PUBLICADO NO GLOBO DESTA QUINTA-FEIRA

CARLOS ALBERTO SARDENBERG

CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Tem pessoas assim: dizem uma coisa, fazem outra. Mentirosas ─ é a
interpretação que ocorre imediatamente. E, se solicitados exemplos,
quase todo mundo dirá: governantes, políticos, deputados e senadores em
especial etc.
Mas isso é senso comum. Podemos complicar a história. E quando as
pessoas acreditam mesmo que fazem o que dizem, embora haja notória
diferença entre discurso e atos?
Por exemplo: a pessoa jura que está fazendo regime, mas só engorda. A
tendência imediata é desqualificá-la: quem pensa que está enganando?
Pois pode acontecer diferente: a pessoa acredita genuinamente que faz
regime e que só não emagrece por algum outro fator, criado na sua
imaginação: “Dieta não funciona comigo.”
Esse tipo de pessoa vê o mundo através de suas ideias exclusivas ou
suas fobias. Ressalva: sim, todos vemos o mundo através de nossa
subjetividade, mas é preciso admitir que conseguimos perceber (ou
construir, vá lá) alguma objetividade. Dito de outro modo: temos nossos
desentendimentos e mal-entendidos ─ e disso, por exemplo, se alimenta a
literatura ─, mas vemos, vivemos e transitamos numa mesma realidade
fundamental.
Considerem, por outro lado, um caso patológico clássico: a menina de
1,70 metro, 40 quilos, olha-se no espelho e vê uma gorda. Ela não está
mentindo. Sofre de distorção da imagem corporal. É o extremo, mas muita
gente normal tem dificuldade na adequada visão e interpretação dos
fatos.
Será que o pessoal da equipe econômica do governo Dilma sofre de
coisas parecidas? Claro, não estamos chamando ninguém de louco, mas tem
havido muitos episódios de distorção de imagem.
Caso do superávit primário, por exemplo. Todo mundo sabe de que se
trata: o resultado das receitas do governo menos as despesas não
financeiras. Em termos mais comuns: “A economia que o governo faz para
pagar juros da dívida.”
Claro, há divergências razoáveis na realização da conta. Receitas e
despesas podem ser classificadas de diferentes maneiras, isso
logicamente alterando o resultado final.
Mas as operações feitas pelo governo Dilma para alcançar a meta do
superávit do ano passado são tão distorcidas que mesmo aliados próximos
ficaram envergonhados. E não esconderam isso.
Eis o quadro, portanto: o governo diz que alcançou uma determinada
meta de superávit, mas todo mundo sério sabe que não é verdade. O número
real saiu menor.
Mais complicado ainda: todos os aliados e muitos não aliados,
inclusive de instituições internacionais, observavam já há tempos que o
governo tinha bons motivos para reduzir a meta daquele superávit.
Diziam: gastando menos com juros, já que as taxas caíram, a economia
necessária para reduzir a dívida pública é menor.
Logo, pode não ser, mas parece coisa de louco: o governo Dilma
poderia ter aplicado uma redução do tal primário — ou “adequação”, se o
marqueteiro fizesse questão ─ que a coisa passaria. Em vez disso, rouba
nas contas para anunciar um resultado que todos sabem ser falso. O
governo mentiu por nada, disse um aliado.
Questões: será que a presidente e seu pessoal acreditam mesmo nas
suas contas? Ou acharam que ninguém perceberia a fraude? Ou acharam que
as pessoas poderiam perceber, mas e daí?
Acontece a mesma coisa com a taxa de câmbio. Em um determinado
momento do ano passado, ficou óbvio: toda vez que a cotação do dólar
ameaçava passar dos R$ 2,10, o governo vendia moeda americana e
derrubava a taxa; toda vez que a taxa, inversamente, ameaçava cair
abaixo de R$ 2,00, o governo comprava dólar e puxava cotação para cima.
Com ficou assim por um bom tempo, estava na cara: acabou o regime de câmbio flutuante, temos uma banda de variação cambial.
Negativo, responderam os representantes do governo, o dólar flutua
como antes. Já escolados, operadores e analistas simplesmente deixaram
pra lá. OK, diziam, não tem banda, mas, se você não quer perder
dinheiro, aja como se tivesse.
Lá pelas tantas, porém, final do ano passado, a presidente Dilma
disse que seu governo queria um real mais desvalorizado. O ministro
Mantega chegou a sugerir cotação perto dos R$ 2,40.
Como, de fato, o dólar se aproximava dos R$ 2,10 e o governo parecia
quieto, o pessoal concluiu: vai furar o teto da banda ou a banda vai
para um patamar acima. Nesse momento, o BC entra vendendo dólar e a
cotação volta a cair.
Questões: o governo acredita mesmo que não tem a banda cambial? Ou
simplesmente acha que é melhor ter e dizer que não tem? Ou existe um
teto, de fato, de R$ 2,10, mas o governo preferia que não tivesse?
A presidente Dilma e seus assessores foram historicamente contra o
famoso tripé da era FHC, superávit primário, câmbio flutuante e metas de
inflação. Pelos atos atuais, estão desarmando o tripé. No discurso,
porém, juram que são fiéis praticantes do sistema.
Resulta em dupla distorção: da política real e das ideias.