Durante o tempo em que ocupei (com o apoio do
senador Carlos Alberto De Carli), o cargo de delegado federal da agricultura do
Amazonas, de 1988 a 1990, sendo ministro Iris Resende, ocupei por diversas
vezes o assento de conselheiro da Suframa, um dos postos mais honrosos de minha
vida.
Desempenhei bem minha missão como delegado, dentro
de minhas possibilidades, e da precária estrutura agrária do Estado em razão da
quase total dedicação dos governadores, sem exceção, ao Distrito Industrial da
Suframa, de onde o governo aufere suas maiores receitas com ICMS, deixando o
interior do Estado em quase completo abandono. Para terem uma ideia do abandono
do setor primário, eu era saudado pelo epíteto de "representante do setor
primitivo", que sobrevivia de slogans do tipo “Terceiro ciclo” (com Amazonino
distribuindo implementos agrícolas de forma eleitoreira, inclusive moto-serra,
Santo Deus!, que acabavam sendo vendidas pelos caboclos por falta de peças de
reposição e combustível), ou “Zona franca verde” (com Eduardo Braga mandando o
Zé Melo fazer a mesma coisa, e com a Afeam distribuindo recursos a fundo
perdido – via anistia - para os prefeitos assegurarem os votos do interior).
Os agro-pecuaristas do Estado viviam no campo por
puro idealismo. Tirando as regiões de Boca do Acre, Apuí, Autazes, Manacapuru,
Itacoatiara e Parintins, onde a pecuária é mais forte, apenas Coari, com
opetróleo e gás, e Presidente Figueiredo, com minérios, o restante do interior
é um grande vazio demográfico e econômico. Mais de 90% das atividades
econômicas e da geração de receita tributária se encontram concentradas em
Manaus. Isso um dia vai cobrar se preço - e já está cobrando em termos de superpopulação e deficiência em infraestrutura urbana, tais como transportes, habitação, fornecimento de água e de enrgia - como no passado do ciclo da borracha, quando Manaus terminou como de "porto de
lenha" (em alusão ao combustível utilizado pelos barcos a vapor).
Como a Constituição Federal estava sendo
elaborada desde 1986, ano em que foram eleitos os congressistas com Poder Constituinte
- tendo o então deputado federal Bernardo Cabral como relator, um dos políticos
amazonenses de rara habilidade, tendo preterido FHC e Pimenta da Veiga como
relator -, dele tornei-me amigo e acompanhei de perto seu trabalho em Brasília,
onde, como delegado federal da agricultura, estive constantemente participando
de reuniões. Na época também era estudante de direito na "jaqueira"
(denominação carinhosa da Faculdade de Direito da Ufam), curso que somente iria
concluir em 1992 em razão das dificuldades de tempo e necessidade de ganhar
dinheiro.
Com a eleição de Fernando Collor para presidente
em 1989, o qual tinha uma grande admiração por Bernardo desde os tempos de
relator, o escolheu em primeiro plano como ministro da Justiça e coordenador
político. Nesta posição, me convidou para assumir o INCRA no Amazonas, o que me
deixou perplexo e ao mesmo tempo honrado com o convite, e também preocupado com
as resistências de que seria vítima, pois o INCRA sempre foi um órgão cobiçado
pelos políticos locais em razão das possibilidades de ganhos - políticos e de
outra ordem, se é que me entendem. Para terem uma ideia dessa
"resistência", fui convidado por Bernardo em janeiro de 1990 e
somente fui nomeado em agosto do mesmo ano.
As eleições de 1990 para governo do Estado,
senador e deputados estaduais e federais foram decisivas para a saída de
Bernardo do ministério e a minha saída do INCRA, pois o governo Collor
“perdera” as eleições nacionais, pois as velhas raposas da política regional,
ACM, Mestrinho, Sarney, Lobão, etc., voltaram à cena e cobraram a
"conta" do "cabo-de-força" travado pelo governo federal
contra suas pretensões, o que equivalia pedir a “cabeça” de Bernardo. O Brasil
somente se livra dessas figuras nefastas pela solução biológica! O próprio
Collor, como é sabido, viria a se demonstrar parte dessa corja.
Contudo, instado pelo presidente do Incra, José
Reinaldo Tavares da Silva, elaborei um relatório devastador sobre as condições reinantes
no INCRA e na Reforma Agrária no Amazonas, o qual rendeu de cara um Inquérito
Administrativo no órgão e cerca de 18 Inquéritos na Polícia Federal, com gente
sendo inclusive condenada. Como não tinha compromisso maior senão com a verdade
e com minha consciência – sem ser santo e nem herói -, deixei esse Relatório de
legado e o projeto de construção da estrada que ligaria Apuí a Novo Aripuanã –
um velho sonho daquela gente do Madeira.
O fato pitoresco é que esse meu retorno ao INCRA
como superintendente se deu após dez anos da minha demissão como topógrafo, e
meus antigos companheiros instavam, na maior gozação, aos também meus antigos
detratores e "perseguidores" a me “sacanearem” nessa nova e
improvável situação, fazendo-os ver quão imponderáveis são os caminhos de Deus.
Contudo, a vida nos ensina a não pagar com o mal o mal que nos fazem, ainda
mais em posição de mando, quando se sabe que mais difícil que perseguir é
perdoar e unir a todos em torno dos objetivos organizacionais. Sinceramente,
nunca guardei mágoas contra quem quer que seja. Tratei a todos com lhaneza e
profissionalismo.
Fora do Incra, fiquei desempregado novamente.
Iniciei então minha vida acadêmica como docente de administração do Centro
Integrado de Ensino Superior do Amazonas (Ciesa), a primeira Instituição privada
de ensino superior do Amazonas, que teve início no prédio da Djalma Batista,
onde funcionava o CIEC (de níveis fundamental e médio, pertencente a Orígens Martins, de linha salesiana) . Como professor dessa Instituição, dei início ao curso de especialização
em docência superior, que terminaria juntamente com o curso de direito em 1992.
Também, de novembro de 1990 a 1992, cuidei da
Secretaria Geral do PTB, no qual ingressei em 1986 a convite do professor
Plínio Ramos Coelho, ex-governador do Estado, que foi meu professor de direito
comercial. Organizei o PTB em todo o Estado por conta do senador Carlos Alberto
De Carli, o qual me convidou para assumir o cargo de delegado federal do
Ministério dos Transportes e das Comunicações - MTC, que foram desmembrados por Collor do
Ministério da Infraestrura. Assumi esse novo posto em pleno processo de impeachiment
do presidente, o que não me possibilitou grandes realizações a não ser tocar o
dia-a-dia do órgão e me dedicar em terminar o curso de Direito.
Em 1994 pedi e a Comissão de Anistia do INCRA me
concedeu a minha anistia política por conta da minha transferência manu militari para Tabatinga entre
1977-79, fazendo assim justiça. Por conta da anistia, fui reintegrado ao INCRA de novo como
topógrafo, mas tive de novamente pedir exoneração por não poder acumular esse
cargo com o de professor concursado da UFAM.
Cansado de ocupar cargos comissionados - e já anistiado no INCRA -, prestei em 1995 concurso para professor do curso de
Administração da Ufam, tendo sido aprovado juntamente com meu colega Afrânio
Soares, ambos concorrendo para a cadeira de administração de vendas, que pertencera ao professor Nilton Lins, de quem fui aluno (e seu filho Niltinho foi meu colega de curso e direito). Portanto,
ingressei na Ufam como professor desde esse tempo, onde fiz o meu mestrado em
convênio com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entre 1997-99.
Também em 1998 assumi, com muita honra, a chefia do Departamento acadêmico de
Administração, função que desempenhei até 2001, quando fui morar em Brasília
como Representante da UFAM.
No próximo post relatarei minhas outras atuações
na UFAM e outras experiências.