, de novembro de 1990 a 1992, cuidei da Secretaria Geral do PTB, no qual ingressei em 1986 a convite do professor Plínio Ramos Coelho, ex-governador do Estado, que foi meu professor de direito comercial. Organizei o PTB em todo o Estado por conta do senador Carlos Alberto De Carli, o qual me convidou para assumir o cargo de delegado federal do Ministério dos Transportes e das Comunicações - MTC, que foram desmembrados por Collor do Ministério da Infraestrura. Assumi esse novo posto em pleno processo de impeachiment do presidente, o que não me possibilitou grandes realizações a não ser tocar o dia-a-dia do órgão e me dedicar em terminar o curso de Direito.
Em 1994 pedi e a Comissão de Anistia do INCRA me concedeu a minha anistia política por conta da minha transferência manu militari para Tabatinga entre 1977-79, fazendo assim justiça. Por conta da anistia, fui reintegrado ao INCRA de novo como topógrafo, mas tive de novamente pedir exoneração por não poder acumular esse cargo com o de professor concursado da UFAM.
Cansado de ocupar cargos comissionados - e já anistiado no INCRA -, prestei em 1995 concurso para professor do curso de Administração da Ufam, tendo sido aprovado juntamente com meu colega Afrânio Soares, ambos concorrendo para a cadeira de administração de vendas, que pertencera ao professor Nilton Lins, de quem fui aluno (e seu filho Niltinho foi meu colega de curso e direito). Portanto, ingressei na Ufam como professor desde esse tempo, onde fiz o meu mestrado em convênio com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entre 1997-99. Também em 1998 assumi, com muita honra, a chefia do Departamento acadêmico de Administração, função que desempenhei até 2001, quando fui morar em Brasília como Representante da UFAM.
No próximo post relatarei minhas outras atuações na UFAM e outras experiências.